Livro conta a história do preconceito contra os japoneses no Brasil através de charges e caricaturas - São Paulo São

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Vários livros já foram lançados sobre a história dos japoneses no Brasil, porém, a análise de Marcia Yumi Takeuchi segue novos caminhos e traz novas reflexões político-sociais sobre a trajetória desses imigrantes.
Revista Fon-Fon, janeiro de 1908: um samurai espreita o Tio Sa. Imagem: ReproduçãoRevista Fon-Fon, janeiro de 1908: um samurai espreita o Tio Sa. Imagem: ReproduçãoEm um lançamento da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Imigração Japonesa nas Revistas Ilustradas: Preconceito e Imaginário Social (1897-1945) integra a coleção História das Migrações. Mostra a importância da veiculação de charges e caricaturas, de cunho literário ou cômico na construção da imagem estereotipada do imigrante japonês.

Importante destacar que o livro é resultado não só de sua tese de doutorado, mas de uma trajetória dedicada ao estudo da história da imigração japonesa. Marcia Yumi escreveu também Japoneses: A Saga do Povo do Sol Nascente, da Companhia Editora Nacional, além de diversos artigos. E tinha no horizonte a publicação do atual livro que está sendo lançado, sem que a autora pudesse testemunhar.
 

“Prefaciar um livro de Marcia Yumi Takeuchi é um privilégio, apesar de ela não estar mais entre nós”, escreve Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . “Infelizmente, ela faleceu no dia 1º de junho de 2010, vítima de um aneurisma.”

A professora faz um relato do trabalho da pesquisadora. “Do ponto de vista teórico e metodológico, as Crítica à desvantagem do poderio japonês. Imagem: ReproduçãoCrítica à desvantagem do poderio japonês. Imagem: Reproduçãoabordagens apresentadas por Yumi dedicam-se a analisar o processo de construção da imagem do japonês que, desde as primeiras décadas do século 20, foi estigmatizado como ‘indesejável’ e ou pertencente a uma ‘raça inferior’. Daí a expressão que dá título ao seu trabalho de iniciação científica e à sua dissertação de mestrado, O perigo amarelo. Com base em fontes inéditas, Yumi procurou recuperar as matrizes desse pensamento intolerante que, certamente, colaborou para a persistência de políticas discriminatórias por parte do Estado brasileiro, instigando manifestações de violência, física e/ou simbólica.”

Tese de doutorado

Maria Luiza Tucci Carneiro orientou a tese transformada neste livro que pesquisa o potencial das imagens como fontes históricas e meios de conhecimento para a reconstituição dos estigmas e estereótipos que povoam o imaginário coletivo. “Ao empreender de forma sistemática essa releitura das charges e caricaturas de japoneses publicadas nas revistas ilustradas brasileiras, a autora lança um olhar crítico sobre os múltiplos discursos que circularam na época, instigando-nos a olhar o passado com base nas indagações motivadas pelo presente”, esclarece a professora.

No decorrer de três anos, a autora selecionou as charges e artigos em revistas ilustradas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, entre 1908 e 1945. “Estabelecemos como meta o inventário de todas as revistas selecionadas, número a número, no que se refere aos textos e imagens sobre o Japão e os imigrantes japoneses no Brasil”, argumenta Marcia Yumi. “Havia, de nossa parte, a perspectiva de confirmar o que suspeitávamos de pesquisas anteriores: o forte vínculo entre a representação do colono japonês, as campanhas expansionistas do império na Ásia e os discursos oficiais em relação ao assunto, repercutidos na imprensa.”

O estudo da historiadora conclui que o antiniponismo não foi um fenômeno circunscrito aos tempos de guerra, contrariando as concepções de estudos anteriores sobre a imigração japonesa no Brasil, que defendem a tese de que a perseguição aos imigrantes e seus descendentes não fora tão significativa ou importante em comparação com a situação vivenciada pelos japoneses e descendentes nos Estados Unidos ou no Peru.
 
Revista Careta, julho de 1911: mitos em uma propaganda de sabonete. Imagem: Reprodução.Revista Careta, julho de 1911: mitos em uma propaganda de sabonete. Imagem: Reprodução.
A autora destaca especialmente a participação da imprensa para o aumento de preconceitos. “O conhecimento adquirido e a contribuição de nosso estudo estão na demonstração de que a minimização dos sofrimentos a que os imigrantes japoneses ficaram submetidos, o racismo e a xenofobia institucionalizados não têm fundamento senão no que chamamos de racismo à brasileira, disfarçado.”

Na frase que encerra o livro, Marcia Yumi faz uma consideração importante para os estudos futuros: “Por conseguinte, avaliamos que a abertura para novos debates é primordial para que seja alcançada a efetiva solidariedade entre os povos que contribuíram para tornar o Brasil a coletividade multiétnica de hoje”.

Imagem: Divulgação/ Edusp.Imagem: Divulgação/ Edusp.Serviço

Imigração Japonesa nas Revistas Ilustradas: Preconceito e Imaginário Social (1897 – 1945), de Marcia Yumi Takeuchi.
Lançamento da Editora da Universidade de São Paulo, Edusp, 472 páginas.
Preço: R$ 60,00.

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Por Leila Kiyomura no Jornal da USP.