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A Boitempo Editorial, que completa 20 anos de história em 2015, e o Sesc São Paulo realizam entre os dias 9 e 12 de junho o Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A iniciativa faz parte de uma série de eventos promovidos pela Revista Margem Esquerda desde 2004. Estarão reunidos mais de 40 conferencistaspara discutir o presente e o futuro das cidades como palco de disputas políticas, ideológicas e sociais.

A urbanização é o motor de uma economia de escala planetária, que vem despejando concreto em um ritmo sem precedentes sobre a superfície terrestre. Estudos apontam que em 2050 mais de 75% da população mundial habitará cidades. No entanto, o boom de urbanização não tem se traduzido em maior qualidade de vida para a população; pelo contrário, a vida nas cidades está cada vez mais difícil.

É neste contexto que grupos de pensadores e ativistas estão explorando alternativas, por vezes no despertar de revoltas urbanas, e em outras instâncias, como neste seminário internacional, para estimular a busca por melhores formas de vida urbana.

Um dos principais homenageados do Seminário é o geógrafo britânico David Harvey, que participa da mesa de fechamento em torno de seu livro Paris, capital da modernidade. Ao longo dos quatro dias de debates, a Boitempo e o Sesc também promovem o Curso de Introdução à Obra de David Harvey, com alguns dos principais especialistas no pensamento urbano crítico no Brasil: Ermínia Maricato, Mariana Fix, Raquel Rolnik e Marcio Pochmann.

A lista de convidados internacionais conta ainda com Stephen Graham, professor de Cidades e Sociedades na Escola de Arquitetura da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e autor do livro Cities Under Siege (Boitempo, no prelo) e um dos autores da coletânea Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação; Domenico Losurdo, professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino, na Itália, autor de A luta de classes: uma história política e filosófica; e Moishe Postone, canadense, professor de História na Universidade de Chicago e autor de Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx; dentre outros.

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes prevê ainda o lançamento de seis obras inéditas da Boitempo Editorial: A cidade das letras, de Ángel Rama; A luta de classes: uma história política e filosófica, de Domenico Losurdo; De que lado você está? Reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil, de Guilherme Boulos; Paris: capital da modernidade, de David Harvey; a coletânea Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação, e a 24° edição da Revista Margem Esquerda, com dossiê temático “Cidades em conflito; Conflitos nas cidades”.

Temas

Inserido em uma tradição de parcerias entre a Boitempo Editorial e o Sesc São Paulo (Revoluções, em 2011 e Marx: a criação destruidora, em 2013), o seminário desta vez pretende ir além da discussão acadêmica, envolvendo também palestrantes ligados à vida pública, ao poder institucional, a movimentos sociais e políticos, às artes e que tem em comum um histórico de pensamento em relação às cidades, à questão urbana e ao seu papel nas transformações sociais.

Serão discutidas questões como os efeitos do neoliberalismo nas cidades, as insurgências urbanas na história, a urbanização militarizada, os megaeventos esportivos, desenvolvimento urbano e meio ambiente, a mobilidade e as novas configurações das lutas de classe.

“Entendemos que é o momento de reunir pessoas com as mais diversas abordagens em relação aos problemas das cidades para discutir novas formas, soluções e modelos de organização do espaço público, enfrentando os desafios do presente. Ao ocupar um espaço acessível e popular como o Sesc, buscamos uma perspectiva democrática para o debate, propondo que convidados e público saiam de suas respectivas zonas de conforto intelectual para estabelecer diálogos e pensamentos em conjunto”, afirma Ivana Jinkings, diretora da Boitempo Editorial.

Seminário Internacional Cidades Rebeldes
De 9 a 12 de junho de 2015
Local: Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo (SP)
Inscrições no Portal Sesc São Paulo: http://bit.ly/1Hv16vy 
Mais informações: Seminário Internacional Cidades Rebeldes

Mostras trazem o resultado de anos de trabalho de Werner Haberkorn David Drew Zingg. 

O sonho era alto e vertical. Quando aportou em São Paulo, aos 29 anos, em 1936, o engenheiro alemão Werner Haberkorn deixava para trás a crise europeia em busca de subsistir de um novo negócio, a fotocópia, apenas praticado na capital paulista por um estabelecimento na Rua da Quitanda. O sucesso do empreendimento levou-o às fotografias nos cartões-postais na década de 1950.

Sua empresa, a Fotolabor, na elegante Avenida São João, entendia ser preciso aderir ao culto do crescimento vertical paulistano. Sua cidade de sonho não lhe permitiria variar os enquadramentos. Em geral a distância ou a partir do alto, ele via os prédios como templos iluminados a compor a geometria das ruas. A sua era uma cidade clara, limpa, de olho na utopia do horizonte amplo. No Centro Cultural Correios, é possível vislumbrar a reordenação urbana por meio de suas fotografias, de um acervo de 1,2 mil imagens.

Duas décadas depois da chegada de Haberkorn, o americano David Drew Zingg aportava no Rio de Janeiro como membro da equipe do veleiro Ondine em uma corrida oceânica cujo início era Buenos Aires. Zingg se tornaria pessoa carioca desde então, tendo organizado o Concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, de Nova York, em 1962.

Nos anos 1970, contudo, viveria em São Paulo de jornalismo, da música do grupo Joelho de Porco, em que atuava, e das imagens, que em sua totalidade alcançariam os 250 mil itens. A cidade vertical utópica havia muito desmoronara em vielas onde o fotógrafo detectava o improviso na base do existir.

Zingg fotografou São Paulo e o Brasil nos interstícios. Seus letreiros, placas e propaganda suja passaram a dizer tanto sobre a vida nas cidades quanto o sonho dos arranha-céus. No Instituto Moreira Salles de São Paulo estão expostos esses seus sinais, em grande parte produzidos a partir de diapositivos coloridos.

“Fotografia é história”, dizia o americano. “A máquina mostra os dias de hoje àqueles que queiram ver os dias de hoje. Mas a máquina também mostra o ontem àqueles que queiram aprender. O dever de um fotógrafo no Brasil, me parece, é insistir no registro do sofrimento e do prazer, do belo e do irônico. Só o tempo e o público decidirão o significado que as fotografias realmente têm.”

Rosane Pavam em Carta Capitalhttp://goo.gl/i2DSb1