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No filme de Leonardo Lacca, Irandhir Santos, o maior ator da atualidade, em São Paulo, a maior cidade do Brasil.

Era questão de tempo para que a “loucura” da metrópole que “nunca para” e “tem quatro estações num mesmo dia”, como definem os personagens de Permanência, estreia na quinta-feira 28, inspirasse o protagonista a rasgar a blusa emprestada pela amiga e ex-namorada e saísse declamando poesia no teto de um automóvel, contivesse uma rebelião no presídio, pulasse da senzala para assaltar a casa-grande, incorporasse a mulher para cantar Esse Cara ou o doido a dublar Ney Matogrosso no meio da rua.

Mas não. Tanto seu personagem, Ivo, como a cidade das efervescências parecem sob controle no filme de Leonardo Lacca. Parecem.

Ao chegar de Recife para sua primeira exposição individual de fotos em uma galeria, Ivo é questionado o tempo todo sobre o sol da capital pernambucana. Recife é o exotismo possível em uma metrópole mergulhada no (enganoso) recalque de um dia frio.

“Ali só chove”, avisa o personagem.

Dali em diante, os diálogos entre ele e a ex-namorada, Rita (Rita Carelli), e as pessoas com quem esbarra pela cidade são quase sempre banais. Os temas variam entre o clima, a hospitalidade, o trânsito, viagens, pequenos projetos, as ruas e seus perigos. Ironia das ironias, o fotógrafo circula em uma cidade adormecida. Todos parecem estar dormindo quando ele sai de casa ou quando volta.

Em vez de multidões, o vazio, como quando caminha em dupla pelo bairro ou observa sozinho o túnel da Linha 4 do Metrô. Nessa cidade silenciosa, é possível ouvir a máquina de espremer laranja, de selecionar os grãos do café ou de cortar papeis.

Ao diretor interessam os detalhes dos espaços desocupados. A fala é uma delas. No filme, não importa o que é dito, e sim o que não é dito. Os personagens falam o tempo todo para que o silêncio não delate uma tensão e essa tensão não delate o que realmente querem dizer: medo, desejo, pulsão. É mais ou menos como a São Paulo que os recebe. Dela espera-se ruídos, berros, explosões, descaminhos, mas ela se revela tanto no silêncio de suas ruas das manhãs e das madrugadas como nos espaços diminutos - um apartamento, uma galeria, a claustrofobia de um elevador. Essa solidão ilhada numa multidão é o que permite topar com a gente mesmo – daí o pânico.

Nesses encontros inevitáveis dos vazios que se expressam por si, resvalamos em uma pretensa naturalidade organizada pelo pensamento. Mas elas não dizem o inevitável: que as relações humanas, formais ou desmanchadas, são também um discurso. Nesse discurso, o que é o acolhimento? O que se dissipa? O que engendra? O que permanece?

“Eu não tenho mais o que falar. A gente perdeu o assunto”, admite o personagem, entre o desapontamento e a serenidade, após o reencontro com Rita, agora casada, agora responsável, agora contida.

Permanência é a história não só do que foi, mas do que poderia ter sido e do que ainda é. É a foto em preto e branco na parede. É o que se esquece e o que se registra. É o não-dito. É o que permanece e reaparece nas novas pessoas que, como na música de Caetano Veloso, engendramos em nós e de nós. A travessia da ponte-aérea não é só o retorno, mas a continuação revelada. Rita, como Recife ou São Paulo, é tudo, menos uma foto dolorosa pendurada – e estática – na parede.

Matheus Pichonelli em Carta Capital




 

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6º Mostra SP de Fotografia inaugura dia 11 de junho com 30 pontos expositivos, 70 autores em 10 ruas do bairro até 11 de julho! Conversas, passeios, projeções e ações especiais. Acompanhe programação e novidades. Mais um ano de muita fotografia na Vila Madalena.

Fotógrafos participantes: Alejandro Vasquez, Alexandre Orion, Alisson Louback, Andrea Eichenberger, Andrea Matarazzo, Ângela Di Sessa, Antonio Emygdio, Autunm Sonnichten, Bel Duarte, Bob Wolfenson, Bruno Miranda, Bruno Sandini, Carla Venusa, Carlos Dadorian, Carlos Goldgrub, Carol Quintanilha, Cássio Vasconcellos, Claudia Jaguaribe, Claudio Cruz, Claudio Edinger, Claudio Elisabetsky, Coletivo Mira, Cris Bierrenbach, Cristina Guerra, Daniel Kfouri, Daniel Klajmic, Daniela Schmidt, Denise Giglio, Denise Meirelles, Erick Diniz, Fernando Costa Netto, Francilins, Geraldo de Barros, German Lorca, Gilvan Barreto, Gustavo Minas, Hannah Gopa, Helena Wolfenson, Herman Tacasey, Horácio Coppola, Hugo Martins, Iatã Canabrava, Ilana Lichtenstein, Jair Bortoleto, Jéssica Mangaba, João Castilho, João Lineu, João Wainer, Johanna Lieskow, Jornalistas Livres, Juan Esteves, Julieta Bacchin, Leo Cap, Lucrécia Couso, Maira Fridman, Marcello Cavalcanti, Marcia Zoet, Marcos Muzi, Martin Chambi, Mauricio Lima, Midia Ninja, Nair Benedito, Nilmar Lage, Paula Pedrosa, Pedro David, Rafael Roncato, Renato Stokcler, Ricardo Correa Ayres, Roberta Dabdab, Roberto Joele, Rodrigo Braga, Rogério Assis, Rua Fotocoletivo, Rui Mendes, Sergio Silva, Tuca Reinés, Tuca Vieira, Valdir Cruz e mais! 

Locais expositivos: DOC Galeria, Oppa, Beco do Batman, Japonique, Galerizie, My Fots, Grade Fidalga, Galeria NIKON, Les Delices de Maya, Refazenda, Flávia Aranha, Estúdio Osb, Galeria Crivo, Coletivo de Ideias e Cultura, Estacionamento Harmonia 128, Empório Sagarana, Marcenaria Baraúna, Farm, Muro Aspicuelta 663, Instituto Chão, Galeria Mezanino, Muro Patzal com Girassol, Galeria Ímã, Luiza Perea, Poste Aspicuelta 662, Galeria Porão, Espaço Cult, RUAA, Muro Girassol 326 e Agá Presentes.

A sexta edição da Mostra tem patrocínio da Philadelphia, Heineken e Nikon Brasil. O evento é uma realização da DOC Galeira. Tem apoio do São Paulo São e da SPTuris.

 

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Até a metade do século 19, São Paulo era uma cidade provinciana, pequena, desimportante. Pouco diferente da época de sua fundação, em 1554. Assim, não foi à toa que, ao traçar a história de São Paulo das origens até 1900, Roberto Pompeu de Toledo titulou a obra de A Capital da Solidão (Objetiva), lançada em 2003. Ao retomar a empreitada de fôlego e detalhar o nascimento da metrópole entre 1900 e 1954, Pompeu definiu bem a fantástica mudança sofrida pela cidade, traduzida no título do novo livro, A Capital da Vertigem, lançado agora pela mesma Objetiva. De fato, não parece ser a mesma São Paulo – o ritmo de crescimento, impulsionado pela riqueza do café e pela vinda dos imigrantes, foi vertiginoso. A população aumentou exponencialmente, o que alargou os limites do município, especialmente para a zona oeste. Luz elétrica, bondes, fábricas, o desenvolvimento foi frenético.

São Paulo também cresceu para cima, com a construção dos arranha-céus, daí ser a capital da vertigem. E, nesses mais de 50 anos de história relatados por Pompeu, a cidade abrigou figuras notáveis, entre políticos e artistas, além de ser o palco de momentos dramáticos como a Revolução Constitucionalista de 1932. Sobre a pesquisa, Pompeu, que estará na próxima Flip, respondeu por e-mail às seguintes questões.

Você acredita que existe uma cidade que se desenha no tempo e no espaço e uma outra, mais secreta, que se revela na vida cotidiana de seus habitantes?

Sim, acredito. Essa cidade “mais secreta” é até mais significativa do que a cidade de tijolo e asfalto. Difícil é capturá-la em suas muitas manifestações. Há uma multiplicidade de vidas cotidianas concorrendo ao mesmo tempo. Algumas delas se fazem presente um pouco por toda parte. Eu destacaria o capítulo 7 do meu livro, intitulado Paesandeu, Vila Mariana e Abaix’o Piques. “Pausandeu” (nome pretensamente afrancesado de Paissandu) fala do mundo dos bordéis (e como havia bordéis, no início do século 20...) tal qual retratado no livro Madame Pommery, de Hilário Tácito. “Vila Mariana” era onde ficava a Vila Kyrial, mansão em que o mecenas Freitas Valle sediava os seus saraus litero-político-musicais. E o “Abaix’o Piques”, o mais reles recanto do reles largo do Piques (atual praça da Bandeira), era a moradia e a sede das aventuras do famoso Juó Bananére, o caricato ítalo-brasileiro das crônicas de Alexandre Marcondes Machado. São três mundos que raramente se tocam, mas que se complementam como fontes das relações entre as classes, os sexos e as nacionalidades (havia muitos imigrantes estrangeiros em São Paulo) no período.

O arquiteto Benedito Lima de Toledo criou uma metáfora que se tornou célebre: São Paulo seria um “palimpsesto” que, de tempos em tempos, receberia uma escrita nova, de qualidade literária inferior. Concorda?

Do ponto de vista estritamente urbanístico, concordo. Os planos da primeira metade do século 20 eram mais bem pensados. Ou melhor: eram pensados. Os que vieram depois foram contribuições à arquitetura e ao urbanismo do caos. Já não saberia dizer se era melhor viver naquela cidade. São Paulo, como escrevo na abertura do livro, é Maurília, uma das cidades imaginárias de Italo Calvino. Nela, observa-se com enlevo, nos cartões postais, como era graciosa tal praça com um chafariz hoje tragada por uma avenida, ou tal esquina com delicadas construções hoje substituídas por um arranha-céu.

O Obelisco do Largo da Memória é o monumento mais antigo da Capital – tem 200 anos. Quais construções você considera essenciais para narrar a história de São Paulo no início do século 20?

Decisivas para São Paulo são duas obras ainda do fim do século 19, o viaduto do Chá e a avenida Paulista, tratadas no meu livro anterior, A Capital da Solidão. O viaduto libertou São Paulo do ovo em que estava enclausurada, na colina histórica. Imagine-se o que era descer o barranco de um lado, percorrer o matagal do vale do Anhangabaú, atravessar uma das precárias pontes sobre o riacho, lá no meio, continuar pelo matagal e galgar o barranco do outro lado. O viaduto veio a permitir a expansão da cidade para o oeste. O construtor da avenida Paulista, Joaquim Eugênio de Lima, teve a genial intuição de, em vez de rasgar apertadas ruazinhas, abrir uma avenida ocupando todo o dorso do espigão que separa as águas do Tietê das do Pinheiros. Com isso, deixou à cidade o legado de uma via capaz de conferir-lhe, pelo tamanho, pela facilidade de circulação e pelas possibilidade estéticas, uma nova centralidade. Já no século 20, a construção do teatro Municipal foi importante para exigir a urbanização do matagal do Anhangabaú, daí surgindo um parque bem resolvido, bem no centro da cidade (hoje aviltado). Do outro lado da colina histórica, o parque D. Pedro (hoje aviltadíssimo) teve efeito similar, substituindo a antiga várzea alagadiça por um lugar aprazível e facilitando a ligação com os populares bairros do Brás e da Mooca.

Em A Capital da Solidão, você resgatou personagens que estavam esquecidos, como Luis Gama. O que dizer desse período entre 1900 e 1954?

Não sei se estão esquecidos, mas há no livro uma legião de personagens decisivos, de Antônio Prado (primeiro prefeito) a Ciccillo Matarazzo (criador do Museu de Arte Moderna, das Bienais e do Parque do Ibirapuera). Certamente esquecido é Cícero Marques, que ressuscito em dois momentos: primeiro com um curioso livro em que reconstitui, quarteirão a quarteirão, a rua de São João (antecessora da avenida São João) de seu tempo de jovem; depois, como um dos rapazes convocados por Paulo Prado para aplicar a necessária vaia aos artistas da Semana de Arte Moderna – sem vaia, o que seria daquele evento? A vaia garantiu-lhe lugar de honra na posteridade. Quando, de fato, São Paulo revela sua vocação de metrópole? Os especialistas dão várias definições de metrópole e exigem várias condições para que as cidades possam ostentar tal título. Aprendi nas pesquisas do livro que dois equipamentos essenciais, a partir de finais do século 19, são os arranha-céus e os bulevares. São Paulo começa a equipar-se deles nos anos 1920, com a construção da avenida São João, o primeiro bulevar, e do prédio Martinelli. Mas era uma cidade ainda impregnada de ruralidades, como as carroças e os vendedores de leite de cabra de porta em porta, com a cabra portando um sininho que anunciava sua chegada. Outra condição é evidentemente o tamanho. No final do livro, coincidindo com o quarto centenário da cidade, em 1954, São Paulo se torna a cidade mais populosa do País, com 2,8 milhões de habitantes contra 2,6 milhões do Rio de Janeiro. Por essa época também ganha equipamentos culturais, essenciais a uma metrópole, como o Masp e o TBC. Mas ainda exibe um ranço provinciano. É a capital de um Estado, ainda que o mais rico, não a cidade que resume e reflete um País, como é hoje. Não tem a projeção internacional do Rio de Janeiro ou de Buenos Aires. Os mais rigorosos diriam que já tinha fincado as fundações de uma metrópole, mas ainda lhe faltava algo para sê-lo de todo direito.

A capa do livro traz uma foto da praça da Sé e a catedral ainda incompleta. Seria a transformação do Largo da Sé a mais significativa de São Paulo no período?

A transformação da Sé faz parte da reforma urbanística engendrada nos anos 1910. Insere-se nela, assim como o Anhangabaú, o parque D. Pedro e o alargamento das vias que cercam a colina central, a começar da Libero Badaró. Essa reforma é uma das duas de grande porte no período do livro. A outra é a de Prestes Maia, nos anos 1930/40. Prestes Maia pretendeu que sua reforma dava uma cara “definitiva” à cidade. Sabe-se lá quando uma cidade adquire sua cara definitiva, se é que um dia a adquire, mas até hoje, pelo menos, em linhas gerais, em sua parte central, a cidade tem a ossatura que ele lhe legou.

A importância dos acervos digitais na pesquisa do autor Carlos Eduardo Entini Entre A Capital da Solidão, de 2003, e o novo A Capital da Vertigem, Roberto Pompeu de Toledo presenciou o fenômeno da multiplicação dos acervos de jornais e de outras fontes digitalizadas e disponíveis online. A seguir, o autor dá detalhes desse processo. 

Como foi a experiência com a digitalização? 

Ter o acervo dos jornais disponíveis online foi fantástico. Pesquisei muito nos jornais, especialmente no Estado, que cobre todo o período do livro, mas também no Correio Paulistano, nas Folhas da Manhã e da Noite e em outras publicações. A internet também oferece teses e livros digitalizados que me foram úteis. No livro anterior, eu tinha que ir a bibliotecas. Desta vez, elas vinham a mim. Outra novidade extremamente útil que não havia ao tempo de A Capital da Solidão é a Estante Virtual. Graças a ela, achei livros que, de outra forma, não acharia. 

Os livros do Laurentino Gomes sofreram preconceito da Academia e de alguns historiadores. O mesmo ocorreu com A Capital da Solidão? Acha que vai acontecer com A Capital da Vertigem?

Não sei, não me chegaram manifestações desse tipo com relação ao A Capital da Solidão, mas não me surpreenderia se existissem, e que se manifestem agora comA Capital da Vertigem. A história não é propriedade privada, ou território reservado de caça de ninguém. Considero-me um narrador da história, não um historiador; historiadores não deviam ter ciúme, inveja ou bronca de quem não é historiador. Deviam guardar isso para seus concorrentes diretos e, nada impede que um historiador se permita ser também um narrador da história. A grande maioria não tem competência para isso, mas os poucos que a têm deviam sair a campo, sem medo do olhar atravessado dos colegas.

"A Capital da Vertigem." Autor: Roberto Pompeu de Toledo Editora: Objetiva (584 págs., R$ 59,90 em papel, R$ 29,90 e-book)

Ubiratan Brasil no Estadão.

 

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A Boitempo Editorial, que completa 20 anos de história em 2015, e o Sesc São Paulo realizam entre os dias 9 e 12 de junho o Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A iniciativa faz parte de uma série de eventos promovidos pela Revista Margem Esquerda desde 2004. Estarão reunidos mais de 40 conferencistaspara discutir o presente e o futuro das cidades como palco de disputas políticas, ideológicas e sociais.

A urbanização é o motor de uma economia de escala planetária, que vem despejando concreto em um ritmo sem precedentes sobre a superfície terrestre. Estudos apontam que em 2050 mais de 75% da população mundial habitará cidades. No entanto, o boom de urbanização não tem se traduzido em maior qualidade de vida para a população; pelo contrário, a vida nas cidades está cada vez mais difícil.

É neste contexto que grupos de pensadores e ativistas estão explorando alternativas, por vezes no despertar de revoltas urbanas, e em outras instâncias, como neste seminário internacional, para estimular a busca por melhores formas de vida urbana.

Um dos principais homenageados do Seminário é o geógrafo britânico David Harvey, que participa da mesa de fechamento em torno de seu livro Paris, capital da modernidade. Ao longo dos quatro dias de debates, a Boitempo e o Sesc também promovem o Curso de Introdução à Obra de David Harvey, com alguns dos principais especialistas no pensamento urbano crítico no Brasil: Ermínia Maricato, Mariana Fix, Raquel Rolnik e Marcio Pochmann.

A lista de convidados internacionais conta ainda com Stephen Graham, professor de Cidades e Sociedades na Escola de Arquitetura da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e autor do livro Cities Under Siege (Boitempo, no prelo) e um dos autores da coletânea Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação; Domenico Losurdo, professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino, na Itália, autor de A luta de classes: uma história política e filosófica; e Moishe Postone, canadense, professor de História na Universidade de Chicago e autor de Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx; dentre outros.

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes prevê ainda o lançamento de seis obras inéditas da Boitempo Editorial: A cidade das letras, de Ángel Rama; A luta de classes: uma história política e filosófica, de Domenico Losurdo; De que lado você está? Reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil, de Guilherme Boulos; Paris: capital da modernidade, de David Harvey; a coletânea Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação, e a 24° edição da Revista Margem Esquerda, com dossiê temático “Cidades em conflito; Conflitos nas cidades”.

Temas

Inserido em uma tradição de parcerias entre a Boitempo Editorial e o Sesc São Paulo (Revoluções, em 2011 e Marx: a criação destruidora, em 2013), o seminário desta vez pretende ir além da discussão acadêmica, envolvendo também palestrantes ligados à vida pública, ao poder institucional, a movimentos sociais e políticos, às artes e que tem em comum um histórico de pensamento em relação às cidades, à questão urbana e ao seu papel nas transformações sociais.

Serão discutidas questões como os efeitos do neoliberalismo nas cidades, as insurgências urbanas na história, a urbanização militarizada, os megaeventos esportivos, desenvolvimento urbano e meio ambiente, a mobilidade e as novas configurações das lutas de classe.

“Entendemos que é o momento de reunir pessoas com as mais diversas abordagens em relação aos problemas das cidades para discutir novas formas, soluções e modelos de organização do espaço público, enfrentando os desafios do presente. Ao ocupar um espaço acessível e popular como o Sesc, buscamos uma perspectiva democrática para o debate, propondo que convidados e público saiam de suas respectivas zonas de conforto intelectual para estabelecer diálogos e pensamentos em conjunto”, afirma Ivana Jinkings, diretora da Boitempo Editorial.

Seminário Internacional Cidades Rebeldes
De 9 a 12 de junho de 2015
Local: Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo (SP)
Inscrições no Portal Sesc São Paulo: http://bit.ly/1Hv16vy 
Mais informações: Seminário Internacional Cidades Rebeldes

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Mostras trazem o resultado de anos de trabalho de Werner Haberkorn David Drew Zingg. 

O sonho era alto e vertical. Quando aportou em São Paulo, aos 29 anos, em 1936, o engenheiro alemão Werner Haberkorn deixava para trás a crise europeia em busca de subsistir de um novo negócio, a fotocópia, apenas praticado na capital paulista por um estabelecimento na Rua da Quitanda. O sucesso do empreendimento levou-o às fotografias nos cartões-postais na década de 1950.

Sua empresa, a Fotolabor, na elegante Avenida São João, entendia ser preciso aderir ao culto do crescimento vertical paulistano. Sua cidade de sonho não lhe permitiria variar os enquadramentos. Em geral a distância ou a partir do alto, ele via os prédios como templos iluminados a compor a geometria das ruas. A sua era uma cidade clara, limpa, de olho na utopia do horizonte amplo. No Centro Cultural Correios, é possível vislumbrar a reordenação urbana por meio de suas fotografias, de um acervo de 1,2 mil imagens.

Duas décadas depois da chegada de Haberkorn, o americano David Drew Zingg aportava no Rio de Janeiro como membro da equipe do veleiro Ondine em uma corrida oceânica cujo início era Buenos Aires. Zingg se tornaria pessoa carioca desde então, tendo organizado o Concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, de Nova York, em 1962.

Nos anos 1970, contudo, viveria em São Paulo de jornalismo, da música do grupo Joelho de Porco, em que atuava, e das imagens, que em sua totalidade alcançariam os 250 mil itens. A cidade vertical utópica havia muito desmoronara em vielas onde o fotógrafo detectava o improviso na base do existir.

Zingg fotografou São Paulo e o Brasil nos interstícios. Seus letreiros, placas e propaganda suja passaram a dizer tanto sobre a vida nas cidades quanto o sonho dos arranha-céus. No Instituto Moreira Salles de São Paulo estão expostos esses seus sinais, em grande parte produzidos a partir de diapositivos coloridos.

“Fotografia é história”, dizia o americano. “A máquina mostra os dias de hoje àqueles que queiram ver os dias de hoje. Mas a máquina também mostra o ontem àqueles que queiram aprender. O dever de um fotógrafo no Brasil, me parece, é insistir no registro do sofrimento e do prazer, do belo e do irônico. Só o tempo e o público decidirão o significado que as fotografias realmente têm.”

Rosane Pavam em Carta Capitalhttp://goo.gl/i2DSb1