Modo de organização permitiu resistência do futebol varzeano da cidade - São Paulo São


O estudo da trajetória de um time de futebol amador de São Paulo permitiu à historiadora Diana Mendes Machado da Silva concluir que os clubes da várzea da cidade surgiram a partir de organizações “associativas”, com base em relações familiares e dinâmicas comunitárias.
 
Em seu trabalho de mestrado apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, A Associação Atlética Anhanguera e o futebol de várzea na cidade de São Paulo (1928-1950), Diana analisou uma série de documentos da entidade, fundada por brasileiros e imigrantes italianos, localizada no bairro do Bom Retiro.
 
Estreia de camisas da Associação Atlética Anhanguera, anos 1930.Estreia de camisas da Associação Atlética Anhanguera, anos 1930.
 

Este “associativismo” possuía entre suas principais características a organização baseada no mundo do trabalho e no cotidiano familiar. “Além de laços de parentesco, os componentes do clube tinham profissões comuns”, conta a pesquisadora. Estes podem ser os motivos que explicam por que o clube está, ainda hoje, estabelecido no mesmo local, tendo resistido ao crescimento do bairro e às especulações imobiliárias.

Esta organização se deu ao mesmo tempo em que o futebol se caracterizava como um esporte elitista. Vários clubes eram formados por “cavalheiros” que se reuniam e faziam do jogo de futebol um acontecimento social. “Em seus times se reuniam os filhos das classes abastadas, alguns recém-chegados da Europa”, descreve Diana, lembrando que os que praticavam o esporte na várzea eram os chamados “canelas negras”.

Segundo a pesquisadora, esta diferença se acentuou com o uso do Velódromo da cidade e de outros espaços especializados como campos de futebol pelos clubes de elite. . “No Velódromo, local onde hoje é a Rua Nestor Pestana, no centro da cidade, eram cobrados caros ingressos”, conta Diana. “Em contrapartida, o futebol de várzea da cidade tomou rumos diferentes, sendo uma prática de afirmação de elos sociais”, complementa. Aliás, o termo várzea advém da prática do futebol ter sido efetiva junto às várzeas dos rios, principalmente o Tietê — que tinha seu curso sinuoso — e o Tamanduateí, na época.

Cronologia e “mito”

“Oficialmente, o futebol chegou ao Brasil em 1894, quando Charles Miller trouxe da Inglaterra um par de chuteiras, uma bola e um livro de regras”, conta Diana. Contudo, ela acredita que mesmo antes desta data o esporte já era praticado no Brasil. Miller teria organizado a primeira partida de futebol na Várzea do Carmo, onde hoje está situado o Parque Dom Pedro.
 
Rio Tietê na cidade de São Paulo, ainda cheio de meandros no início do século 20.Rio Tietê na cidade de São Paulo, ainda cheio de meandros no início do século 20.
 
Segundo ela, há trabalhos que questionam fato, o que tornaria Charles Miller um “mito fundador”. Afinal, há registros de que, antes dele, operários e marinheiros de origem inglesa que chegaram ao Brasil já praticavam o esporte. Entre 1880 e 1890, como conta Diana, o futebol foi introduzido num colégio da cidade de Itu, no interior de São Paulo. “A prática chamada de ‘bate-bolão’, era uma adaptação do esporte para ambientes fechados”.
 
Emblema da Associação Atlética Anhanguera.Emblema da Associação Atlética Anhanguera.
 
 

Ao explorar o cotidiano do Anhanguera, a historiadora identificou o repertório cultural por meio do qual o esporte foi recebido entre os ítalo-brasileiros da Barra Funda. “Ainda que o Anhanguera tenha dialogado, em vários momentos, com o universo oficial, principalmente via imprensa, o clube se voltou menos para o modelo de organização clubística do association inglês do que para o das associações recreativas e de socorro mútuo, há muito tempo presentes na várzea do Rio Tietê”, descreve.

Fotos: cedidas pela pesquisadora.

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Antonio Carlos Quinto na Agência USP de Notícias.