O Centro de São Paulo e seus contrastes mostram que é preciso falar sobre gente - São Paulo São

Morar no centro é bom. Já andei traçando listas de vantagens, séries de atividades, rotas, itinerários, opções de cafés, comidas, salões, mercados e passeios.

Já aprendi nos emaranhados labirínticos das ruelas, viadutos, vias expressas e calçadões, onde vai dar aonde e o que vai dar no que.

Já especulei as melhores alternativas e métodos de conciliar o bom e o barato, me achando a maior malaca descolada; aquela que se da bem nas compras e que domina o centro da cidade como se fosse o centro do mundo. Ah, eu e meu umbigo libertino não sabiam o quanto iriam aguentar do lado B do glamour do baixo-paulistano.

Já fiz muitos trabalhos no Centro, como o Café Girondino, Salve Jorge, extinto café republica e mais uns lances. Já dei banda por aqui todos os dias e em diversos horários. Lembro que a noite descia a ladeira Porto Geral, uma enxurrada de ratazanas recém-saídas dos bueiros e porões, e que na minha fantasia dirigiam-se aos empórios, restaurantes árabes e mercadão municipal.

Os estabelecimentos costumavam abrigar gatos, não apenas por conta do amor felino, mas pra dar cabo dos roedores.

Foto: Márcia Fukelmann.Foto: Márcia Fukelmann.Mudando de rato para gente, tenho reparado no aumento da miséria, do desabrigo, da fome, do desolamento, da tristeza. Nas ruas multiplicam a cada dia os leitos improvisados de espumas de colchões, sacos plásticos, panos velhos, caixas de papelão, barracas tipo lobinho (um novo estilo de acampamento urbano), ou usufruto direto das pedras da calçada como leito.

Vejo gente encaixada em frestas entre canteiros e prédios, gente dormindo com a cabeça sob rodas de cadeiras de rodas, casais dormindo abraçados sob um cobertor encardido (sim, os brutos também amam), moço dormindo sob plástico preto de embrulhar presunto, sob garoa e vento, gente especulando os lixos atrás de comida ou objetos recicláveis...

Já vi gente dividindo marmitex com o cachorro, e já vi cachorro devorando ossos dados ao mendigo que cochilou na porta do açougue.

Vejo maluco beleza varrendo a calçada onde dorme, cuidando da limpeza deste lar a céu aberto... vejo todos os dias a miséria crescer num nível além da fome, do desprezo das gestões publicas que com seus jatos de água fria, com suas almas frias, não sentem o que fingem não ver. Ando bem tocada com a minha nova e necessária convivência.

Não me afasto desta verdade. Mudanças devem ser feitas. A miséria é epidêmica, não dá pra fazer vista grossa. Enquanto homens “pardos” sujam e poluem a paisagem da cidade linda, ratos brancos e gatos pretos fazem a festa.

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Márcia Fukelmann é proprietária de Consultoria Gastronômica com seu nome.