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Com grade de dez peças, a terceira edição da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), que começa no dia 4 de março, retorna às questões sobre a construção de narrativas, como se quisesse nos dizer que não, esse não é uma velho problema.
 
O diretor artístico da mostra, Antonio Araújo, exemplifica a abordagem, considerada por ele um dos pilares de sua curadoria neste ano: o espetáculo "Cinderela", que abre o festival no Auditório Ibirapuera, retoma a conhecida fábula dos irmãos Grimm para reconstruí-la linearmente de forma "toda estranha".
 
A peça tem pássaros que se estatelam em uma casa de vidro. "O espectador percebe a colisão, mas em nenhum momento a montagem materializa isso visualmente", adianta.
 
Em destaque este ano, o autor e diretor francês Joël Pommerat traz para o festival duas montagens: "Ça Ira", ficção política contemporânea inspirada na Revolução Francesa e desenrolada com menções à direita em ascensão na Europa; e "Cinderela", adaptação da conhecida fábula dos irmãos Grimm.
 
Do Congo, virá a peça "A Carga". Com direção e interpretação de Faustin Linyekula, a montagem tem traços coreográficos, e o artista também faz uso de textos que abordam situações políticas de seu país de origem. 
 
Questões sobre a opressão vividas pelos negros também tingem o espetáculo Revolting Music, que tem trilha sonora desenvolvida a partir de pesquisa sobre canções de protestos e situações vividas por movimentos estudantis na África do Sul. O espetáculo é assinado pelo músico e performer Neo Muyanga. 
 
Os ingressos para "Natureza Morta", do grego Dimitris Papaioannou, também podem se esgotar rapidamente, devido ao sucesso do artista em festivais europeus e também pela popularidade dos vídeos que reproduzem trechos de seus espetáculos na internet. Papaioannou tem domínio na criação de imagens em cena que mais parecem pinturas, razão do título de seu espetáculo.
 
Da Alemanha, o festival traz o experimento "100% City", projeto encabeçado por Helgard Haug, Daniel Wetzel e Stefan Kaegi, da companhia Rimini Protokoll. 
 
O grupo recruta não-atores nas cidades por onde passa. Ao vivo, as pessoas chamadas respondem a uma espécie de pesquisa de opinião -não espere nada convencional. O projeto foi realizado em 23 cidades, incluindo Amsterdã e Tóquio. Na MITsp, o projeto vai se chamar "100% São Paulo". 
 
A companhia Teatro de Narradores e o grupo Ultralíricos, dirigido por Felipe Hirsch, compõem a representação nacional. O primeiro vai apresentar trabalho desenvolvido junto a haitianos que vivem em São Paulo, "Cidade Vodu"; o segundo encena trechos ou adaptações de textos latino-americanos.

Serviço
MITSP
Quando: 4 a 13 de março.
Quanto: grátis a R$ 20 (à venda a partir de 18/2 pelo ingressorapido.com.br e pelo sescsp.org.br). 
Onde: vários locais (a programação em breve será divulgada no site).

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Gustavo Fioratti - colaboração para a Folha de S.Paulo.
 
 


A tão aguardada exposição O Mundo de Tim Burton chega ao MIS na próxima semana. Para celebrar a primeira parada na America Latina, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público no dia 11 de fevereiro. Antes do bate-papo, o público assiste a um filme do cineasta que será escolhido por meio de votação livre.

Para participar do evento, os fãs devem responder a enquete (clique aqui para acessá-la) e escolher seu longa de Tim Burton preferido. Após o encerramento da votação e contabilizado o filme vencedor, serão sorteadas 30 pessoas dentre aquelas que votaram no longa número um.

Os sorteados participarão de uma sessão exclusiva no dia 11 de fevereiro, em que será exibido o filme escolhido, e, após a sessão, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público. Além dos sorteados, no sábado, 30 de janeiro, o MIS abrirá venda exclusiva de ingressos para a mais especial exibição de filme já ocorrida no museu. As entradas para o evento serão vendidas por R$ 300,00 - apenas na bilheteria do MIS - e dão direito a um catálogo da exposição O Mundo de Tim Burton, além de ingresso para a exposição (válido para o dia 11.2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para o bate-papo com Tim Burton e, ainda, um certificado de participação. 

Sorteio acessar a enquete e votar em seu filme preferido. Das 12h do dia 29/1 às 12h do 1/2. Os sorteados participam de uma sessão exclusiva do filme escolhido e de um bate-papo com o diretor. Ingressos R$ 300,00 à venda na recepção do MIS a partir das 12h do dia 30/1

Este ingresso dá direito a um catálogo da exposição O mundo de Tim Burton, ingresso para a exposição (válido para o dia 11/2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para obate-papo com Tim Burton, além de um certificado de participação.

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Fonte: MIS.


Claudia (Emanuela Fontes) é uma descendente de bolivianos moradores na periferia da capital paulista. O desejo de se tornar uma pianista nasceu quando conheceu o instrumento em um programa de musicalização para jovens sem recursos. Com ótimas notas, ela passou a receber uma bolsa para estudar em um cursinho popular, onde foi estimulada a lutar pelo seu sonho.

O problema é que para ser aceita no curso de Música da Universidade de São Paulo, Claudia tem de estudar para a prova de aptidão. Precisa ter acesso a um piano. Esse é o mote do longa-metragem Invasores, de Marcelo Toledo, que estreou nesta quinta-feira (21), no Cine Caixa Belas Artes

Vinda de uma família de origem pobre, Claudia não conhece ninguém que tenha em casa um piano, por isso decide pedir emprestada a sala da instituição cultural da qual fazia parte. O diálogo entre a jovem e a responsável pela área de música é uma das cenas mais desconcertantes e desconfortáveis do filme. Quando a menina conta que vai prestar vestibular para Música na USP, a reação de Priscila é positiva, mas quando diz que precisa de um piano para estudar para a prova prática, recebe um banho de água fria:

Priscila: “Claudinha, como é que eu vou te explicar isso? Você fez uma escolha complicada…”

Claudia: “Eu fiz uma escolha complicada? Sério?”

Priscila: “Você não acha?”

Claudia: “É, mais complicada do que a sua. Quer dizer, você vive disso, né, de música. Eu adoraria ter um emprego como o seu, fixo, e roupinha cara”.

O que Priscila quer dizer é que estudar Música em uma universidade como a USP não é para pessoas pobres como Claudia, que não tem piano em casa, não conhece ninguém que tenha e tampouco pode pagar para fazer aulas e treinar. Por isso, a escolha é complicada. Não haveria estranhamento caso a garota decidisse trabalhar em uma tecelagem, como sua mãe sugeriu.

O conflito de 'Invasores' poderia até lembrar o do premiado 'Que Horas Ela Volta', de Anna Muylaerte, em que a filha da faxineira pobre conquista uma vaga na disputada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP. Mas não. Nessa ficção de Toledo, além do preconceito de classe, a protagonista também enfrenta o julgamento de seus amigos e da família. É como se o simples fato de querer se dedicar à música fizesse de Claudia uma pessoa esnobe, que se acha melhor do que os outros.

O gesto de apoio só vem de seu namorado Nilson (Maxwell Nascimento), que faz parte de um grupo que invade prédios públicos para pichar, numa espécie de protesto contra a sociedade burguesa. É, aliás, dessa maneira que ele passa a ajudar sua namorada: sempre à noite ou aos finais de semana, eles invadem escolas de música e centros culturais onde Claudia pode tocar piano. Um tipo arriscado de ajuda, que pode trazer novos problemas.

O filme provoca a questão: quem é invasor nesta história, o grupo de pichadores ou Claudia? Em comum, personagens obstinados em ocupar espaços para os quais não foram convidados.

Assista o trailer do filme aqui.

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Xandra Stefanel, especial para a RBA.

 


Ao entrar no teatro, o público encontra no palco um baterista solitário, tocando o instrumento, aquecendo suas baquetas. Aos poucos, o som ritmado – crescente, sincopado, contagiante – ocupa todo o espaço e agarra a atenção dos espectadores. Ao soar o terceiro sinal e as luzes se apagarem, determinando o início do espetáculo, o contato foi estabelecido: a plateia já está preparada para assistir 'Chet Baker – Apenas um Sopro', peça cuja estreia aconteceu na quarta-feira, dia 20, no CCBB.
 
Escrita por Sergio Roveri, a montagem é livremente inspirada em um momento particularmente doloroso de Baker (1929-1988), ícone do jazz, artista genial, um símbolo sexual viciado em heroína: quando, no final dos anos 1960, com a boca rachada depois de perder muitos dentes ao ser espancado em uma briga de rua de São Francisco, ele ensaia um retorno, encontrando amigos em um estúdio onde pretende gravar o novo disco e marcar sua volta.
 
“Aquela situação expõe um pouco da miséria humana, especialmente a dele”, conta Paulo Miklos, músico da banda Titãs desde seu início, em 1982, e que agora estreia como ator de teatro justamente no papel do genial trompetista americano. “Comecei a atuar há 15 anos, mas sempre no cinema. Aqui, no palco, a exposição é maior, portanto fica mais evidente o risco e a fragilidade de Baker.” De fato, o baterista do início do espetáculo, vivido por Ladislau Kardos, é um novato que aproveita a chance de tocar ao lado de cobras, como o pianista (Piero Damiani), o contrabaixista (Jonathas Joba) e a cantora (Anna Toledo). E, principalmente, junto de Baker. 
 
Não se trata, porém, de uma relação fácil – como todo principiante, o baterista sofre com as brincadeiras dos mais velhos, mas ele se revela como o único ali a vislumbrar um futuro promissor. “É a nova geração observando a veterana e descobrindo que não quer seguir ladeira abaixo”, comenta Joba que, assim como Anna, tem uma sólida carreira no teatro, enquanto Kardos e Damiani, músicos profissionais, são estreantes do palco.
 
A mescla resulta em uma experiência fascinante, com improvisos típicos do jazz. Na interpretação de Miklos, por exemplo, o público descobre a armadilha do talento. “Com ele e o resto do elenco, busquei mais contundência na atuação para mostrar seres cientes de estarem à beira do precipício”, explica o diretor José Roberto Jardim. “Um estúdio é um ambiente perfeito não apenas para abrigar a música, mas também as histórias pessoais, os dramas, as frustrações”, completa Roveri. 
 
O personagem revela-se muito caro para Miklos. “Entendo perfeitamente o que se passa com Baker nesse momento em que a autoconfiança não passa de uma armadilha”, observa. “Estou abstêmio há 10 anos e, desde então, tenho mais consciência dessas falsas certezas.”
 
Miklos não chega a tocar o trompete no espetáculo. “Sempre me pareceu cruel exigir de um ator ou músico a mesma genialidade de Chet Baker ao tocar; as comparações seriam inevitáveis”, conta Roveri. “No entanto, há algo muito mais significativo nesta impossibilidade do personagem do Paulo tocar o trompete: é o retrato do artista diante da insegurança, diante da possibilidade terrível de ter perdido o dom, de ter perdido a genialidade. Esse, ao meu ver, é o ponto crucial e mais dolorido do espetáculo: um artista que é convidado a voltar à cena, mas ele próprio não sabe se vai conseguir executar o seu ofício.” 
 
Não se trata, porém, de uma peça sem músicas – o improviso do jazz pontua o espetáculo e os grandes momentos estão reservados para as canções Old Devil Moon, em magnífica performance de Anna Toledo, e, claro, My Funny Valentine, uma das mais idolatradas do repertório de Baker, cantada por Miklos. “A voz, nessa peça, tem a contundência de uma flechada”, explica Jardim. “Encanta ao mesmo tempo em que provoca espanto.”
 
Ele acerta no ritmo e na encenação – Joba, por exemplo, é perfeito na abertura do espetáculo. Os personagens são como um espelho do próprio Chet: talentosos, mas já conheceram dias melhores. A situação da peça não ocorreu na vida real, tampouco existiram o estúdio e os amigos de Baker. O trabalho do grupo, no entanto, faz pensar que poderia ter sido assim.

Serviço
Chet Baker Apenas um Sopro
CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651.
2ª, 4ª e 5ª, às 20 h.
R$ 10.
Até 7/4.

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Ubiratan Brasil no Estado de S.Paulo.
 
 

 
O sociólogo Carlos Alberto Dória vai ministrar um curso sobre a culinária caipira e suas raízes na cozinha tupi-guarani.

"Como o milho, que foi domesticado há milênios na America do Norte, chegou ao sul e sudeste do Brasil no perído pré-colonial? Como se deu a cisão entre os “povos do milho” e os “povos da mandioca” na América do Sul? Quais os traços fundamentais da cultura guarani? Quais os tipos de fogo que eles utilizavam? Quais os usos culinários que os guarani faziam do milho e da mandioca? Como isso influenciou ou determinou o que é fundamental na culinária caipira? É para procurar responder a estas questões - experimentando, inclusive, fazer algumas preparações como os guarani faziam - que foi concebido o primeiro módulo do curso," diz Carlos Dória.
 
O primeiro módulo, que será realizado neste mês, terá um total de 12 horas divididas em quatro aulas sobre a cultura culinária guarani. Nos primeiros dois encontros, os alunos, a partir de registros arqueológicos e históricos, entrarão em contato com preparos derivados, principalmente, do milho e da mandioca.
 
Nas duas últimas aulas, as receitas serão levadas à cozinha, com a presença do cozinheiro Ivan Santinho Pinheiro, e haverá uma degustação avaliativa. O curso será realizado em uma casa residencial no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo. 
 
As primeiras aulas, nos dias 28 e 29 de janeiro, serão das 20h às 23h e as últimas, nos dias 30 e 31, das 9h às 12h. 

Ilustração de embalagens caipiras de origem guarani que será usada no curso de Carlos Alberto DóriaIlustração de embalagens caipiras de origem guarani que será usada no curso de Carlos Alberto Dória

Ilustração de embalagens caipiras de origem guarani que será usada no curso de Carlos Alberto Dória.
 
Serviço
Curso Culinária Caipira.
Módulo I.
Onde: Rua Aquiramum, 12, Alto de Pinheiros.
Quando: 28 e 29 de janeiro.
Quanto: R$ 650,00.
Horário: das 20h às 23h; 30 e 31 das 9 às 12h.
*Os interessados podem acessar a página do sociólogo no Facebook.

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Carlos Alberto Dória é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.
 
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A cultura guarani é a base da formação do Brasil. Os guaranis estavam aqui bem antes de nós e suas contribuições perduram até hoje na culinaria, na lingua, na topografia e compreensão do território, e ainda numa série imensa de costumes dos brasileiros de modo geral.  Fonte: Ministério da Cultura – MinC. "A cultura guarani e nós."
 


Dois anos após a Semana de Arte Moderna, o escritor Mário de Andrade, a pintora Tarsila do Amaral e a dama da aristocracia cafeeira Olívia Guedes Penteado embarcavam em certa cidade mineira plenos de chapéus, calças e vestidos de linho para duelar com a curiosidade pública.

Um popular desejou saber se integravam o circo. Mário de Andrade se virou para Tarsila: “Os elefantes chegam logo?” Ao que ela respondeu: “Chegam logo, sim!” 

O bom humor ainda será entendido como marca modernista a superar a dos versos livres. Fundador das bases que orientam a preservação do patrimônio histórico e artístico, Mário relatou suas viagens em crônicas de jornal em parte para financiá-las.

Somadas às impressões escritas, constituem O Turista Aprendiz (Mário de Andrade, 464 págs., R$ 50. Vendas pelo site do Iphan, reeditado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em parceria com a USP e o IEB. Acrescido de DVD do documentário A Casa do Mário e de um disco com diários do fotógrafo, reúne descobertas posteriores à mineira.
 


Em 1927, com Olívia, sua sobrinha Margarida e Dulce, sobrinha de Tarsila, Mário navegou por três meses entre Rio de Janeiro e Iquitos, Peru. Em  1928, viu-se no Nordeste, onde conheceu Câmara Cascudo. Registrou cantorias, danças, religiosidade, documentação que se somaria ao conhecimento dos livros.

A poesia borboleteia pelo volume rico mesmo nos dias feitos de nadas. “Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir uma imigração de malaios e no vão das mangueiras nasceu Belém do Pará.” Um dia, ao estranhar-se nesse mundo, Mário colocou o boné: “Olhei no espelho e era eu viajando. Fiquei fácil”.

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Rosane Pavam em Carta Capital.