O ‘Circuito dos alimentos‘ na cidade de São Paulo é tema de exposição na Bienal de Arquitetura de Seul 2017 - São Paulo São

O Centro Universitário Belas Artes de São Paulo desenvolveu a exposição O Circuito dos Alimentos na cidade de São Paulo para representar o município na Bienal de Arquitetura de Seul 2017. Em uma megacidade como São Paulo, onde as pessoas sofrem os perigos da alienação e da insegurança nutricional, o circuito alimentar é uma questão estratégica.

Além de ser uma dimensão-chave da questão urbana, é fundamental na busca da sustentabilidade urbana e da equidade social. Em São Paulo, os circuitos alimentares de curta distância que conectam e aproximam os locais de produção, armazenamento, distribuição e consumo de alimentos saudáveis e naturais, produzidos sem pesticidas, ajudam a conter a expansão urbana precária e informal nas periferias, especialmente nos mananciais. 

Com base em um estudo já existente da Prefeitura, o grupo criou uma proposição dos vários caminhos que o alimento percorre e que impactam diretamente na saúde pública da cidade. O projeto entende que os circuitos alimentares de uma cidade como São Paulo – com 12 milhões de habitantes - é uma questão estratégica por ser fundamental na busca da sustentabilidade urbana e igualdade social. 
 
Localizado no Dongdaemun Design Plaza, complexo multiuso projetado pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid, o estande da Belas Artes representa o fluxograma da entrada de alimentos em São Paulo e propõe a formação de circuitos que conectem locais de produção, armazenamento, distribuição e consumo de alimentos agrícolas que já existem no município de São Paulo. 

O texto abaixo, desenvolvido por Kazuo Nakano, clarifica essas questões e norteou o trabalho.

A Questão Alimentar Urbana

A alienação alimentar vivida pelos moradores das grandes cidades é algo evidente. Eles não sabem o que comem. Foto ShutterStock.A alienação alimentar vivida pelos moradores das grandes cidades é algo evidente. Eles não sabem o que comem. Foto ShutterStock.Em um mundo cada vez mais urbanizado, as necessidades básicas de um número crescente de pessoas são atendidas nas cidades, especialmente nas megacidades como a metrópole e o município de São Paulo, com 21 e 12 milhões de habitantes, respectivamente.

Assim como o acesso constante à água potável, o acesso ao alimento adequado e nutritivo em quantidade suficiente é uma das necessidades humanas mais básicas que precisa ser satisfeita para garantir a sobrevivência.

Os 12 milhões de habitantes do município de São Paulo ingerem milhões de refeições diariamente. Uma multidão de bocas e de aparelhos digestivos são acionados em diferentes momentos do dia e da noite para deglutir diversos tipos de alimentos, uns mais saudáveis do que outros.

Milhares de toneladas de alimentos naturais e industrializados são consumidos nos 3 milhões de domicílios e nos 12.500 restaurantes existentes no município de São Paulo. Esses restaurantes, localizados no maior município da metrópole, vendem 1.700.000 refeições por dia. Estima-se que 30% dos alimentos que entram nas moradias são desperdiçados.

Os 12 milhões de habitantes do município de São Paulo ingerem milhões de refeições diariamente. Foto: Denise Xavier.Os 12 milhões de habitantes do município de São Paulo ingerem milhões de refeições diariamente. Foto: Denise Xavier.Em geral, a maioria das pessoas que vive nas grandes cidades não sabem a origem dos alimentos consumidos no café da manhã, no almoço e no jantar. Tanto os alimentos naturais (animais e vegetais) quanto os industrializados, comercializados velozmente naquelas grandes cidades, percorrem longos e diversificados trajetos que ligam os locais de produção aos locais de consumo final nas casas, bares, restaurantes e padarias, dentre outros estabelecimentos comerciais que funcionam em São Paulo.

As grandes cidades possuem verdadeiros circuitos alimentares que conectam locais de produção, armazenamento, distribuição, comercialização, consumo e disposição final de resíduos sólidos gerados pelo consumo alimentar. Muitos desses circuitos possuem problemas de funcionamento e provocam impactos ambientais negativos. A imensa demanda por alimentos existentes nas grandes cidades como São Paulo faz com que tais circuitos alcance locais bastante distantes. O consumo de alimentos importados baseia-se em circuitos que envolvem outros países e continentes. Diante disso, os habitantes das grandes cidades ficam cada vez mais alienados em relação às origens dos alimentos por eles ingeridos cotidianamente.

A alienação alimentar vivida pelos moradores das grandes cidades é algo evidente. Eles não sabem o que comem. Não sabem a origem daquilo que comem. Não sabem as condições daquilo que comem. Não sabem os efeitos daquilo que comem. Afora os problemas sanitários dos alimentos vigiados, controlados e fiscalizados por órgãos governamentais, há um desconhecimento generalizado em relação aos efeitos positivos e negativos que os alimentos consumidos podem provocar no organismo humano. Isso gera uma grave situação de insegurança alimentar e nutricional que afeta todos os grupos sociais que habitam o município de São Paulo, principalmente os mais pobres.

Junto com outros aspectos da vida urbana (como o stress e o sedentarismo), a alienação e insegurança alimentar e nutricional, bem como o excessivo consumo de alimentos industrializados, podem ser apontados como as causas do sobrepeso e da obesidade de jovens e adultos que fazem parte da população do município de São Paulo aonde, em 2012, aproximadamente 17,5% dos jovens de 12 a 18 anos tinham sobrepeso e 5,5% eram obesos.

Dentre os adultos com mais de 18 anos daquele município, 52% tinham sobrepeso e 18% eram obesos.

Iustração: Ivan Pereira AlvesIustração: Ivan Pereira Alves

Os circuitos alimentares curtos propostos pelo governo do município de São Paulo devem incluir, basicamente:

  • Os produtores agrícolas – atualmente, há mais de 400 produtores agrícolas somente nas zonas rurais das porções sul do município de São Paulo;
  • Os centros de armazenamento e distribuição mantidos pelo governo municipal – há um desses centros em funcionamento desde 1995 no sul do município de São Paulo, com 7,6 mil metros quadrados de área, e há projeto para implantar outro desses centros na parte leste daquele município;
  • As instituições de capacitação e assistência técnica ao produtor agrícola mantidas pelo governo municipal – atualmente há 2 instituições desse tipo em funcionamento no município de São Paulo, denominadas Casas de Agricultura Ecológica, uma localizada na parte sul e outra na parte leste da cidade;
  • As escolas municipais – o município de São Paulo possui 2,5 mil escolas municipais de ensino fundamental aonde são servidas, diariamente, 2 milhões de refeições aos estudantes nas quais são utilizadas 2,3 toneladas de frutas e legumes todos os meses;
  • Os mercados municipais – o município de São Paulo possui 32 mercados municipais localizados em diferentes bairros da cidade e dedicados, principalmente, à comercialização de alimentos agrícolas;
  • Os restaurantes populares estaduais – o município de São Paulo possui 21 restaurantes geridos por entidades privadas aonde são servidas refeições a preços muito baixos subsidiadas pelo governo do Estado de São Paulo;
  • As feiras de rua – atualmente, há 880 feiras de rua no município de São Paulo cujas bancas são montadas, semanal ou diariamente, em ruas e espaços públicos aonde comercializam, principalmente, frutas, verduras, legumes e pescados, dentre outros tipos de alimentos;
  • As usinas de compostagem – por enquanto, o município de São Paulo possui somente 1 usina de compostagem que processa 5 toneladas de resíduos sólidos orgânicos oriundos de podas de árvores e de parte das feiras de rua.

Em 2016, a Bloomberg Philantropies concedeu um prêmio de US$ 5 milhões para o governo do município de São Paulo a fim de apoiar a implementação daquele circuito curto alimentar.

Assista o video “São Paulo Food Circuit - Bienal de Arquitetura Seul 2017“ produzido pela Equipe Belas Artes.

Para mais informações sobre a Bienal de Arquitetura de Seul, acesse: http://seoulbiennale.org/en/

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Fontes: Arch Daily Brasil e Centro Universitário Belas Artes.