‘São Paulo à Noite‘: fotógrafo registra a cidade em suas andanças pela madrugada - São Paulo São

“A noite sugere, não ensina. A noite nos encontra e nos surpreende por sua estranheza; ela libera em nós as forças que, durante o dia, são dominadas pela razão.“ (George Brassaï - 1899-1984).

A partir de suas andanças pela madrugada de São Paulo, o fotógrafo Zeca Abdalla sentiu necessidade de registrar a deserta noite paulistana, apesar dos riscos que cercam um andarilho solitário. As caminhadas começavam quando a cidade se esvaziava, à uma hora da manhã, e seguiam até o dia amanhecer.   

Com uma câmera alemã LEIKA e mais de 100 rolos de filme preto e branco, revelados em baixíssimas condições de luz, Zeca reuniu uma vasta documentação fotográfica entre o final dos anos 70 e meados dos 80. Nascia  assim o projeto “São Paulo à Noite”, que reuniu um rico arquivo de cenários deslumbrantes e desapercebidos da metrópole.  

Trinta anos se passaram e, a partir de 2011, o fotógrafo retomou o projeto de fotografar a madrugada paulistana, agora com os recursos da fotografia digital.

O que aconteceu com São Paulo e com a fotografia desde a década de 70?  Como estarão os mesmos lugares nesta passagem de tempo do  analógico para o digital?  

Com uma câmera Panasonic Lumix LX7, de pequeno porte, com ótica Leika, Zeca Abdalla buscou os mesmos lugares, os mesmos ângulos e impressões. Muitos desapareceram ou mudaram radicalmente, criando novos cenários na noite de de São Paulo. As fotos revelam um conjunto de pura beleza, fina arquitetura e poesia escondidas pela movimentação frenética do dia.   

“São Paulo à Noite” nas andanças do fotógrafo solitário nada tem a ver com a famosa “noite de São Paulo “, iluminada por bares, boates, restaurantes. A metrópole registrada pelas lentes é vazia e escura, porém revela em silêncio a beleza de sua arquitetura.

Até onde a pesquisa que acompanha esse trabalho pode apurar, apesar de fotos isoladas no trabalho da maioria dos grandes fotógrafos na história da fotografia, somente dois fotógrafos internacionais se dedicaram a esse tipo de fotografia da noite com mais dedicação: George Brassaï (1899-1984), conhecido como “Fotógrafo da Noite”, que publicou um livro com o título de “Paris à Noite” e William Gale Gedney (1932 - 1989), com a série “A Noite”. 

Apesar de Geoff Dayer afirmar que “...O passo seguinte da fotografia feita ao crepúsculo é fotografar a noite em si, e por certo dispomos de uma ilustre tradição de fotógrafos que fazem precisamente isso...”, não se tem conhecimento de nenhum fotógrafo brasileiro que tenha se interessado com mais constância por esse cenário vazio, solitário e muitas vezes perigoso, o que torna o material desse projeto de extrema importância, não só pela qualidade fotográfica, mas como documento histórico e único de “São Paulo à Noite” em duas épocas distintas.

O fotógrafo Zeca Abdalla enviou com exclusividade para o São Paulo São algumas fotos de suas andanças noturnas que podem ser vistas no ensaio a seguir!


 


 

 

 

 

 

Nota do autor

“O mais importante nessas fotos realmente não é a alta qualidade técnica. Todas as fotos foram tiradas com uma câmera de pequeno porte, a maioria delas uma Panasonic Lumix LX 7, que não permite troca de lentes. Qualquer câmera um pouco maior, e claro com melhor qualidade, chamaria muito a atenção e os riscos seriam muito maiores do que ja passo durante a madrugada. Essa câmera cabe na mão e no bolso, ficando fácil de esconder. Já passei por diversas situações de risco, mesmo com esse tamanho de câmera.. As fotos são tiradas em baixíssimas condições de luz, com iso 3200 ou 6400 e diafragma 1.8, limite máximo que essa câmera permite, ainda gerando arquivo raw. E mesmo assim exigem muito tratamento para que se chegue ao resultado apresentado. A minha preocupação portanto não pode ser com qualidade, mas o possível para registrar a emoção e o insólito desses momentos. Já fiz diversos testes de impressão e o maior tamanho que elas permitem de ampliação é 24X30 as que foram cropadas e 30X40 onde não foram feitos cortes. Esse é meu trabalho que faço com bastante prazer e acho que o resultado faz parte dessa proposta.  

***
Com informações de Zeca Abdalla e da redação do São Paulo São.