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Elza é a Maria da Vila Matilde. Sem dignidade a perder, ameaça chamar a polícia se o marido que a espanca bater à porta de novo. E se insistir em entrar, coloca água no fogo até levantar bolha, arremessa no infeliz e solta o cachorro para ele fazer o resto do serviço. Elza é a mulher do fim do mundo, que chora samba na ponta dos pés e deixa a voz e a pele preta na avenida. Que faz da apoteose sua casa e sua solidão e que, ao fim de um carnaval sem confetes, se joga do terceiro andar para se livrar do resto dessa vida.
 
Elza Soares não sorri. Ela está sentada em uma poltrona na sala de ensaios do Estúdio Nimbus, na Lapa, em São Paulo. Quando termina uma sessão, recebe o Estado cordialmente mas sem personagens. Seu novo disco, A Mulher do Fim do Mundo, é uma corda esticada sobre um precipício por onde caminha tensa e decidida. Aos declarados 78 anos de idade, com a dor das costas operadas limitando seus passos e o desespero da recente perda de um filho ainda tomando o peito, Elza, mais do que cantar, precisa do grito. E ele veio salvá-la assim que o baterista e produtor Guilherme Kastrup a convidou para o trabalho.
 
A Mulher do Fim do Mundo é feito sobre quase sambas e quase canções impedidos de serem inteiros pela interferência de um pensamento rock and roll que deixa a alegria e a tristeza dos sambas e das canções de molho no ácido. Guitarras distorcidas com frases em vez de solos, baterias secas, barulhinhos e vazios vão tirando o chão de Elza em um comportamento semelhante ao que o disco 'Recanto' fez com Gal Costa. Com mais sugestões do que levadas, sua voz, acostumada ao taco das gafieiras, flutua sem nem sempre deixar claro onde vai pousar. “Eu sabia que seria um som diferente, moderno. Não tem samba nem canção. É muito mais difícil cantar assim”, diz Elza. “Você não relaxa. São músicas tensas mas perfeitas para o meu momento. Este disco é uma salvação, eu precisava disso.”
 
Elza está diante do primeiro álbum de músicas inéditas em mais de sessenta anos de carreira. As letras foram escritas todas para ela por músicos de personalidades desafiadoras, formadores de um bloco colaborativo que tem sido apontado como uma espécie de nova vanguarda paulistana. Douglas Germano mandou a indomável 'Maria da Vila Matilde'; Romulo Fróes, dentre outras, fez com Alice Coutinho 'A Mulher do Fim do Mundo'; Rodrigo Campos enviou 'Firmeza?!' e 'O Canal'; Kiko Dinucci, sozinho, fez 'Pra Fuder', e, com Clima, colaborou com 'Luz Vermelha'; e Marcelo Cabral e Clima mandaram 'Solto'. Todas as músicas estarão disponíveis para serem ouvidas em streaming a partir desta quinta-feira (1) no site da Natura.
 
Assim que Kastrup procurou Elza para saber sobre o que ela gostaria de falar, a cantora respondeu “sexo e negritude”. De sexo, falou mais na nervosa 'Pra Fuder', rompendo uma quase virgindade na música brasileira que ainda tem medo do palavrão. Um afrossamba punk com metais do grupo Bexiga 70, cheia e vigorosa. E na história do travesti 'Benedita', de Celso Sim, Pepê Mata Machado, Joana Barossi e Fernanda Diamant, que leva o cartucho na teta, abre uma navalha na boca, tem dupla caceta e é tera chefona. “Medo de palavrão, eu? Palavrão a gente ouve a toda hora. Palavrão é falta de emprego. Quer mais palavrão do que esse?”, fala Elza. Kastrup diz o seguinte: “É um disco libertário, contra essa caretice.”
 
A negritude não é um tema tão explícito, mas ela pensa em firmá-lo mais nos shows de lançamento de sábado (3) e domingo (4), no Auditório Ibirapuera, com ingressos esgotados. Elza quer falar sobre algo pelo qual tem sentido um desconforto maior nos últimos tempos, um recrudescimento do preconceito racial. “Eu falo muito da homofobia, do preconceito contra a mulher, mas sinto que não estamos tendo mais nenhuma referência para os ‘blacks’ que estão nascendo agora. Esconderam os negros, não há mais nada representando a negritude. O negro não sabe quem é. Fiquei muito assustada ao saber que uma cantora nova estava esses dias cantando em São Paulo quando alguém jogou um ovo e a chamou de negra maldita.” 
 
O fluxo em mão dupla é o que o faz o álbum único na carreira de Elza. De lá para cá chega um conceito de demolição sonora com narrativa crônica sobre o qual a cantora jamais havia se acomodado. E olha que ela canta e experimenta desde que o samba era samba mesmo, antes de existir a própria bossa nova. De cá para lá, marcha uma voz que já não é mais só a voz, mas uma mulher inteira, como um trator terraplanando os traços rabiscados pelos paulistas. Se ela precisava deles no momento de desafiar a si mesmo, eles também falam mais alto quando têm uma voz do tamanho de Elza.
 
A liberdade de Kastrup e seus músicos, que dá a dignidade a Elza, existe em um contexto artístico e em outro maior, o econômico. A empresa de cosméticos Natura, que patrocina o álbum e os shows que saem dele, completou dez anos colocando discos de excelência na praça. Só este ano foram Emicida, Tulipa Ruiz, BNegão, Chico Cesar, Filipe Catto e Rodrigo Campos. Emicida gravou parte de seu projeto na África. Uma festa promovida à base de leis de incentivos fiscais que garantem as três fases do processo: liberdade de criação, gravação e circulação sem nenhum interesse comercial. O negócio nunca foi, até aqui, venda em lojas. 
 
A questão é que o País está em crise e, logo, tudo fica ameaçado. Como os grandes movimentos artísticos que só existiram com o dinheiro das gravadoras, a boa saúde da música nova feita em São Paulo, que garante visibilidade maior que os surtos segmentados e muitas vezes invisíveis de internet, depende das transfusões de sangue feitas por empresas privadas como a Natura, em um modelo criado há dez anos. Sem nenhuma intenção em gorar, sempre é bom ter um plano B.
 
Julio Maria em O Estado de S.Paulo.
 
 

 

O Museu Afro Brasil, em parceria com a Fundação Pierre Verger, inaugura no dia 1 de outubro a exposição “As Aventuras de Pierre Verger”. A mostra foi elaborada para possibilitar, inclusive ao público infanto-juvenil, a apreciação da obra do etnólogo e babalaô, reconhecido como um dos maiores nomes da história da fotografia no mundo.

Reunindo cerca de 270 imagens registradas por Verger em diversas partes do mundo e  destacando o cruzamento da fotografia com vídeos, tecidos artesanais de diferentes países e artes sequenciais (quadrinhos), a exposição marca a finalização do projeto Memórias de Pierre Verger, patrocinado pela Petrobrás e pela Odebrecht e que, por quatro anos, encampou a tarefa de duplicar digitalmente o valoroso acervo fotográfico da Fundação e de concluir o seu acondicionamento em condições adequadas.

A mostra que chega ao Museu Afro Brasil já foi exibida em Salvador, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), durante 3 meses (março a maio de 2015), com um grande sucesso de público, recebendo mais de 30.000 visitantes.A curadoria e coordenação é de Alex Baradel, responsável pelo acervo da Fundação Pierre Verger, é uma das mais completas realizadas pela instituição criada pelo próprio fotógrafo francês na Bahia, local que escolheu para residir depois de viajar pelo mundo registrando as expressões culturais e o cotidiano de diversos povos.

Em exibição até 30 de dezembro, o público é convidado a “embarcar” numa instigante viagem que retrata as experiências vividas por Pierre Verger (Paris, 1902 — Salvador, 1996), em um século marcado pelo desbravamento de fronteiras e guerras mundiais.

 

Foto: Pierre Verger / Fundação Pierre Verger.

Fronteiras

A exposição está dividida em nove módulos: Paris, Viagens, Polinésia, Saara, China, Peru, África, Projeto e Educativo. São cerca de 220 imagens expostas ao longo do circuito e outras 50 que integram os vídeos que compõem a exposição. Onze ilustrações do artista visual baiano Bruno Marcello (Bua) também acompanham a mostra, retratando ou ficcionalizando o personagem Verger em diversos episódios e contextos vividos por ele.

A exposição se destaca também por explorar o paralelo entre a obra de Verger e As Aventuras de Tintim, histórias em quadrinhos editadas entre 1929 e 1983, bastante populares e que se tornaram clássicas graças ao apuro estético dos traços e aos roteiros bem elaborados pelo autor belga Georges Prosper Reni, mais conhecido como Hergé.

'As aventuras de Pierre Verger'
Abertura: 1/10/15  às 19h.
Encerramento: 30/12/15.

Museu Afro Brasil
Av. Pedro Álvares Cabral, s/n
Parque Ibirapuera - Portão 10
São Paulo / SP - 04094 050
Fone: 55 11 3320-8900
www.museuafrobrasil.org.br 

F
onte: Secretaria de Estado da Cultura.

 


Elas quase viraram lixo, mas foram salvas, primeiro por uma operação clandestina e agora por uma digitalização a ser concluída em abril de 2016, mas que já ganhou exposição em São Paulo. 

São 166 mil ampliações fotográficas e 600 mil negativos resgatados da massa falida da "Última Hora", jornal criado em 1951 por Samuel Wainer (1910- 1980) que revolucionou o jornalismo da época ao abusar de fotos e apostar nas coberturas esportiva, policial e de música popular. 

Noventa imagens deste acervo foram selecionadas para a mostra "Última Hora - Imagens de um Acervo", no Arquivo Público do Estado, com curadoria do jornalista Vladimir Sacchetta, que descobriu, ao pesquisar o material, a imagem da presidente Dilma Rousseff, aos 22 anos, sendo interrogada numa Auditoria Militar em 1970. 

"Diante da quantidade de imagens maravilhosas e das surpresas que o acervo revela, criei uma narrativa possível a partir de recortes temáticos", explica Sacchetta.
 
Nem ele sabia, no entanto, que essas 166 mil ampliações representam só um terço do total de imagens do arquivo da sede do jornal, no Rio. 
 
Fundado para dar sustentação ao segundo mandato de Getúlio Vargas (1951- 1954) e se contrapor ao discurso de seu principal antagonista, o jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), membro da UDN, o jornal foi perseguido a partir do golpe militar de 1964. 
 
Sua sede foi invadida, a redação, destruída, e seu diretor, exilado. Poucos anos depois, o título era vendido e a sede, abandonada, abrigava a massa falida da empresa. 
 
Quando foi noticiado que o acervo seria vendido como papel velho, Pinky Wainer, filha de Samuel Wainer, e seu marido à época, o produtor de TV Roberto Oliveira, criaram uma operação clandestina para salvá-lo. 
 
"Alugamos uma jamanta e levamos aqueles armários de metal para um sítio da família", revela Pinky. Lá, o material foi selecionado com a ajuda de estudantes de jornalismo. Um terço foi guardado. Eram fotos de política, cultura, Carnaval e esporte –o restante voltou para a sede do Rio, para não levantar suspeitas. 
 
                                                              
                             Pres. Juscelino Kubitschek no Dia do Trabalho.                                 Atriz Vanja Orico tenta deter militares.                        
 
As fotos foram adquiridas em 1989 pelo então secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Fernando Morais, e enviadas ao Arquivo Público do Estado. Em 2012, com financiamento de R$ 585 mil da Petrobras, passaram por um processo de catalogação, higienização e digitalização, que deve disponibilizar todas as imagens online em 2016. 
 
"O mais marcante no acervo são as marcas de edição nas fotografias: dobras, realces, iluminação e montagens", explica Jacira Berlink, uma das responsáveis pelo processo. A Folha é detentora de outro acervo da "Última Hora", com 420 mil imagens em negativo de 1960 a 1969. 
 
"Última Hora - Imagens de um Acervo"
Quando: de seg a sex., das 9h às 17h, até 20/11.
Onde: Arquivo Público do Estado, r. Voluntários da Pátria, 596, Santana, SP, (11) 2089-8150. 
Quanto: grátis.

Fernanda Mena na Folha de S.Paulo.

Ps: "No final dos anos oitenta fui a Austin, no Texas, pedir socorro ao professor Foster Dulles para a pesquisa que daria no livro 'Chatô, O Rei do Brasil'.  No meio da conversa ele disse que estava tentando localizar o paradeiro do arquivo de fotos do jornal 'Última Hora'. Seu plano era comprar o acervo por 250 mil (dólares? cruzeiros? não lembro). Voltei ao Brasil e descobri que a coleção estava com Pinky Wainer, filha de Samuel Wainer, criador da 'Última Hora'. Convenci o governador Orestes Quércia a cobrir a oferta de Dulles e adquirir o arquivo, mais a única coleção completa e encadernada do jornal. Além de gostar de Samuel, já falecido, o governador tinha sido repórter na sucursal campineira da 'Última Hora'. O material foi adquirido e transferido para o arquivo - o de São Paulo, e não da Universidade do Texas. E agora pode ser visto por todo mundo".  

Fernando Morais -  jornalista, escritor e ex-secretário estadual de Cultura (em sua página no Facebook).
 


A oitava edição do Festival de Curtas de Direitos Humanos Entretodos, que ocorre entre os dias 5 e 9 de outubro, na capital paulista, terá como tema “Cidade Educadora”. Serão exibidos 28 filmes, sendo 14 nacionais e 14 internacionais. A programação é gratuita e ocorre em 78 pontos de exibição, como centros culturais, salas de cinema, cineclubes, centros educacionais unificados (CEUs), escolas, além de parques e praças.

As exibições contemplarão todas as regiões da cidade. A mostra é promovida pela prefeitura e organizada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Jorge Grinspum, que divide a curadoria do festival com Manuela Sobral, informou que o tema proposto reforça ações cotidianas e rotineiras da cidade e que contribuem para o envolvimento da população com esse espaço. “Ações espontâneas, movimentações comunitárias, manifestações como um sarau, uma projeção de cinema na periferia em praça pública, festas populares e passeatas. Tudo isso a gente entende como o papel da cidade para a população.”

O festival quer promover o cinema independente, valorizando o audiovisual como ferramenta de formação de educadores. Os curtas serão premiados por um júri oficial e pelo voto popular. O valor das premiações chega a R$ 7 mil.

Os filmes foram divididos em cinco programas, com cada sessão durando cerca de uma hora e meia. Grinspum acrescentou que os curtas foram reunidos em um mesmo grupo pela aproximação de linguagem audiovisual ou por uma similaridade de tema.

O programa Diversidades reúne seis filmes, sendo quatro estrangeiros, do Senegal, da Alemanha, de Cingapura e da França. O curador esclareceu que esses curtas se aproximam pela discussão das diferenças, especificamente de gênero e de idade. O programa dois com o tema Distâncias agrupa quatro filmes ligados pelas distâncias geográfica e de gerações. “O filme 'A Boneca e o Silêncio' é sobre uma menina que perde a mãe e tem sério problema com o pai. Ele tem um desfecho problemático”, explicou Grinspum.

Os sete curtas reunidos no grupo Olhares propõem uma metalinguagem do cinema. Além de produções brasileiras, participam diretores da Argentina, Alemanha e França. No programa quatro, denominado Dualidades, os filmes retratam facetas diferentes de um mesmo aspecto.

“Um dia é um dia do [deputado] Marcelo Freixo. A dualidade é mostrar o dia de um político com ações positivas”, adiantou. Os filmes do programa Extremo reúnem curtas com temas diversas, mas que expressam uma radicalidade das decisões que os personagens assumem na produção.

Além das exibições, o festival promoverá debates. No dia 6, às 14h, o bate-papo será com a diretora Carol Rodrigues do curta A boneca e o silêncio, na Fundação Gol de Letra. O diretor e roteirista Rafael Aidar, do curta Submarino, conversará com o público no dia 7, no Instituto Criar. No mesmo dia, Louis Mota, diretor de Mc Don't, participará de debate na Fundação Tide Setubal.

Os vencedores serão anunciados no dia 9 de outubro, a partir das 18h, no Centro Cultural São Paulo.

A programação completa pode ser acessada no site do festival.

Fonte: Agência Brasil.


 
Em 2014, quando a Feira do Livro de Buenos Aires homenageou a cidade de São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade, responsável pela programação, tomou uma atitude: apresentar São Paulo pelo viés de sua periferia. Sobretudo pela ótica dos saraus literários que acontecem nos bairros mais afastados do centro da capital paulista. Daí, mais uma centena de escritores e agitadores culturais de 16 coletivos embarcaram para Buenos Aires onde fizeram um barulho nunca visto na feira portenha. (Para lembrar leia abaixo o artigo que as curadoras da participação paulistana fizeram para o PublishNews).

Os ecos dessa movimentação ainda são escutados por Buenos Aires. Prova disso é o livro Saraus que acaba de sair pela editora Tinta Limón Ediciones. A edição bilíngue espanhol/português foi organizada por Lucía Tennina, tradutora, uma das curadoras da programação paulistana na feira e professora de Literatura Brasileira na Universidade de Buenos Aires. O livro reúne textos de expoentes da literatura marginal paulistana como Sérgio Vaz, Binho, Elizandra Souza, Ferréz, Buzo, Marco Pezao, Rodrigo Ciríaco, Zinho Trinidade e Fernando Ferrari. O lançamento na Argentina foi viabilizado pelo Programa de Apoio à Tradução da Fundação Biblioteca Nacional.
 
Notícia da época: "Curadoras da programação de São Paulo na Feira de Buenos Aires contam a experiência de levar autores da periferia da capital paulista à terra do tango."

A história até onde todos conhecem é que São Paulo foi a cidade homenageada na 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Todos sabem também que a escolha da prefeitura foi dar protagonismo à produção cultural das margens da cidade. Conhecem também, por algumas notas de jornal, quais os autores que estiveram presentes. À programação geral, todos tiveram acesso: foram 24 filmes exibidos no Malba, 34 mesas de autores, sete shows e quatro lançamentos de livros. A feira, como os leitores do Publishnews bem sabem, foi um sucesso de público, e em nosso estande não foi diferente.

O que ninguém no Brasil viu ou ouviu, mas os argentinos leram nos jornais e presenciaram na cidade, foi a linda festa que os mais de cem artistas dos dezesseis coletivos de saraus da periferia fizeram. O mercado estabelecido do livro – esquecido de onde vem a literatura, preso à crença da hegemonia branca do papel que prende letras que um dia voaram livres – olhava atônito o que acontecia no estande de São Paulo. Enquanto isso, o público foi crescendo de maneira exponencial. A curiosidade por saber de que se tratava um sarau transformou-se em desejo de repetir a vivência, de conhecer o que amigos contavam e de presenciar o que o Clarín declarou ser uma “experiência imperdível”.

Tamanha celebração não podia ficar restrita aos 144 m² do estande e nossos poetas ocuparam a cidade. Foram mais dezesseis encontros em diferentes bairros e instituições de Buenos Aires. Na universidade mais prestigiada da argentina, e uma das mais importantes da América Latina, a Universidade de Buenos Aires (UBA), numa conversar com os alunos dos cursos de Letras, tiveram suas obras discutidas, não só do ponto de vista sociológico, mas também por um viés formal e estético, afinal, não esqueçamos, trata-se de literatura, e de qualidade. Visitaram também o presídio de Devoto, onde a UBA mantém um curso de oficina de literatura. Depois do encontro, os detentos passaram a abrir as aulas com os versos de Marco Pezão, um dos pais fundadores, junto com Sérgio Vaz e Binho, dos saraus na Zona Sul: “nóis é ponte e atravessa qualquer rio!”.

Além de irem à UBA e a mais duas universidades em outros bairros e de se apresentarem em dois festivais de poesia que aconteciam paralelamente à feira, era desejo dos coletivos visitar bairros afastados e carentes de Buenos Aires. Visitaram La Matanza, um dos bairros mais estigmatizados da cidade, foram ao espaço de Eloísa Cartonera em La Boca e visitaram uma escola pública. O encontro mais emblemático foi no Galpon Piedrabuenarte, em Villa Lugano. No meio do distrito fica um conjunto de prédios semelhante às nossas Cohabs. No galpão, antes dedicado a guardar a cenografia não mais utilizada do Teatro Colón, dois rapazes jovens, Luciano Garramuño e Pepi Garachico, criaram um centro cultural. Como os representantes dos saraus que os visitava, fazem parte de uma juventude que não tem mais o desejo de sair do bairro, mas de transformá-lo, são enraizados e trazem tatuado no corpo o lugar de onde vêm. “Aqui, sim, nos sentimos em casa”, declarou um de nossos poetas.

Como parte do reconhecimento que nossa literatura periférica ou, como preferem alguns, entre eles Ferréz, também presente na feira, marginal, a tradutora e pesquisadora da UBA Lucía Tennina, organizou a antologia Saraus: movimento, periferia, São Paulo. O lançamento da coletânea de textos de autores da periferia de São Paulo não aconteceu só no estande, mas em duas grandes festas no La Cazona de Flores, centro cultural frequentado por universitários, intelectuais e ativistas. As festas foram até o amanhecer, como costumam acontecer em São Paulo. Um dos responsáveis pelo lugar afirmou: “nunca tivemos a casa tão cheia, nem nunca ficamos aqui até tão tarde”.

A poesia, a prosa e a garra dessa gente que faz arte independente de qualquer obstáculo tomou Buenos Aires e os efeitos foram claros. Na apresentação de despedida, no sábado (10/05), um cortejo de quarenta artistas foi seguido por mais de cem pessoas pelos pátios do La Rural. No estande, cerca de duzentas sentaram-se no chão e lotaram os corredores para acompanhar as derradeiras palavras desses poetas. Ao final, crianças, jovens, velhos, todos dançavam, batiam palmas e pés e repetiam os gritos de guerra que encerram os saraus dos coletivos convidados como se fossem seus. Sentindo-se parte da celebração, cantavam: “tambor, tambor, vai levar que mora longe. Vai levando os poetas que falaram no sarau. Boa viagem!”. Linda viagem fizeram os artistas da periferia de São Paulo, linda viagem proporcionaram àqueles que, sem preconceitos, se deixaram levar pela música, pela récita, pelo texto, e ousaram relembrar onde nasce a literatura.

Lucía Tennina e Tarcila Lucena foram curadoras da programação paulistana na Feira de Buenos Aires.

Assista aqui o Booktrailer.

Fonte: PublishNews.


A segunda edição da Pauliceia Literária está mais política e um pouco menos policial. O festival bienal trará a São Paulo, a partir desta quinta (24), escritores de destaque da literatura nacional e internacional contemporânea. Criado com o intenção de ser uma espécie de Flip – a festa literária de Paraty – paulistana, o evento teve a primeira edição, em 2013, norteada pela literatura policial.
 
O festival é organizado pela Associação dos Advogados de São Paulo. Neste ano a temática continua presente –como na homenagem a Luiz Alfredo Garcia-Roza, um dos principais nomes da literatura policial no Brasil –, porém em menor escala, cedendo espaço para debates mais diversos.
 
A política é pano de fundo de mesas como a que reunirá, na sexta (25), às 17h, o cubano Leonardo Padura e o argentino Martín Kohan, sob o tema "Estado de Exceção". 
 
"Acho que não há uma tônica dominando, mas é difícil pensar literatura sem a questão politica estar presente", diz o jornalista Manuel da Costa Pinto, curador desta edição e colunista da Folha. 
 
"Padura e Kohan falam de uma experiencia traumática como os regimes de exceção, mas a política aparece inevitavelmente em outros debates." 
 
Costa Pinto cita a mesa com o moçambicano Mia Couto e o angolano Agualusa, da qual será mediador. "Eles foram convidados por uma questão literária, mas vêm de países de descolonização muito recente, o que foi determinante para a literatura." Os ingressos para este encontro estão esgotados. 
 
Destaques da programação 
 
Quinta-feira (24) 
 
11h - Abertura Adriano Schwartz e Patrícia Melo debatem a obra de Luiz Alfredo Garcia-Roza, homenageado neste ano.
15h - Memória da ficção, ficção da memória O casal Ruy Castro e Heloisa Seixas fala sobre "O Oitavo Selo", no qual Seixas mistura ficção e realidade para narrar os confrontos de seu marido. 
 
Sexta-feira (25) 
 
17h - Estados de Exceção O cubano Leonardo Padura e o argentino Martín Kohan falam sobre os resquícios de ditaduras no presente. 
 
Sábado (26) 
 
11h - Guetos Poéticos A argentina Tamara Kamenszain e o gaúcho Leandro Sarmatz debatem poesia no último dia do evento. 
 
Serviço
Paulicéia Literária.
Quando: 24, 25 e 26/9.
Onde: Associação dos Advogados de São Paulo, r. Álvares Penteado, 151.
Quanto: de R$ 15 a R$ 32, ingressos pelo site do evento.