São Paulo, 1963: um Pan-Americano modesto e lucrativo - São Paulo São

“Sucesso Absoluto! Trinta milhões de cruzeiros: Pan-Americanos darão lucro.”

No dia 30 de abril de 1963, a extinta versão impressa de “A Gazeta Esportiva” celebrava em manchete o sucesso financeiro da quarta edição dos Jogos Pan-Americanos. São Paulo recebeu de 20 de abril a 5 de maio 1.665 participantes, o menor número de atletas na história da competição, em uma organização enxuta e barata – o Pan do Rio, em 2007, custou quase R$ 4 bilhões. Hoje, os Jogos de 52 anos atrás parecem uma divertida obra de ficção.

“Usamos instalações que já existiam. Os clubes se organizaram e receberam as modalidades. E quando um clube se propunha a isso, era ‘se vira': usava seu dinheiro, sua sede e seus funcionários”. Em 2007, pouco antes dos Jogos do Rio de Janeiro, entrevistei Dirceu Pires, então com 93 anos, que tinha sido tesoureiro do Pan-Americano de 1963. Foi a cabeça que fez com que a competição fosse lucrativa e não desse prejuízo ao bolso do contribuinte. “Só quem foi reembolsado foi a Academia Militar das Agulhas Negras, que recebeu o pentatlo e depois nos mandou a nota [risos]”.

Os Jogos foram realizados com doações, não de dinheiro, mas de material, como colchões, panelas, camas e uniformes. A Federação Paulista de Futebol emprestou seus bilheteiros e o “ordenado”, como disse Dirceu, foi pago pela própria entidade. O restaurante Fasano forneceu as refeições dos atletas. Os doadores, boa parte deles empresários e comerciantes da cidade, ganhavam uma citação em “A Gazeta Esportiva”. Nas edições do jornal naquele ano de 1963, era comum encontrar fotos destas pessoas que tornaram possível a realização do Pan em São Paulo.

“Não havia outra fonte de renda a não ser os ingressos, por isso não tinha cortesia. Eu dei dinheiro para meus filhos comprarem entradas. Políticos pediam, mas não receberam. Só pagando”, contou Pires. Segundo o tesoureiro do Pan, o lucro foi repassado ao Comitê Olímpico Brasileiro, que teria usado o dinheiro para comprar sua sede, no Rio.

A organização “modesta” foi a marca do Pan-Americano que teve o melhor desempenho do Brasil em toda a história da competição. O país foi segundo no quadro de medalhas, atrás dos Estados Unidos, feito em boa parte alcançado por estar em casa e em uma edição com poucos atletas: um em cada quatro competidores era brasileiro e apenas 22 países estiveram no evento – Toronto-2015 tem quase o dobro: 41.

Além de modesta, foi uma edição com pitadas de tensão: os Jogos aconteceram um ano depois da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, que causou a maior crise entre americanos e soviéticos e deixou o planeta sob risco de guerra nuclear. Boa parte dos paulistanos, anticomunistas e com o episódio na memória, adotou os americanos, como conta Dirceu Pires: “Os cubanos ouviram algumas das maiores vaias que eu presenciei”. A vingança aconteceu no beisebol, quando a ilha levou o ouro após bater os EUA em duas oportunidades, uma delas por 13 a 3.

 



O charmoso – e lucrativo – Pan de 1963 teve no lado brasileiro três grandes joias do esporte. Maria Esther Bueno já era uma das grandes do mundo do tênis, com dois títulos de Wimbledon, e ganhou ouro em simples e prata em duplas. Recebeu as medalhas e meses depois, em setembro, conquistaria o US Open pela primeira vez. No futebol, Carlos Alberto Torres e Jairzinho, ambos com 18 anos, ajudaram o país a ficar com o ouro em um torneio de pontos corridos contra Argentina (prata), Chile (bronze), Uruguai e Estados Unidos. “Os brasileiros venceram até jogo por mais de dez gols, foi uma festa”, lembra Dirceu. O resultado foi 10 a 0 contra os americanos.

“Nossa opção foi modesta. E deu certo”, me disse Dirceu Pires no apartamento em que morava, no bairro do Paraíso. Ele tinha razão. E seu legado jamais foi reconhecido.

Filmete da abertura do Pan, 1963: https://goo.gl/lfhKKl

Rodrigo Borges, Esporte Final.