A mobilidade ‘nos trilhos’: cidades são para pessoas, não para automóveis - São Paulo São

Entre os desafios enfrentados pelas cidades, o da mobilidade é um dos maiores. As ineficiências nessa questão causam perdas econômicas expressivas, desperdiçam o tempo e energia das pessoas em deslocamentos de rotina e sobrecarregam a atmosfera com poluentes. A tendência das cidades de concentrar população e atividades econômicas apenas reforça a necessidade de se lidar com essa questão. A mobilidade tem que se dar de uma forma digna, rápida, confortável e econômica.


O cerne do melhor equacionamento da mobilidade está na concepção da cidade. No entendimento de que cidades são para pessoas, não para automóveis. Performance e tecnologias são ferramentas úteis, mas não resolvem o essencial: a construção de uma visão de vida, trabalho e mobilidade juntos, refletida em estruturas de crescimento que ajudam a orientar os investimentos tanto do setor público quanto da inciativa privada a favor do desenvolvimento sustentável do ambiente urbano.

Assim, o primeiro passo é revisar a forma urbana e utilizar as ferramentas de planejamento para complementar a função que está faltando. Se é uma região com grande concentração de empregos, trazer a moradia, e vice-versa. O objetivo maior é que o ambiente urbano ofereça, em relativa proximidade, tudo aquilo que a pessoa precisa para atender às demandas de sua vida cotidiana, de forma a diminuir a necessidade coletiva de grandes deslocamentos. Como premissa de estrutura urbana, não é razoável que uma pessoa precise pegar o carro para comprar pão, ou viajar três horas por dia para chegar ao seu trabalho.

Ainda, as soluções de mobilidade precisam equacionar da forma mais inteligente possível todas as modalidades que estão disponíveis na cidade: ônibus, trem, metrô, automóvel, táxi, bicicleta, a pé. A prioridade tem que ser dada ao transporte público. Há um falso dilema entre o transporte público e o particular: para os deslocamentos de rotina, há que se usar predominantemente o transporte público. O Rio realizou alguns investimentos recentes nesse sentido, com a nova linha de VLT na região central, algumas novas linhas de BRT, a extensão do metrô. Mas a cidade precisa continuar a avançar na construção de uma rede integrada e multimodal.

O Rio de Janeiro tem uma paisagem única, uma combinação privilegiada de mar, montanhas, vegetação e cidade. A geografia exuberante e particular dessa grande metrópole brasileira e a história da ocupação de seu território guardam oportunidades singulares para o seu desenvolvimento.

O desenho para o Rio de Janeiro precisa se apropriar melhor das estruturas existentes no transporte ferroviário – linhas, paradas, gares – e seu entorno para organizar o crescimento da cidade. Esse princípio permite fortalecer a integração entre os bairros; utilizar as estações para promover as centralidades; aproveitar o espaço aéreo sobre as estações e em trechos estratégicos para criar áreas para o lazer e o encontro, permitindo “costurar” melhor lados hoje separados; e as áreas contíguas às linhas como novas frentes de renovação urbana, promovendo usos mistos complementares. Tudo isso associado à estrutura de mobilidade urbana. Nos trilhos, a cidade pode ir maravilhosa.

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Jaime Lerner é arquiteto e urbanista, fundador do Instituto Jaime Lerner. *Artigo publicado originalmente no jornal O Globo.