As dicas de Machado de Assis para usar o transporte público, comentadas e atualizadas - São Paulo São


Em 1883, Machado de Assis escreveu uma divertida crônica sobre regras de comportamento e convivência dentro do transporte público. Intitulado “Como comportar-se no bonde”, o texto foi republicado no dia 15 de maio pelo jornal “O Globo”.

Os bondes, primeiros veículos coletivos do país, tinham chegado às capitais brasileiras cerca de 20 anos antes de o escritor fazer seu “manual de etiqueta”.

O texto ridiculariza passageiros que abrem a perna e tomam espaço demais, fala do incômodo de sentar perto de alguém resfriado e do constrangimento de cruzar com um desconhecido que insiste em puxar papo. Mostra que algumas situações inconvenientes que vemos hoje no metrô, ônibus ou trem já geravam debate (e risos, ainda que nervosos) há muito tempo.

Hoje, aumentaram as possíveis situações inconvenientes. Comparamos as expectativas e as piadas de Machado sobre o que não fazer dentro do bonde com situações análogas que acontecem todo dia com quem pega ônibus, metrô ou trem - e o que as regras de etiqueta atuais dizem sobre elas:

Sobre ocupar o espaço alheio

“Da posição das pernas:

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.”

O hábito de sentar-se com as pernas muito abertas ainda é fruto de incômodo, especialmente para mulheres, e já foi tema de campanha em vários lugares do mundo. O chamado ‘manspreading’ tem umTumblr que reúne fotos de homens que ocupam espaço demais nos bancos de trens e foi alvo de uma ação do metrô de Londres para aconselhar os passageiros homens a sentarem com as pernas fechadas.

“Da leitura dos jornais:

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.”

Jornais não costumam mais ser um problema no transporte coletivo. Eles foram substituídos pelo celular, que é pequeno demais para atrapalhar alguém fisicamente - mas pode fazer um estrago na paz alheia quando toca música alta.

Os manuais de etiqueta em transporte público contemporâneos frequentemente fazem referência a inadequação de escutar música alta no celular em público, e há campanhas recorrentes em metrôs do mundo todo para inibir a prática e pedir o uso de fones de ouvido.

Quanto a incomodar os outros fisicamente, como o jornal na crônica de Machado, os vilões do século 21 no ônibus devem ser as mochilas enormes. Os manuais atuais de etiqueta no transporte público pedem cuidado com os outros passageiros ao carregar objetos grandes.

Sobre estar resfriado
 
“Dos encatarroados:


Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.

Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.

Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

[...]

Dos perdigotos:

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.”

Pouco mudou desde 1883: continua sendo muito desagradável sentir a tosse de alguém na nuca ou tomar contato com qualquer tipo de fluído corporal alheio. A regra de etiqueta atualizada, aqui, vale para qualquer situação em que você pretende tossir ou espirrar em público: cobrir a boca e usar lenços. Há quem prefira as máscaras cirúrgicas.

Sobre cheiros desagradáveis

Dos quebra-queixos [cigarros ou charutos de má qualidade]:

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bond, e a segunda ao descer.”

Cigarros e charutos são proibidos dentro de transporte coletivo no Brasil inteiro e em muitas outras partes do mundo. Não estão proibidos, no entanto, passar desodorante spray dentro do vagão, comer comidas com cheiro forte, e usar perfumes muito carregados. Essas coisas continuam sendo um problema em manuais de etiquetahoje em dia.

Das pessoas com morrinha[mau-cheiro]

As pessoas com morrinha podem participar do bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela.”

Elas já eram um problema em 1883 - e seguem sendo mencionadas nos manuais de etiqueta, que recomendam incisivamente o uso de desodorante sem perfume antes de pegar o ônibus. Um manual até sugere, se você estiver sofrendo de bromidrose axilar, - o mau-cheiro nas axilas - que evite usar as barras no corredor.

Sobre conversar no transporte coletivo

Dos amoladores:
 

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. 
 
Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.”

Esta aversão ao bate-papo com estranhos narrada por Machado é uma regra de etiqueta que varia de cultura para cultura. Em lugares como Londres e Berlim, puxar conversa com desconhecidos no transporte público pode ser bastante malvisto.

No Brasil, de maneira geral, não é considerado falta de educação - mas convém ficar atento para a maneira como o outro responde à sua tentativa de interação. Todo mundo tem dias de mau humor.

Sobre cortesia e gentileza, a maioria dos manuais contemporâneosrecomenda evitar o confronto com passageiros mal educados ou rudes, se lembrar de pedir desculpas e licença sempre que necessário e sorrir para outros que demonstrem gestos de boa vontade sempre que possível.

“Das conversas:

Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.”

Nada mudou quanto a esta recomendação: todos os manuais de etiqueta contemporâneos sugerem que conversas em qualquer espaço público, especialmente em lugares fechados, devem ser discretas - que durem pouco ou que sejam feitas em baixo volume.

Isso vale, em 2016, para conversas pelo celular.

Sobre ceder o lugar

Da passagem às senhoras:

Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas como porque é uma grande má-criação.”

Em 2016, as regras de etiqueta rejeitam a necessidade mencionada por Machado de ceder o assento às mulheres. No entanto, permanece parte da boa educação, e é mesmo lei, que qualquer pessoa dê o lugar - não apenas o assento reservado - a mulheres grávidas e pessoas idosas ou deficientes de qualquer gênero.

Manuais falam também da necessidade de demonstrar gentileza e cortesia de maneira geral, com qualquer um, e não apenas com mulheres - o cavalheirismo não faz parte da etiqueta do transporte público em 2016.

No entanto, embora a recomendação de Machado para não ser ‘mal criado com as senhoras’ pareça antiquada, ela ainda vale quando trata-se de incentivar o respeito dos homens para as mulheres no transporte público.

Os números de abuso de mulheres nesses espaços não são altos apenas no Brasil, mas no mundo todo: os abusos sexuais contra mulheres são alvos de campanhas nos metrôs de São Paulo e Londres, por exemplo.

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Ana Freitas no Jornal NEXO.