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São Paulo São Ensaios

Você já parou para se perguntar por que será que os pedestres muitas vezes atravessam fora da faixa ou atravessam antes que fique verde para eles?  Seria ousadia? Folga? Por que, afinal? Sobre isso, cabem aqui algumas ponderações, pois como costumo dizer, nosso olhar atento sobre a cidade e o comportamento das pessoas ao se deslocar nos ensina bastante.  Pena que óbvias constatações demoram para guiar a efetiva construção de uma mobilidade urbana mais democrática.

Um detalhe importante: estou ainda falando de um universo no qual cabem faixas de travessia e semáforos (um luxo, não?).  Tais elementos, em geral, estão mais presentes na área central da cidade – caracterizada por ser mais adensada e ter maior circulação de modais - porque basta nos afastarmos um pouco para subitamente concluirmos que os pedestres precisam driblar traçados que os ignoram por completo e, lógico, andar sempre rápido - muito rápido –de uma calçada para outra porque os motores têm pressa!

Mas, voltemos à pergunta que abre o texto: a verdade é que muitas das faixas de pedestre (falo daquelas sem semáforo) estão bem distantes umas das outras e isso, naturalmente, é desestimulante. Assim, com o próprio dinamismo que envolve o pedestrianismo, a pessoa tende a atravessar fora da faixa para não ter que caminhar até aquela... tão distante. Sobre os semáforos (refiro-me àqueles acionados pela própria pessoa, ou seja, as botoeiras): em geral, vai um tempo longo (eu diria até mesmo desonesto) para que o vermelho se transforme em verde, não? A pessoa a pé, portanto, ao observar que veículos não estão vindo, tenderá a realizar a sua travessia ainda no vermelho por, definitivamente, saber que se cansará de tanto esperar sua vez!

Não defendo a pressa de forma alguma – aliás, um grande mal da atualidade e que cria problemas para além da mobilidade – mas, o fato é que a pé, de bike, moto ou carro todos estão apressados.  No entanto, já faz tempo que a pressa mais ouvida e “ditadora” é a que vem daqueles movidos a álcool, diesel, gás ou gasolina – estes é que prioritariamente têm, na cidade, a garantia de seu ir e vir com o máximo de fluidez, legitimada pelo próprio Estado visto que o espaço urbano traz desenhos e aparatos que os privilegiam.

Em resumo: quem segue movido à propulsão humana que vá com calma! Muita calma até mesmo para esperar a sociedade finalmente entender, inclusive, como funciona uma faixa de pedestre pintada no chão (aquelas sem semáforo no caso). Se ela está ali e, no meio-fio, uma pessoa, isso é o suficiente para que um motorista desacelere e pare. Certo? Mas, como ouvi dia desses: “olha, na faixa, você precisa dar um sinal, viu? Avisar que quer passar...”.

Seria uma invisibilidade urbana ou humana? Em terras onde a maior parte da população acelera diante de um sinal amarelo - em vez de recuar - posso afirmar que se trata de uma dupla invisibilidade.

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Federica Fochesato é educadora e jornalista. Artigo publicado originalmente no site Meon.

O projeto itinerante “A Mile in My Shoes” roda o mundo com o propósito de gerar compaixão. Foto: Empathy Museum.

A ideia do Museu da Empatia, com sede em Londres, nasceu em 2015. Desde então, uma versão pocket de sua exposição interativa “A Mile in My Shoes” vêm circulando por diversas cidades para impactar pessoas e promover a transformação. Tudo indica que ela chegará a São Paulo no dia 16 de novembro (de acordo com informações da agenda do site). Mas, mesmo enquanto não são divulgadas informações detalhadas sobre essa visita, já vale conhecer a proposta e falar sobre o tema.

Pesquisa da OMO (2016) realizada com 12.000 famílias de dez países, diz que crianças passam menos tempo ao ar livre que presidiários (normas internacionais recomendam como mínimo uma hora de atividade física externa nos presídios). De acordo com o estudo, as crianças raramente passam mais de 30 minutos por dia ao ar livre, e despendem 50% a mais do seu tempo brincando em frente às telas de computadores e jogos eletrônicos do que do lado de fora de casa.

A tentativa de esgotamento de um local parisiense (1) é uma coleta de mil detalhes pequenos e imperceptíveis que compõem a vida de uma grande cidade, de um bairro determinado de uma grande cidade: as incontáveis e sutis variações do clima atmosférico, da luz, dos cenários de tudo o que está vivo.

A vida nas grandes cidades, especialmente em Londres, quase sempre provocou espanto em seus visitantes. Voltaire, Bernard de Mandeville e Engels, um francês, um holandês e um alemão, em épocas diferentes, deixaram seu testemunho contraditório sobre aquela experiência, inclusive com visões divergentes sobre o que trazia a prosperidade para  uma megalópole.