Livro ‘Vestígios da Memória‘ mostra a riqueza da arquitetura paulista - São Paulo São

Do litoral ao interior, o Estado de São Paulo possui uma imensa riqueza arquitetônica espalhada por seu território. É o que se constata ao folhear o recém-lançado livro Vestígios da Memória – Fotografias do Patrimônio Arquitetônico Paulista, organizado pela mestranda do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP Ana Lúcia Queiroz, em parceria com a fotógrafa Márcia Zoet.

A Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, em Guarujá, com a orla de Santos ao fundo. Foto: Marcos PifferA Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, em Guarujá, com a orla de Santos ao fundo. Foto: Marcos PifferO livro traz fotografias em preto e branco de 34 obras arquitetônicas na ordem cronológica em que esses monumentos surgiram, desde a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, no Guarujá, que começou a ser erguida em 1584, até o Auditório Beethoven, em Campinas, datado de 1976. Produzidas por 19 fotógrafos, as imagens são acompanhadas de textos que contam a história de cada edificação. “A ideia é que as imagens e informações deste livro, como os cartões-postais de lugares não visitados, sejam mensagens a despertar a curiosidade, convites para que se desbravem os vestígios da cultura material paulista”, escreve na introdução a arquiteta Silvia Ferreira Santos Wolff, doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, que atua na Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e leciona na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A Chácara do Visconde de Tremembé, em Taubaté. Foto: Chico FerreiraA Chácara do Visconde de Tremembé, em Taubaté. Foto: Chico FerreiraJá entre as obras arquitetônicas instaladas na capital paulista, Vestígios da Memória destaca a Vila Penteado, na rua Maranhão, número 88, no bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo. Projetada pelo arquiteto sueco Carlos Ekman para ser utilizada como residência de Eglatina Álvares Penteado Prado – filha do conde Antônio Álvares Penteado -, então recém-casada com o engenheiro Antonio Prado Júnior, ligado a uma das mais tradicionais famílias da cidade, a obra lançou o estilo art nouveau em São Paulo e hoje é considerada um dos seus mais representativos exemplares. “Construída com mais de 60 cômodos, distribuídos em dois pavimentos ricamente decorados com pinturas, estátuas, mobiliário, vitrais e mármores europeus, ocupava um grande terreno com jardins, quadra de tênis, lago, cachoeira e horta”, descreve o livro. 

A Vila Penteado, no bairro de Higienópolis, na capital paulista. Foto: Márcia ZoetA Vila Penteado, no bairro de Higienópolis, na capital paulista. Foto: Márcia Zoet

“Uma monumentalidade que exibia aos passantes e visitantes, no dia a dia ou em festas e recepções, os valores culturais da alta burguesia cafeeira de São Paulo.” Ainda de acordo com o livro, a residência de dona Eglatina foi utilizada pela família Penteado de 1903 a 1938, permaneceu desocupada por dez anos e em 1948 foi doada pelos herdeiros à USP, a fim de sediar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). A foto que acompanha o texto sobre a Vila Penteado é de Márcia Zoet.

Templos religiosos também fazem parte do patrimônio arquitetônico paulista, como mostra Vestígios da Memória. Um deles é a imponente Catedral de Assis. “Como na maioria das cidades brasileiras, o povoamento de Assis se iniciou em torno de uma Igreja Católica: uma capela de pau a pique coberta por sapé. Nesse mesmo local, lembrando a fundação da cidade, está erguida a catedral.” Em 1914, a Estrada de Ferro Sorocabana chegou a Assis, abrindo caminho para o café e dizimando o que restava dos povos nativos. 

A Catedral de Assis. Foto: Mauricio Simonetti.A Catedral de Assis. Foto: Mauricio Simonetti.

Além da modernidade, os trilhos levaram à cidade a dinamização da economia e novos católicos. “A capela de madeira que havia substituído a primeira construção de pau a pique já não representava nem comportava essa comunidade em constante crescimento.” A paróquia deu início, então, à construção de uma igreja maior, inaugurada em 1926, retratada, no livro, por Mauricio Simonetti.

O Auditório Beethoven, em Campinas. Foto: Mauricio SimonettiO Auditório Beethoven, em Campinas. Foto: Mauricio Simonetti

Sobre o Auditório Beethoven, também conhecido como Caixa Acústica de Campinas – um dos equipamentos do Parque Portugal, às margens da Lagoa do Taquaral -, Vestígios da Memória informa que ele foi concebido pelo arquiteto Igor Sresnewsky, especialista em acústica para teatros ao ar livre, que em seu projeto se inspirou no auditório do Parque Damrosch, em Nova York, e em estudos da acústica dos teatros da Grécia antiga. “O arquiteto inovou construindo bancos de concreto ressonantes, ou seja, ocos e com combinações variadas, permitindo a reverberação perfeita dos sons.” A foto é de Mauricio Simonetti.

Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo em São Paulo (1920). Foto: Marcia Zoet.Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo em São Paulo (1920). Foto: Marcia Zoet.

Outros patrimônios arquitetônicos paulistas contemplados por Vestígios da Memória são o Complexo Ferroviário de Paranapiacaba, em Santo André, de 1867, o Theatro Municipal de São João da Boa Vista, de 1914, as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, em São Paulo, de 1920, e o Depósito de Locomotivas de Araçatuba, de 1921. O livro destaca ainda a Estação Ferroviária de Araraquara (1912), o Hotel Cariani, de Bauru (1921), o Matadouro Municipal de Presidente Prudente (1929), o Edifício Martinelli, em São Paulo (1929), e a Igreja Santa Rita de Cássia, em Fernandópolis (1960), entre outras obras.


Serviço

Livro: Vestígios da Memória – Fotografias do Patrimônio Arquitetônico Paulista.
Ana Lúcia Queiroz e Márcia Zoet (organizadoras).
Ilumina Imagens e Memória, 86 páginas.

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Por Roberto C. G. Castro no Jornal da USP.