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O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lançou no último dia 29, no Brasil, a tradução adaptada para o português de seu Guia de Terminologia, um documento com recomendações sobre o uso de palavras que sejam cientificamente precisas para abordar a epidemia. Publicação visa difundir uma linguagem que respeite a dignidade do indivíduo.

O guia foi apresentado oficialmente durante o painel de debates Palavras não são neutras: intervenções para reduzir o estigma da AIDS no Brasil, uma das atividades do 11º Congresso de HIV/AIDS, em Curitiba. Um dos objetivos da publicação é também combater a discriminação que atravessa expressões utilizadas para falar sobre as pessoas vivendo com HIV.

“A linguagem não é neutra. E no contexto do HIV, essa afirmação nunca foi tão verdadeira”, afirmou a diretora do UNAIDS no Brasil, Georgiana Braga-Orillard.

“As palavras que escolhemos e a forma como comunicamos nossos pensamentos e opiniões têm um efeito profundo na compreensão das mensagens. A escolha cuidadosa da linguagem, portanto, desempenha um papel importante na sustentação e no fortalecimento da resposta ao HIV, para que ela seja construída sobre uma base livre de estigma e de discriminação”, acrescentou.

Também presente no evento, o coordenador do Guia em inglês, Alistair Craik, explicou por que certos vocábulos precisam ser substituídos por novos. “Termos como ‘vítima da AIDS’ implicam que o indivíduo é impotente, sem controle sobre sua vida”, afirmou o especialista. “Por isso, é preferível usar ‘pessoas vivendo com HIV’.”

O objetivo da mesa foi discutir os avanços e desafios no uso linguagem relacionada ao HIV nos mais diversos campos como social, jornalístico, mídias tradicionais e digitais, medicina, ativismo e tantos outros.

Neste caso, como explica o Guia de Terminologia do UNAIDS, a expressão “pessoa vivendo com HIV” põe em destaque o protagonismo que a pessoa HIV-positivo tem em sua própria vida, na busca por saúde e direitos. Expressões de conotação bélica, como “luta contra a AIDS” e “combate à AIDS”, também perdem espaço para termos mais inclusivos e abrangentes, como “resposta à AIDS”.

Há muito tempo, o HIV deixou de ser visto apenas como uma questão médica: o risco de infecção e o impacto do vírus estão entrelaçados a outras questões sociais, incluindo discriminação contra a população LGBT e outras segmentos muitas vezes marginalizados — e, portanto, mais expostos ao risco de infecção pelo vírus.

Outro participante do painel, o jornalista e editor da Revista Galileu, Nathan Fernandes, chamou atenção para o papel da imprensa na difusão de uma linguagem mais inclusiva.

“Falar que o uso de um termo ou expressão é proibido não funciona. Acaba gerando um sentimento contrário, incentivando a pessoa a desafiar essa proibição e seguir usando essas palavras”, avaliou o repórter, que escreveu recentemente uma grande reportagem sobre o estigma enfrentado por indivíduos vivendo com HIV.

“Durante nove meses, conversei com pessoas vivendo com HIV e com pessoas que trabalham nessa área, para fazer a reportagem”, conta. “Isso foi uma exceção, quase um privilégio. Mas posso dizer que a falta de tempo e de espaço talvez expliquem por que temos reportagens tão negativas sobre HIV até os dias atuais.”

Para Fernandes, profissionais da mídia devem sempre manter mente que estão lidando com a vida das pessoas “e, por isso, a escolha das palavras e expressões mais adequadas é fundamental”.

Guia esclarece erros comuns

As diretrizes de terminologia do UNAIDS fornecem conselhos a autores e jornalistas para evitar erros comuns. Por exemplo, a expressão “vírus da AIDS” não deve ser escrita porque é cientificamente errada. Não há “vírus da AIDS”, porque a síndrome de imunodeficiência adquirida é uma síndrome de infecções oportunistas e doenças que, em última instância, é causada pelo HIV.

Outro equívoco recorrente está no uso da expressão “pessoas infectadas com a AIDS”. A AIDS não é o fator infectante e sim, o vírus, conhecido como HIV. O Guia explica ainda que, como a palavra “HIV” (do inglês, human immunodeficiency virus) significa em português ‘vírus da imunodeficiência humana’, é incorreto escrever o “vírus HIV” ou “vírus do HIV” por se tratar de uma redundância.

Com esses e outros exemplos, o guia propõe uma linguagem não discriminatória e culturalmente apropriada, que promove os direitos humanos de todas as pessoas vivendo com HIV. O UNAIDS enfatiza que as orientações terminológicas devem ser consideradas um trabalho contínuo, levando em conta que novas questões e dinâmicas emergem frequentemente.

Você pode acessar o Guia de Terminologia clicando aqui. Estas diretrizes podem ser amplamente copiadas e reproduzidas, contanto que esse uso não seja para fins lucrativos e que a fonte seja sempre citada. Comentários e sugestões de acréscimos, supressões ou modificações podem ser encaminhadas para [email protected].

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Com informações da ONU Brasil.

Placa de entrada de estação do Métropolitain de Paris em estilo Art Noveau. Foto: Pixabay.Placa de entrada de estação do Métropolitain de Paris em estilo Art Noveau. Foto: Pixabay.

Dispersas pelas ruas de Paris, as elegantes entradas Art Nouveau às estações do Métropolitain (metrô) são um monumento coletivo à Belle Époque da cidade do final do século XIX e início do século XX. Com o trabalho sinuoso sinuosa modelado a partir de plantas estilizadas, as entradas do metrô agora figuram entre os mais famosos emblemas arquitetônicos da cidade; No entanto, devido à cautela da cidade em face à industrialização e da decisão do arquiteto Hector Guimard de utilizar uma estética arquitetônica então nova, levaria décadas antes que as entradas ganhassem a ilustre reputação que agora desfrutam.

Durante as primeiras fases de construção, vias foram cavadas logo abaixo do nível da rua. Foto: National Library of FranceDurante as primeiras fases de construção, vias foram cavadas logo abaixo do nível da rua. Foto: National Library of France

A transformação radical de Paris do labirinto medieval à metrópole do Segundo Império entre as décadas de 1850 e 1870 coincidiu com a construção das primeiras ferrovias subterrâneas de Londres. Embora a enxurrada de demolição e reconstrução ocorrida na capital francesa tenha sido um momento ideal para instalar um sistema de metrô, o Prefeito do Sena Georges-Eugène Haussmann não teve nenhum interesse aparente em implementar tal infraestrutura. Os governos estaduais e locais discutiram sobre quem seria responsável se o sistema fosse construído, enquanto o público - horrorizado com o pensamento de sua cidade sendo engolido por algo tão industrial - expressava sua ardente desaprovação.

Place du Bastille (Carte postale ancienne éditée par les Magasins Réunis). © Claude_Villetaneuse (1908).Place du Bastille (Carte postale ancienne éditée par les Magasins Réunis). © Claude_Villetaneuse (1908).

Em última análise, a Exposição Universelle de 1900 chegou para convencer a cidade de que precisava de um moderno sistema de transporte de metrô. Charles Garnier, o arquiteto mais conhecido por projetar o teatro da ópera de Paris, que agora leva seu nome, aconselhou o Ministro das Obras Públicas que, para que as pessoas aceitassem o Metro, ele teria que ser visto como mais do que uma criação industrial - teria que ser uma obra de arte. Com isso em mente, a Société Centrale des Architectes realizou um concurso para selecionar um arquiteto para projetar as entradas superficiais do metrô. Embora a empresa Duray, Lamaresquier e Paumier tenha vencido o concurso, a seleção foi anulada por Adrien Benard, presidente do Conseil Municipal de Paris; Em seu lugar, ele escolheu Hector Guimard, um notável arquiteto Art Nouveau que não submeteu propostas ao concurso. 

Place du Bastille (Carte postale ancienne éditée par les Magasins Réunis). © Claude_Villetaneuse (1908).Place du Bastille (Carte postale ancienne éditée par les Magasins Réunis). © Claude_Villetaneuse (1908).

Graduado da École des Beaux-Arts de Paris, Guimard era fascinado pelas teorias do racionalismo estrutural de Eugène Viollet-le-Duc e pela arquitetura gótica que Viollet-le-Duc tanto admirava. Combinando essa inspiração com as influências do Movimento das artes e artesanato britânico e do trabalho Art Nouveau de Victor Horta, ele desenvolveu sua própria forma de racionalismo Art Nouveau - que se afastou das propostas ecléticas e classicistas feitas por seus concorrentes e, finalmente, ganhou o interesse e a aprovação de Benard Adrien. 

Uma entrada típica da estação no metrô de Paris. Foto: Pixabay.Uma entrada típica da estação no metrô de Paris. Foto: Pixabay.

 Ao invés dos projetos de alvenaria apresentados pelos vencedores da competição, Guimard propôs que as entradas do metrô fossem construídas em ferro fundido e vidro. A decisão teve vários benefícios práticos: mais significativamente, as entradas de ferro ocupavam muito menos espaço do que as pedras, uma necessidade em muitos dos locais escolhidos para estações de metrô. O ferro também era mais barato e mais fácil de produzir e transportar, e permitia uma maior facilidade de produção em massa do que a alvenaria. 

Uma luz de farol típica fora da entrada de uma estação de metrô de Paris. Foto: PixabayUma luz de farol típica fora da entrada de uma estação de metrô de Paris. Foto: Pixabay

Além dessas preocupações logísticas, o ferro fundido também era muito mais adequado às curvas sinuosas, naturalistas e esbeltas que incorporam o Art Nouveau. Usando um conjunto de elementos estruturais modulares, Guimard criou cinco tipos de entrada, desde trilhos simples até pórticos cobertos grandiosos; cada entrada da estação compartilhava a mesma tinta verde (que se assemelhava à pátina de bronze) e uma placa com a palavra Métropolitain em uma tipografia desenhada pelo próprio Guimard. A variante mais simples e mais comum era um conjunto de grades com um par de lâmpadas de cor âmbar em forma de botões de flores, sua luz colorida iluminando o sinal de Métropolitain montado entre elas. A maior sensação, no entanto, foi em resposta às elaboradas entradas do pavilhão, com os toldos de vidro abobadados coroando as escadas abaixo. 

Réplica em Chicago, EUA © J. Crocker (2012).Réplica em Chicago, EUA © J. Crocker (2012).Apenas 86 das 141 entradas de metrô originais permanecem de pé, com muitas demolidos nas décadas anteriores ao Art Nouveau ter sido reconhecido como um estilo digno de políticas de preservação. As estações que permanecem são hoje vistas como inspiração para o estilo Métro, homônimo, seu ferro verde e letras elegantes irrevogavelmente associadas a toda a marca visual do sistema de metrô. Apesar da proeminência de curta duração do Art Nouveau e do desprezo inicial dos moradores da cidade, as entradas remanescentes do metrô de Guimard - como a Torre Eiffel, de ferro forjado - tornaram-se símbolo integral e amado de Paris. 

Uma estação típica do metrô de Paris. Foto: Pixabay.Uma estação típica do metrô de Paris. Foto: Pixabay.


Assista o vídeo “Hector Guimard, Paris Metropolitain“ e saiba mais (inglês).

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Por Luke Fiederer em sua série Clássicos da Arquitetura no Arch Daily.

Dezoito artistas e coletivos de diversas partes do país apresentam um panorama da criação artística no espaço público brasileiro na exposição ‘Arte para uma cidade sensível‘, aberta ao público no Museu Mineiro, em Belo Horizonte. A curadora é a artista e professora Brígida Campbell, da Escola de Belas-Artes da UFMG.

Com registros de intervenções, instalações e vídeos, a mostra reflete sobre questões urbanas como gentrificação, especulação imobiliária, investimentos e desrespeito ao patrimônio histórico e simbólico. Para Brígida, essas transformações, distorcem, muitas vezes, o caráter público do espaço urbano, transformando-o em mero local de exploração financeira e impedindo a construção de locais de encontro, convivência coletiva e pública.

Entretanto, como a própria curadora lembra, existe um movimento em sentido contrário que busca retomar os espaços públicos como lugar de convívio, de política, de realização pública e coletiva de projetos. Neste sentido, uma série de projetos artísticos vêm sendo realizados no espaço público-urbano brasileiro, sob os mais diversos nomes, como “intervenção urbana”, “arte participativa”, "colaborativa”, “relacional”, “contextual”.

Os trabalhos reunidos na mostra propõem que a arte circule por outros espaços, que não apenas os ambientes tradicionalmente reservados a ela. O objetivo é oferecer referências para novos processos de pesquisa artística, ampliando a compreensão do visitante sobre o papel da arte no imaginário da cidade e na formação da sensibilidade urbana.

Participam da exposição Thislandyourlan, Pierre Fonseca, Piseagrama, Trinca SP, Poro, Gia, Grupo Fora, Grupo Empreza, Ronald Duarte, Paulo Nazareth, Filé de Peixe, Vj Suave, Acidum, Jonathas de Andrade, Comum, Frente Três de Fevereiro, Tupinambá Lambido e Residência Móvel.

Além da exposição, faz parte da programação, uma série de encontros  e palestras com artistas e profissionais do campo das artes visuais.

Serviço

“Arte para uma cidade sensível”
Visitação até 26/11.
Museu Mineiro, Galeria de Exposições Temporárias.
Avenida João Pinheiro 342, no bairro Funcionários.
O local funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 19h, quinta-feira, das 12h às 21h, e sábado e domingo das 12h às 19h.

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Com informações da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais.

O centenário Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, na Alemanha, deu a largada para o ambicioso projeto itinerante "Pure Gold - Upcycled! Upgraded!"

Ele começou no último dia 15 de setembro com uma exposição de peças feitas de reciclagem e upgrade de materiais de quatro continentes. Plásticos, madeiras, panos, borrachas, papéis, ferros, louças e vidros recuperados e rearranjados em 76 peças, por 53 designers, fazem parte da mostra, que deve percorrer 20 cidades em dez anos, um programa do Instituto de Relações Internacionais (IFA) da Alemanha. 

"Nosso tema é de relevância global, mas os países têm abordagens muito diferentes. Seria um mal-entendido ver o upcycling como um novo método universal. Pelo contrário, deve ser enraizado na cultura regional como uma estratégia efetiva. Os objetos exibidos demonstram isso de forma prolífica", diz o curador-chefe da mostra, o professor Volker Albus.

Albus dividiu a curadoria com mais seis curadores, provenientes de Brasil, China, Egito, Índia, Zimbábue e Tailândia, que apontaram trabalhos. "Queremos iniciar um discurso global sobre este importante tópico e não apenas uma determinada mensagem focada na Alemanha ou na Europa", diz Albus.

Poltrona Palmarin (2014), de Ramón Llonch / Artlantique. Barcos de pesca desativados são transformados em móveis contemporâneos, como esta poltrona. A decoração existente na madeira resgatada é cuidadosamente escolhida e combinada em cada design específico. Foto: Divulgação.Poltrona Palmarin (2014), de Ramón Llonch / Artlantique. Barcos de pesca desativados são transformados em móveis contemporâneos, como esta poltrona. A decoração existente na madeira resgatada é cuidadosamente escolhida e combinada em cada design específico. Foto: Divulgação.

Mesa Paan (2012) de Saruta Kiatparkpoom. Restos de aço provenientes de chapas cortadas por estampagem são transformados em móveis e objetos decorativos. Foto: Divulgação.Mesa Paan (2012) de Saruta Kiatparkpoom. Restos de aço provenientes de chapas cortadas por estampagem são transformados em móveis e objetos decorativos. Foto: Divulgação.

Conical Neck Vessel (2012) de Berger-Gentsch. Com ares antigos, essa ânfora é feita com papelão corrugado recolhido em supermercados de desconto. Foto: Divulgação.Conical Neck Vessel (2012) de Berger-Gentsch. Com ares antigos, essa ânfora é feita com papelão corrugado recolhido em supermercados de desconto. Foto: Divulgação.

Mesa Flip Flop (2011), design de Diederik Schneemann. Chinelos descartados são colados e depois cortados, dando origem a objetos e pequenas peças de mobiliário, como essa mesinha auxiliar, sempre marcados pela colorida padronagem. Foto: Divulgação.Mesa Flip Flop (2011), design de Diederik Schneemann. Chinelos descartados são colados e depois cortados, dando origem a objetos e pequenas peças de mobiliário, como essa mesinha auxiliar, sempre marcados pela colorida padronagem. Foto: Divulgação.

-ISH Tray 3 (2014), design Laetitia de Allegri & Matteo Fogale. Jeans usados e desgastados são a matéria-prima para a criação do Denimite, material que pode ser prensado e moldado na forma de tampos de mesa e bandejas. Foto: Divulgação.-ISH Tray 3 (2014), design Laetitia de Allegri & Matteo Fogale. Jeans usados e desgastados são a matéria-prima para a criação do Denimite, material que pode ser prensado e moldado na forma de tampos de mesa e bandejas. Foto: Divulgação.

The Well Proven Chair (2012), design Marjan van Aubel & James Michael Shaw: Aparas de madeira são misturadas com uma bioresina. Foto: DivulgaçãoThe Well Proven Chair (2012), design Marjan van Aubel & James Michael Shaw: Aparas de madeira são misturadas com uma bioresina. Foto: Divulgação

Do Brasil, participam obras dos designers Domingos Tótora e Bruno Jahara, selecionados pela curadora Adélia Borges, responsável pela América Latina. Tótora mostra seu banco feito de pasta de celulose enformada e Jahara, sua montagem de utensílios plásticos industrializados. Borges também indicou o projeto da designer e jornalista argentina Luján Cambariere e do coletivo Ático de Diseño, que usa peças de antiquário para criar um mix de luminária e brinquedo.

Banco Solo (2010), de Domingos Tótora. Feito com massa de papelão e ferro, o banco utiliza o papelão descartado na região de Maria da Fé, MG, onde o designer tem seu ateliê. Foto: Divulgação.Banco Solo (2010), de Domingos Tótora. Feito com massa de papelão e ferro, o banco utiliza o papelão descartado na região de Maria da Fé, MG, onde o designer tem seu ateliê. Foto: Divulgação.

Fruteira da linha Multiplástica Doméstica (2012), design Brunno Jahara. Utensílios plásticos produzidos industrialmente e vendidos em lojas de 1,99, aliados a componentes usados, dão origem às fruteiras dessa série. Foto: Divulgação.Fruteira da linha Multiplástica Doméstica (2012), design Brunno Jahara. Utensílios plásticos produzidos industrialmente e vendidos em lojas de 1,99, aliados a componentes usados, dão origem às fruteiras dessa série. Foto: Divulgação.

O projeto "Pure Gold" não se resume à mostra itinerante. O plano é fazer oficinas com designers em cada local de exibição para registrar técnicas de reparo, reutilização e personalização de produtos, e assim formular "receitas de upcycling". As oficinas alimentarão uma plataforma digital, que funcionará como fórum. "Nosso objetivo é produzir tutoriais em vídeos simples que podem ser filmados com smartphones e colocados na plataforma. Todo mundo interessado em upcycling pode se conectar facilmente e trocar experiências em escala global", diz Axel Kufus, responsável pela plataforma digital.

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Mara Gama é jornalista com especialização em design, roteirista e consultora de qualidade de texto. Artigo publicado originalmente em seu blog na Folha de S.Paulo.

Pequim, Mumbai, Cidade do México, São Paulo. Nas metrópoles dos países em desenvolvimento, a urbanização roubou o espaço da paisagem natural. Áreas verdes e cursos d’água foram tomados pelo concreto.

É o caso da maior cidade brasileira, marcada pelo Tietê, um rio de extensas planícies aluviais, condição que potencializa enchentes ocasionadas pelas tempestades de verão. Impermeabilizada em trechos importantes de escoamento, como os fundos de vale, São Paulo fica a cada dia mais sujeita às cheias de seus rios e córregos.

A arquiteta Pérola Felipette Brocaneli, doutora em paisagem e ambiente pela Universidadede São Paulo, está entre os pesquisadores que apostam em uma solução arrojada: devolver aos rios as várzeas em suas margens. “Não se trata apenas de criar parques ou áreas verdes, mas transformar a lógica estrutural de São Paulo, que deixará de ser viária e passará a ser ecológica”, diz.

Na prática, isso significaria desapropriar os edifícios e afastar as vias pavimentadas que hoje ladeiam o rio Tietê e seus principais afluentes (Pinheiros, Tamanduateí) – um plano ainda utópico,sobretudo quando se nota que, em 2010, canteiros foram derrubados para dar lugar a três novas faixasde asfalto. “Sei que tais possibilidades incomodam. Mas o que deveria ser mais inquietante são aspéssimas condições ambientais e os reflexos disso na qualidade de vida dos paulistanos”, diz Pérola.

Ilustração de Jonatan Sarmento / National Geographic.Ilustração de Jonatan Sarmento / National Geographic.Uma mudança total levaria décadas. O primeiro passo seria a constituição de um parque linear principal, capaz de atuar no amortecimento das chuvas críticas e ser o eixo de um sistema de refrigeração para o município, composto de áreas verdes e úmidas. Esses espaços seriam criados ao longo de rios e córregos que hoje estão inseridos nas porções denominadas pelo poder público de “operações urbanas”. “São áreas residuais, sujeitas a um zoneamento especial, voltadas para a reestruturação territorial de São Paulo”, diz Pérola.

Em vez de direcionar essas áreas de maneira integral para empreendimentos imobiliários, a ideia é destiná-las também à recuperação de antigas zonas úmidas.Uma das propostas é interligar por meio de um corredor ecológico no eixo noroeste-sudeste as serras da Cantareira e do Mar. A umidificação, o controle térmico e a regularização do ciclo hidrológico seriam favorecidos – ou seja, haveria uma regularização do calor e das chuvas acima do normal. Hoje, o vento frio vindo das partes altas não é capaz de refrigerar a cidade porque depara com uma bolha de ar aquecido e seco ao atingir aregião metropolitana – resultado do desmatamento e da impermeabilização das várzeas.

Na renascida São Paulo, a demanda pelos carros particulares tenderia a diminuir, já que as opções de serviço e de lazer estariam melhor distribuídas e o transporte público seria mais eficiente. “Além disso, atrações culturais e praças esportivas fariam parte das novas áreas verdes”, completa Pérola.“São Paulo precisa alterar sua noção de privado. Mais do que recuperar o ambiente, trata-se de criar redes de espaço público.”

Exemplo

Margens do rio Kallang rejuvenescidas com decks de vigia, praça aberta, vegetação. Foto: The Straits Times.Margens do rio Kallang rejuvenescidas com decks de vigia, praça aberta, vegetação. Foto: The Straits Times.Em Singapura, a restauração de 2,7 quilômetros do rio Kallang, que também passava por um canal de concreto, mostrou que é possível ter menos inundações, mais refrigeração natural e oportunidades de recreação na cidade. A revitalização do rio durou três anos e foi concluída neste mês, com 62 hectares reabertos aos moradores de Singapura.

O parque linear do Kallang inclui um playground aquático e um jardim comunitário. As plantas – que não são cultivadas com produtos químicos – ajudam a manter a qualidade da água e acabaram atraindo animais selvagenspara a região.

Este vídeo, com legendas em inglês, mostra o resultado desta transformação!

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Por Thiago Medaglia na National Geographic Brasil.