Executivo descobre nas bitucas de cigarro a oportunidade para um grande negócio - São Paulo São

 
Formado em Marketing, Marcos Poiato, 53, já tinha sido bancário por 17 anos em Sorocaba (SP) e trabalhado outros nove anos como executivo de vendas na indústria farmacêutica quando sentiu uma espécie de comichão. Terceiro homem na hierarquia de uma multinacional indiana do setor no Brasil, uma de suas funções era coordenar a instalação das novas fábricas no país. Após 26 anos como empregado, ele se perguntava por que, afinal, não criar um negócio só seu?
 
Vontade ele já tinha, faltava um plano. Como na empresa Marcos atuava à frente de campanhas de combate ao cigarro, foi com a lei antifumo, adotada em 2007 no estado de São Paulo, que veio o insight: os bares e restaurantes ficariam “limpos”, mas para onde iriam os fumantes? E – mais que isso — para onde iriam os cigarros? “A lei foi ótima, mas o foco dela é na saúde. Ninguém pensou no meio ambiente”, diz. Ele se refere, especificamente, às bitucas ou “resíduos de cigarro”, como gosta de dizer. Ali nascia o embrião da Poiato Recicla, inaugurada oficialmente em 2010 e que hoje se apresenta como a primeira estação de coleta e reciclagem do Brasil.
 
A ideia inicial de Marcos era criar um mecanismo para a coleta de bitucas. O passo seguinte foi consultar 12 secretários municipais de meio ambiente para saber por que as prefeituras não tinham um sistema específico para a gestão desses resíduos. A resposta foi surpreendente: a coleta até existia, mas os fumantes a ignoravam.
 
“A maioria das lixeiras das grandes cidades têm uma chapa de metal para apagar a bituca. Ninguém sabe disso”, diz ele. E prossegue: “Não é regra, mas estudos de comportamento mostram que o fumante quer se ver livre logo da bituca. Porque fede, porque precisa pegar um ônibus. E muita gente tem medo de jogar o resto do cigarro no lixo por achar que a lixeira pode pegar fogo. Então, a bituca acaba mesmo indo para o chão”.
 
Prototipando um negócio inexistente. Passo a passo
 
Amparado em pesquisas do setor, ele afirma que 23,8% da população brasileira é fumante. “Cada pessoa fuma em média 17 cigarros por dia. E 98% disso é simplesmente jogado no chão”, afirma. Um problema e tanto. Marcos consultou especialistas e gastou 27 mil reais para criar o molde de uma lixeira específica para bitucas, que ele chama de “caixa coletora de resíduos do cigarro”. A caixa é de metal, pintada de verde, tem três furos para depósito das bitucas e espaço para divulgação de campanhas antifumo e a favor do meio ambiente. A produção e instalação de cada caixa custa 212 reais para a Poiato.
 
O primeiro cliente da empresa foi a Prefeitura de Votorantim, onde a Poiato se instalou. Lá, foram colocadas 82 caixas coletoras. Mas as lixeiras resolviam apenas parte do problema: o que fazer com as bitucas recolhidas? Marcos estava inserido no passo a passo de um negócio então inexistente no mercado. Um dos preços de se inovar, e quem empreende sabe disso, é que a cada etapa conquistada, um novo desafio surge. Ele, então, criou também um sistema de coleta desses resíduos, que passaram a ser armazenados na sede da empresa. Até este momento, a Poiato não se ocupava de nenhum processo além da coleta e armazenamento do material. 
 
O que sobra da fervura e filtragem das bitucas é prensado e vira a massa de celulose, pronta para se transformar em papel. O que sobra da fervura e filtragem das bitucas é prensado e vira a massa de celulose, pronta para se transformar em papel.
 
Na reciclagem das bitucas, o que sobra da fervura e filtragem é prensado e vira a massa de celulose, pronta para se transformar em papel. 
 
Naturalmente, surgiu um terceiro problema: o que fazer com aquilo? Bitucas de cigarro são classificadas como lixo tóxico classe 1 (a mesma categoria dos resíduos hospitalares), pois carregam mais de 8 mil substâncias tóxicas somente no filtro. O descarte comum não era uma possibilidade, e o passo seguinte foi correr atrás de bons exemplos na gestão de bitucas ao redor do mundo. Marcos descobriu que, no Canadá, elas são processadas para virarem pallets de plástico (aquela estrutura geralmente quadrada usada embaixo de caixas de papelão em depósitos e centros de logística). Na China, as bitucas se transformam em anticorrosivos. No Chile, em tecido para a alta costura. Nenhuma dessas iniciativas experimentais, porém, era calcada em análises científicas, como Marcos queria para a Poiato: “Queríamos ser uma empresa modelo, com certificação ambiental e processos com aval científico. Não podíamos dar brechas para algo dar errado lá na frente.” 
Depois de muito buscar, o empreendedor encontrou o que procurava na Universidade de Brasília. Ali, um estudo conduzido pelos professores Thérèse Hoffman, decana da universidade e professora do Departamento de Artes Visuais, e Paulo Suarez, do Instituto de Química e diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico de Brasília, tinha descoberto uma maneira de transformar as bitucas de cigarro em celulose. 

Funciona da seguinte forma: as bitucas passam por uma espécie de triagem, para retirada de outros dejetos que possam ter sido trazidos na coleta. Em seguida, são fervidas em uma solução com água e produtos químicos para “anular” as substâncias tóxicas. O material depois é filtrado, e amostras do líquido produzido são analisadas para controle ambiental do processo. O que sobra é prensado e vira a massa de celulose, pronta para se transformar em papel. A partir daí, o processo segue o rito já conhecido da reciclagem de papel, com a hidratação da massa de celulose, formato e coloração. O papel produzido, por enquanto, tem sido usado em convites e capas para cadernos ou blocos de anotação. 
Etapa da reciclagem na qual a bituca já virou massa de celulose e segue um processo semelhante ao da produção de papel artesanal.

O ano era 2012, a Poiato já tinha dois anos de operação, e o pedido de patente para a tecnologia dos professores da UnB estava em análise desde 2003. Seria concedida somente em 2014. Marcos, então, fez um acordo para usar do método, pagando royalties para a universidade. “É uma tecnologia 100% nacional, que a Poiato Recicla tem exclusividade para uso no País”, conta. 
Ele construiu uma usina para a reciclagem desses resíduos na sede da Poiato. A unidade está pronta e aguarda licença da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) para começar a funcionar. Até o momento, o papel produzido pela Poiato vem da UnB e é apresentado em demonstrações e palestras que faz a respeito do setor. Marcos, espera iniciar o processamento em Votorantim o quanto antes. Enquanto isso, as bitucas coletadas ficam armazenadas na empresa.

Novos rumos para o negócio
 
Primeiro a coleta, depois o armazenamento e, por fim, a reciclagem: crescendo de acordo com as demandas do mercado, a Poiato Recicla já atende três prefeituras paulistas (Votorantim, Boituva e Campinas) e mais de 140 empresas, a maioria na região de Sorocaba. Ao todo, tem 2 mil caixas coletoras instaladas. “Olhando o mapa do Brasil, não fazemos nem um risquinho ainda. Temos muito espaço para crescer”, diz o empresário.  

Marcos é o diretor comercial da empresa, e seu filho Felipe, 32, o diretor administrativo. Além dos dois, mais seis funcionários cuidam do que Marcos chama de “serviços essenciais”: montagem das lixeiras, instalação, coleta das bitucas (que é feita semanalmente em cada um dos clientes cadastrados) e, agora, a reciclagem. A Poiato conta, também, com outros 60 trabalhadores terceirizados em setores como marketing, gráfica e estamparia.  

O investimento inicial na Poiato Recicla foi de 300 mil reais, feito com recursos próprios, sem empréstimos nem ajuda externa. O faturamento anual Marcos não revela, nem valor dos serviços realizados para as 14o empresas clientes, mas só o contrato com a Prefeitura de Campinas, válido por um ano, renderá 200 mil reais à empresa.  O próximo passo da Poiato é definir a destinação do papel. Com a usina própria, a celulose gerada pelo processamento das bitucas vai voltar para as prefeituras atendidas, que poderão destinar o material para ONGs que atuam com educação ambiental. Clientes da iniciativa privada também podem escolher entidades para receber a celulose que vêm de suas bitucas. 

Em Brasília, parte da celulose já é transformada em capas para blocos de anotação e convites. A qualidade do papel ainda não é a mesma com a qual estamos acostumados mas, para Marcos, ele tem todo um “charme” justamente por ter ser fruto do reaproveitamento das bitucas.

Marcos também pretende, um dia, produzir o seu próprio papel, com mais qualidade, para colocar à venda. “Para fazermos um papel melhor, precisamos desenvolver a tecnologia. Precisamos de investimentos e, para isso, temos que ter um grande volume de bitucas processadas, o que ainda não temos.” Desde o início de sua operação, a Poiato já recolheu mais de 7 milhões de bitucas. Para fazer uma folha tamanho A4, são necessárias 25. Marcos é paciente:“A inovação demora para entrar na cadeia produtiva. Tem que ter resistência.”

 

O papel produzido, por enquanto, tem sido usado em convites e capas para cadernos ou blocos de anotação. O papel produzido, por enquanto, tem sido usado em convites e capas para cadernos ou blocos de anotação.
O papel produzido, por enquanto, tem sido usado em convites e capas para cadernos ou blocos de anotação.

Com a empresa encaminhada, Marcos Poiato mantém a expressão tranquila. Sério, mas fala com entusiasmo da Poiato e demonstra interesse em defender sua ideia até as últimas consequências. O “r” puxado em cada fonema não o deixa esconder suas origens. “Meu maior hobby é tomar uma cerveja com meus filhos”, afirma, depois de pensar um pouco para responder – talvez sua maior diversão seja mesmo o trabalho.

Marcos é casado há 33 anos com a professora Raquel, e além de Felipe, tem outro filho, Gabriel, de 29 anos. Ele diz que os maiores erros que cometeu estão relacionados ao excesso de confiança inerentes a altos executivos. “Quando você se torna uma referência no que faz, fica muito confiante. Às vezes, isso faz com que deixe de estudar, de apreciar novas práticas, de entender o que é novo”, afirma, falando de si próprio com segurança e humildade. 

À frente da Poiato, uma empresa do ramo ambiental, Marcos confessa que nunca se preocupou com a sustentabilidade — até que ela aparecesse como uma oportunidade de negócio. “Eu não tinha isso não, para ser honesto. Aproveitei um nicho que estava descoberto. E, quando tive mais contato com a área de sustentabilidade, vi o quanto ela é importante”, diz Marcos. Que, a propósito, não fuma.


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Luís Manzoli / Projeto Draft.