Rosto e cidade são mapas, cujas entradas podem ser lidas e acompanhadas - São Paulo São

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Descubro, espantada, no dicionário etimológico, que ruga e rua têm a mesma origem: dobra, vinco, entrada, sulco, fenda. Como nunca tinha pensado nisso, se presto tanta atenção à origem das palavras e também muita às minhas rugas, cada vez mais pronunciadas? Talvez seja porque as etimologias também gostem de se ocultar e trabalhar como metáforas cuja entrelinha, às vezes, opera como uma revelação.

Mas é claro. As rugas são como as ruas do corpo e, por sua vez, as ruas são as rugas da cidade. Rosto e cidade são mapas, cujas entradas podem ser lidas e acompanhadas.

Olho, no espelho, as ruas do rosto: do lado e embaixo dos olhos, nos últimos anos, foram abertas algumas ruas. Umas devagar, outras mais rápido. Uma rua lenta vai dando lugar a outras, que surgem apressadas, meio improvisadas e feias. A rua original fica escondida lá, em meio às novas, com seu projeto cuidadoso todo esburacado e decadente. Essas ruas que vão se estabelecendo em torno dos olhos têm origem no riso e no choro, expressões mais bucais do que oculares, mas que forçam um franzimento dos olhos, assim escavando as ruas que ali se localizam. Há nelas túneis, lombadas, vales e projetos de aprofundamento; quero lê-las e caminhar por elas. Chegar, por elas, a uma avenida principal. Lá, onde tudo começou.

A moça da farmácia disse: papel sulfite, papel de seda, comparando a pele do rosto à pele em volta dos olhos. Não se pode misturar os cremes para dois tipos diferentes de papel. Também para passear pelas ruas é preciso equipamentos distintos: para as ruas dos olhos, vou com roupa de chinesa: kimono. Fico sentada ali, num banquinho dessa rua e lembro: nessa viela aqui eu chorei porque minha irmã me roubou o Topo Gigio, faz uns 45 anos. Ando mais um pouco, paro na porta de uma padaria, numa ruazinha paralela e lembro do sanduíche de mortadela da padaria Rua Guarani. Nossa, era muito bom. Logo ao lado era a loja dos meus pais, onde eu brincava de esconde-esconde no meio das peças de tecido.

Pego um atalho, me visto de roupa de montanha e desço para as ruas laterais ao nariz, aquelas que escorregam para a boca. Bem ali encontro uma pessoa que não via há muito tempo: uma prima, filha da irmã da minha avó. Marcela, te vi outro dia numa fotografia da minha irmã no colégio! Nunca mais imaginei te encontrar. Mas daí eu lembro. Ela morreu já faz alguns anos, mas não importa, ela ficou por aqui, só eu que não tinha visto.

Já próxima da boca, estaciono um pouco na pele flácida que se dirige para o queixo, para o papo e cujas ruazinhas anunciam uma velhice cômoda, mas ainda razoavelmente distante. Vai ser bom descansar por aqui, onde devem ficar centenas de bolsas, baús, malas e sacolas cheias de lembranças engraçadas e outras que ainda estão por vir. Porque muitas ruas ainda serão abertas nesse terreno e as pessoas precisarão de bons mapas para poderem percorrê-las.

Saio do rosto e vou para as rugas da cidade. A Ruga Correa dos Santos, onde eu nasci, hoje se chama Ruga Lubavitch. Que bom que não passaram muito creme nela, nem fizeram lifting nenhum, porque ela está tão parecida com a da minha infância. Aliás, o Bom Retiro inteiro manteve todas suas rugas e envelheceu bem. Inclusive me contou muitas histórias. Sim, porque bairro sem rugas esquece as histórias e fica mudo, enrijecido, amnésico. Um bairro que faz plástica não lembra que, justo nessa ruga aqui, passava um velhinho que vendia doces romenos recheados de creme e gritava uma palavra que eu, o Henrique, o Bob e a Stela nunca conseguimos reproduzir: “atirabaitina”, eu digo. Mas o Henrique tem certeza que é “baititina”.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Publicou “Írisz: as orquídeas” (2015), “A Verdadeira História do Alfabeto” (2012), vencedor do Prêmio Brasília  de Literatura, “O que os cegos estão sonhando” (2012), “Quando nada está acontecendo” (2011), dentre outros. É doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária do jornal Folha de São Paulo desde 2006. Texto publicado originalmente na Revista Pessoa.