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Composta por 120 fotografias, a exposição apresenta um panorama dos hábitos e costumes dos brasileiros nos últimos 100 anos, com ênfase na moda feminina cotidiana.

Durante amplo período de pesquisa iconográfica, feita por Goya Cruz, foram resgatadas fotografias – oriundas de álbuns de família, instituições, museus e acervos particulares – que traçam uma análise social e histórica da sociedade brasileira, ao longo dos últimos 100 anos. Além de fotógrafos anônimos, que registraram o dia a dia de suas famílias, a pesquisa inclui imagens de nomes consagrados, como Augusto Malta, Jean Manzon e Marcio Scavone. Com este material, e partindo do pressuposto de que “Tudo o que acontece na sociedade se reflete na forma de vestir”, surgiu o projeto Arquivo Urbano, composto por um livro (lançado em 2013, pela Luste Editores), e pela presente exposição. O livro – indicado do Prêmio Jabuti 2014 na categoria Arte e Fotografia -, traz as imagens acompanhadas por um texto de autoria de Mario Mendes, e relatam comportamentos difundidos por fontes como cinema, rádio, jornais, revistas e televisão, desvendando o país antes e depois do advento da indústria da moda.

Agora, as fotografias mais interessantes e emblemáticas ocupam o espaço Senac Lapa Faustolo em SP com ampliações e reproduções - as imagens que contam a história até os anos 2000 são impressas em tecido e exibidas em móbiles espalhados pelo museu; as mais recentes são mostradas em vídeo representando um novo tempo, a tecnologia e a velocidade que a comunicação atinge o público.

Ocorridas do início do século XX para o XXI, grandes transformações na sociedade geraram diversas mudanças nos hábitos e costumes da população. “A moda, o lazer, a alimentação: tudo mudou de forma extraordinária”, comenta Jussara Romão. A exposição Arquivo Urbano: 100 anos de Fotografia e Moda no Brasil apresenta o cotidiano dos brasileiros nos últimos 100 anos, enfatizando os aspectos da moda com imagens que provêm de acervos de diversas regiões, o que possibilita uma análise não restrita aos tradicionais centros políticos e financeiros do país.

Com isso, é contada uma história do Brasil. Não a história oficial de políticos e homens importantes para o país, mas a vida cotidiana dos brasileiros e sua evolução - um tema de interesse para os mais diversos públicos. A exposição representa, desta forma, um importante registro não apenas para historiadores e estudantes, mas também para o público em geral, uma vez que traz imagens curiosas, que contam a trajetória do país de modo pouco usual.

O Livro: Arquivo Urbano.

A Luste Editores lança Arquivo Urbano, da editora de moda, artista plástica e designer de jóias Jussara Romão, com texto escrito por Mário Mendes, curadoria fotográfica de Goya Cruz. e direção de arte de Guilherme Rex. O livro é um registro das mudanças no modo de vestir dos brasileiros, através de fotografias que contam a história do século XX no país.

Ao realizar algumas pesquisas, Jussara chegou à conclusão de que os acontecimentos históricos, econômicos e artísticos estão fortemente ligados à criação da moda, como objeto de desejo aos consumidores. “Tudo o que acontece na sociedade se reflete na forma de vestir.”, comenta a autora. A partir deste tema, veio a ideia de resgatar fotos de pessoas comuns em instituições, álbuns de família e acervos particulares, acompanhadas por um texto que resumisse a História do Brasil em cada década.

Tomando como ponto de partida o modo de vestir das pessoas, mostrado por meio de imagens, a autora traça uma análise social e histórica da sociedade brasileira, revelando fatos e acontecimentos que influenciaram fortemente o país.  Ao longo de 11 capítulos, Jussara relata comportamentos difundidos por fontes como cinema, rádio, jornais, revistas e televisão, desvendando o país antes e depois do advento da indústria da moda, sem estabelecer uma cronologia rígida.

Com o processo de criação do livro, Jussara destaca a noção de que a entrega de nossas fotos de família às instituições que preservam acervos fotográficos permite que a história de uma cidade, de um Estado, de um país seja contada. “Terá valido a pena ter registrado cada momento. Por isso minha gratidão a todas as famílias e pessoas que me ajudaram a contar como através da moda é possível conhecer e entender uma época.”

Serviço

Bate-papo:
Data 30/06  das 19h30 às 20h30. 
Capacidade - 100 pessoas que farão inscrições através do site.  
www.sp.senac.br/lapafaustolo

Exposição:
Data 30/06  à partir das 21h30.

Local: Senac Lapa Faustolo - Rua Faustolo, 1347.
A exposição ficará aberta ao público até o dia 24/07, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 21h30, e aos sábados, das 8h às 14h30.

 

O vídeo: “Architectura modernista em S. Paulo” mostra a inauguração da Casa da Rua Itápolis de Gregori Warchavchik.

Pesquisadores do acervo da FAU/USP acabam de recuperar o documentário “Architectura modernista em S. Paulo”, em que Mário de Andrade aparece. O curta em preto e branco, silencioso, apresenta a inauguração da Casa Modernista da Rua Itápolis, do arquiteto Gregori Warchavchik, em 1930.

O registro audiovisual é um documento importante para a história da arquitetura moderna brasileira, bem como um pequeno retrato da elite cultural paulistana da década de 30. Entre as personalidades mostradas no filme, vemos o escritor Mário de Andrade: algo raro pois, apesar de existir uma grande coleção de fotografias do artista, não há outro registro de imagem em movimento do poeta.

O filme pertence ao acervo da Biblioteca da FAU/USP e o processamento foi realizado pelo VIDEOFAU.

Assista: https://vimeo.com/128624346

Fonte: ArchDaily

 

'Minhoca na Cabeça' reflete sobre os medos que a cidade moderna causa em seus moradores. Peça será encenada aos domingos, de 14 deste mês a 26 de julho, às 10h e às 16h.

Uma menina está de mudança. Ela vem para uma cidade gigantesca, barulhenta e assustadora: multidões, prédios, engarrafamentos e violência fazem nascer uma minhoca em sua cabeça e ela fica com tanto medo que não quer mais sair de casa. É esta a história de Minhoca na Cabeça, o novo espetáculo que o grupo Esparrama encena semanalmente, entre o próximo domingo (14) e 26 de julho, em uma janela de frente para o elevado Costa e Silva, viaduto conhecido como Minhocão, na região central de São Paulo.

Desde novembro de 2013, a companhia vem se apresentando na janela do terceiro andar do edifício São Benedito, entre as alças de acesso do metrô Santa Cecília e a rua da Consolação. A primeira peça, Esparrama Pela Janela, foi vista por milhares de espectadores. A intenção da trupe é reforçar o movimento de transformação do Minhocão em local permanente de arte e cultura.

Desta vez, a história usa o humor para fazer com que as pessoas reflitam sobre os medos que a cidade moderna causa em seus moradores e as consequências sociais que eles ocasionam. São esses sentimentos ruins que alimentam a Minhoca na cabeça da Menina e fazem tudo parecer difícil.

Ela saiu de uma cidade pequena com muito espaço e veio para outra enorme onde, lhe parece, não cabe quase nada: nos bairros não cabem praças, as praças não têm espaço para árvores nem para crianças. A Menina só encontra espaço para seus sonhos e brincadeiras em sua própria cabeça. O problema é que ali também há lugar de sobra para o medo.

Mas nem tudo está perdido: ela terá o apoio de seus atrapalhados amigos Haroldo e Heraldo, que vão ajudá-la a descobrir novas e fantásticas formas de ver e navegar pela cidade. Mas, para isso, a personagem terá de enfrentar seus medos e decidir o que vai fazer com a Minhoca folgada.

“Quando propomos que o público venha até a frente da nossa janela, sente no asfalto e aprecie arte durante 45 minutos, nós estamos propondo um novo imaginário para a cidade, propondo novas relações com a rua, discutindo a noção de pertencimento e demostrando de forma prática que a arte sempre engloba uma dimensão política. Neste novo espetáculo quisemos tratar exatamente desta questão: o medo da cidade. A história fala de uma menina que tem vontade de ir para a rua, mas que ao mesmo tempo tem muito medo de enfrentá-la. No fim, ela descobre que nem todos os monstros que ela imaginou existem. Nós, enquanto população, precisamos reaprender o poder que tem a ocupação das ruas”, afirma Iarlei Rangel, diretor de Minhoca na Cabeça.

Se no primeiro espetáculo o grupo mostrava a realidade que invadia o apartamento de um morador do Minhocão, desta vez Esparrama extrapola os limites da janela e lança o olhar para a cidade. Esta inversão de perspectiva fará com que os atores ocupem – literalmente – o Minhocão e não apenas a janela que fica a poucos metros acima da altura do elevado.

Para Iarlei, levar arte para a rua provoca mudanças importantes para a construção de uma cidade melhor. “Parece que os últimos anos construíram uma noção de que a cidade não é lugar para estar, é lugar apenas para o trânsito, lugar de passagem. De várias formas nos incutiram que o lugar seguro para 'estar' é a nossa casa ou os locais privados, pelos quais temos de pagar de alguma forma (cinemas, shoppings etc.). A arte feita na rua nos devolve a noção de que a cidade é nossa e de que quanto mais a ocupamos mais ela fica segura e interessante”, declara o diretor.

Minhoca na Cabeça será encenada aos domingos, às 10h e às 16h, nos dias 14, 21 e 28 de junho e 5, 12, 19 e 26 de julho. Em caso de chuva, o espetáculo será cancelado. Mais sobre o Grupo na página dele no Facebook: https://goo.gl/PYOjPa

Xandra Stefanel, especial para RBA.

 

No filme de Leonardo Lacca, Irandhir Santos, o maior ator da atualidade, em São Paulo, a maior cidade do Brasil.

Era questão de tempo para que a “loucura” da metrópole que “nunca para” e “tem quatro estações num mesmo dia”, como definem os personagens de Permanência, estreia na quinta-feira 28, inspirasse o protagonista a rasgar a blusa emprestada pela amiga e ex-namorada e saísse declamando poesia no teto de um automóvel, contivesse uma rebelião no presídio, pulasse da senzala para assaltar a casa-grande, incorporasse a mulher para cantar Esse Cara ou o doido a dublar Ney Matogrosso no meio da rua.

Mas não. Tanto seu personagem, Ivo, como a cidade das efervescências parecem sob controle no filme de Leonardo Lacca. Parecem.

Ao chegar de Recife para sua primeira exposição individual de fotos em uma galeria, Ivo é questionado o tempo todo sobre o sol da capital pernambucana. Recife é o exotismo possível em uma metrópole mergulhada no (enganoso) recalque de um dia frio.

“Ali só chove”, avisa o personagem.

Dali em diante, os diálogos entre ele e a ex-namorada, Rita (Rita Carelli), e as pessoas com quem esbarra pela cidade são quase sempre banais. Os temas variam entre o clima, a hospitalidade, o trânsito, viagens, pequenos projetos, as ruas e seus perigos. Ironia das ironias, o fotógrafo circula em uma cidade adormecida. Todos parecem estar dormindo quando ele sai de casa ou quando volta.

Em vez de multidões, o vazio, como quando caminha em dupla pelo bairro ou observa sozinho o túnel da Linha 4 do Metrô. Nessa cidade silenciosa, é possível ouvir a máquina de espremer laranja, de selecionar os grãos do café ou de cortar papeis.

Ao diretor interessam os detalhes dos espaços desocupados. A fala é uma delas. No filme, não importa o que é dito, e sim o que não é dito. Os personagens falam o tempo todo para que o silêncio não delate uma tensão e essa tensão não delate o que realmente querem dizer: medo, desejo, pulsão. É mais ou menos como a São Paulo que os recebe. Dela espera-se ruídos, berros, explosões, descaminhos, mas ela se revela tanto no silêncio de suas ruas das manhãs e das madrugadas como nos espaços diminutos - um apartamento, uma galeria, a claustrofobia de um elevador. Essa solidão ilhada numa multidão é o que permite topar com a gente mesmo – daí o pânico.

Nesses encontros inevitáveis dos vazios que se expressam por si, resvalamos em uma pretensa naturalidade organizada pelo pensamento. Mas elas não dizem o inevitável: que as relações humanas, formais ou desmanchadas, são também um discurso. Nesse discurso, o que é o acolhimento? O que se dissipa? O que engendra? O que permanece?

“Eu não tenho mais o que falar. A gente perdeu o assunto”, admite o personagem, entre o desapontamento e a serenidade, após o reencontro com Rita, agora casada, agora responsável, agora contida.

Permanência é a história não só do que foi, mas do que poderia ter sido e do que ainda é. É a foto em preto e branco na parede. É o que se esquece e o que se registra. É o não-dito. É o que permanece e reaparece nas novas pessoas que, como na música de Caetano Veloso, engendramos em nós e de nós. A travessia da ponte-aérea não é só o retorno, mas a continuação revelada. Rita, como Recife ou São Paulo, é tudo, menos uma foto dolorosa pendurada – e estática – na parede.

Matheus Pichonelli em Carta Capital




 

6º Mostra SP de Fotografia inaugura dia 11 de junho com 30 pontos expositivos, 70 autores em 10 ruas do bairro até 11 de julho! Conversas, passeios, projeções e ações especiais. Acompanhe programação e novidades. Mais um ano de muita fotografia na Vila Madalena.

Fotógrafos participantes: Alejandro Vasquez, Alexandre Orion, Alisson Louback, Andrea Eichenberger, Andrea Matarazzo, Ângela Di Sessa, Antonio Emygdio, Autunm Sonnichten, Bel Duarte, Bob Wolfenson, Bruno Miranda, Bruno Sandini, Carla Venusa, Carlos Dadorian, Carlos Goldgrub, Carol Quintanilha, Cássio Vasconcellos, Claudia Jaguaribe, Claudio Cruz, Claudio Edinger, Claudio Elisabetsky, Coletivo Mira, Cris Bierrenbach, Cristina Guerra, Daniel Kfouri, Daniel Klajmic, Daniela Schmidt, Denise Giglio, Denise Meirelles, Erick Diniz, Fernando Costa Netto, Francilins, Geraldo de Barros, German Lorca, Gilvan Barreto, Gustavo Minas, Hannah Gopa, Helena Wolfenson, Herman Tacasey, Horácio Coppola, Hugo Martins, Iatã Canabrava, Ilana Lichtenstein, Jair Bortoleto, Jéssica Mangaba, João Castilho, João Lineu, João Wainer, Johanna Lieskow, Jornalistas Livres, Juan Esteves, Julieta Bacchin, Leo Cap, Lucrécia Couso, Maira Fridman, Marcello Cavalcanti, Marcia Zoet, Marcos Muzi, Martin Chambi, Mauricio Lima, Midia Ninja, Nair Benedito, Nilmar Lage, Paula Pedrosa, Pedro David, Rafael Roncato, Renato Stokcler, Ricardo Correa Ayres, Roberta Dabdab, Roberto Joele, Rodrigo Braga, Rogério Assis, Rua Fotocoletivo, Rui Mendes, Sergio Silva, Tuca Reinés, Tuca Vieira, Valdir Cruz e mais! 

Locais expositivos: DOC Galeria, Oppa, Beco do Batman, Japonique, Galerizie, My Fots, Grade Fidalga, Galeria NIKON, Les Delices de Maya, Refazenda, Flávia Aranha, Estúdio Osb, Galeria Crivo, Coletivo de Ideias e Cultura, Estacionamento Harmonia 128, Empório Sagarana, Marcenaria Baraúna, Farm, Muro Aspicuelta 663, Instituto Chão, Galeria Mezanino, Muro Patzal com Girassol, Galeria Ímã, Luiza Perea, Poste Aspicuelta 662, Galeria Porão, Espaço Cult, RUAA, Muro Girassol 326 e Agá Presentes.

A sexta edição da Mostra tem patrocínio da Philadelphia, Heineken e Nikon Brasil. O evento é uma realização da DOC Galeira. Tem apoio do São Paulo São e da SPTuris.

 


Até a metade do século 19, São Paulo era uma cidade provinciana, pequena, desimportante. Pouco diferente da época de sua fundação, em 1554. Assim, não foi à toa que, ao traçar a história de São Paulo das origens até 1900, Roberto Pompeu de Toledo titulou a obra de A Capital da Solidão (Objetiva), lançada em 2003. Ao retomar a empreitada de fôlego e detalhar o nascimento da metrópole entre 1900 e 1954, Pompeu definiu bem a fantástica mudança sofrida pela cidade, traduzida no título do novo livro, A Capital da Vertigem, lançado agora pela mesma Objetiva. De fato, não parece ser a mesma São Paulo – o ritmo de crescimento, impulsionado pela riqueza do café e pela vinda dos imigrantes, foi vertiginoso. A população aumentou exponencialmente, o que alargou os limites do município, especialmente para a zona oeste. Luz elétrica, bondes, fábricas, o desenvolvimento foi frenético.

São Paulo também cresceu para cima, com a construção dos arranha-céus, daí ser a capital da vertigem. E, nesses mais de 50 anos de história relatados por Pompeu, a cidade abrigou figuras notáveis, entre políticos e artistas, além de ser o palco de momentos dramáticos como a Revolução Constitucionalista de 1932. Sobre a pesquisa, Pompeu, que estará na próxima Flip, respondeu por e-mail às seguintes questões.

Você acredita que existe uma cidade que se desenha no tempo e no espaço e uma outra, mais secreta, que se revela na vida cotidiana de seus habitantes?

Sim, acredito. Essa cidade “mais secreta” é até mais significativa do que a cidade de tijolo e asfalto. Difícil é capturá-la em suas muitas manifestações. Há uma multiplicidade de vidas cotidianas concorrendo ao mesmo tempo. Algumas delas se fazem presente um pouco por toda parte. Eu destacaria o capítulo 7 do meu livro, intitulado Paesandeu, Vila Mariana e Abaix’o Piques. “Pausandeu” (nome pretensamente afrancesado de Paissandu) fala do mundo dos bordéis (e como havia bordéis, no início do século 20...) tal qual retratado no livro Madame Pommery, de Hilário Tácito. “Vila Mariana” era onde ficava a Vila Kyrial, mansão em que o mecenas Freitas Valle sediava os seus saraus litero-político-musicais. E o “Abaix’o Piques”, o mais reles recanto do reles largo do Piques (atual praça da Bandeira), era a moradia e a sede das aventuras do famoso Juó Bananére, o caricato ítalo-brasileiro das crônicas de Alexandre Marcondes Machado. São três mundos que raramente se tocam, mas que se complementam como fontes das relações entre as classes, os sexos e as nacionalidades (havia muitos imigrantes estrangeiros em São Paulo) no período.

O arquiteto Benedito Lima de Toledo criou uma metáfora que se tornou célebre: São Paulo seria um “palimpsesto” que, de tempos em tempos, receberia uma escrita nova, de qualidade literária inferior. Concorda?

Do ponto de vista estritamente urbanístico, concordo. Os planos da primeira metade do século 20 eram mais bem pensados. Ou melhor: eram pensados. Os que vieram depois foram contribuições à arquitetura e ao urbanismo do caos. Já não saberia dizer se era melhor viver naquela cidade. São Paulo, como escrevo na abertura do livro, é Maurília, uma das cidades imaginárias de Italo Calvino. Nela, observa-se com enlevo, nos cartões postais, como era graciosa tal praça com um chafariz hoje tragada por uma avenida, ou tal esquina com delicadas construções hoje substituídas por um arranha-céu.

O Obelisco do Largo da Memória é o monumento mais antigo da Capital – tem 200 anos. Quais construções você considera essenciais para narrar a história de São Paulo no início do século 20?

Decisivas para São Paulo são duas obras ainda do fim do século 19, o viaduto do Chá e a avenida Paulista, tratadas no meu livro anterior, A Capital da Solidão. O viaduto libertou São Paulo do ovo em que estava enclausurada, na colina histórica. Imagine-se o que era descer o barranco de um lado, percorrer o matagal do vale do Anhangabaú, atravessar uma das precárias pontes sobre o riacho, lá no meio, continuar pelo matagal e galgar o barranco do outro lado. O viaduto veio a permitir a expansão da cidade para o oeste. O construtor da avenida Paulista, Joaquim Eugênio de Lima, teve a genial intuição de, em vez de rasgar apertadas ruazinhas, abrir uma avenida ocupando todo o dorso do espigão que separa as águas do Tietê das do Pinheiros. Com isso, deixou à cidade o legado de uma via capaz de conferir-lhe, pelo tamanho, pela facilidade de circulação e pelas possibilidade estéticas, uma nova centralidade. Já no século 20, a construção do teatro Municipal foi importante para exigir a urbanização do matagal do Anhangabaú, daí surgindo um parque bem resolvido, bem no centro da cidade (hoje aviltado). Do outro lado da colina histórica, o parque D. Pedro (hoje aviltadíssimo) teve efeito similar, substituindo a antiga várzea alagadiça por um lugar aprazível e facilitando a ligação com os populares bairros do Brás e da Mooca.

Em A Capital da Solidão, você resgatou personagens que estavam esquecidos, como Luis Gama. O que dizer desse período entre 1900 e 1954?

Não sei se estão esquecidos, mas há no livro uma legião de personagens decisivos, de Antônio Prado (primeiro prefeito) a Ciccillo Matarazzo (criador do Museu de Arte Moderna, das Bienais e do Parque do Ibirapuera). Certamente esquecido é Cícero Marques, que ressuscito em dois momentos: primeiro com um curioso livro em que reconstitui, quarteirão a quarteirão, a rua de São João (antecessora da avenida São João) de seu tempo de jovem; depois, como um dos rapazes convocados por Paulo Prado para aplicar a necessária vaia aos artistas da Semana de Arte Moderna – sem vaia, o que seria daquele evento? A vaia garantiu-lhe lugar de honra na posteridade. Quando, de fato, São Paulo revela sua vocação de metrópole? Os especialistas dão várias definições de metrópole e exigem várias condições para que as cidades possam ostentar tal título. Aprendi nas pesquisas do livro que dois equipamentos essenciais, a partir de finais do século 19, são os arranha-céus e os bulevares. São Paulo começa a equipar-se deles nos anos 1920, com a construção da avenida São João, o primeiro bulevar, e do prédio Martinelli. Mas era uma cidade ainda impregnada de ruralidades, como as carroças e os vendedores de leite de cabra de porta em porta, com a cabra portando um sininho que anunciava sua chegada. Outra condição é evidentemente o tamanho. No final do livro, coincidindo com o quarto centenário da cidade, em 1954, São Paulo se torna a cidade mais populosa do País, com 2,8 milhões de habitantes contra 2,6 milhões do Rio de Janeiro. Por essa época também ganha equipamentos culturais, essenciais a uma metrópole, como o Masp e o TBC. Mas ainda exibe um ranço provinciano. É a capital de um Estado, ainda que o mais rico, não a cidade que resume e reflete um País, como é hoje. Não tem a projeção internacional do Rio de Janeiro ou de Buenos Aires. Os mais rigorosos diriam que já tinha fincado as fundações de uma metrópole, mas ainda lhe faltava algo para sê-lo de todo direito.

A capa do livro traz uma foto da praça da Sé e a catedral ainda incompleta. Seria a transformação do Largo da Sé a mais significativa de São Paulo no período?

A transformação da Sé faz parte da reforma urbanística engendrada nos anos 1910. Insere-se nela, assim como o Anhangabaú, o parque D. Pedro e o alargamento das vias que cercam a colina central, a começar da Libero Badaró. Essa reforma é uma das duas de grande porte no período do livro. A outra é a de Prestes Maia, nos anos 1930/40. Prestes Maia pretendeu que sua reforma dava uma cara “definitiva” à cidade. Sabe-se lá quando uma cidade adquire sua cara definitiva, se é que um dia a adquire, mas até hoje, pelo menos, em linhas gerais, em sua parte central, a cidade tem a ossatura que ele lhe legou.

A importância dos acervos digitais na pesquisa do autor Carlos Eduardo Entini Entre A Capital da Solidão, de 2003, e o novo A Capital da Vertigem, Roberto Pompeu de Toledo presenciou o fenômeno da multiplicação dos acervos de jornais e de outras fontes digitalizadas e disponíveis online. A seguir, o autor dá detalhes desse processo. 

Como foi a experiência com a digitalização? 

Ter o acervo dos jornais disponíveis online foi fantástico. Pesquisei muito nos jornais, especialmente no Estado, que cobre todo o período do livro, mas também no Correio Paulistano, nas Folhas da Manhã e da Noite e em outras publicações. A internet também oferece teses e livros digitalizados que me foram úteis. No livro anterior, eu tinha que ir a bibliotecas. Desta vez, elas vinham a mim. Outra novidade extremamente útil que não havia ao tempo de A Capital da Solidão é a Estante Virtual. Graças a ela, achei livros que, de outra forma, não acharia. 

Os livros do Laurentino Gomes sofreram preconceito da Academia e de alguns historiadores. O mesmo ocorreu com A Capital da Solidão? Acha que vai acontecer com A Capital da Vertigem?

Não sei, não me chegaram manifestações desse tipo com relação ao A Capital da Solidão, mas não me surpreenderia se existissem, e que se manifestem agora comA Capital da Vertigem. A história não é propriedade privada, ou território reservado de caça de ninguém. Considero-me um narrador da história, não um historiador; historiadores não deviam ter ciúme, inveja ou bronca de quem não é historiador. Deviam guardar isso para seus concorrentes diretos e, nada impede que um historiador se permita ser também um narrador da história. A grande maioria não tem competência para isso, mas os poucos que a têm deviam sair a campo, sem medo do olhar atravessado dos colegas.

"A Capital da Vertigem." Autor: Roberto Pompeu de Toledo Editora: Objetiva (584 págs., R$ 59,90 em papel, R$ 29,90 e-book)

Ubiratan Brasil no Estadão.