As novas competências e habilidades do profissional da sociedade conectada - São Paulo São

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Clayton Melo, da Revista Move analisa importante relatório da Unesco e dá as dicas. "As primeiras décadas do XXI são marcadas por questionamentos radicais a respeito de uma série de assuntos. O mercado de trabalho é um belo exemplo. As relações profissionais têm se transformado profundamente. Enquanto algumas profissões perdem espaço ou são extintas, outras tantas são criadas num piscar de olhos. E não é só isso. O perfil do profissional desejado pelas empresas tem mudado bastante, e isso aumenta o fosso entre o que as escolas e universidades ensinam e o que o mundo corporativo procura.

Uma das raízes do descompasso, segundo pesquisadores de educação de diferentes países, é que o sistema educacional continua ancorado no modelo de transmissão de conteúdo, e não no desenvolvimento de competências e habilidades necessárias para a vida em sociedade.

Caráter

Apoiada em um sistema pedagógico linear, a escola ainda prioriza o ensino de disciplinas, como matemática, língua portuguesa, geografia e biologia. Isso é necessário, claro, mas é apenas parte da história. As empresas – e a sociedade em geral – sentem falta de talentos que tenham aprimorado atributos de caráter que não estão nos currículos escolares, como criatividade, espírito empreendedor, colaboração e proatividade.

A questão já foi analisada pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco). No relatório “Educação, um tesouro a descobrir”, preparado pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, o economista Jean Delors, presidente da comissão, apresenta o que o grupo de especialistas liderado por ele definiu como os “Quatro pilares da educação”.  São eles: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.

A Unesco avalia que este é o alicerce do ensino para alunos e futuros profissionais impulsionarem competências que podem ser aprendidas não em livros didáticos, mas por meio do envolvimento com projetos multidisciplinares relacionados a questões sociais, comunitárias, históricas ou outros temas de interesse que estão além dos muros escolares e são parte da vida.

Para ficar mais claro, vejam o detalhamento dos “Quatro pilares da educação”, segundo o relatório da Unesco.

- Aprender a conhecer combinando uma cultura geral, suficientemente ampla, com a possibilidade de estudar em profundidade um número reduzido de assuntos, ou seja: aprender a aprender, para se beneficiar­ das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida

- Aprender a fazer a fim de adquirir não só uma qualificação profissional, mas, de uma maneira mais abrangente, a competência que torna a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Além disso, aprender a fazer no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho oferecidas aos jovens e adolescentes, seja espontaneamente na sequência do contexto local ou nacional, seja formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.

- Aprender a conviver desenvolvendo a compreensão do outro e a percep­ção das interdependências – realizar projetos comuns e se preparar­ para gerenciar conflitos – no respeito aos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.

- Aprender a ser para desenvolver, o melhor possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal. Com essa finalidade, a educação deve levar em consideração todas as potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para se comunicar­.

Mercado atual

Trazendo a questão para mais perto do dia a dia das empresas, a Catho desenvolveu um modelo de habilidades e competências para o mercado atual, conforme lembrado no livro “Escola.com” (Editora Novo Século), da Dra em Educação pela USP Luciana Allan.

A agência de recolocação explica o conceito adotado para definir competência: “Conjunto de conhecimentos, habilidades, comportamentos e aptidões que possibilitam maior probabilidade de obtenção de sucesso na execução de determinadas atividades.”

O documento separa as competências técnicas e as comportamentais. As de cunho técnico são todas aquelas obtidas por meio da educação formal, treinamentos e experiência profissional.

As de ordem comportamental são as que representam maiores chances de sucesso na realização das tarefas. Podem ser próprias à personalidade, obtidas no convívio social ou aperfeiçoadas por meio de treinamentos. As competências foram subdivididas em cinco grupos: Intelectuais, Comunicativas, Sociais, Comportamentais e Organizacionais. Abaixo, os detalhes sobre as de ordem intelectual, social e comportamental.

1. Intelectuais
São as competências necessárias para reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar estrategicamente, introduzir modificações no processo de trabalho, atuar preventivamente, transferir e generalizar conhecimentos.

- Transferir conhecimento: saber multiplicar o saber técnico para um superior, pares, subordinados, clientes e fornecedores. E também estar apto a conhecer coisas novas.

- Generalizar o conhecimento: é traduzir as informações do nível institucional para a realidade da organização, transferindo para as equipes operacionais a responsabilidade de colocar as ideias em prática.

- Reconhecer problemas e propor soluções: visualizar, analisar e situar os negócios da empresa diante dos contextos nacional e mundial. E propor ações para superar obstáculos.

2. Competências sociais
É a sabedoria para transpor conhecimentos da vida cotidiana para o ambiente de trabalho e vice-versa. Isso envolve:

- Relacionamento interpessoal: cultivar uma boa relação com os colegas, tanto nas questões voltadas ao dia-a-dia profissional como nos momentos em que o lado afetivo se faz presente.

- Trabalho em equipe: capacidade e discernimento para trabalhar com e para pessoas, influenciando positivamente o comportamento do grupo.

- Consciência ambiental: reconhecer a importância do meio-ambiente e entender o papel das organizações na preservação do planeta.

3. Competências comportamentais
São as que demonstram espírito empreendedor e capacidade para a inovação, iniciativa, criatividade, vontade de aprender, abertura a mudanças e implicações éticas do trabalho. Exemplos:

- Iniciativa: identificar e atuar proativamente na solução de problemas e na busca de oportunidades. É se oferecer para tarefas e identificar o que precisa ser feito. É agir sem que lhe peçam ou exijam e assumir responsabilidade de criar as condições para que um projeto aconteça e dê resultados.

- Criatividade: produzir mais e melhores ideias para o desenvolvimento de produtos, serviços e projetos.

- Adaptabilidade: adaptar-se às condições favoráveis e desfavoráveis, independentemente de quais forem (ambientais, econômicas, tecnológicas, culturais).

- Consciência da qualidade: buscar a excelência de produtos e serviços e ter uma preocupação maior com as crescentes exigências dos clientes internos e externos.

- Ética: sustentar-se em valores éticos e morais, transmitindo credibilidade e confiança aos colegas, clientes internos e externos, parceiros e fornecedores.

- Coerência: o discurso não deve ser diferente da prática. É preciso que o profissional seja coerente em suas atitudes.

O que a visão da Unesco sobre educação e o estudo da Catho nos indicam é que, no mercado de trabalho da sociedade conectada, o que faz a diferença na carreira não é o conhecimento acadêmico espetacular, mas sim as competências socioemocionais, aquelas relacionadas aos traços de personalidade.

É isso o que as empresas mais valorizam atualmente. E as escolas têm o desafio de desenvolver essas competências nos alunos. Para quem já está no mercado, nunca é tarde: aprenda a aprender. Você só tem a ganhar com isso."

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Um dos fundadores da Revista Move, Clayton Melo foi editor de publicações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e IDG e repórter do Meio & Mensagem, além de ter colaborado com diferentes revistas.