'Redução não é solução': dizem que os gritos da multidão ainda ecoam em Brasília - São Paulo São

Leia baixinho os versos a seguir e vá aumentado a voz gradativamente: Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução.

Eram cinco mil vozes em comum. Eram cinco mil timbres afinados, não emtom, mas em ideologia. Brasília não tem esquinas, por isso, os gritos ficaram presos dentro dos corredores dos prédios públicos do Distrito Federal. Dizem que ontem, os Deputados Federais, ao saírem dos gabinetes levaram um susto. Sabe por quê? O gramado do planalto estava vazio, mas eles ouviam gente gritando. Dizem ainda que o tal do Cunha mandou fechar as portas para que nenhuma daqueles vozes invadisse a sessão. Até a polícia do Congresso se armou esperando por algo que não vinha.

Não havia mais ninguém em Brasília, o que sobrou foi os gritos dos manifestantes, o choro das mães que perderam seus filhos e o lamentos dos mortos. O grito que sobrou na Capital se assemelha com aquele que a gente ouve no dia da Consciência Negra, no Dia do Índio, nas aulas de histórias quando se fala de tortura na ditadura. “Soa apenas como um soluçar de dor. E ecoa noite e dia. É ensurdecedor”.

Caro leitor, optei abrir essa matéria de forma mais lírica, como pode perceber. Em linha gerais, daqui por diante devo apenas retratar o Guerrilha viu no dia em que estivemos em Brasília acompanhando os movimentos socais, que combatem a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171, aquela que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Diário de Viagem

Partimos de São Paulo no dia 30, às 19 horas, do Pátio do Colégio. Haviacerca de 160 pessoas ligadas aos mais diversos movimentos sociais. Antes de partir ao destino federal, para nossa surpresa, o ex-senador e atual secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) veio até nós e declarou total apoio a causa, o que talvez tenha dado um ânimo ao pessoal, que já estava cansado de esperar a partida. Percorremos em 15 horas, mais de 11 mil quilômetros.

Chegamos a Capital por volta das 12 horas. Era preciso antes de tudo, acharum local para poder retirar as credenciais de imprensa para que pudéssemos cobrir a sessão de dentro do Congresso. Era evidente a tensão que pairava sobre os seguranças dos prédios federais. Tensão essa que levou um deles a discutir com o Deputado Federal Jean Willys (Psol) por conta da entrada de uma assessora sem crachá. O parlamentar entrou na frente do rapaz que tentava impedir a passagem e segurou na mão da moça e exigiu que ela fosse liberada. Após uns cinco minutos de discussão tudo foi resolvido. Quer dizer, entre eles, pois nós que buscávamos pelo setor de imprensa fomos proibidos de acessar o prédio e “orientados” a seguir por outro caminho.

Fomos então para o anexo II do Congresso e, mais uma vez confusão naentrada de visitantes. A reportagem já estava irritada com a situação e quase bateu boca com um segurança, O desgaste não adiantou em nada, pois as credenciais não foram liberadas.

Por volta das 15h30 a reportagem estava no Anexo II de novo acompanhando os movimentos sociais que se aglutinavam no local. Com os mais diversos gritos de ordem, cerca de 100 pessoas faziam uma pequena barreira entre a entrada no prédio. Às 16 horas, por conta de um grupo de ativistas a favor a redução um tumulto começou. Aproximadamente 20 policias faziam uma fileira e bastou um empurra-empurra para que as primeiras doses de gás de pimenta fossem dispersadas sobre os ativistas.

“Covardes”, gritavam os manifestantes. A polícia agia como se nada tivesse acontecendo. Talvez, nessa hora, leitor, você pense: onde estavam os outros mil e tantos ativistas? Bem, segundo informações, eles estavam fazendo uma ciranda e fazendo algum tipo de sarau, ao invés de somar luta com os de mais companheiros que sofriam com a retaliação.

Ao todo foram três ataques, sendo que o mais agressivo foi às 18 horas, quando um grupo maior chegou e mais spray de pimenta foi liberado. Uma menina de 17 anos teve contato direito dos olhos com o liquido. Nessa hora parecia cena de confronto real, como em junho de 2013. Pessoas gritavam com as mãos nos olhos pedindo por socorro. As mais diversas pessoas choravam e não conseguiam abrir os olhos por conta do cheiro forte.

Enquanto isso, os restantes dos cinco mil ativistas estavam no gramado fazendo qualquer coisa. Segundo uma ativista que conseguiu descer, os movimentos que estavam organizando todas as ações impedirem que os manifestantes descessem para ajudar.

Foi incrível o ato de pelegagem protagonizado principalmente pela UNE e pela UJS. Após toda essa agressão sofrida pelos ativistas, esses “movimentos” que se dizem parte de uma revolução, chegaram como se fosse ajudar de alguma forma, quando na verdade, preferiram acender velas e ficar cantado musiquinha rimada.

Ficaram então, parados por mais 1 hora em frente ao anexo sem fazer nada. Enquanto isso, a tropa de choque se alinha. Esses movimentos não tiveram a capacidade de ao menos dar uma palavra de ordem contra aqueles que violentaram manifestantes horas antes da chegas deles. Deixo registrado aqui, que para aquele movimento que se diz “a juventude do Araguaia” sugiro estudar um pouco mais o que foi essa juventude, antes de reproduzir tamanho impropério.

Após tudo isso, chegou a hora de acompanhar a votação. Dois telões foram instalados para que os grupos pudessem acompanhar. Os ativistas vaiavam e aplaudiam os parlamentares, como se esses pudessem ouvir alguma coisa.

Depois longas horas de espera, enfim, a decisão saiu, Naquela noite de terça, éramos vitoriosos. E o que nos restava senão gritar bem alto:

Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.

Por Vinícius Amaral, colaborador do Guerrilha GRR e repórter pelo jornal Diário de Suzano.