Churrascada ganha espaço nas calçadas e canteiros de Porto Alegre - São Paulo São

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Famílias ou grupos de amigos levam seu assado para locais públicos em busca de confraternização e espaço.

A brisa persistente e as nuvens espessas que preenchiam o céu de Porto Alegre naquele domingo não dissuadiram Valdecir Monteiro, 53 anos, de armar uma churrasqueira em frente ao prédio onde mora, no Centro. Protegendo-se sob a marquise, espetou com cuidado salsichão, costela e frango, acomodou a carne sobre a brasa, recostou-se na cadeira de praia e observou os sobrinhos correrem atrás de uma pelota surrada enquanto o almoço não ficava pronto.

– Esta é a primeira vez que faço churrasco de improviso na rua. A ideia era fazer na praça, mas achei melhor ficar por perto de casa pra escapar da chuva – diz Monteiro.

Curiosa com a movimentação – e com a fumaça –, Ana Maria de Brito, que mora nas redondezas, foi ver o que acontecia. Ficou para o almoço, com o filho pequeno:

– É bacana esse tipo de confraternização. Hoje, muita gente não tem espaço em casa, ou sequer conhece os vizinhos. E um almoço na rua possibilita esse contato.

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Movimento jovem e democrático


O churrasquinho de Valdecir acena para um movimento que tem ganhado vida na Capital. Diante de residências, sob marquises, na beira do Guaíba, em canteiros, parques ou praças, muita gente tem armado suas assadeiras portáteis e reunido parentes e amigos para preparar, a céu aberto, churrasco. Em obras, o corredor de ônibus da Protásio Alves, por exemplo, vem servindo de cenário para animados encontros. O canteiro da Avenida Goethe, na Capital, serve de galpão para um grupo que se reúne há cinco anos para assar carne e confraternizar.  

O encolhimento dos apartamentos é apenas a camada mais superficial desta tendência, analisa o professor do curso de Ciências Sociais da PUCRS Adão Clóvis Martins dos Santos. Há um movimento, quase instintivo, de resgate de valores como convivência entre as pessoas e com a própria cidade:

– É a volta da população às ruas, antagônica a uma cultura que se formou de se trancar em casa por medo da violência.

Esse movimento, ilustrado por eventos como Serenata Iluminada e Comida de Rua, que ocorrem em parques da Capital, aflorou nos últimos quatro anos em razão da efervescente troca de ideias em redes sociais e de uma certa saturação pela falta de opções de lazer e cultura aos jovens – que geralmente são os protagonistas das churrascadas a céu aberto. Os protestos de junho de 2013 também contribuíram para devolver a sensação de pertencimento à cidade à população, observa Adão.

– Todos são movimentos democráticos: quem está nas redondezas é bem-vindo – sublinha.

Sem impedimento legal

Conforme a Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov) de Porto Alegre, não há legislação que proíba churrascos nas calçadas e nos parques, desde que não obstruam a circulação de pedestres. E, como as churrascadas são esporádicas, a fiscalização costuma ser tolerante.

O supervisor de Parques, Praças e Jardins da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), Léo Antônio Bulling, recomenda que os assados ocupem churrasqueiras públicas em parques como Knijnik e Harmonia ou nos bairros Lami e Ipanema. Essas estruturas estão afastadas de locais de maior circulação de pedestres ou canteiros que requeiram cuidados.

– A cidade tem locais adequados para o churrasco na rua. Quando é na calçada ou no canteiro, há risco de danificar gramado ou gerar detritos em uma área preservada – diz Bulling.

Não há reclamações em quantidade relevante na secretaria, diz o supervisor, ao avaliar que, em geral, quem faz churrasco a céu aberto costuma demonstrar respeito pela cidade. Não significa que inexistam descontentes.

Thereza de Freitas, 52 anos, mora no terceiro andar de um prédio no bairro Menino Deus, a poucos metros de um bar onde diariamente, às 17h30min, um grupo de amigos se reúne para fazer seu assado. Já se acostumou com a fumaça – sabe que, quando começa a novela das seis, é hora de fechar as janelas –, mas se incomoda com o barulho:

– Com o churrasco, vem a cerveja, as pessoas se animam e, lá pelas tantas, estão berrando.

Bons modos: Como se portar em um churrasco na rua

- Leve sacos de lixo para descartar latinhas, ossos e resto de carvão, por exemplo.
- Não submeta os vizinhos a sua música. Se tiver de ligar o som, que seja baixo.
- Se assar em parque ou praça, certifique-se de que não será perto de uma área de preservação, que possa ser prejudicada pela poluição.
- Se for armar a churrasqueira em frente ao seu prédio, converse antes com o síndico.
- Evite ruas com ampla circulação de pessoas, e escolha horários de pouco movimento.
- Ocupe apenas parte da calçada. Não obstrua o tráfego.

Erik Farina no Zero Hora. Colaboração de Jaqueline Sordi.