Comida na escola: inspirações para lancheiras, cantinas e refeitórios - São Paulo São

No início do mês de junho, o Milc publicou um post sobre a responsabilidade das escolas na educação alimentar das crianças e conversamos muito sobre a lancheira da filha de Bela Gil. E desde então chega para nós experiências bem sucedidas de pessoas que resolveram transformar em ganha pão a promoção da saúde via boa alimentação também no ambiente escolar, juntando a necessidade de sobreviver e o desejo de fazer diferença no mundo. A partir desta semana, vamos contar a história de mães (e pais!) que, movidos pela insatisfação com a alimentação consumida pelas crianças na escola, tiram o seu sustento de pequenos (ou médios, tomara que grandes, um dia!) negócios voltados a celebrar a boa alimentação e a saúde desde a infância.

 

Lara Folster, idealizadora da Lanche&CoLara Folster, idealizadora da Lanche&Co                                                                      Lara Folster, idealizadora da Lanche&Co.

Para começar, vamos conhecer Lara Folster: uma micro-empresária que faz mais do que fornecer lanches para cantinas de escolas particulares, ela transformou a cantina num espaço de aprendizado. Além disso é embaixadora em São Paulo do projeto Food Revolution, de Jamie Oliver, e por isso também trabalha voluntariamente numa escola pública: o contrato com as escolas privadas viabiliza o trabalho na escola pública. Isso não é encantador?

Vejamos o que Lara nos diz: “A Lanche&Co é uma iniciativa que tem como meta levar comida de verdade para dentro de escolas particulares de São Paulo. E como embaixadora em SP do projeto Food Revolution, do Jamie Oliver, faço um trabalho voluntário em escolas públicas e outras instituições, contando com financiamento da própria Lanche&Co”. 

A cantinha virou centro de educação alimentar 

A escola é um espaço de educação por si só. As crianças aprendem muitas coisas sobre muitas disciplinas todos os dias, mas nada fazemos mais do que comer. Por isso, Lara acha que a educação alimentar deve estar dentro da matriz curricular, com a mesma importância das aulas de português. Nos alimentamos pelo menos três vezes ao dia (ou quatro, seis), mas o tempo ocupado com a educação alimentar na escola está muito aquém ao que dedicamos à matemática, por exemplo. Afinal somos o que comemos!

É uma mudança de paradigma: precisamos deixar de ver o espaço da cantina escolar como o lugar onde vende comida ruim “porque as crianças gostam” e transformá-lo em um centro de educação alimentar. Se ensinamos que devemos ter uma vida saudável (está na cartilha!), como podemos achar natural que nas prateleiras das cantinas escolares estejam inundadas de produtos de calorias vazias? Refrigerantes, por exemplo: como ainda se comercializa refrigerante em escolas?

 

A Chef Selma, na aula de pães caseiros para os paisA Chef Selma, na aula de pães caseiros para os pais

                                                                                              A Chef Selma, na aula de pães caseiros para os pais.

 

Dificuldades

Lara conta que no início enfrentaram inúmeras resistências: a mudança proposta gerou muitos conflitos, normalmente porque era muito difícil para os pais perceberem que erraram (e erram!) na alimentação do filho por falta de informação suficiente e adequada.

A equipe precisa estar sempre preparada como explicar novamente por que levar a alimentação saudável para dentro da escola: explicar a porque a comida tem que ser feita na hora, porque os os sucos são da fruta, enfim, porque colocar na escola diariamente a comida de verdade!

Algumas famílias têm dificuldade, mesmo em casa, de saber que escolha fazer. A indústria é tão profissional no quesito "como ganhar mais consumidores" que um simples pão caseiro feito na hora com manteiga fica sem graça: “é claro, no começo a criança/adolescente reclama) perto de salgadinhos vazios/cheios de sal/conservantes/aromatizantes/corantes/açúcar coloridos do super herói e da princesa que eles vêem na TV todo dia!” diz Lara.

Mas a equipe tem muitos argumentos:

- está tudo estampado e escrito no rótulo, basta querer ver: parar com adultos e crianças para entender cada item da lista de ingredientes de um produto ultraprocessado pode ser revelador;

- ao lado da comida de verdade tem uma legião de soldados do bem para nos dar aquela força: já existe muita informação boa circulando;

- estão se multiplicando as iniciativas com propósitos de melhorar a alimentação das crianças: Lara e sua equipe usa como inspiração e argumento as marmitas de Bela Gil, as receitinhas do blog As Delicias do Dudu, as Dias com Mafalda e os lanches do Jamie. Estes e outros tem muito a ensinar dentro e fora das escolas;

- a parceria com a família dos alunos: cada criança tem o potencial de promover importantes mudanças na alimentação dos adultos da família e eles ganham o poder da mudança e este é um fator muito importante para essa nova cantina saudável.

Lara nos conta que por mais descrentes que alguns pais tenham ficaram um pouco com a proposta de mudança para a alimentação saudável dentro da escola: “no fim, depois de muito empenho, inúmeras conversas, exemplificações e uma bela equipe de cozinheiras, a comida saudável venceu!”

A primeira escola

Para que qualquer iniciativa feita dentro dos muros da escola ser bem sucedida é necessário que existam pessoas no seu corpo diretivo que abracem a causa da alimentação, para que sejam capazes de sustentar a decisão de mudar diante das resistências dos “clientes”, para que não tenham medo e para que possam ir caminhando no processo de mudança. A escola onde a iniciativa funciona fica na zona norte de SP, o Colégio Wellington, que foi destemida em assumir a proposta a nossa empresa integralmente, mesmo com a resistência de alguns pais.

Além de cantina apenas com produtos naturais, existem os cardápios mensais. No intervalo das aulas, o aluno se serve de comida de verdade, cheia de nutrientes, não precisando comprar lanches todos os dias. A empresa bolou um “combo” contendo frutas que os faz consumi-las todos os dias, já que dificilmente compraria.

No que Lara se inspira

“O ato de se alimentar é político,ecológico. Acreditamos que por meio da alimentação podemos mudar o mundo, criando seres capazes de opinar com mais segurança e verdade, por exemplo. Com nossos parceiros, clientes, equipe e claro, nossos alunos, fazemos a diferença!” ela diz.

Com o sucesso diário da desta experiência, temos certeza que é o ambiente escolar é o lugar perfeito para iniciar esta mudança no padrão alimentar e de saúde da população: uma criança atendida numa escola responsável tem reflexos em todos os familiares, com resultados maravilhosos.

Texto especial para o Milc editado por Mariana Sá a partir de conversa com Lara Folster* 

(*) Lara estudou cozinha natural na Natural Gourmet Institute em NY, mas aprendeu a cozinhar mesmo, em casa, com a avó, a mãe e hoje com seu marido, chef de cozinha. Tornou-se embaixadora do Food Revolution em São Paulo em 2012, um ano após fundar a Lanche&Co, empresa especializada (mesmo!) em fornecer comida de verdade para escolas. A empresa surgiu de uma necessidade pessoal: seu filho mais velho levava lanchinho natural, suco integral sem açúcar e uma fruta pra escola, enquanto a amiguinha do lado tinha refrigerante de cola 600 ml e salgadinho vermelho brilhante picante. Revolução e lei já!

Mariana Sá é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc.