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Com o tema 'Panoramas do Sul', terá início, hoje, 8 de outubro a 19ª edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil. Dividido em três grandes exposições, com trabalhos de 62 artistas, provenientes de 27 países, o festival será realizado em São Paulo até 6 de dezembro no Sesc Pompeia, no Paço das Artes e em um novo espaço expositivo, o Galpão VB, edificação com 800 m2 instalada na Vila Leopoldina, na zona oeste da capital paulista, que passará a sediar a Associação Cultural Videobrasil.
 
Galpão VB - Foto: reprodução do site oficial.
 

Com curadoria-geral de Solange Farkas, criadora do evento anual, nesta edição o festival foi concebido em parceria com os curadores-associados brasileiros Bernardo José de Souza, Bitu Cassundé, Júlia Rebouças e o português João Laia. Convidados pela comissão de curadores, os artistas Abdoulaye Konaté (Mali), Gabriel Arantes (Portugal), Yto Barrada (Marrocos/França) e Sonia Gomes e Rodrigo Matheus (Brasil) terão trabalhos reunidos na mostra coletiva Panoramas do Sul/Artistas Convidados, que será realizada no Galpão do Sesc Pompeia.

Com foco na produção do Hemisfério Sul, as obras reunidas nessa mostra terão em comum a exploração de temas de caráter geopolítico da região, como a formação da identidade, os impactos do imperialismo e do colonialismo, a relação entre cultura e natureza e a transposição de produções artesanais para o contexto da arte contemporânea.

Nas áreas de convivência do Sesc Pompeia também será realizada a mostra Panoramas do Sul/Obras Selecionadas. A coletiva reunirá trabalhos de 53 artistas e coletivos selecionados por meio de edital. Com expografia do arquiteto André Vainer, o espaço foi especialmente criado para provocar e cooptar o público alheio ao festival. Nos corredores externos e internos, estarão expostas obras que propõem reflexões sobre temas como pertencimento, diáspora e a dimensão humana perante a magnitude da natureza. O Teatro do Sesc Pompeia será palco do Programa de Filmes, performances e uma seleção de trabalhos do artista norte-americano radicado em Portugal Gabriel Abrantes.

As atividades multidisciplinares do Galpão VB terão início com a exposição Panoramas do Sul/Projetos Comissionados, que reunirá obras inéditas do malinês Abdoulaye Konaté feitas especialmente para o festival. A programação inaugural do novo espaço também inclui laboratórios, programas de processos criativos e ativações permanentes de obras do Acervo Videobrasil. No decorrer do festival, o Galpão VB acolherá trabalhos do colombiano Carlos Monroy, do brasileiro Cristiano Lenhardt, da queniana Keli-Safia Maksud e do taiwanês Ting-Ting Cheng.

No Paço das Artes, será realizada a paralela Quem Nasce Pra Aventura Não Toma Outro Rumo. Com curadoria de Diego Matos, que é coordenador do Arquivo e Pesquisa da Associação Cultural ­Videobrasil, a mostra reunirá trabalhos produzidos entre 1978 e 2012 por 17 artistas. São obras de brasileiros, como Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Carlos Nader e Cao Guimaraes, e expoentes estrangeiros da videoarte, como o peruano Gabriel Acevedo Velarde, o argelino Malek Bensamil e a chilena Claudia Aravena.

O festival também promoverá programas públicos, como oficinas, um seminário e conversas com curadores, artistas e pesquisadores. Nos três espaços de realização estarão disponíveis a chamada Zona de Reflexão, central multimídia que permitirá acesso às publicações da parceria entre o Videobrasil e o Sesc e conteúdo digital complementar do festival, como o Canal VC e a Videoteca, com mais de 1,5 mil obras do acervo do Videobrasil.

Serviço
19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo – SP.
De 6 de outubro a 6 de dezembro.
Sesc Pompeia. Telefone: 3871-7700
sescsp.org.br/pompeia

Marcelo Pinheiro na Revista Brasileiros.

 
A dura poesia das esquinas de São Paulo, imortalizada em 1978 nas palavras de Caetano Veloso, é o motor da arte de Ângela Leon na exposição 'Guia Fantástico de São Paulo', cujos desenhos originais podem ser vistos na galeria Guayasamín da Casa América de Madrid, até o dia 5 de novembro.
 
A designer madrilenha, que vive há mais de quatro anos na cidade brasileira, pensa em fazer uma segunda edição do projeto editorial que retrata a cidade misturando realidade e ficção. "O Guia nasceu através de crowdfunding e com a ajuda dos paulistas. Há um sentimento coletivo de apropriação dos espaços e um público que está interessado nisto agora ", disse Leon durante a abertura da exposição do Guia, como parte do programa 'América nos Une', na Casa América.
 
"Recomendado para todos que enxergam uma cidade, mas sonham com outra", diz o texto de abertura da exposição. Na verdade, os desenhos de Leon constroem uma imagem diferente da maior metrópole da América do Sul, cuja figura é marcada pelo concreto usado para construir seus edifícios, ruas e avenidas. Em seu trabalho, a designer evoca o lado humano e cultural da cidade ao lembrar, por exemplo, os cinemas que funcionavam nas ruas do centro na década de oitenta, muitos dos quais, hoje, se tornaram igrejas evangélicas.
 
Com a ajuda do arquitecto Miguel Rodriguez , diretor do Basurama Brasil, e o apoio de outros coletivos culturais, o guia poderá saltar dos desenhos para a realidade, através de intervenções artísticas em conhecidos festivais paulistas como os do Baixo Centro e a Virada Cultural. Assim, em uma espécie de realidade mágica, os cidadãos poderão *pendurar balanços no viaduto Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, que também pode ser converter em uma piscina de 10 centímetros de profundidade com a ajuda do arquiteto e artista Luana Geiger, - mesmo que por apenas por 24 horas.
 
León destaca essa colaboração entre artistas como parte do processo de reconquista do espaço público e de dar valor ao cotidiano e às manifestações populares da cidade. Em um dos desenhos se vê uma típica feira de rua de São Paulo, com suas frutas e verduras empilhadas. Essa imagen, que marcou León e Rodríguez, deu início ao projeto Caixa de Som, do coletivo Basurama. Registrado em vídeo e em cartaz na exposição, trata-se de um instrumento que permite que “crianças de 0 a 99 anos” misturem os gritos dos vendedores das feiras, com ritmos populares, como o funk carioca por exemplo.
 
"São Paulo é uma cidade que tem  uma imagem ruim de congestionamentos, poluição... Este trabalho mostra uma visão otimista e quase de um sonho de cidade, não a metrópole que esmaga", disse a conselheira cultural do evento da Embaixada do Brasil em Madrid, Rita Berede Curtis. Como mostra um outro vídeo da exposição, que regista uma intervenção feita no Viaduto do Chá: "A cidade é para brincar."

*Balanços já foram pendurados no Viaduto do Chá, no centro da Capital - foto acima.

Natasha Rodrigues da Silva no El País. Tradução da Redação / São Paulo São.

 

 
Germano Mathias está que é só felicidade. Acaba de sair do estúdio onde gravou dois CDs, alicerçado por músicos que o acompanham há tempos. Aos 81 anos, ainda se diverte como criança. “Entre nós, é só piada”, diz o rei do samba sincopado, o último de sua espécie. Emenda uma história na outra, ri dos próprios chistes e só perde o bom humor quando comenta que os shows estão diminuindo. “Só dão valor aos sertanejos. E nem sertanejos eles são.”

Batizou o novo filho como Sambas de Morro – Inusitado, Peculiar e Sui Generis. “Luizinho 7 Cordas disse que o CD deveria se chamar Fim de Carreira”, gargalha. Define o disco como “estranho, cabalístico e esotérico”. “São sambas que ninguém teria coragem de gravar, só eu.”

No repertório, O Automóvel, O Relógio e A Mulher, “coisas em que a gente não deve depositar muita fé”, apregoa a letra de Mathias, a ecoar um ranço machista que se dilui quando se coloca em perspectiva o autor e sua época, além de se levar em consideração a alta carga de picardia a envolver o personagem.

Em Papo Furado, parceria com José Guimarães, cria o que chama de “embaraço”, uma abreviação das sílabas, quase um trava-língua que canta sem nenhuma dificuldade, enquanto outros tropeçariam feio. “Não me enrolo porque sou o Catedrático do Samba”, esclarece, relembrando o epíteto que Randal Juliano lhe deu no programa Astros do Disco, nos anos 1960. “Quem ouve pensa que eu fumei maconha estragada”, diverte-se.

Em Os Vidrados, outra parceria com Guimarães, o último dos malandros mostra que ninguém é chamado assim à toa. Tem de fazer por merecer. Foram anos de boemia, rios de dinheiro gastos em farras sem pensar no amanhã. Passada a juventude, se arrependeu um pouco, mas só um pouco. Na letra, Mathias (“com H de homem e M de macho”) descreve um casal que se deleita, cada um de uma janela no prédio, antecipando o momento em que estarão juntos. “Tem conotação pornográfica no final. No show eu imito os gestos”, informa, às gargalhadas.

O CD traz ainda Serenata Chinesa, de Braguinha, e Na China, marchinha de Haroldo Lobo e Milton Oliveira. “Estava tudo no meu baú. Muitos desses sambas antigos refletem o que está acontecendo hoje.” É batucada da boa, “o batuque é de samba tradição”, esclarece, para que ninguém ouse confundir com certos pagodes de batida intercalada. “São harmonias bonitas, que crescem no acompanhamento.” Na cozinha azeitada estão bambas como Luizinho 7 Cordas, Allan Abadia (trombone), Rodrigo (cavaquinho e banjo) e percussão comandada por Marcelo Barro, filho de Osvaldinho da Cuíca, que dispensa apresentações.

O CD Forrós Pé de Serra reúne clássicos do gênero compostos por Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Zito Borborema. “Está bem gravado e tem até ponto de umbanda pra macumbeiro. Posei pra foto com chapéu de cangaceiro e óculos pra ficar parecido com Lampião. Gostei demais de gravar.”

Ansioso pelo lançamento de Sambas de Morro, marcado para 18 de dezembro, no Sesc Belenzinho, adianta que na foto da capa do CD aparece “como um malandro, com braços abertos e gritando feito um filho da puta, muito doidão”. Metralhadora giratória, conta que dia desses Yvone, sua mulher, ameaçou lhe dar com o chinelo na cara. Só porque está seguindo à risca as recomendações do ministro da Fazenda sobre como proceder em fase de austeridade: “Ele lançou um pacote de maldades. Mandou apertar o cinto. A Yvone pediu 50 reais, eu disse 40?, por que 30?, 20 é muito, leva 10 e me traz o troco!”.

Ana Ferraz em Carta Capital.

 


Cores saturadas e cenários surreais, cheios de glamour e belas mulheres. O reconhecido estilo do britânico Miles Aldridge ocupa há décadas as páginas de Vogues ao redor do mundo. Agora, uma seleção especial de suas fotografias exibidas na Somerset House de Londres, em 2013, desembarca na Oca, no Parque do Ibirapuera, a partir do dia 15 de outubro. 
 
Miles Aldridge  (Foto: Divulgação)Miles Aldridge (Foto: Divulgação)
Miles Aldridge. Foto: Divulgação.
 
Com curadoria de Danniel Rangel e produção da Mega Cultural, A Dazzling Beauty fará parte do calendário oficial da São Paulo Fashion Week e apresentará cerca de 50 imagens clicadas pelo fotógrafo inglês. A exposição, patrocinada pela Sky, mostra uma pitada do universo do luxo, da beleza e da elegância, tão característicos da obra do artista. “Num primeiro momento, as obras parecem ser uma celebração a este universo, mas, olhando profundamente, levantam temas universais”, explica Aldridge sobre sua obra.
 
Miles Aldridge. Foto: Divulgação.
 
Filho do ilustrador britânico Alan Aldridge, e irmão das modelos Lily eRuby Aldridge, Miles sempre teve o lado criativo estimulado pela família, que tinha entre seus amigos mais próximos grandes estrelas da época, comoJohn Lennon, Eric Clapton e Elton John. Cursou artes plásticas na Central Saint Martins e após graduar-se, decidiu investir na carreira de fotógrafo de moda.
 
Miles Aldridge  (Foto: Divulgação)Miles Aldridge (Foto: Divulgação)
Miles Aldridge. Foto: Divulgação.
 

Seu estilo único levou-o a integrar coleções de importantes museus e galerias pelo mundo, como a da National Portrait Gallery e do Museu Victoria & Albert, ambos em Londres.

Serviço
Exposição Miles Aldridge
Oca: Avenida Pedro Álvares Cabral, Portão 3, Parque do Ibirapuera, São Paulo.
De 15 de outubro a 2 de novembro

Com informações de Ana Carolina Ralston na Vogue.

 


Confira a seleção e as dicas do Blog 'Divirta-se' do Estadão. Há atrações para todos os gostos.
 
O Maestrino
No novo espetáculo da Cia. do Quintal, o público é convidado a entrar no mundo mágico dos sonhos de um palhaço, habitado por seres mascarados. 60 min. Rec. da produção: a partir de 4 anos. Teatro Alfa (204 lug.). R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, S. Amaro, 5693- 4000. Sáb. e dom., 16h. Estreia sáb. (3). R$ 30. Até 29/11.
 
Bruxas da Escócia
Em clima de opereta, a versão de ‘Macbeth’ para crianças não terá derramamento de sangue. Os inimigos sairão voando, por meio de uma armadilha em forma de catapulta. Cia. Vagalum Tum Tum. Texto e dir. Angelo Brandini. 60 min. Rec. da produção: livre. Sesc Belenzinho. Teatro (392 lug.). R. Pe. Adelino, 1.000, 2076-9700. Sáb., dom. e fer., 12h. A partir de sáb. (3). R$ 20. Até 1º/11.
 
Carnaval dos Animais
Adaptado da obra de Camille Saint-Saëns, o espetáculo mistura técnicas de luz negra e do teatro de bonecos. No palco, bonecos de tartarugas, baleias, cangurus e dinossauros ganham vida e dançam em um carnaval. Cia. Imago. Dir. musical: Jamil Maluf. 45 min. Rec. da produção: livre. Teatro J. Safra (633 lug.). R. Josef Kryss, 318, Barra Funda, 3611-3042. Sáb. e dom., 16h. R$ 20/R$ 40. Até dom. (4). 
 
Carmencita
Nesta adaptação para crianças da ópera ‘Carmen’, de Georges Bizet, a atriz Cris Miguel interpreta a palhaça Cristianita, que narra a história e também manipula bonecos. 50 min. Rec. da produção: livre. Sesc Campo Limpo. R. Nossa Senhora do Bom Conselho, 120, 5510-2700. Sáb. (3) e dom. (4), 17h. Grátis. 
 
Era Uma Era 
Primeira montagem infantil da Cia. Mungunzá, o espetáculo conta a história de um rei que fará de tudo para ganhar notoriedade na história do seu reino. Dir. Verônica Gentilin. 70 min. Rec. da produção: a partir de 6 anos.Teatro João Caetano (70 lug.). R. Borges Lagoa, 650, V. Clementino, 5573-3774. Sáb. e dom., 16h. Estreia sáb. (3). Grátis (retirar ingresso 1h antes). Até 22/11.
 
Esparrama pela Janela
O espetáculo que ocupa as janelas de um prédio no Minhocão faz nova temporada. Entre esquetes, a história de um homem que decide transformar o caos da cidade em poesia e música. Grupo Esparrama. Dir. Iarlei Rangel. 45 min. Rec. da produção: livre. Elevado Costa e Silva, entre o metrô Santa Cecília e a Rua da Consolação. Dom., 16h30. A partir de dom. (4). Grátis. Até 25/10. Em caso de chuva, o espetáculo é cancelado. 
 
Mônica Mundi
No espetáculo, Mônica e sua turma convidam o público para uma volta ao mundo. De forma educativa, as crianças conhecem as diferentes culturas. Dir. Mauro Sousa. 60 min. Rec. da produção: livre. Teatro Sérgio Cardoso (835 lug.). R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, 3288-0136. Sáb., dom. e fer., 16h e 18h30. A partir de sáb. (3). R$ 30/R$ 40. Até 18/10. 
 
Operilda na Floresta Amazônica
Espetáculo faz uma expedição pela história da música erudita no Brasil. Entre as composições, obras de Carlos Gomes e Villa-Lobos. Dir. Regina Galdino. Texto Andréa Bassit. 60 min. Rec. da produção: a partir de 6 anos. Teatro Paulo Eiró (460 lug.). R. Adolfo Pinheiro, 765, S. Amaro, 5546-0449. Sáb. e dom., 16h. A partir de sáb. (3). Grátis (retirar ingressos 1h antes). Até 11/10. 
 
Pinocchio 
No clássico de Carlo Collodi, Pinocchio é um boneco de madeira que ganha vida. Sem ouvir os conselhos do pai, o garoto conta várias mentiras que o colocam em perigosas aventuras. Dir. Pamela Duncan. 50 min. Rec. da produção: a partir de 4 anos. Teatro Folha. Shopping Pátio Higienópolis. Av. Higienópolis, 618, 3823-2323. Sáb. e dom., 16h. A partir de sáb. (3). R$ 30. Até 20/12. 
 
Trem das Onze
Dois palhaços, mestre e aprendiz, não conseguem se entender e sempre se enfiam em situações engraçadas. Enquanto isso, a dupla apresenta números clássicos do circo. Texto Carlo Felipe Pace. Dir. Alexandre Roit. 60 min. Rec. da produção: livre. Sala Crisantempo (100 lug.). R. Fidalga, 521, V. Madalena, 3819-2287. Sáb. e dom., 16h. Estreia sáb. (3). Grátis (retirar ingresso 1h antes). Até 22/11.
 
 


Elza é a Maria da Vila Matilde. Sem dignidade a perder, ameaça chamar a polícia se o marido que a espanca bater à porta de novo. E se insistir em entrar, coloca água no fogo até levantar bolha, arremessa no infeliz e solta o cachorro para ele fazer o resto do serviço. Elza é a mulher do fim do mundo, que chora samba na ponta dos pés e deixa a voz e a pele preta na avenida. Que faz da apoteose sua casa e sua solidão e que, ao fim de um carnaval sem confetes, se joga do terceiro andar para se livrar do resto dessa vida.
 
Elza Soares não sorri. Ela está sentada em uma poltrona na sala de ensaios do Estúdio Nimbus, na Lapa, em São Paulo. Quando termina uma sessão, recebe o Estado cordialmente mas sem personagens. Seu novo disco, A Mulher do Fim do Mundo, é uma corda esticada sobre um precipício por onde caminha tensa e decidida. Aos declarados 78 anos de idade, com a dor das costas operadas limitando seus passos e o desespero da recente perda de um filho ainda tomando o peito, Elza, mais do que cantar, precisa do grito. E ele veio salvá-la assim que o baterista e produtor Guilherme Kastrup a convidou para o trabalho.
 
A Mulher do Fim do Mundo é feito sobre quase sambas e quase canções impedidos de serem inteiros pela interferência de um pensamento rock and roll que deixa a alegria e a tristeza dos sambas e das canções de molho no ácido. Guitarras distorcidas com frases em vez de solos, baterias secas, barulhinhos e vazios vão tirando o chão de Elza em um comportamento semelhante ao que o disco 'Recanto' fez com Gal Costa. Com mais sugestões do que levadas, sua voz, acostumada ao taco das gafieiras, flutua sem nem sempre deixar claro onde vai pousar. “Eu sabia que seria um som diferente, moderno. Não tem samba nem canção. É muito mais difícil cantar assim”, diz Elza. “Você não relaxa. São músicas tensas mas perfeitas para o meu momento. Este disco é uma salvação, eu precisava disso.”
 
Elza está diante do primeiro álbum de músicas inéditas em mais de sessenta anos de carreira. As letras foram escritas todas para ela por músicos de personalidades desafiadoras, formadores de um bloco colaborativo que tem sido apontado como uma espécie de nova vanguarda paulistana. Douglas Germano mandou a indomável 'Maria da Vila Matilde'; Romulo Fróes, dentre outras, fez com Alice Coutinho 'A Mulher do Fim do Mundo'; Rodrigo Campos enviou 'Firmeza?!' e 'O Canal'; Kiko Dinucci, sozinho, fez 'Pra Fuder', e, com Clima, colaborou com 'Luz Vermelha'; e Marcelo Cabral e Clima mandaram 'Solto'. Todas as músicas estarão disponíveis para serem ouvidas em streaming a partir desta quinta-feira (1) no site da Natura.
 
Assim que Kastrup procurou Elza para saber sobre o que ela gostaria de falar, a cantora respondeu “sexo e negritude”. De sexo, falou mais na nervosa 'Pra Fuder', rompendo uma quase virgindade na música brasileira que ainda tem medo do palavrão. Um afrossamba punk com metais do grupo Bexiga 70, cheia e vigorosa. E na história do travesti 'Benedita', de Celso Sim, Pepê Mata Machado, Joana Barossi e Fernanda Diamant, que leva o cartucho na teta, abre uma navalha na boca, tem dupla caceta e é tera chefona. “Medo de palavrão, eu? Palavrão a gente ouve a toda hora. Palavrão é falta de emprego. Quer mais palavrão do que esse?”, fala Elza. Kastrup diz o seguinte: “É um disco libertário, contra essa caretice.”
 
A negritude não é um tema tão explícito, mas ela pensa em firmá-lo mais nos shows de lançamento de sábado (3) e domingo (4), no Auditório Ibirapuera, com ingressos esgotados. Elza quer falar sobre algo pelo qual tem sentido um desconforto maior nos últimos tempos, um recrudescimento do preconceito racial. “Eu falo muito da homofobia, do preconceito contra a mulher, mas sinto que não estamos tendo mais nenhuma referência para os ‘blacks’ que estão nascendo agora. Esconderam os negros, não há mais nada representando a negritude. O negro não sabe quem é. Fiquei muito assustada ao saber que uma cantora nova estava esses dias cantando em São Paulo quando alguém jogou um ovo e a chamou de negra maldita.” 
 
O fluxo em mão dupla é o que o faz o álbum único na carreira de Elza. De lá para cá chega um conceito de demolição sonora com narrativa crônica sobre o qual a cantora jamais havia se acomodado. E olha que ela canta e experimenta desde que o samba era samba mesmo, antes de existir a própria bossa nova. De cá para lá, marcha uma voz que já não é mais só a voz, mas uma mulher inteira, como um trator terraplanando os traços rabiscados pelos paulistas. Se ela precisava deles no momento de desafiar a si mesmo, eles também falam mais alto quando têm uma voz do tamanho de Elza.
 
A liberdade de Kastrup e seus músicos, que dá a dignidade a Elza, existe em um contexto artístico e em outro maior, o econômico. A empresa de cosméticos Natura, que patrocina o álbum e os shows que saem dele, completou dez anos colocando discos de excelência na praça. Só este ano foram Emicida, Tulipa Ruiz, BNegão, Chico Cesar, Filipe Catto e Rodrigo Campos. Emicida gravou parte de seu projeto na África. Uma festa promovida à base de leis de incentivos fiscais que garantem as três fases do processo: liberdade de criação, gravação e circulação sem nenhum interesse comercial. O negócio nunca foi, até aqui, venda em lojas. 
 
A questão é que o País está em crise e, logo, tudo fica ameaçado. Como os grandes movimentos artísticos que só existiram com o dinheiro das gravadoras, a boa saúde da música nova feita em São Paulo, que garante visibilidade maior que os surtos segmentados e muitas vezes invisíveis de internet, depende das transfusões de sangue feitas por empresas privadas como a Natura, em um modelo criado há dez anos. Sem nenhuma intenção em gorar, sempre é bom ter um plano B.
 
Julio Maria em O Estado de S.Paulo.