Como os bondes de São Paulo desapareceram - São Paulo São

Há 47 anos a cidade de São Paulo se despedia do seu sistema de bondes elétricos. Tudo foi definido em 1949 quando o crescimento da metrópole superava as expectativas e o ônibus a diesel era a solução prometida para se chegar mais longe sem os supostos “inconvenientes” das panes elétricas. Começou na Augusta, depois foram os Jardins que perderam seus coletivos, enterrados por asfalto, simplesmente. A promessa era que além dos ônibus diesel a cidade tivesse mais trolleybus (trólebus) no futuro. Mas assim como as Grandes Avenidas de Prestes Maia, o plano fracassou.
 
Ao longo dos anos 1950 a extinção do bonde chegava à Zona Norte, Zona Leste e toda a Zona Oeste nos bairros de Pinheiros e Lapa, ano a ano, carro por carro, sendo que alguns bairros ainda servidos por bondes puxados por animais. Em seu lugar, asfalto sobre os paralelepípedos. Sem plano de metrô, que em Buenos Aires já existia desde 1913, amargamos com a falta de planejamento. Aqui no Brasil passamos de 2,2 milhões de habitantes em 1929 para 4,4 milhões em 1938. Já havia demanda para metrô e curiosamente havia espaço de sobra para construir.
 
Mas é preciso entender, senhores. Bondes causavam acidentes por freios ineficientes, descarrilamentos nas curvas, e sofriam com as panes elétricas. Atrapalhavam o tráfego no conturbado centro de São Paulo, circulavam no meio das vias, obrigavam as pessoas a descerem em sarrafos de madeira velha para depois cruzar a via movimentada. Os bondes eram ruins e o sistema ineficiente? Não, era falta de investimento. Reparem nas fotos, os carros eram visivelmente ruins. O problema de sempre. Bondes elétricos com 20-30 anos circulavam ao lado de bondes importados já inúteis em outros países, reaproveitados aqui com um banho de tinta e logotipo da CMTC no mesmo estilo do trem espanhol. Eram ineficientes, claro, pois estavam abandonados e sem manutenção. Em 1927 ganhamos o bonde fechado apelidado de Camarão, e anos depois o Centex (de Central Exit, saída central) que tinha até calefação (desativada aqui nos trópicos). Vinham dos EUA após uma longa viagem ao sabor da maresia e não tiveram manutenção adequada.
 
 
Como sou Santamarense e nasci fora do tempo, meus pais contam histórias dos bondes de Santo Amaro, que circularam até 1968 quando eles eram crianças. Praticamente uma viagem intermunicipal. Saíam da Vila Mariana, e desciam até o Instituto Biológico (a 23 de Maio não existia) no Ibirapuera, para seguir por uma estrada vazia mas já loteada até o Largo 13 de Maio. Com ares londrinos graças a uma forte neblina vinda da represa, Santo Amaro era um bairro pujante e perdia os ares de cidade de interior.

Também tinha bonde que ia até o largo do Socorro, fazia o “balão” e voltava pela Alameda Santo Amaro, vazia. Nesta época os bairros de Indianópolis, Itaim, Moema e Campo Belo já estavam traçados e eram um remanso de paz com nada além de comércio local, mercearias, casas de ‘secos e molhados’, padarias e alfaiates. Pela Av. Ibirapuera ia o bondinho no centro da via, trajeto que cumpria em cerca de 20 minutos da Vila Mariana ao Largo Treze de Maio. Quando a cidadeterminava ali nos campos do Ibirapuera e não havia parada alguma até o Largo Treze dos anos 1930 (Santo Amaro era município e foi anexado a São Paulo em 1935), o trajeto era ainda mais rápido.
 
Então na viagem de despedida em 27 de fevereiro de 1968 o bonde chegou a Santo Amaro onde foi recebido por uma comitiva de 5.000 pessoas. Depois retornou a Vila Mariana e foi recolhido. Na Avenida Ibirapuera e Vereador José Diniz, seus trilhos foram afogados por asfalto quente e a promessa de que os modernos ônibus a diesel cumpririam melhor seu papel. Aquele estacionamento central que havia na avenida até 2004, quando deu lugar ao corredor de ônibus, era nada mais que o corredor central dos bondes. Isso significa que havia trilho, uma linha de metrô de superfície prontinha para atender a demanda. Foi enterrada. Eu mesmo vi pedaços de trilho sendo retirados dali para dar lugar ao “Passa Rápido”, que hoje não passa nem lento, de tão parado que está.
 

E São Paulo cresceu em direção às periferias, grudou nas cidades da Região Metropolitana e se transformou numa massa única onde mais de 20 milhões de pessoas se deslocam num ir e vir diário e como se dizia antigamente, “frenético”. Metrô, metrô para todos. Metrô que não tenha estação “só” no Jardim Ângela, Vila Sônia, Ipiranga ou Freguesia do Ó. Metrô que chegue a Suzano, Franco da Rocha, Embu, Cotia, seria o mínimo. Aliás, naqueles anos 1960 o crescimento da cidade estava desenhado e já havia população e demanda suficiente para linhas de metrô na Lapa, Freguesia do Ó, Santana, Ipiranga, Aclimação, Jabaquara… anos de atraso.

Mas para atender a nossa demanda, além do metrô tardio que chegará com 30 anos de atraso nessas regiões, colocaram mais e mais ônibus a diesel chegando cada vez mais longe. E o silencioso 'trolleybus' foi abandonado.

Os bondes então deixaram de circular. Os trólebus nem chegaram de fato a não ser nos bairros do Pacaembu, Aclimação, Ipiranga e entre Pinheiros e o centro da cidade (o mesmo que há 50 anos) e hoje são considerados como transporte limpo, sustentável, coisas do século XXI. Mais sustentável seriam os bondes que integrariam o centro de São Paulo de forma ágil e distribuiria o desenvolvimento do “Novo Centro”, da República, Campos Elíseos ao Centro Velho da Sé, Rua Boa Vista, Rua São Bento. Poderiam circular em baixa velocidade, como nas cidades europeias de Madrid, Lisboa, Amsterdam, Cracóvia, Praga, Milão ou Il Tram em Roma, e tantos outros.

 

Bonde / Tranvía - Madrid. Foto: Carraminarro.Bonde / Tranvía - Madrid. Foto: Carraminarro.

Fariam, seriam, melhorariam... triste conjugar o verbo que não aconteceu. Em São Paulo aconteceu a falta de investimento e nosso metrô chega devagar, quase parando, nos locais onde é necessário.

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Por Marcos Camargo em seu blog.