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São Paulo São Outros

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A primeira coisa que o dono de algum estabelecimento pensa quando vê o seu local grafitado é em arrumar os danos. E a primeira coisa que um grafiteiro pensa quando vê uma parede limpa, especialmente as que continham desenhos seus, é em pegar o spray e correr para marcar mais uma vez o seu território.

Em Londres, a “guerra” de gato e rato entre o grafiteiro Mobstr e os responsáveis pelo muro de um provável depósito na Dace Road virou uma série de fotos hilariantes.

Em seu site, o artista conta que da primeira vez que pintou aquele muro, em julho de 2014, percebeu que a solução usada pelo proprietário foi a de pintar de vermelho escuro a parte grafitada. O experimento segue até Mobstr pintar “fora da linha vermelha”, o que obriga uma mudança tática de limpeza da tinta para a lavagem com jato de pressão – e leva o diálogo a um outro nível.

O “diálogo” segue até uma solução mais radical, elogiada até pelo grafiteiro. É possível conferir a conversa, e saber mais no site do Mobstr (http://mobstr.org/home2.html), no Instagram (https://instagram.com/m.obstr/) ou ver a situação atual no Google Mapshttps://goo.gl/ndYs03

Fonte: Inspirad.

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Foi o que meu amigo aprendeu com a mãe muitos anos antes de cruzar a África de bicicleta e escrever um belo livro sobre a travessia.

“Você precisa conhecer o Colcci”. Deve ter sido a frase que mais repeti durante os quatro anos de faculdade. Não era por acaso. Colcci era o apelido do meu amigo Alexandre Costa Nascimento, cujos pais eram donos de uma loja da grife homônima em nossa cidade, Araraquara.

Desde muito cedo, talvez entre os 13 e os 14 anos, sabia que na cadeira ao lado, num grupo que um professor de matemática apelidou de "Nata Podre" da sala - nós, os bagunceiros que, ele jurava, jamais chegariam a lugar algum - estava um amigo para toda a vida. Eu já era doido por futebol e ele, por Fórmula 1, e usávamos nossas carteiras de fórmica para desenhar e montar previsões para a escalação ou o grid de largada do fim de semana.

Anos depois, começamos a estudar jornalismo, e sempre citava suas ideias, compartilhadas por e-mail ou nas crônicas e artigos impressos trazidos na bagagem, aos novos colegas de classe. “Você precisa conhecer o cara”. Era uma forma de me conformar com algo que, no fundo, jamais me conformei: desde 1999, quando estávamos no meio do colegial, ele morava em Curitiba. Nosso contato, desde então, eram as visitas a nossa cidade-natal e a São Paulo, para onde me mudei em 2002. Nas boas e não raras viagens até a capital paulista, ele muitas vezes ficava em casa, e praticamente se tornou um integrante da turma paulistana.

Também na mesma época, começamos a trabalhar em jornal diário, e perdi as contas de quantas vezes abri a Gazeta do Povo numa banca de jornal para conferir as manchetes. Sabia quando a reportagem principal tinha a assinatura dele – como quando ele calculou a distância entre “países” de IDH distintos separados em poucos quilômetros pela região metropolitana de Curitiba.

Quando nos reencontrávamos, retomávamos nossas ideias como quem havia se falado todos os dias desde sempre. Era como tirar o pause de uma longa fita K7 (somos desse tempo).

Na escola, na faculdade e na vida adulta, o Colcci era, e ainda é, o amigo das ideias fixas. Uma vez encucou que a capital paranaense era ligada por túneis subterrâneos construídos pela comunidade alemã que, acuada por Getúlio Vargas, temia ser bombardeada durante a Segunda Guerra. Ele pesquisou e cavou fundo, literalmente, para levantar a história. Antes mesmo da faculdade ele já havia encucado de estudar a história da maçonaria e do Subcomandante Marcos, de quem eu jamais tinha ouvido falar até então. Foi o Colcci quem me apresentou também a autores como Marcelo Rubens Paiva e Gabriel Garcia Marquez.

Uma dia ele comprou uma bicicleta e começou a pedalar. No dia seguinte, pedalou um pouco mais. No outro, ainda mais. A cada nova quilometragem ele percebia que pedalar nunca seria só diversão ou deslocamento. Era também ação política. Luta por espaço. Por um direito. Certa vez por pouco não foi atropelado; o motorista do automóvel o derrubou e provocou estragos na bicicleta. Ao chegar em casa, ele lançou as palavras “atropelei” + “ciclista” no Twitter e bingo: o agressor correra às redes para se gabar do feito. Flagrado e “printado”, o autor da barbeiragem teve de pagar os reparos e pedir desculpas, com medo de sofrer um processo.

Com o Colcci é assim: quando encuca, vai até o fim. Em 2012, já conhecido como jornalista e militante do blog Ir e Vir de Bike (http://irevirdebike.com.br/), ele botou na cabeça que atravessaria a África pedalando com outros 50 ciclistas de várias nacionalidades no chamado Tour d’Afrique do ano seguinte. Até então, nenhum brasileiro havia tentado a travessia (saiba mais aqui: http://tourdafrique.com/ )

Como sempre, ouvi e apoiei – como se ele tivesse me falado que iria buscar pão e já voltava. Não sei se por descaso de quem já começa a olhar a vida atrás dos próprios muros ou se por saber, de antemão, que se ele havia botado a ideia na cabeça ele iria até o fim – e, pelo menos para nós, que já o conhecíamos, não havia nada de novo naquela busca dele por novidades – passei os meses seguintes sem jamais me dar conta do que era atravessar um continente inteiro de bicicleta.

Talvez inconscientemente imaginasse que andar de norte a sul da África fosse simplesmente deslizar de cima pra baixo, pela força gravitacional, como numa ladeira – sem jamais imaginar o esforço humano e a profusão de encontros que essa “descida” embutia.

Um dia recebo em mãos o livro “Mais que um leão por dia – A saga do primeiro brasileiro a pedalar 12 mil quilômetros pela África”. O autor: Alexandre Costa Nascimento. O Colcci. “Obrigado por fazer parte dessa história”, ele me escreveu, como se estendesse as mãos para que eu pulasse na garupa.

De saída, eu, que testemunhei de perto a sua maior dor, me fixo na dedicatória que serviria como linha-mestra de toda a narrativa: “À minha mãe, Sônia Beatriz, que me deixou como herança o ensinamento de que as viagens que realizamos e os livros que lemos são os únicos tesouros que não perdem valor com o tempo e que ninguém, jamais, poderá nos roubar”.

Quando abri o livro, não imaginava que começaria, eu também, a pedalar por um continente desconhecido. O que vi, ali, não foram as impressões ou um diário de bordo de alguém já conhecido e que, por ser tão próximo, já não poderia me surpreender. O que encontrei foi um trabalho de descrição e pesquisa - social, política, econômica e geográfica - dignas das grandes reportagens - o que na faculdade chamávamos de jornalismo literário. O Colcci já era repórter desde que desenhava ao meu lado na carteira e, ainda que tivesse lido, até então, muito da sua produção, eu ainda não sabia o quanto ele era capaz de transformar vivência em paixão, e paixão em histórias.  

Não eram quaisquer histórias, mas a história que começa nas pirâmides do Egito, nos hábitos culturais e religiosos do Cairo, passa pela Praça Tahir, pelo Saara e segue rumo. “Na rotina, nada é sempre igual”, escreve.

Conheci de perto, assim, a paranoia militar de uma ditadura de orientação islâmica do Sudão, onde a mutilação genital é recorrente e a hospitalidade, por incrível que pareça, é marcante. Lá, acompanhei o esforço dele para omitir a profissão de jornalista para não correr riscos ao tirar fotos ou se aventurar num garimpo do país.

Atravessei uma ponte de 50 metros sobre um riacho e descobri que é possível encontrar, do outro lado da fronteira, na Etiópia, um mundo de nacionalidade, língua, governos, religiões e costumes completamente diferentes. Conheci Bahir Dar, cidade considerada a Amsterdã da África; passei às pressas pelo Quênia em um momento de tensão pré-eleitoral e risco iminente de conflito; degustei o melhor café do mundo – em um dos capítulos, ele consegue explicar o rombo da balança comercial e parte da situação de miséria do país a partir da história do café e da chegada dos solúveis amargos e importados aos lares quenianos.

Passei pelo Malauí, país de impressionantes 406 bicicletas pra cada mil habitantes, e conhecei o drama dos albinos, marginalizados e caçados, literalmente, por quem acredita que as partes mutiladas de seus corpos são sinais de sorte.

Conheci os estragos da corrupção na economia da Zâmbia e atravessei a menor fronteira do mundo até a Naníbia, a caçula das nações africanas. Visitei por ali cachoeiras, cataratas, vales até finalmente chegar à Cidade do Cabu, na África do Sul, e reconhecer as cicatrizes doapertheid, regime do qual ouvíamos falar na aula de geografia da professora Cláudia. Ao todo foram 11 países, 530 horas sobre a bike, 11.667 quilômetros, 121 dias de expedição e uma série de perrengues no caminho: indisposição gástrica com as iguarias mais exóticas, sede, cansaço, lama, vento, banheiro a céu aberto, tempestade de areia, mosquitos, câmaras e pneus furados, tombos, perdas de equipamento, perda de peso (10 kg, ao todo), desidratação, diarreia, inflamação no tendão, herpes, resfriado, gripe, mordida de filhote de pastor, infecção na pele, corte no pé, picadas, pedradas, pauladas, bosta de burro disparadas por crianças nas ruas, e claro, animais de todas as espécies cruzando a estrada. Não fazia ideia do que era pedalar mais de 150 quilômetros num mesmo dia e o quanto cabia de dor, esforço, solidariedade e superação de uma ponta a outra. Agora sei.

E só soube de tudo porque, diferentemente dos ciclistas competidores, premiados ao fim de cada etapa, o autor foi até a África justamente para perder tempo à beira da estrada, apreciar os passeios, babar na paisagem, anotar e jogar conversa fora com os grandes novos amigos – uma rede de camaradagem formada por ciclistas italianos, holandeses e até um americano fã do Tea Party, cada um com uma forma distinta de ver e encarar a maratona e o mundo (muitos deles são perfilados ao fim de cada capítulo), assim como os personagens encontrados no caminho, como um ciclista amador que pedalava com uma perna só e os garotos que faziam fila para jogarem bola ao verem sua camisa do Brasil. De alguma forma, fiquei amigo deles também.

Ao fim da leitura, percebi que não tinha ideia do que eram os países da África até então. Mais que isso, descobri o quanto eu ainda precisava conhecer e ainda não conhecia o meu amigo. Ao menos com o livro posso agora dizer aos leitores, e não apenas aos amigos de faculdade: vocês precisam conhecer o Colcci. Todos precisamos. Pois ele tem razão quando diz que as viagens e os livros são os únicos tesouros que ninguém nos tira. Os amigos das páginas e das estradas também.

PS: Até as últimas páginas, não sabia se o meu amigo conseguiria ou não o tão sonhado EFI (Every Fabulous Inchi), o certificado concedido pela organização do Tour D’Afrique de que o ciclista percorreu todos os polegares do fabuloso solo africano sem ajuda dos veículos de apoio – muitos, devido a cansaço, doenças e outros incidentes, tiveram de pedir carona e perderam a premiação. A resposta é contada ao fim do livro. Não há spoiler para os amigos.

Matheus Pichonelli em Carta Capital. 

 

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Jeffrey Milstein é um dos fotógrafos mais publicados e premiados do mundo. Tem um portifólio vastíssimo com destaque para fotos tiradas do alto de cidades, portos, navios e aeroportos.

Visite a galeria e conheça a sua rica produção, que inclui coleções como Los Angeles vista de cima, os carros antigos de Havana, os trailers de Palm Springs, as ruas no Egito, na Índia e em Cuba etc.

A última coleção são as fotos de Nova Iorque vista de cima, a primeira cidade que ele fotografou há mais de 50 anos, quando ainda era adolescente, voando em um Cesna.

Agora, do alto de um helicóptero e com equipamentos de última geração para fotografias aéreas, Jeffrey produziu imagens incríveis da Big Apple. Confira os detalhes na matéria do DailyMail Online: "New York from 2,000ft: Photographer captures stunning aerial images of the Big Apple as you’ve never seen it before". Aqui: http://goo.gl/2Ta00E

Indo a Nova Iorque, visite a galeria Benrubi, onde ele está expondo até o dia 22 de agosto de 2015.

Jurandir Craveiro em seu Blog do Jura.

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Pesquisa constatou que cidadão é aberto para aspectos sexuais, mas sustenta pensamento conservador em temas coletivos.

Abertura para liberdades sexuais e conservadorismo para propostas de promoção de igualdade social. Foi com um perfil complexo que o paulistano se apresentou em uma pesquisa inédita da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), que será lançada no próximo mês e que traçou o perfil sociopolítico do cidadão da capital.

Ao mesmo tempo em que 70% dos 1.288 entrevistados acenaram positivamente para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, 30% concordaram que, de alguma forma, a ditadura militar é melhor do que a democracia.

O paulistano, além de defendem valores individuais, crê na meritocracia. São 92% que acreditam que homens e mulheres devem receber salários equivalentes, mas 53% entendem que programas como o Bolsa Família estimulam a preguiça e que pessoas de baixa renda tenham mais filhos.

"Tem um senso comum que se difundiu que São Paulo seria mais conservadora que o resto do País, mas isso é mais complexo. O que a gente percebeu é que o paulistano é mais progressista nas liberdades sexuais, mas, quando a gente olha as questões de direitos sociais, de igualdade, há um conservadorismo", explica o economista William Nozaki , que é o coordenador da pesquisa.

O levantamento, intitulado "Conservadorismo e Progressismo na Cidade de São Paulo", foi feito na segunda semana de junho deste ano, durante oito dias, por meio de um questionário com 70 perguntas. Segundo Nozaki, ele foi motivado pelo quadro de polarização que começou a se espalhar no País e na capital principalmente após as manifestações de junho de 2013 e do segundo turno das últimas eleições presidenciais.

"O que constatamos é que não é correto fazer qualquer tipo de associação entre ser conservador e de direita e ser progressista e de esquerda. Há uma mistura noções de conservadorismo e progressismo no centro e na periferia da cidade que não cabem em um esquema engessado."

Contrastes. 

Ainda de acordo com a pesquisa, que tem 95% de confiança e margem de erro de três pontos porcentuais para mais ou para menos, 74% são a favor do respeito às diferentes expressões religiosas, 42% afirmam que os Direitos Humanos têm como objetivo a defesa de bandidos, 54% aceitam novas configurações familiares e 62% são a favor da redução da maioridade penal.

"A tradição e a modernidade se encontram na cidade, mas as ideias estão sistematicamente mudando. Isso revela que há uma complexidade ligada a um cosmopolismo e a um amplo acesso a possibilidades culturais e sociais encontradas em São Paulo. A cidade é permeada pela diversidade e pelas desigualdades", diz o pesquisador e professor da FESPSP Rodrigo Estramanho de Almeida.

Almeida diz que o estudo favorece não só ao entendimento do perfil do paulistano, mas também às novas formas de elaboração de políticas públicas e pode nortear movimentos organizados da cidade e educadores.

Paula Felix no Estadão.

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O prefeito Fernando Haddad afirmou na manhã desta terça-feira (14) que a cidade de São Paulo garantirá, a partir de 2016, a universalização da matrícula de crianças da pré-escola. O anúncio foi realizado durante a cerimônia de abertura do Seminário Nacional sobre Desigualdades Intramunicipais: Rumo à Inclusão de Crianças e Adolescentes em Centros Urbanos, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com a Prefeitura de São Paulo.


"O Brasil é um dos poucos países do mundo que tem obrigatoriedade de matrícula com 14 anos de escolaridade. A partir do ano que vem nós temos que atender de forma universal a todas crianças e adolescentes dessa faixa etária [de 4 a 17 anos de idade]. A cidade de São Paulo vai cumprir a emenda constitucional e, a partir do ano que vem, toda criança terá matrícula garantida. Nenhuma criança [estará] fora da escola a partir dos 4 anos de idade, como manda a Constituição", afirmou Haddad.

Atualmente, a Prefeitura atende a mais de 204 mil crianças em Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs), unidades responsáveis pela pré-escola. A demanda remanescente para essa categoria é de 10.780 vagas, de acordo com dados divulgados pela Secretaria Municipal de Educação (SME) em junho deste ano. 

Realizado ao longo de todo o dia na Praça das Artes, no centro da capital, o seminário marcou os 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e integra uma série de ações da Plataforma dos Centros Urbanos, iniciativa do UNICEF, das prefeituras e dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCAs) de oito capitais brasileiras pela redução das desigualdades intramunicipais que afetam a vida de meninos e meninas.

"A criação dessa legislação certamente colocou o Brasil em outro patamar na história mundial. Mas a comemoração só será completa quando alcançarmos 100%, sem exceção. Ainda temos muitos desafios para garantir direitos de cada criança e cada adolescente no Brasil. A legislação é muito boa, mas ainda precisamos aperfeiçoar as políticas públicas para otimizá-la", disse Gary Sthal, representante do Unicef no Brasil.

Durante a cerimônia de abertura, tanto Haddad quanto prefeitos de outras capitais destacaram a educação como medida fundamental para o combate das desigualdades comuns à sociedade brasileira. "Se nós quisermos combater a desigualdade no nosso país, vamos começar pelo começo, pela primeira infância e, portanto, resolver o problema educacional brasileiro. O Brasil avançou muito na educação nos últimos anos. O caminho agora é investir mais em educação e atingir as metas do Plano Nacional de Educação, sancionado no ano passado e com vigência de 10 anos. São 20 metas, a maioria delas focadas na criança e no adolescente, que vai efetivamente vão fazer o país mudar de patamar", pontuou Haddad.

"O alicerce do nosso trabalho está focado na política educacional, na política de inclusão social, na política de estímulo e incentivo ao esporte e na política de saúde. Todas elas são importantes em relevância, mas o carro chefe da [nossa] administração é a educação. A educação tem que ser prioridade número um - e não apenas no discurso, tem que ser na prática", destacou Antônio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador.

Para Rui Palmeira, prefeito de Maceió, a educação é, inclusive, chave para o combate da violência. "Enquanto o Brasil acreditar que nós vamos combater a violência com polícia, estamos fadados a fracassar. Obviamente que é necessária a interferência da polícia, mas nós precisamos investir em políticas públicas para assim diminuir as desigualdades e conseguir vencer a violência contra as crianças e os adolescentes no nosso país", complementou.

Também acompanharam a cerimônia de abertura do seminário Ana Estela Haddad, primeira-dama e coordenadora do programa São Paulo Carinhosa; Adilson Pires, vice-prefeito do Rio de Janeiro; Nádia Campeão, vice-prefeita de São Paulo, além dos secretários municipais Vicente Trevas (Relações Internacionais e Federativas), Eduardo Suplicy (Direitos Humanos e Cidadania) e Nunzio Briguglio (Comunicação).

São Paulo Carinhosa

O compromisso com a educação, enfatizado pelo prefeito Haddad na abertura do seminário, foi lembrado em suas diferentes dimensões durante um painel que destacou os avanços de várias cidades rumo à redução das desigualdades. Ao lado de representantes de Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador, São Luis, Belém, Maceió e Manaus, a primeira-dama de São Paulo, Ana Estela Haddad, apresentou algumas das ações da Política Municipal para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância (Programa São Paulo Carinhosa), da qual é coordenadora.

Ana Estela explicou que um dos objetivos da Política, lançada em agosto de 2013, é fortalecer a proteção social e enfrentar a violação de direitos fundamentais, entre eles, o direito à educação. Segundo ela, estimular as crianças desde cedo é fundamental para que elas sejam capazes de absorver a bagagem educacional que receberão no futuro. “O conhecimento acumulado sobre o desenvolvimento da arquitetura cerebral [mostra que] quando a fundação está fraca, não está bem estruturada, tudo é muito frágil depois”, disse.

Essa lógica se aplica a todas as crianças e jovens, especialmente àqueles inseridos em áreas vulneráveis da cidade. Por isso, conhecer melhor a realidade de tais regiões foi um dos primeiros desafios da São Paulo Carinhosa. “O nosso esforço foi, de um lado, identificar nas várias secretarias as ações que estavam sendo construídas para a infância e como priorizá-las. Ao lado disso, um esforço de conhecer o território. Uma pesquisa que foi muito importante foi o Mapa de Inclusão e Exclusão do Município de São Paulo. A escolha dos territórios [nos quais as ações seriam focadas] se baseou muito na análise dos indicadores”, declarou a primeira-dama.

A partir desse estudo, as diversas ações do Programa passaram a ser articuladas em 15 áreas com os maiores índices de vulnerabilidade infantil: Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Brasilândia, Sapopemba, Cidade Ademar, Lajeado, Capão Redondo, Cidade Dutra, Jardim São Luís, Campo Limpo, Grajaú, Vila Jacuí, São Mateus, Sé e Anhanguera.

“Mas nós não trabalhamos só esses territórios, temos muitas ações de alcance universal, como o Educação Além do Prato e o Circuito São Paulo de Cultura. De 600 atrações do Circuito no primeiro semestre, 200 foram voltadas para as crianças e suas famílias”, declarou Ana Estela, lembrando que o processo educacional deve abranger diferentes esferas, como o acesso à alimentação de qualidade e ao lazer e cultura.

A primeira-dama destacou ainda a atenção às crianças e adolescentes inseridos nas áreas atendidas pelo Programa De Braços Abertos, que visa resgatar a dignidade de usuários de drogas. “Nós começamos a trazer essas crianças para atividades culturais no município, levando para essas atividades não só as crianças, mas também suas famílias. Essa atividade conjunta trouxe resultados de resgate dos próprios usuários, que se reaproximaram dos seus familiares naquelas atividades culturais”, exemplificou.

Dirigindo-se aos demais integrantes da mesa, Ana Estela enfatizou que o sucesso de quaisquer ações que visem à redução das desigualdades depende, essencialmente, da capacidade de diálogo entre os municípios e a sociedade. “É muito importante o espaço de encontro entre a política pública e a vida das pessoas. A gente não pode se fechar no gabinete ou olhar só os números. A gente precisa estar ali onde a vida acontece, não esquecer de estar em contato com as pessoas”, finalizou.

Encerramento

No encerramento do seminário, na noite desta terça-feira (14), os participantes do encontro foram divididos em quatro salas diferentes, com três mesas em cada uma, para debater as formas de impulsionar ainda mais as iniciativas do poder público em relação à inclusão de crianças e adolescentes em centros urbanos. Cada mesa era formada por quatro ou cinco participantes que se revezavam em outras mesas na discussão de três temas diferentes, apoiados por um relator e um anfitrião, que permaneciam no espaço. Ao final, foram apresentados resultados dos debates e encaminhamentos para os próximos encontros ou seminários. 

“É uma construção coletiva. Cada sessão que tivemos aqui foi pensada em parceria. Cada um colocou sua ideia, expôs sua opinião, falou sobre a forma e foi exitoso, porque contou com a participação de todos nós”, afirmou a coordenadora da Plataforma dos Centros Urbanos do Unicef, Luciana Phebo.

“Utilizamos hoje aqui a tecnologia mais eficiente do mundo. Alguns podem achar que é uma tecnologia sofisticada, como aparelhos eletrônicos e a internet. Mas a tecnologia mais avançada que temos é uma boa conversa e essa boa conversa que tivemos gera aprendizado”, disse a diretora executiva do Centro de Promoção da Saúde (Cedaps), Kátia Edmundo.

Plataforma dos Centros Urbanos

Trata-se de uma contribuição do Unicef na busca de um modelo de desenvolvimento inclusivo das grandes cidades, que reduza as desigualdades que afetam a vida de suas crianças e seus adolescentes, garantindo a cada um deles maior e melhor acesso à educação de qualidade, à saúde, à proteção e à oportunidade de participação. 

Criada em 2008 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Itaquaquecetuba, a iniciativa, que prevê ampla participação da sociedade civil, acontece em oito grandes cidades brasileiras: Belém, Fortaleza, Maceió, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo. 

Com São Paulo Carinhosa e Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Fonte: Secretaria Executiva de Comunicação.

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Uma fresta numa parede do subsolo da Oca, no parque Ibirapuera, deixa ver o que parece ser a batina de um padre no meio de faixas coloridas vibrantes. É o único pedaço visível, por enquanto, de um mural que ficou esquecido lá embaixo há mais de 60 anos. 

Quase um cenário de ficção científica quando surgiu num imenso gramado em 1954, o Ibirapuera e seus prédios desenhados por Oscar Niemeyer foram a materialização da utopia industrial paulista na época - a Oca, como pavilhão de exposições, foi aberta naquele ano com uma mostra que narrava episódios da história do país. 

Na exposição que marcou o quarto centenário da metrópole, enormes murais de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Clóvis Graciano e do artista português Manuel Lapa mostravam as naus saindo de Portugal em direção ao Brasil, uma fazenda de café, as minas de ouro e uma procissão católica no campo.

Também havia outro, representando o que poderia ser a primeira missa realizada no país, que nunca mais viu a luz do dia. Era o único pintado não sobre placas de madeira, como o resto dos murais, mas direto na parede do pavilhão. 

Quando foram montar a mostra que celebra os 60 anos do Ibirapuera em cartaz desde o ano passado, funcionários do Museu da Cidade, órgão da prefeitura responsável pela Oca, descobriram que atrás de um muro falso do subsolo estava um quinto painel da famosa "Exposição de História de São Paulo", evento que inaugurou o prédio. 

"Fomos tateando e descobrimos a parede falsa de madeira", conta Afonso Luz, diretor do Museu da Cidade. "Foi incrível. Uma montadora da equipe disse que um mural tinha sido tampado ali." 

Essa montadora, na verdade, também estava lá quando encobriram o mural. Ela contou à direção do museu que ele saiu de cena há 15 anos para a ambientação da mostra que comemorava os 500 anos do descobrimento do Brasil. 

Mesmo antes disso, no entanto, não foram encontrados registros visuais desse painel esquecido no subsolo. Funcionários da prefeitura chegaram a pensar que o mural escondido também fosse de Manuel Lapa, como o das caravelas, mas descartaram a hipótese quando puderam comparar o estilo da obra descoberta com o traço do artista português. 

"Há só uma referência textual dizendo que o Lapa teria pintado a primeira missa para a exposição", conta Luz. "Mas isso não dá certeza se esse quadro é mesmo a primeira missa ou se houve confusão. Não creio que seja, já que as cores e composições na outra pintura não têm nada em comum com essa."

Enquanto toda a parede falsa que esconde o mural não for removida, essas dúvidas vão persistir. A prefeitura deve iniciar o desmonte só agora porque esperava encontrar um patrocinador para restaurar os painéis antes de escancarar de vez o mural - um acordo foi fechado na semana passada com o Bank of America, que vai financiar as obras orçadas em R$ 400 mil.

Recuperação histórica 

Em estado precário, todos os murais precisam passar por uma readequação estrutural, para que não descasquem de seus suportes de madeira. No caso do mural no subsolo, a abertura no muro falso deixa ver manchas de mofo que precisarão ser removidas. 

"É uma recuperação da história do prédio", resume Luz. "Naquela utopia da industrialização, esses murais foram feitos com compensado de madeira e tintas industriais que não resistiram bem." 

Nalu de Medeiros, da supervisão de acervos da cidade, diz que o restauro vai permitir que os painéis não sofram mais danos a cada montagem - eles foram pintados sobre módulos soltos, como um grande quebra-cabeça. 

"Toda vez que eles são montados, acabam precisando de reparos", diz Medeiros. "É um problema estrutural." 

Depois do restauro, que a prefeitura tentará concluir até o final do ano, todos os painéis serão exibidos na Oca junto da obra recém-descoberta, reunindo esse conjunto pela primeira vez desde 1954. A ideia, aliás, é inaugurar a mostra no Ibirapuera no próximo 25 de janeiro, aniversário de São Paulo. 

"Esses painéis são históricos", diz Luz. "Vamos poder ver como o modernismo se reconfigurou com o muralismo dessa época, com obras que contavam a história do país."

Silas Martí na Ilustrada da Folha de S.Paulo.