Companhia Vera Cruz renasce da união entre o público e o privado - São Paulo São

 

“Quando cheguei aqui hoje, passou um filme na minha cabeça. Estive diversas vezes aqui com meu pai e sabia do sonho dele de um dia ver a Vera Cruz recuperada. Eu vinha aqui com ele e com o Abílio Pereira de Almeida, o cineasta que trouxe meu pai e o apresentou ao Franco Zampari, o dono da companhia.”

Assim André Luiz Mazzaropi, filho do lendário Amácio Mazzaropi, o eterno Jeca Tatu, comemorou o anúncio da revitalização da Vera Cruz, realizado na última semana, em São Bernardo do Campo, em um dos galpões-sede da companhia que entrou para a história como a primeira tentativa de realizar uma cinema em escala industrial no Brasil. 

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O evento contou com a presença de diversos nomes do cinema e de autoridades como o ministro da cultura Juca Ferreira, o diretor da Ancine Manoel Rangel, o secretário municipal de cultura, Nabil Bonduki, o diretor da SP Cine, Alfredo Manevy, o secretário de cultura de São Bernardo do Campo,  Osvaldo de Oliveira Neto, e o prefeito da cidade, Luiz Marinho, entre outros. A reestruturação do complexo será possível graças a um contrato firmado entre a Telem, empresa de infra-estrutura para o entretenimento, que venceu a licitação aberta para administrar por 30 anos a Vera Cruz, por meio de uma SPE (Sociedade de Propósito Específico).

“As obras começam já nesse mês e serão investidos ao todo R$ 158 milhões. Vamos revitalizar os dois estúdios, que têm cada um 2,8 mil metros quadrados. Um se manterá no tamanho atual e o outro vai ser transformado em diversos estúdios menores. Além disso, hoje a parte externa do complexo tem diversas instalações que serão incorporadas e otimizadas. Haverá a reforma do teatro que já existe, construção de um cinema, uma incubadora de empresas, restaurante e do acervo Vera Cruz, sem contar que investiremos em equipamentos, formação de profissionais, entre outras atividades que ficarão a cargo da prefeitura da cidade. É uma parceria muito equilibrada”, explicou o diretor Comercial da TELEM, Fernando Fontes ao TelaTela.

Diante das novidades, André Mazzaropi, ressaltou a importância não só econômica mas também simbólica da Vera Cruz. O ator e produtor, que interpretou o filho do Jeca nos quatro últimos filmes do Jeca Tatu, contou ainda que seu pai fazia questão de sempre parar para visitar os estúdios, mesmo depois de fechados, no final dos anos 70. “Ele já estava doente e morava em São Paulo, para que a gente pudesse cuidar dele. Quando íamos viajar para a praia, na Praia Grande, ele sempre pedia para desviar um pouco e parar aqui. Os seguranças o conheciam, abriam os estúdios para ele. E ele chorava, pois sabia da importância da Vera Cruz para a história dele”, acrescentou André.

Foi na Vera Cruz que Mazzaropi rodou seu primeiro filme, Sai da Frente, em 1952. Em 1953, também pela companhia, realizou Candinho, de 1953, que lhe deu fama nacional. “Candinho é quando nasce o Jeca, ali nasce o grande personagem do cinema do Mazzaropi. Até hoje eu canto a música do filme nos shows que eu faço. E ao ver hoje a Vera Cruz renascer é uma grande emoção”, completou o ator e produtor.

 

Cena de 'Sai da Frente' - Arquivo: Cia. Cinematográfica Vera Cruz.

História 

Vale lembrar que o projeto da Vera Cruz, criado em 1949 por Zampari e por Ciccilo Matarazzo, que também criaram o lendário TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), sobreviveu bem até começar a enfrentar graves questões administrativas.

Antes de fechar suas portas em 1972, produziu diversos clássicos do cinema nacional, comoCaiçara, Cangaceiro, Tico-Tico no Fubá, Sinhá Moça, Nadando em Dinheiro, Uma Pulga na Balança. Além disso, revelou nomes como Anselmo Duarte, Eliana Lage, Tônia Carrero, Renato Consorte e o próprio Mazzaropi. Em seus estúdios, já mais recentemente, também foram rodados longas como Carandiru, Garotas do ABC e Sábado.

André Mazzaropi observou que a iniciativa transcende o cinema e aposta em novas mídias e na iniciativa privada para garantir seu sucesso. “É o poder do audiovisual, dos sistema digitais, que hoje imperam em todo o mundo. “E ver isso realizado em uma parceria com a iniciativa privada, que é o que meu pai fazia, botava o dinheiro dele, produzia cinema, trazia o resultado e dava continuidade. É isso que a Telem vai fazer. Isso é muito bom”, observou André.

A análise do produtor resume bem os objetivos da prefeitura de São Bernardo e da Telem. “Temos um tripé de ações, que passa por um curso de formação de mão de obra qualificada. Já estamos na terceira turma. Além disso, teremos uma incubadora de empresas, que dará o estímulo a quem sai da escola e também a quem está no mercado e pode encontrar profissionais”, explica o secretário de cultura Osvaldo de Oliveira Neto.

Segundo ele, a nova Vera Cruz é um projeto que desenvolve uma cadeia econômica sustentável na cidade. “Nós garantimos com o projeto, que é totalmente sem ônus à população, que também tem a Telem com sua expertise de mercado. A possibilidade deste embrião vingar e tomar conta da cidade é o nosso desejo”, completa o secretário.

Independência do poder público

Mais que polo de infraestrutura, um dos grandes desafios do projeto é tornar novamente a Vera Cruz um polo criativo nacional que caminhe sem depender apenas do poder e gestões públicas. “Precisamos de uma indústria audiovisual que tem um dinamismo que não pode ficar na burocracia que muitas vezes há no poder público. O desenho feito aqui para uma concessão pública era justamente que a prefeitura conseguisse a revitalização desse espaço sem os entraves burocráticos, mas garantisse à população sua formação, seu diálogo junto a uma incubadora de empresas”, esclareceu Osvaldo.

Manter e revitalizar o valor simbólico da Vera Cruz é outro desafio e será encarado tanto pela prefeitura quanto pela Telem. “Os estúdios têm uma história, importância simbólica. Pense que eles resistiram ao tempo. Este ponto tão central da cidade poderia ter se transformado em prédios, mas permaneceu. Pena que não se modernizou, por vários motivos. E hoje temos finalmente a oportunidade de modernizar a estrutura. Temos muita vontade de ver a Vera Cruz funcionando de uma nova forma. É muito bom trazê-la de volta para o mercado”, comenta Fernando. “Tudo isso, o cinema, o teatro, vão se tornar um complexo que vão trazer de volta a história da Vera Cruz, vão trazer vida. Em 2016, já teremos isso tudo funcionando, além de alguns estúdios pequenos”, adiantou Fernando. Vale lembrar que a Telem possui know how na gestão de complexos audiovisuais como os Estúdios Quanta, um dos principais centros nacionais de produção audiovisual, e dos Estúdios Paulínia.

TV a cabo e mercado aquecido

Para Fernando e Osvaldo, apostar no futuro do audiovisual é outro trunfo do projeto. “Vai ser uma estrutura muito interessante e diferente do que havia no passado. Até por conta das novas mídias. Antigamente era só cinema. Aqui não. Vai ter Televisão, internet, TV na internet, além de shows, eventos. Essa flexibilização que não havia é que vai trazer negócios para cá”, aposta o diretor da Telem.

Para Fernando, a Lei do Cabo, que prevê que 30% da programação veiculada pelas emissoras de TV por assinatura sejam de programação nacional, é um dos motivos pelos quais a demanda pelos estúdios e estruturas do novo polo em São Bernardo será grande. “Todas as leis que vêm para incentivar o mercado audiovisual são importantíssimas e ajudam a colocar o mercado como ele está hoje, muito aquecido. Hoje temos os cinco estúdios da Quanta na Vila Leopoldina com ocupação total até o fim do ano. É esta procura que nos faz acreditar e apostar na Vera Cruz”, completou o diretor comercial.

“Quando isso volta para a cidade, e as pessoas entendem que isso é importante, participam, vêm para o cinema, o teatro, trabalhar nos estúdios, isso muda muito. Traz a cultura para cá. Em pouco tempo, vamos ver uma diferença aqui na cidade. E que se expanda para o ABC todo”, finalizou Fernando.

Flavia Guerra no Tela Tela em Carta Capital.

Flavia é jornalista especializada em cinema, atuou por mais de 15 anos como repórter de O Estado de S. Paulo. É colunista do canal Arte 1. No cinema, foi assistente de direção do curta 'O Caminhão do Meu Pai' (pré-finalista do Oscar) e dirigiu o documentário 'Karl Max Way'.