Cinco exemplos de ‘caminhabilidade‘ pelo mundo - São Paulo São

Caminhar não é apenas caminhar. Deslocar-se a pé na cidade é, essencialmente, apropriar-se cotidianamente do espaço.

É estar no ambiente urbano de forma ativa, percebendo a cidade e os detalhes que dela fazem parte. A escolha por este que é o modo mais democrático de se locomover, no entanto, muitas vezes está atrelada a fatores externos como as condições físicas e sociais dos indivíduos e a existência, ou não, de infraestruturas que facilitem e estimulem essa opção.

Estamos falando de caminhabilidade. A caminhabilidade é um conceito que leva em conta, principalmente, a acessibilidade no ambiente urbano e mensura a facilidade que as pessoas têm de se deslocar na cidade. Os índices de caminhabilidade vão influenciar diretamente a predisposição que as pessoas têm ou teriam para caminhar em determinados locais.

Projeto da Prince Avenue na região central de Los Angeles, EUA. Imagem: CS Fundamentals / Divulgação.Projeto da Prince Avenue na região central de Los Angeles, EUA. Imagem: CS Fundamentals / Divulgação.O primeiro ponto a ser observado são as possibilidades de acessar, caminhando, áreas de lazer, comércio e entretenimento, como parques, lojas, restaurantes, museus, entre outras formas de atividades sociais e culturais. Em um segundo momento, analisam-se as condições do caminho que precisa ser percorrido até o destino. Nesse aspecto, a percepção que temos do ato de caminhar – nossa predisposição para optar por essa forma de deslocamento em detrimento de outras – também está intimamente ligada à qualidade das calçadas. Passeios públicos que atendam os princípios pelos quais deve ser norteada a construção de uma calçada estimulam os deslocamentos a pé e, como consequência, elevam a qualidade de vida nas cidades.

Repensar a forma como nos deslocamos, mais do que uma tendência, tem se tornado uma diretriz de planejamento urbano em grandes cidades do mundo. Amsterdã, Copenhague, Helsinque, Zurique, Hamburgo – todas caminham em direção a um futuro onde as ruas terão cada vez mais pessoas e menos carros. Veja abaixo como essas cinco cidades vêm trabalhando para incentivar os deslocamentos a pé e melhorar o dia a dia das pessoas nas áreas urbanas.

Copenhague, Dinamarca

Zona exclusiva para pedestres em Copenhague. Foto: City Clock Magazine / Flickr.Zona exclusiva para pedestres em Copenhague. Foto: City Clock Magazine / Flickr.

Uma das cidades mais famosas no mundo pelo uso da bicicleta como meio de transporte implementou suas primeiras zonas exclusivas para pedestres já na década de 1960, antevendo o futuro da mobilidade. Hoje, as áreas de pedestres estão espalhadas pela cidade e os diferentes modais convivem no espaço urbano. A transformação na cidade dinamarquesa, pautada pelo trabalho de Jan Gehl, começou exatamente pelo entendimento de que a valorização do pedestre, dos trajetos a pé e do transporte ativo em geral é um dos primeiros passos para melhorar a mobilidade e construir uma cidade melhor para as pessoas. 

Zurique, Suíça

Limmatquai, em Zurique, antes e depois da remoção dos 20 mil carros que circulavam na região. Fotos: Daniel Sauter.Limmatquai, em Zurique, antes e depois da remoção dos 20 mil carros que circulavam na região. Fotos: Daniel Sauter.

Em Zurique, 42% dos deslocamentos feitos a pé ou de bicicleta. Essa é uma das marcas da cidade, que conseguiu o que cidades no mundo inteiro lutam para alcançar: mobilidade eficiente, integrada e multimodal que permite que as pessoas consigam chegar a praticamente qualquer lugar sem precisar de um carro. O caminho até se atingir esses índices começou em 1996, com o chamado Compromisso Histórico. O documento estabeleceu que nenhum novo estacionamento poderia ser construído na cidade, a menos que em substituição a outro já existente. Desde então, grande parte dos estacionamentos construídos foi colocada abaixo do nível do solo, e o espaço que deixaram de ocupar na superfície foi destinado à criação de praças, espaços públicos e zonas exclusivas para os pedestres.

Hamburgo, Alemanha

Em Hamburgo, a Rede Verde planeja conectar as diversas áreas da cidade para incentivar o transporte ativo. Foto: flierfy / Flickr.Em Hamburgo, a Rede Verde planeja conectar as diversas áreas da cidade para incentivar o transporte ativo. Foto: flierfy / Flickr.

Hamburgo foi eleita a Capital Verde Europeia de 2011 por suas estratégias de planejamento integrado e metas ambiciosas. A principal delas, tornar o espaço urbano totalmente acessível a pé ou de bicicleta, conectando as principais áreas verdes e de lazer da cidade em 40% do território. A Rede Verde, como foi chamado o projeto, pretende eliminar não só a circulação dos carros na região central, mas também a necessidade de usá-los, mostrando que grandes cidades podem ser ambientes caminháveis e planejados para as pessoas.

Amsterdã, Holanda

Oosterdokbrug: ponte para pedestres e cilistas em Amsterdã. Foto: Mariano Mantel / Flick.Oosterdokbrug: ponte para pedestres e cilistas em Amsterdã. Foto: Mariano Mantel / Flick.

Em Amsterdã, são as bicicletas que ditam o ritmo – na maior parte da cidade, os limites de velocidade não passam dos 20 km/h, priorizando a capacidade das pessoas de se locomoverem por si mesmas. Embora os deslocamentos a pé estejam caindo na cidade, por conta do alto índice de uso da bicicleta, a preocupação com a caminhabilidade se reflete nos investimentos que a cidade vem fazendo para qualificar essa forma de deslocamento.  Amsterdã está trabalhando na criação de novos espaços compartilhados com base em dois princípios: 1) a velocidade máxima permitida nesses locais é baixa e igual para todos os modos de transporte; e 2) não há vias segregadas entre os modais, o que significa que os pedestres não ficam restritos aos limites das calçadas.

Helsinque, Finlândia

Até 2050 os principais deslocamentos cotidianos serão feitos a pé ou de bicicleta. Foto: City Clock Magazine.Até 2050 os principais deslocamentos cotidianos serão feitos a pé ou de bicicleta. Foto: City Clock Magazine.

Quanto mais pessoas na cidade, menos carros serão permitidos nas ruas. Essa é a lógica da capital finlandesa que, em um novo plano, pretende conformar uma rede de bairros mais densos, caminháveis e conectados entre si, com prioridade para o transporte ativo e coletivo. A ideia é que trabalho, casa, lazer, comércio e escola sejam elementos próximos o suficiente para tornar os deslocamentos cotidianos viáveis a pé ou de bicicleta, e a posse de um veículo motorizado, algo desnecessário na cidade.

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Por Priscila Pacheco no The City Fix Brasil.