Outros - São Paulo São

São Paulo São Outros

A praça Victor Civita, vazia num sábado de feriado. Foto: Mauro Calliari.A praça Victor Civita, vazia num sábado de feriado. Foto: Mauro Calliari.

Sábado quente de feriado. Bem em frente à Praça Victor Civita, um casal com uma menina de uns oito anos me pergunta: — “moço, onde está aquela praça que tinha por aqui?”.

A pergunta faz sentido. As grades fechadas dão a impressão de que a praça está fechada, ou abandonada ou que nem existe. Mas há uma portinha no canto. Lá dentro, quase ninguém.  Duas pessoas parecem estar morando nos bancos de madeira, há lixo no chão, tábuas soltas e um forte cheiro de xixi por toda parte.

Lixo e garrafas na praça na praça Victor Civita.Lixo e garrafas na praça na praça Victor Civita.

Há menos de cinco anos, a praça havia sido inaugurada com pompa, num projeto premiado e caro, que promovia a recuperação de uma área degradada, a partir de uma PPP entre a Prefeitura e a Editora Abril. Durante algum tempo, o espaço foi cuidado pela empresa, que ainda oferecia atividades e vivia cheio. De um tempo para cá, a Abril devolveu a praça à prefeitura. A manutenção piorou, o museu parece estar permanentemente fechado e o movimento caiu.

Prédio em frente à praça.Prédio em frente à praça.Num terreno quase em frente à praça, as casinhas que existiam já foram demolidas e se anuncia um novo empreendimento, um prédio enorme, com “lazer completo”. Na esteira dos grandes lançamentos próximos a estações de metrô, o novo edifício é um exemplo do assunto da conversa de hoje na Folha, entre a secretária de urbanismo Heloisa Proença e o ex-secretário Fernando de Mello Franco.

O debate, aparentemente, é sobre a altura de prédios no miolo de quadras, mas na verdade é sobre urbanidade. Os prédios mais altos, mais baratos para os construtores, são parte do problema. A questão é que todos, altos e baixos, parecem ignorar as vantagens para uso misto e fachada ativa. E viram as costas para a rua.

O novo prédio da rua Sumidouro, quase em frente à praça Victor Civita terá 28 andares. Pela ilustração e pela maquete, percebe-se que não vai “conversar” muito com a cidade: ao contrário, seus 4 mil metros quadrados de terreno estarão bem protegidos da rua por muros altos. Mesmo em outros lançamentos mais modestos, a ligação com a cidade também não acontece, tal qual esse outro folheto que recebi hoje, de um lançamento na Pompéia. Com duas torres ou uma, altos ou baixos, o efeito é o mesmo.Ilustração do novo prédio. Imagem: Divulgação.Ilustração do novo prédio. Imagem: Divulgação.

É o modo preferido das construtoras: um terreno grande, com uma torre bem alta no meio, com um muro bem alto em volta. É o modo como a cidade tem sido adensada.

A questão é que esses prédios, esse modelo, esses muros todos, não estabelecem relações com a cidade, com a rua e com o parque em frente.Prédio na Pompéia. Imagem: Divulgação.Prédio na Pompéia. Imagem: Divulgação.

Uma das contradições no crescimento de São Paulo parece estar contida exatamente nesse ponto da cidade, na rua Sumidouro. De um lado, o prédio que não quer a rua. De outro, o parque que se ressente da falta de vida que apenas os novos moradores poderão trazer. Mais adiante, a Prefeitura Regional, que vai ter que arranjar recursos para manter o parque funcionando.

O resultado nós vamos ver nos próximos anos. Teremos uma praça viva ou apenas umas árvores que servirão de cenário para o churrasco na varanda gourmet?

***
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.

Curitiba estará sob os holofotes do mundo entre os dias 28 de fevereiro e 1 de março de 2018, quando irá sediar a primeira edição brasileira do maior evento sobre cidades inteligentes do planeta, o Smart City Expo World Congress. O anúncio oficial foi feito nesta quarta-feira (15) durante o congresso deste ano em Barcelona, cidade que organiza e abriga o evento desde 2012. Uma delegação de 30 brasileiros está no evento, que soma representantes de 700 cidades de todo o mundo e mais de 400 especialistas.

O lema deste ano do congresso – que começou no dia 14 e termina nesta quinta, 16 – é “Empower Cities. Empower People” (“Capacitar Cidades. Capacitar Pessoas”, em tradução livre). A edição curitibana, que será hospedada na Expo Renault Barigui, tem a chancela da FIRA Barcelona Internacional, consórcio público espanhol formado pela Câmara de Comércio de Barcelona e pelo Governo da Catalunha. O iCities, empresa paranaense pioneira em soluções urbanas, é o organizador do Smart City Expo Curitiba 2018, com o apoio estratégico do World Trade Center Business Club.

Atrações

O Smart City Expo Curitiba 2018 reunirá 36 palestrantes nacionais e 18 estrangeiros ao longo de dois dias. Além do congresso, uma feira de exposições apresentará novidades das empresas participantes. A programação inclui uma série de cases de cidades que aplicaram o conceito de cidades inteligentes.

O evento vai explorar a inovação como motor de desenvolvimento econômico. O tema se desdobrará em quatro pilares de discussão: tecnologia disruptiva, governança, inovação digital e cidades sustentáveis do futuro.

Smart City Expo World Congress é a cúpula internacional de debate acerca do desenvolvimento de cidades inteligentes, que se realiza anualmente em Barcelona. Foto: Smart City World Congress 2017.Smart City Expo World Congress é a cúpula internacional de debate acerca do desenvolvimento de cidades inteligentes, que se realiza anualmente em Barcelona. Foto: Smart City World Congress 2017.

O tema do O Smart City Expo Curitiba 2018 se desdobrará em quatro pilares de discussão: tecnologia disruptiva, governança, inovação digital e cidades sustentáveis do futuro.O tema do O Smart City Expo Curitiba 2018 se desdobrará em quatro pilares de discussão: tecnologia disruptiva, governança, inovação digital e cidades sustentáveis do futuro.

“Um número crescente de áreas urbanas em todo o mundo vem abraçando os princípios da cidade inteligente para ajudar a promover o desenvolvimento inteligente. Entre as ações aplicadas, estão a inclusão de novas tecnologias na gestão das cidades, mudanças nas políticas públicas e envolvimento da comunidade nas decisões e projetos. Curitiba tem tradição nesse cenário e por isso apresenta a vocação natural para mostrar ao mundo como as cidades estão se engajando nessa transformação”, explica André Telles, diretor de marketing do iCities.

***
Por Stephanie D'Ornelas especial para o Haus da Gazeta do Povo.

Era um problema bastante peculiar aquele da São Paulo do início dos anos 1970. Com o crescimento desordenado da cidade, sobretudo da periferia, que vinha de décadas anteriores, quase 20 mil das 45 mil ruas estavam sem nome.

Eram denominadas por letras ou números, uma confusão. Em 1975, a Prefeitura criou o Projeto Cadastro de Logradouros, com o objetivo de criar um banco de nomes – com 25 mil verbetes – para ser usado então nas ruas.

Três consultores foram designados para elaborar o projeto: o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, o linguista Flávio di Giorgi (1933-2012) e o jornalista Lauro Machado Coelho. “Realizávamos seminários prévios com o levantamento de bibliografia a respeito de algumas características da história de São Paulo”, recorda-se Toledo.

“É possível perceber que há uma divisão em temas, como botânica, literatura, história”, diz o historiador Maurílio Ribeiro, chefe da Seção de Denominação de Logradouros Públicos, do Arquivo Histórico Municipal.

Para fazer a lista, foram recrutados estagiários. Eram estudantes de diversas áreas, sobretudo de Humanas. “Éramos em 30. Quinze de manhã e quinze à tarde”, lembra o jornalista Dirceu Rodrigues, de 62 anos, um dos membros da equipe – atualmente ele é assessor de comunicação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Eles ocupavam uma sala no último andar de um prédio na Avenida Senador Queirós, no centro.

“Para cada cem nomes que bolássemos, ganhávamos um dia de folga”, recorda-se ele. “Colocamonos então a criar todo tipo de nome. Saía de tudo: passarinhos, qual não tem? E lá íamos pesquisar passarinhos. E assim foi. Durante uns dois meses só fazíamos isso, pois quanto mais bolássemos, mais dias ficaríamos de folga.” O estímulo funcionou. “Chegávamos até a ir para a biblioteca atrás de livros que nos inspirassem novos nomes”, diz o publicitário Celso Rodrigues, de 61 anos.

Foto: Dirceu Rodrigues / Acervo PessoalFoto: Dirceu Rodrigues / Acervo Pessoal

Já se tornou famosa a história de que São Paulo tem uma rua chamada Borboletas Psicodélicas, no Jabaquara. Há também a Charanga do Circo, no Rio Pequeno, a Soneto da Fidelidade, no Jardim São Luís e, na verdade, um sem-número de outros logradouros públicos de alcunha, digamos, quase bizarra. Em comum: todas as vias públicas foram batizadas graças ao Banco de Nomes. “Outra das ruas que saíram de nossas mentes jovens e criativas foi a Rua Estilo Barroco, no Brooklin. Quem morava lá? Jânio Quadros. Só podia”, diz Dirceu. 

“Mas a nossa ideia era que os nomes fossem agrupados e cada tema concentrado em um mesmo bairro, o que deixaria cada região bastante interessante”, conta o publicitário José Tadeu da Fonseca, de 64 anos, que na época era estudante de Turismo. “O problema é que a denominação escapou do nosso controle e aí virou circo. Antes tivessem respeitado nosso padrão.”

Foto: Dirceu Rodrigues/ Acervo PessoalFoto: Dirceu Rodrigues/ Acervo Pessoal

Fã de música, Tadeu é responsável por boa parte das referências musicais na malha viária – como as citadas Borboletas Psicodélicas, trecho de obra musical, e Charanga do Circo, nome de peça para piano. “Claro que havia uma triagem e, às vezes, algum nome que sugeríamos era vetado”, diz Celso. 

Pesquisa de campo

“Nosso trabalho não era apenas criar os nomes. Também pegávamos mapas e íamos a campo conferi-los, porque havia uma discrepância entre os registros oficiais e as localidades de fato”, lembra o jornalista Gerson de Faria, de 62 anos – na época, estudante de Cinema. 

“Debruçávamos sobre aquelas cópias imensas de mapas e ficávamos riscando as ruas confirmadas”, diz a produtora cultural Sandra Lacal, de 62 anos, então estudante de Letras. “Geralmente, era muito difícil localizar, na vida real, as ruazinhas dos mapas”, diz Tadeu. “Íamos em uma Kombi cinza da Prefeitura, com o brasão da cidade estampado na porta, sempre em dupla.” 

“Foi uma experiência de vida. Esse trabalho proporcionou a nós todos a formação de um grupo muito legal. Somos amigos até hoje”, diz a costureira Vera Moraes, de 62 anos – que, na época, era estudante de Jornalismo.

***
Por Edison Viega em seu blog Paulistices do Estadão.

Na cadeira do restaurante de José Silvane Almeida, o Restaurante do Silvio, quem olha para cima vê os prédios espelhados de multinacionais e de um dos shoppings centers mais luxuosos de São Paulo. À frente enxerga os barracos de madeira e de alvenaria sem pintura, cenário típico de bairros de periferia.

Moradores da favela Panorama, em Cidade Jardim - bairro nobre na zona sul paulistana -, dividem as mesas com publicitários e gerentes de grandes empresas. O encontro entre a classe média e a baixa ocorre diariamente dentro da favela a partir do meio-dia. Por quê?

Ninguém quer gastar muito dinheiro para almoçar, afinal. No self-service de Almeida, a refeição completa sai por R$ 22 - come-se à vontade. A poucos metros dali, no Shopping Cidade Jardim, um prato executivo não custa menos de R$ 35, segundo quem trabalha nas redondezas. Em alguns restaurantes, o preço passa de R$ 80.

O shopping de luxo era a única opção de almoço para funcionários de um prédio comercial vizinho ao shopping. Foi então que, quatro anos atrás, Almeida abriu seu ponto na favela. O foco, diz ele, era nos trabalhadores que não têm condições de pagar todos os dias a alimentação no Cidade Jardim, mas acabou atraindo também quem tem dinheiro mas prefere economizar.

Almeida credita o sucesso de seu restaurante, que tem até fila para entrar, a seu tempero de "comida caseira" e ao seu empreendedorismo, mas também à oportunidade que a crise econômica lhe deu. "Se meus clientes almoçam no shopping, gastam o VR (vale-refeição) em 15 dias. Aqui, dura o mês inteiro. As pessoas querem economizar", diz.

Por causa do preço baixo, filas se formam na frente do restaurante. Foto: Diego Padgurschi.Por causa do preço baixo, filas se formam na frente do restaurante. Foto: Diego Padgurschi.O publicitário Guilherme Linares, de 26 anos, comia, como entrada, uma porção de batatas fritas e tomava um refrigerante sentado a uma mesa do lado de fora, na viela - o cardápio do dia tinha como pratos principais filé de merluza, moqueca de cação e costela com molho barbecue.

"Recebo R$ 30 de alimentação por dia. Se eu comer no shopping, o VR dura 10 dias. Lá, a comida é cara e industrial. Aqui é comida caseira", diz Guilherme Linares, de 26 anos, publicitário de uma agência de propaganda.

Talita Feba, publicitária de 27 anos, afirma que amigos e parentes estranham quando ela conta que almoça diariamente em uma favela. "Dizem: 'mas não é perigoso?' Eu respondo que não, é tranquilo, bom e barato", diz.

Revertendo uma tendência de alta nos últimos anos, os preços de alimentos e bebidas acompanhados pelo IPCA - índice de inflação calculado pelo IBGE - tiveram queda de 2% de janeiro a outubro. O item "alimentação fora do domicílio" também vem cedendo, mas em ritmo mais lento. Nos últimos 12 meses, a inflação agregada no Brasil desacelerou para 2,2%, ante alta de 10,67% em 2016.

Achava que era perigoso almoçar na favela'

No Restaurante do Silvio, refeição completa custa R$ 22; no shopping ao lado, preço mais barato é R$ 35. Foto: Diego Padgurschi.No Restaurante do Silvio, refeição completa custa R$ 22; no shopping ao lado, preço mais barato é R$ 35. Foto: Diego Padgurschi.

A favela Panorama sobreviveu à transformação de um terreno ao lado em um dos shoppings mais caros da cidade - no mesmo complexo há condomínios de apartamentos milionários. Parte da área da comunidade é usada como estacionamento para carros cujos donos também trabalham em empresas da região.

O cozinheiro Almeida, de 46 anos, nem mora ali: vive em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo. Ele nasceu em Araioses, no Maranhão, e migrou para São Paulo em 1991.

Trabalhou anos como encanador, até abrir seu primeiro negócio na favela Real Parque, também na zona sul. Vendia 3 mil pães por dia em sua padaria, mas, em 2011, a loja foi consumida pelo fogo em um incêndio que destruiu parte da comunidade.

"Eu tinha investido R$ 300 mil na padaria, todo o dinheiro que guardei. Fiquei lelé da cabeça", conta. "Abri o restaurante aqui (na Panorama) para os operários do shopping, depois vieram os seguranças. O boca a boca aumentou e os funcionários das empresas começaram a vir também". Hoje, o estabelecimento, que surgiu em uma garagem, tem três andares e mesas dispostas na frente, em uma viela.

O ex-encanador José Silvane Almeida hoje tem oito funcionárias para conseguir atender seus clientes no restaurante. Foto: Diego Padgurschi.O ex-encanador José Silvane Almeida hoje tem oito funcionárias para conseguir atender seus clientes no restaurante. Foto: Diego Padgurschi.

O restaurante tem outros oito funcionários e serve em média 150 refeições por dia. O sucesso do local entusiasmou outros restaurantes da favela - já existem outros três restaurantes populares, que ficam cheios a ponto de surgirem filas do lado de fora.

A analista de estratégia Fernanda Andrade, de 29 anos, conta que, inicialmente, ficou com receio de sair do escritório para almoçar na favela. "Eu tinha um pouco de preconceito, achava que era perigoso. Hoje, na minha empresa, a maioria das pessoas vem comer aqui", conta ela, que trabalha em uma multinacional ao lado.

Quentinhas por R$ 13

O restaurante na comunidade Panorama não é o único com esse perfil em São Paulo. Em Paraisópolis, por exemplo, vizinha ao bairro do Morumbi, existe o Café & Bistrô Mãos de Maria, que funciona em uma laje da favela. Criado por uma associação de mulheres, o restaurante serve almoço por até R$ 25 e tem shows de música para frequentadores da região e também de fora.

Já na favela do Coliseu, na Vila Olímpia - bairro comercial na zona oeste paulistana -, a cozinheira Regina Alves dos Santos, de 55 anos, produz suas marmitas dentro de um barraco de madeira. Ao lado, ela administra um boteco cujo happy hour recebe funcionários de grandes empresas da região.
Bar e restaurante de Regina Alves dos Santos, na favela Coliseu, recebe funcionários de empresas da Vila Olímpia. Foto: Diego Padgurschi.Bar e restaurante de Regina Alves dos Santos, na favela Coliseu, recebe funcionários de empresas da Vila Olímpia. Foto: Diego Padgurschi.

A comunidade é vizinha do shopping de luxo JK Iguatemi e dos prédios espelhados da construtora Camargo Corrêa, onde Santos entrega suas "quentinhas" diariamente - elas saem por R$ 13. "Pessoal da Camargo Corrêa vem aqui para o happy hour. Até meu cliente do Bradesco aparece", diz ela. "Pessoal vem amuado, com medo de ser assaltado, mas depois vê que é tranquilo, que a comida é boa e a cerveja é gelada."

Santos é pernambucana de Araripina e migrou para São Paulo no final dos anos 1970 para casar e melhorar de vida. Por uma década trabalhou como metalúrgica em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde viveu o período de greves comandadas pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.

Já nos 1990, abriu seu bar na comunidade do Coliseu, quando a maioria dos prédios da região ainda não existia e a favela era bem maior. Hoje, a Coliseu vive espremida entre os prédios espelhados.

O bar da cozinheira Regina Alves dos Santos faz sucesso entre engravatados que trabalham na Vila Olímpia. Foto: Diego Padgurschi.O bar da cozinheira Regina Alves dos Santos faz sucesso entre engravatados que trabalham na Vila Olímpia. Foto: Diego Padgurschi.

Assim como o colega da Panorama, ela também sofreu com um incêndio. Há quatro anos, alguns barracos da favela pegaram fogo. Ela não se lembra como se salvou: quando as chamas começaram, correu para o andar de cima do bar. "Acordei na rua, com os bombeiros me atendendo. Meu rosto e minhas mãos ficaram queimados. Dias depois, eu voltei a trabalhar".

Com o dinheiro que ganha no bar e vendendo marmitas, a cozinheira conseguiu comprar quatro carros - uma de suas paixões.

'O shopping é que incomoda a gente'

A prefeitura promete há décadas que vai construir habitações sociais na área da Coliseu. A líder comunitária Rosana Maria dos Santos, de 47 anos, ainda tem esperança. "Os prédios apareceram e engoliram a comunidade, que existe há 70 anos. Mas parece que agora a construção das moradias vai começar", diz.

Marmitas da cozinheira Regina Alves dos Santos custam R$ 13 e são vendidas em diversas empresas de São Paulo. Foto: Diego Padgurschi.Marmitas da cozinheira Regina Alves dos Santos custam R$ 13 e são vendidas em diversas empresas de São Paulo. Foto: Diego Padgurschi.Nascida na área, a líder comunitária diz que a favela, que fica em uma terreno nobre, sofre com especulação imobiliária. "O shopping fica incomodado com a favela. Mas estamos aqui antes deles, quando ninguém queria morar aqui. Eles é que incomodam a gente", diz.

Já a cozinheira Regina Alves dos Santos fica feliz quando vê seu bar cheio de moradores da Coliseu e de gente de outras classes sociais mais elevadas. "Quando vejo o pessoal das empresas aqui, nem acredito. Mas fecho os olhos e digo: a vida é assim mesmo, pobre aqui e o rico do lado. Todo mundo junto", diz.

Happy hour em bar na favela Coliseu atrai funcionários de empresas vizinhas. Foto: Diego Padgurschi.Happy hour em bar na favela Coliseu atrai funcionários de empresas vizinhas. Foto: Diego Padgurschi.

***
Por Leandro Machado da BBC Brasil em São Paulo.

Ainda não se sabe exatamente quando, mas, entre 5 e 36 milhões de anos atrás, um corpo sólido saiu de algum ponto do Sistema Solar, cruzou o espaço interplanetário, atravessou a atmosfera terrestre em alta velocidade, deixando um rastro de fogo, e se chocou violentamente com o solo num ponto onde hoje fica a região de Parelheiros, na zona sul da cidade de São Paulo.

O impacto abriu uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro, com cerca de 300 metros de profundidade e uma borda soerguida de 120 metros.

Desde então, ela foi sendo preenchida com sedimentos e restos de vegetação, que constituem um verdadeiro arquivo das mudanças climáticas da região e do planeta, bem como das florestas tropicais. Agora, pesquisadores estão abrindo esse arquivo por meio de perfurações, que vão revelar essas alterações, ocorridas no último 1 milhão de anos.

O trabalho começou em agosto e está sendo realizado por uma equipe de cientistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD).

"A cratera é uma curiosidade geológica única, que acumulou sedimentos durante milhões de anos", diz a pesquisadora Marie-Pierre Ledru, do IRD, que faz parte do grupo de estudo. "Por isso, queremos reconstruir a evolução do clima e da biodiversidade ao longo do Pleistoceno [período que vai de 2,58 milhões a 11,7 mil anos atrás] nas regiões tropicais."

Mais especificamente, o objetivo é reconstruir a evolução da Mata Atlântica, sua expansão e regressão e a formação e extinção de espécies, a variabilidade climática e, sobretudo, a sucessões de ciclos da insolação da Terra.

Ou seja, por meio do estudo dos sedimentos acumulados ao longo do tempo na cratera, os pesquisadores querem reconstituir as mudanças na floresta e compará-las com as alterações do clima causadas por tais ciclos.

André Oliveira Sawakuchi, do Instituto de Geociências da USP, também membro do projeto, explica que a quantidade de energia que o planeta recebe do Sol varia em ciclos de aproximadamente 26 mil, 41 mil e 100 mil anos, devido à mudança da órbita terrestre.

"Os ciclos de 100 mil anos foram responsáveis pelos períodos glaciais e interglaciais do Quaternário [de 2,58 milhões de anos até os dias de hoje]", diz.

De vulcão a meteoro

Indicada pela linha pontilhada, cratera tem 3,6 quilômetros de diâmetro e cerca de 300 metros de profundidade. Foto:Evanildo da Silveira.Indicada pela linha pontilhada, cratera tem 3,6 quilômetros de diâmetro e cerca de 300 metros de profundidade. Foto:Evanildo da Silveira.

A cratera de Colônia, como é chamada agora, foi descoberta no início da década de 1960, por meio de fotos aéreas e, um pouco mais tarde, imagens de satélite.

Apesar de sua forma circular característica, por um longo tempo sua origem permaneceu desconhecida. Havia hipótese de que teria sido causada por um corpo celeste, como um cometa ou meteoro. Mas ela também poderia ser a boca de um vulcão extinto.

Só recentemente ficou comprovado que o buraco foi causado por um objeto vindo do céu. Em 2013, o geólogo Victor Velázquez Fernandez, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, começou a colher evidências que comprovaram a hipótese do impacto.

Para seu trabalho, Fernandez contou com a colaboração da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que havia realizado perfurações no interior da cratera até a rocha dura, a 300 metros de profundidade, em busca de água potável. Isso tornou possível o estudo do seu interior rochoso, com a análise microscópica dos sedimentos.

"Nas amostras coletadas, encontramos várias evidências de que Colônia foi causada por um impacto. Uma delas, bastante forte, foi a transformação de vários minerais, em particular, quartzo e zircão. Para que isso ocorra, é necessária uma pressão superior a 40 quilobars [40 mil vezes a pressão atmosférica padrão] e uma temperatura da ordem de 5.000ºC."

Segundo Fernandez, esses níveis indicam uma potente liberação de energia, como a resultante de um impacto na superfície terrestre de um objeto proveniente do espaço interplanetário.

Equipe de cientistas envolve parceria de centros de pesquisa do Brasil e da França. Foto: Evanildo da Silveira..Equipe de cientistas envolve parceria de centros de pesquisa do Brasil e da França. Foto: Evanildo da Silveira..Ele divulgou os resultados da sua pesquisa num artigo científico, publicado em 2015, no International Journal of Geosciences. Com isso, Colônia entrou na lista das crateras de impacto cientificamente comprovadas do Earth Impact Database (EID), uma base de dados internacional mantida pelo Centro Planetário e Espacial da Universidade de New Brunswick, no Canadá.

Há apenas outras 187 no mundo, das quais a de São Paulo é uma das duas únicas habitadas, com cerca de 40 mil moradores no bairro Vargem Grande, em seu interior, na região de Parelheiros, a cerca de 40 km da Praça da Sé, o marco zero da capital paulista.

A outra fica em Ries, na região da Baviera, na Alemanha, onde o homem vive desde o período paleolítico ou idade da pedra lascada, que coincide com o Pleistoceno. "Independentemente disso, a Cratera de Colônia é um laboratório natural do ponto de vista geológico, biológico e, inclusive, para estudo de impacto ambiental", diz Fernandez.

É justamente disso que querem se aproveitar os pesquisadores da USP, Unicamp e IRD. Eles vão retirar amostras do solo com 50 metros de profundidade, armazenados em longos tubos de aço. Chamados de testemunhos, o material é uma mostra das camadas de sedimentos acumuladas ao longo do tempo, que poderá contar a história do local.

"A expectativa é que com 50 metros conseguiremos reconstituir os últimos 800 mil anos da Mata Atlântica", explica Sawakuchi. "Até agora, foram coletados dois, que passaram por análise preliminar na USP e estão sendo transportados para a França (um deles já está lá), onde serão abertos em janeiro para tomada de amostras, que serão estudadas por pesquisadores de diversas especialidades."

Nova frente de estudo

Objetivo da pesquisa é reconstruir as respostas da Mata Atlântica à variabilidade climática ao longo do tempo. Foto: Evanildo da Silveira.Objetivo da pesquisa é reconstruir as respostas da Mata Atlântica à variabilidade climática ao longo do tempo. Foto: Evanildo da Silveira.

Entre o que será feito está verificar a idade do material coletado pelos testemunhos por meio de vários métodos, como carbono 14, luminescência óptica estimulada (OSL) e paleomagnetismo. "Com isso, buscamos estabelecer uma escala de tempo para as mudanças que queremos reconstituir por meio do estudo de indicadores geoquímicos e biológicos", explica Sawakuchi.

"Também vamos analisar os indicadores geoquímicos (composição química e mineralógica, isótopos) e biológicos (pólens, diatomáceas, fragmentos de carvão) que se depositaram nos sedimentos ao longo do tempo, para reconstruir as mudanças de composição florística da mata em relação as mudanças do clima e a energia térmica (insolação) que recebe a Terra", acrescenta Marie-Pierre.

De acordo com ela, o trabalho é importante, porque não há registro contínuo do comportamento da floresta tropical de baixa altitude em termos dos vários ciclos glaciais-interglaciais do Quaternário.

"Em trabalhos anteriores, não foi possível avaliar se a Mata Atlântica responde aos ciclos glaciais/interglaciais do hemisfério norte, apenas aos ciclos de precessão da insolação (~26.000 anos) e que o índice de biodiversidade variou também em relação às condições climáticas", lembra.

A ideia agora é avaliar isso com mais detalhes e analisar um intervalo de tempo longo o suficiente para registrar os diversos ciclos glaciais/interglaciais.

***
Por Evanildo da Silveira de São Paulo para a BBC Brasil.

Publicado pela Editora Annablume, o livro Vilanova Artigas. Projetos residenciais não construídos traz novas análises e visões sobre o trabalho do arquiteto paulista João Batista Vilanova Artigas.

Trata-se da pesquisa desenvolvida por Ana Tagliari que se consolidou em sua tese defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

O texto foi adaptado para livro com as várias imagens produzidas pela pesquisa e desenhos originais do acervo da Biblioteca da FAU/USP. Além de Ana Tagliari, assinam o livro Rafael Antonio Cunha Perrone e Wilson Florio.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.
São 32 projetos residenciais não construídos feitos entre os anos de 1945 e 1981 e redesenhados por pesquisadores para uma melhor interpretação da planta, corte e elevação dos projetos de Artigas.

O material original estava disponível na Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e foi estudado por Ana Tagliari, doutora pela FAU, Wilson Florio, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Rafael Perrone, professor da FAU.

“[A pesquisa] Não foi a busca de uma fórmula ou padrão, como muitos desejam identificar, mas a busca incessante de novas e adequadas proposições que marcaram a poética espacial de Vilanova Artigas”, explica Perrone.

Para a construção do livro, também foram feitas maquetes para observar a espacialidade de cada projeto. Segundo os pesquisadores, Artigas buscava a conversa entre os espaços e o favorecimento das relações e convívio humanos.

Vilanova Artigas

João Batista Vilanova Artigas. Foto: Cristiano Mascaro.João Batista Vilanova Artigas. Foto: Cristiano Mascaro.João Batista Vilanova Artigas (Curitiba, 23 de junho de 1915 — São Paulo, 12 de janeiro de 1985) foi um arquiteto brasileiro cuja obra é associada ao movimento arquitetônico conhecido como Escola paulista.[

Embora tenha nascido na cidade de Curitiba, Artigas é considerado um dos principais nomes da história da arquitetura de São Paulo, seja pelo conjunto de sua obra aí realizada, seja pela importância que teve na formação de toda uma geração de arquitetos.

Graduando-se engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Artigas se envolveu ainda estudante com um grupo de artistas de vanguarda (dentre os quais destacar-se-ia mais tarde o pintor Alfredo Volpi) conhecido como Grupo Santa Helena, devido ao seu constante interesse pela atividade do desenho — tema cujo estudo viria a se tornar um dos elementos mais presentes em sua obra.

A FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (1961), obra máxima de Artigas. Foto: Divulgação.A FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (1961), obra máxima de Artigas. Foto: Divulgação.Tendo se tornado professor da Escola Politécnica, Artigas fez parte do grupo de professores que deu origem à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU). Tornou-se um dos professores mais envolvidos com os rumos desta nova escola: é de sua autoria o projeto de reforma curricular implantado na década de 1960 que redefiniria o perfil de profissional formado por aquela escola e foi responsável, junto ao arquiteto Carlos Cascaldi, pelo projeto da nova sede da Faculdade: um edifício localizado na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira que leva seu nome e sintetiza seu pensamento arquitetônico. A reforma curricular desenhada por Artigas foi também importante ao definir uma séria de novas possibilidades de prática e atuação profissional aos novos arquitetos, associando a eles áreas como o desenho industrial e a programação visual, a partir da crença de que tal profissional deveria participar ativamente no desenvolvimento de todos os processos industriais requeridos pelo projeto nacional-desenvolvimentista então em voga no país.

O projeto original para a sede do São Paulo FC (1953). Imagem: Divulgação.O projeto original para a sede do São Paulo FC (1953). Imagem: Divulgação.Em 1969, por determinação do regime militar vigente no país, foi afastado da FAU e obrigado a se exilar brevemente no Uruguai, devido à sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro(PCB). Embora tenha vivido no Brasil na década de 1970, foi impedido de atuar plenamente pelo regime. Seu retorno à faculdade se deu em 1979 - fruto do processo de anistia instaurado no país a partir daquele ano - e foi celebrado pelos alunos. Continuaria a lecionar na FAUUSP até sua morte, em 1985, ano em que lhe é atribuído o cargo de professor titular. Ironicamente, neste período de redemocratização, foi professor da disciplina Estudos de Problemas Brasileiros, criada pela ditadura militar e imposta pelo regime às faculdades brasileiras como instrumento de controle ideológico. Durante este curso, subverteu o programa clássico da disciplina e levou à FAU diversas personalidades do mundo artístico, político e cultural, intelectuais de esquerda que também haviam sido perseguidos pelo regime, entre eles o pintor Aldemir Martins, o ator Juca de Oliveira e o então cardeal-arcebispo de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns.

Serviço

Livro "Vilanova Artigas. Projetos residenciais não construídos" 
Autores: Ana Tagliari, Rafael Perrone e Wilson Florio.
Prefácio de Rosa Artigas.
Formato: 21x21 cm, 246 páginas.
Editora Annablume, 2017.

***
Fonte: Jornal da USP.