O dia que o Papa Francisco ouviu Racionais MC´s - São Paulo São

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Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown diz: oxicus est rabidus, processum est tardus. Traduzo, no meu latim chinfrim de quem fugiu das aulas no Seminário da Diocese do Crato (Ceará), um mantra dos Racionais MC´s: o bagulho é louco, o processo é lento.

O delírio deste cronista é imaginar o papa Francisco --presenteado pelo prefeito Fernando Haddad com um disco dos rappers brasileiros na sua visita ao Vaticano --, mandando os versos do grupo da periferia paulistana em um sermão dominical no Vaticano.

Toxicus est rabidus, processum est tardus. Para quem foi ateu e agora faz morada na tenda dos milagres como eu, não duvido nada do xará católico apostólico romano.

Mano Brown e o papa têm mais em comum, cada qual com seu testamento, do que imaginam as fiéis criaturas de qualquer seita ou credo deste, tomara Deus para todo o sempre, Estado laico.

A turma dos Racionais, com seus salmos ao rés do chão dos subúrbios, semeou uma mensagem tão importante –e aqui redundo o franciscanismo do santo de Assis - quanto o atual discurso de Jorge Bergoglio na cúpula de Roma.

“Diário de um detento”, para ficar apenas numa faixa dos caras, é tão importante quanto algumas páginas do gênio-mor Machado de Assis, nego do Morro da Providência e do Cosme Velho... Tão bonito quanto os subterrâneos de Lima Barreto... Tão comovente como as escritas de Luiz Mendes, ex-presidiário e o maior colunista do Brasil (revista Trip) ao lado do Jânio de Freitas, da Folha.

Nada mais lindo, em um certo sentido devoto da linguagem, do que o conforto das letras dos Racionais para as almas apenadas que padecem no inferno das dostoievskianas “casas dos mortos”. As gentes das masmorras com suas culpas cristãs e capivaras de processos roendo o cérebro “sob o olhar sanguinário do vigia”... Somente mais um dia riscado na parede no ajuntamento de desventuras e inglórias, somente mais uma recusa até do sol por testemunha –se nem ele nasceu para todos, como expiar os erros na desordem?

Este cronista visitou tantos irmãos e parentes na cadeia que talvez saiba do que está falando:

“Minha palavra alivia sua dor

Ilumina minha alma

Louvado seja o meu senhor

Que não deixa o mano aqui desandar ah

E nem sentar o dedo em nenhum pilantra

Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei

Racionais capítulo 4 versículo 3”.

Vida loka

Nada mais alentador para os jovens dos arrabaldes das metrópoles, anjos ou demônios, do que os versículos dos músicos do Capão Redondo dirigidos aos feios, sujos e rejeitados.

Imagino a cena. O papa Francisco vai à janela e manda para a juventude do mundo inteiro: Toxicus est rabidus, processum est tardus. Óbvio que vai mandar num latim mais rochedo, correto, mas saberá do que se trata o bagulho.

Vida loka, como na expressão consagrada pelos Racionais no Brasil todo. Vida loka é saber que um papa, quase sempre um vanguardista do atraso por causa da solenidade sacana do cargo, agora está a muitas léguas submarinas na frente de muitos estadistas, leio o Juan Arias, colunista deste mesmo EL PAÍS, e sei disso. Que maravilhoso argentino. Só tem um pecado, amigo Mano Brown, torce pelo San Lorenzo, El corvo, e não pelo maior time do universo de todos os planetas, o Santos Futebol Clube. Remittuntur tibi, será assim que se escreve “está perdoado” , sumo pontífice?

Vida loka: quando uma autoridade do Vaticano consegue emplacar umas ideias adiante, quem diria, de toda uma sociedade –sacanagem atribuir o atraso somente aos governos. Vida loka, agora o papa é vanguarda, tem algo estranho no mundo quando o papa consegue ser mais avançado que a imprensa, a política e até mais que os poetas. Que falta nos faz o Roberto Piva, o trovador de uma São Paulo menos tacanha, uma São Paulo iluminista da avenida São Luiz até a tocha da Petrobras no final da Sapopemba.

Viva o papa. Com um ideário em sintonia com o Mano Brown e Emicida, com o GOG, com o Zé Brown, com os grandes rappers brasileiros, nossos maiores cronistas.

Agora, silêncio, escutem esses versos dos Racionais MC´s, please:

"Cadáveres no poço, no pátio interno.

Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena.

Só ódio e ri como a hiena."

A narrativa era sobre o massacre do Carandiru, mas vale para qualquer hora ou chacina. Vale o escrito. Hannah Arendt assinaria embaixo.

 



Sobrevivendo no inferno

Salmo 23: "Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da Justiça". Eis a epígrafe, logo na capa, da obra entregue a Francisco. Digo do CD “Sobrevivendo no Inferno”... Que lindeza... O motivo dessa crônica. O disco que o melhor prefeito de hoje do Brasil, obviamente o que mais leva porrada, levou ao papa de presente. Haddad, mas não se esqueça, porrada mesmo, no sentido Fernando Pessoa do termo, quem levou foi a Erundina, talvez a melhor prefeita de SP de todos os tempos, se liga, a tia paraibana estava na mira, qualquer foca editorializava acima de qualquer suspeita ou rasgava as regrinhas do manual de redação que só valem quando você é contra.

Silêncio.

Agora estou reouvindo de fato o maior disco de rap de todos os tempos: “Sobrevivendo no inferno”, se liga, todo mundo sabe que Jorge sentou praça na cavalaria/ E eu estou feliz porque eu também/ sou da sua companhia...

Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown, Ice Blue, KLjay e Edy Rock dizem. Eles são tão importantes quanto o T.S. Eliot de uma certa terra desolada.

Há um dito bendito além da conta. Se liga, Francisco.

Xico Sá no El País.