The Clock: no filme de 24 horas, a monumental experiência da passagem do tempo - São Paulo São

A surpresa é que a hora na tela equivale à hora real. Imagem / Reprodução.A surpresa é que a hora na tela equivale à hora real. Imagem / Reprodução.

Você sai da avenida Paulista lotada, olha para o relógio, sobe as escadas rolantes do IMS e entra na sala escura.

Na tela, fragmentos de filmes. Milhares deles.

Glenn Close pergunta as horas e se apressa a voltar para o escritório depois de fazer sexo com o amante. Um menino provavelmente francês olha o relógio pela janela da sala de aula e espera ansioso que o fim da aula o salve das perguntas da professora. Numa trincheira da primeira guerra mundial, um militar olha atento para o relógio antes de dar a ordem do ataque.

São 24 horas seguidas em que cenas marcantes ou banais de filmes que você já viu – ou não viu – vão aparecendo sem parar.

A colar esses fragmentos, a onipresença da marcação do tempo. São despertadores, relógios de pulso, celulares, cucos e toda espécie de marcadores que mostram o tempo passando a cada minuto.

Tempo real

A surpresa é que a hora na tela equivale à hora real.

Se na tela, Sidney Poitier bebe copos e copos de whisky às 21:55, na sala escura, seu relógio também vai estar marcando 21:55.

É uma experiência hipnótica e poderosa. Eu entrei e saí várias vezes em diferentes dias. Fui em dias de semana, em finais de semana, de dia e de noite. Forcei-me a sair quando algum relógio marcasse 16:15 ou 22:22. E voltava ansioso.

A intimidade da platéia com a obra de arte

Na sala de projeção, sofás em vez de cadeiras. Foto: Divulgação.Na sala de projeção, sofás em vez de cadeiras. Foto: Divulgação.As pessoas entram e saem durante a projeção, com ares de quem já está em casa.

Vejo gente sozinha, vejo grupos que saíram do trabalho, com seus crachás. Às vezes, irrompe uma risada, um susto, mas na maior parte do tempo, as pessoas estão estáticas, ou extáticas, fascinadas com o que vêem na tela.

Num sábado à noite, quando o IMS - Instituto Moreira Salles transmite as 24 horas sem parar, a chegada da meia-noite gera uma expectativa palpável. Os sofás da sala estão lotados, há gente até no chão. Ao meu lado, uma menina vê a chegada do namorado e o beija intensamente, no clima das dezenas de relógios que badalam a hora mais celebrada do cinema.

Não há, porém, obviedades e nem concessões. Esperávamos as cenas clássicas da passagem do Ano-Novo, mas vemos pessoas em situações cotidianas, sofrendo com a passagem do tempo.

A passagem do tempo como experiência física

Essa talvez seja a maior dimensão do filme: ele não é para ser apreciado. É para ser vivido, o que talvez seja de fato o efeito que as grandes obras de artes exercem sobre nós. Como diz a crítica Zadie Smith – “você percebe que The Clock não é nem ruim, nem bom, mas sublime, provavelmente o maior filme que já viu”.

A compressão de enredos

Outra das dimensões da obra é ser uma compressão violenta de tantos enredos. Vemos artistas e filmes que conhecemos. Vemos outros que não conseguimos identificar. Vemos filmes em P&B, antigos, novos, de vários países, todos sem legenda. Vemos heróis, pessoas comuns, crianças, velhos, moribundos, bem-humorados. Vemos figuras magnéticas, mulheres e homens lindos, vemos figuras repulsivas.

Cada fragmento evoca a recordação de um filme inteiro, com seu enredo. Mas também evoca o dia em que o vimos num cinema, num VHS, num DVD, num Netflix. Lembramo-nos de quando assistirmos Taxi Driver pela primeira vez, mas não podemos pensar demais nisso. O filme avança. Os filmes avançam.

A frustração das expectativas

Dentre as cenas está um trecho de “O Homem Mosca“ (1923) com Harold Lloyd. Imagem / Reprodução.Dentre as cenas está um trecho de “O Homem Mosca“ (1923) com Harold Lloyd. Imagem / Reprodução.Assim, caímos em outra dimensão, a dimensão da frustração das expectativas. Como lidar com a sucessão de cenas que abrem perguntas mas não oferecem respostas? Os fragmentos de tantas cenas e tantas vidas atordoam. É como zapear por milhares de canais durante 24 horas sem parar.

Afinal, a cada minuto, aparecem duas, três ou dez ou vinte cenas curtas. Em cada uma delas a esperança de ver o desfecho de uma cena. E a frustração quando elas não se completam. Ao mesmo tempo, fica sempre pairando a curiosidade de ver o próximo: afinal, a porta que se abre num filme, vai fatalmente trazer uma surpresa no próximo filme.

A trilha sonora como fio condutor

A maravilhosa trilha sonora estabelece as conexões, mas as conexões nunca são causais: como ligar a tensão entre Julia e Winston em “1984” às peripécias de um casal alemão que transa em posição acrobática? Outras conexões são temáticas: alguém acende um cigarro e pronto. Há uma sucessão de cenas em que pessoas acendem seus cigarros, velas, lareiras e aquecedores a gás.

O fio condutor é às vezes conceitual, às vezes, temporal. Porém, nada impede que horas depois esses personagens reapareçam em outros papéis, outros contextos.

A pobre Andie MacDowell, por exemplo, está sempre atendendo um telefone que toca sem que ninguém responda do outro lado. Roger Moore olha para o seu Rolex dezenas de vezes sem proferir uma fala, como um 007 eternamente esperando sua deixa, que nunca chega.

A frustração da falta desfecho é substituída pela noção de que não há sentido, nem no filme, nem na vida. Como se entre o nascimento e a morte, as ações se sucedam sem um fio condutor que não seja a intenção do momento.

O impacto da hora real

O tempo não espera ninguém. Montagem com cenas do filme / Reprodução.O tempo não espera ninguém. Montagem com cenas do filme / Reprodução.Há ainda o impacto de ver a hora real na tela. Você acabou de almoçar. Na tela, alguém acabou de almoçar e está olhando para o relógio enquanto palita os dentes. De madrugada, você está com sono. Alguém vai bocejar às duas da manhã. De manhazinha, uma sucessão de despertadores está a postos para acordar os dorminhocos e chamar para um novo dia.

Alguns horários parecem especialmente ativos. Às nove da noite, por exemplo, vemos na tela pessoas esperando seus convidados para uma festa, uma orquestra que se prepara para tocar, um assassino prestes a cometer o crime. Na mesma hora, Kevin Costner, em “Os intocáveis” resolve colocar a filhinha para dormir antes de sair para enfrentar Al Capone, enquanto Cary Grant aparece dedilhando Night and Day, como Cole Porter.

A angústia invade outras cenas, outros filmes, ate que às 22h04, o raio cai na torre da igreja e Marty McFly, a bordo do seu De Lorean consegue sair do passado e voltar para o presente, em “De volta para o futuro”. É a deixa para outro clima, outros mistérios, outras tensões que vão virar a madrugada e se repetir para sempre.

A arte e a vida

A passagem do tempo se emaranha com a nossa vida. O autor, Christian Marclay, justifica:“Na minha idade, começo a pensar em quanto tempo de vida me resta. Cada um entende o tempo à sua maneira. Quando somos crianças, ele passa devagar, parece infinito, e vai acelerando conforme você envelhece”.

Não conhecia o artista. Leio que Marclay é um colecionador compulsivo desde a infância. Revistas, esculturas, rótulos de vinhos. A ideia da colagem é recorrente nas suas obras, desde a música até os filmes. A ideia de The Clock foi sendo gestada em anos, “ruminando”. Quando sentiu que era hora, fez uma linha do tempo e durante um ano foi juntando cenas para testar a viabilidade de marcar o tempo com os filmes. Depois que constatou que dava para fazer, ficou mais dois anos trabalhando para terminar.

O resultado é arte.

Que faz pensar na vida, que gera sensações às vezes boas, às vezes ruins, mas que incomoda sempre.

Christian Marclay. Foto: Art in Focus.Christian Marclay. Foto: Art in Focus.Lembro sem querer de uma sensação parecida, logo após ter assistido Koyaanisqatsi, de 1982, numa mostra de Cinema de São Paulo. A torrente das vidas em movimento embaladas pela música alucinante de Philip Glass também gerava vertigem, mas na obra de Marclay, o objeto parece o oposto. Em vez do fluxo incessante, em The Clock, as vidas são enquadradas de pertinho. Vemos Sean Connery chegando num cassino e sentimos o tempo congelado. Audrey Hepburn domina a cena e envolve o cinema, apenas para se desvanescer no segundo seguinte.

É uma obra de arte monumental, instigante, hipnotizante, que nos chama a pensar na vida de outra maneira, talvez com urgência, talvez com intensidade e, paradoxalmente, abandonar o relógio e contar a passagem do tempo pela intensidade de nossos atos.

Na saída do filme, a avenida Paulista nos chama de volta para o mundo real. O tempo não vai passar mais devagar, ao contrário, a cada minuto estamos mais perto da nossa morte, mas estaremos mais atentos ao enredo da nossa vida.

P.S. O filme anda pelo mundo desde 2010. Só vai ficar até 19 de novembro em cartaz em São Paulo, no IMS - Instituto Moreira Salles, Av. Paulista, 2439. A entrada é grátis.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.