'Chão Que Eu Piso': a história das cidades através do pavimento de prédios e ruas - São Paulo São


Independente das tradições ou estilo arquitetônico, toda cidade tem uma história para contar. Com o passar do tempo, reformas e a transformação da paisagem urbana, essa história pode até se perder ou ser esquecida, mas continua ali.

Para resgatar a memória de construções e espaços históricos, as mineiras Paola Carvalho e Raíssa Pena criaram o projeto Chão Que Eu Piso, que reúne um acervo digital com fotos de pisos de cidades brasileiras e do mundo inteiro, tiradas por elas mesmas e por outras pessoas. A atenção especial vai para os ladrilhos hidráulicos, mosaicos e parquets, elementos clássicos da arquitetura que mexem com a nossa memória afetiva – seja pelas cores, formas ou pelas recordações pessoais que nos fazem lembrar.

O bim.bon entrevistou Paola e Raíssa em busca de suas inspirações, da história e da popularidade do projeto, que começou em 2013 no Instagram e já reúne mais de 4 mil imagens de encher os olhos, tiradas em países como México, França, Espanha, Itália, Israel, Polônia e Japão. Confira:

Vocês são jornalistas, e a Raíssa também é designer. Como surgiu a ideia de um projeto tão relacionado à arquitetura?
- Paola: O gosto por história da arte, arquitetura e design sempre existiu em nós duas. Em minhas andanças – e incomodada com tantos selfies em lugares turísticos – resolvi começar a tirar fotos de meus pés sobre pisos lindos de lugares históricos que tinham muito para contar. Era a minha forma não só de registrar por onde estive, mas também de chamar a atenção para a história que aqueles pisos, muitas vezes não notados, tinham testemunhado.

 

Museu da Electricidade- Belém, Lisboa.Museu da Electricidade- Belém, Lisboa.

Museu da Eletricidade. Belém, Lisboa. Foto: divulgação.
 
O projeto começou de forma muito simples e se tornou um sucesso. Como foi perceber essa grande repercussão entre o público?

Foi muito instigante. Amigos perceberam a predileção e começaram a nos enviar fotos por onde andavam. Eu pesquisava a história e eles se surpreendiam. No Instagram, ficamos surpresas como pessoas do mundo todo passaram a usar a hashtag #chaoqueeupiso. Então começamos a perceber a repetição de padrões em diferentes cidades e até continentes e, assim, a influência estética de um lugar sobre o outro, e como desenhos de chão podiam despertar a memória afetiva de muita gente.

Colégio Pio XII. Belo Horizonte. Foto: divulgação.

Hoje, o Chão Que Eu Piso Também é uma loja. Vocês já tinham a ideia de comercializar produtos desde o início do projeto?
De jeito nenhum. Foi um hobby, que virou vício e, depois, negócio. Justamente por padrões terem muita história para contar e despertarem a memória afetiva das pessoas é que resolvemos criar produtos. As estampas inspiradas em seus padrões transformam o produto em um objeto bonito e especial. Eles contêm história, design, recordações e carinho!

geral_cadernos2geral_cadernos2
 
Além de pôsteres e cadernos, vocês também produzem produtos personalizados. Como isso funciona?
Personalizamos cadernos com a estampa do chão de cozinha de vó, do colégio, da igreja onde aconteceu o casamento…

Vocês lembram de alguma história inusitada envolvendo o projeto?

Há algumas histórias interessantes, como o chão postado por uma pessoa que fez um outro seguidor lembrar do lugar onde deu o primeiro beijo em sua atual esposa; ou a do chão de uma igreja onde foi o casamento do irmão de um seguidor e que fez outro seguidor se lembrar do chão da cozinha da avó no interior. Ele disse que até conseguiu sentir o cheiro da comida que a avó fazia! São muitos casos.

Como surgiu a parceria com a guloseria Frau Bondan?
Como a loja faz produtos embalados com algo que sempre mexe com a memória afetiva das pessoas, combinou muito bem com o conceito do Chão Que Eu Piso. A Frau é de Belo Horizonte e nos convidou para desenvolver estampas inspiradas em pisos de prédios históricos daqui. É uma forma de enaltecer a história da nossa cidade, uma bela recordação de se ter do lugar que o belo-horizontino ou o turista provavelmente conheceu. As estampas com esses padrões especiais estão em latas de cookies e tartufos, necessaires térmicas com barra de chocolate, estojos com chocolates e aventais.

Com o projeto, vocês estão ainda mais atentas a todos os chãos que pisam. Vocês têm algum tipo e/ou estampa preferidos?
- Paola: Gosto muito de um ladrilho geométrico verde do Cine Theatro Brasil. São todas figuras de traços retos que, se observadas à distância, formam grandes círculos. As várias formas que podem ser encontradas ali quase que me hipnotizam.
- Raíssa: Eu adoro um do Museu de Artes e Ofícios que lembra um bordado em ponto-cruz, com quadrados bem pequenos. É impressionante como um ladrilho – que é uma peça essencialmente feita para ser pisada – pode conter tanta delicadeza.
 

Theatro Municipal, Rio de Janeiro. Foto: divulgação.
 
Como o projeto influenciou a trajetória pessoal e profissional de vocês?

- Raíssa: Para mim foi uma reaproximação com minha faceta de designer, que estava adormecida desde que iniciei a trajetória no jornalismo. Mas foi também uma maneira de saber mais sobre a história da minha própria cidade e ficar mais atenta a belezas que nem todo mundo vê.
- Paola: O jornalismo mantém a minha curiosidade aguçada, me dá técnica e conhecimento para apurar as histórias de cada lugar que citamos. Mas o projeto me fez enxergar para além do jornalismo e em outras áreas que sempre gostei, como arquitetura, história, arte, design e turismo.

Quais os próximos passos que podemos esperar do Chão Que Eu Piso?

Queremos aumentar o número de parcerias (como com a Frau Bondan, Museu das Minas e do Metal Gerdau e Urban Arts, que já temos), a venda online, a produção de objetos personalizados e brindes corporativos. Uma novidade que nos empolga é a realização de um ciclo de palestras envolvendo a arquitetura, a história e o design de Belo Horizonte.

Na primeira coleção do projeto em parceria com a Frau Bordan, foram escolhidas estampas encontradas no conjunto arquitetônico da Praça da Estação. Desta vez, foram retratados os pisos do Cine Theatro Brasil, na Praça Sete, e do casarão onde viveu Afonso Pena Júnior (filho do ex-presidente Afonso Pena), na Rua Aimorés.

O Cine Brasil, inaugurado em 1932, foi a primeira construção de BH a sofrer influência art déco. Já o Casarão de Afonso Pena Júnior foi construído em 1914 e possui dois pavimentos interligados por um conjunto rebuscado de escadaria, cúpula e balaustrada trabalhadas em ferro.

O Chão Que Eu Piso é uma ótima iniciativa de valorização da arquitetura e do urbanismo da cidade onde vivemos, aproveite para seguir o projeto no Instagram e no Facebook – e é claro, não se esqueça de contribuir com imagens do chão que você pisa diariamente.

***
Nadine Alves no Bim Bom.

 


-->