Em São Paulo, detritos de restaurantes adubam suas próprias hortas e jardins - São Paulo São

Em meio aos arranha-céus de São Paulo, tomate cereja, limão e pés de lavanda crescem no telhado do restaurante francês Le Bilboquet.

Esse lixo alimenta o jardim, assim como uma dúzia de outras instituições da rica metrópole. É um dos pioneiros no Brasil, onde a triagem e reciclagem de resíduos estão longe de ser a norma.

O Chef Julien Mercier, 34, participa há seis meses do projeto do Instituto Guandu, que criou todo o sistema: a coleta de lixo na porta do restaurante, o tratamento do processo de compostagem e, finalmente, o adubo para entrega.

"Isto não é o suficiente para abastecer todo o restaurante, mas é importante entender o processo. Nós já temos o que cresce aqui e podemos dizer que conseguimos reciclar meia toneladas de resíduos orgânicos por mês", diz à AFP enquanto inspeciona seus legumes e ervas.

Por trás deste projeto está Fernanda Danelon, uma ex-jornalista de 43 anos, que decidiu criar o Instituto Guandu há dois anos. Além das recomendações para o uso gestão da areia, o Guandu ajuda a montar e manter jardins.

"Começamos há dois anos com apenas um (estabelecimento) e agora temos 17 restaurantes associados. E nós estamos conversando com uma dúzia de outros" todos localizados em São Paulo, diz Fernanda, com um pá na mão, no jardim de sua casa.

Fernanda e as caixas onde detritos de estabelecimentos são transformados em adubo. Foto: Instituto Guandu.Fernanda e as caixas onde detritos de estabelecimentos são transformados em adubo. Foto: Instituto Guandu.

Entre três e quatro meses

Em duas pequenas caixas, resíduos orgânicos de um família degradam-se lentamente. Uma amostra do que está acontecendo em uma escala maior a cinquenta quilômetros do local, onde os detritos desses estabelecimentos são transformados em adubo.

É uma "tecnologia de compostagem tradicional" que não usa enzimas ou outros aceleradores, tais como minhocas, diz Fernanda. Mas a monitorização é necessária para misturar a matéria orgânica do solo e arejar tudo. O processo leva entre três e quatro meses.

"No começo eu mesmo pegava o lixo no meu carro", lembrou Fernanda rindo. "Mas temos crescido e hoje, reciclamos de 30 a 40 toneladas por mês", diz ela.

Para este serviço, que inclui coleta e manutenção do jardim de resíduos, um restaurante com capacidade de 50 toneladas, em média, paga ao Instituto Guandu R$ 900,00 por mês. Um preço equivalente ao custo da coleta de lixo convencional, observa o chef Julien Mercier.

Em 2014, os brasileiros produziram 78,6 milhões de toneladas de resíduos domésticos (lixo orgânico, plásticos, vidro, papel e cartão), um aumento anual de 2,9% no ano, de acordo com últimos dados do Associação Brasileira de Empresas de Serviços de Limpeza (ABRELPE). Este é um terço do volume produzido todos os anos nos Estados Unidos.

São Paulo, estado rico e motor econômico do gigante sul-americano, onde vivem mais de 40 milhões de pessoas, é, de longe, onde se coletam mais resíduos. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a matéria orgânica é a metade desse total.

"Um olhar fresco"

Em 2012, o Brasil adotou um novo plano de tratamento de lixo, que prevê dois anos para o desaparecimento de lixeiras informais e a triagem de resíduos não recicláveis. Mas esse objetivo ainda parece distante. A ABRELPE observa que apenas 3% dos resíduos são reciclados no Brasil.

"Nós temos que enfrentar nossos resíduos, dar-lhes valor e separar aqueles podem ser reutilizados", insiste Fernanda, que reconhece que o âmbito das atividades do Instituto Guandu ainda é limitado.

Mas há sinais de esperança: para além de kits para fazer a sua própria compostagem em casa, ela diz que foi contatada por pessoas que querem criar jardins coletivos para o topo de seus edifícios.

Na Mesa III, uma rotisserie localizada em uma área popular, a reciclagem esta nas paredes desde que a equipe foi treinada por Guandu. Na entrada, plantas de manjericão, sálvia e alecrim saúdam os clientes.

"Se, na sociedade, percebermos a quantidade de lixo que produzimos, veremos que o desperdício é um absurdo", diz a proprietária Ana Soares, 63, ex-arquiteta.

O restaurante tem implementado um sistema de reciclagem de vidro e promove embalagens de papelão, a fim de minimizar o uso de plástico.

"É por isso que nos juntamos a este projeto. Temos de incentivar esse novo olhar", diz ela.

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Por Natalia Ramos da AFP. *O artigo original em francês.