Campus Party planeja implementar 10 mil laboratórios de tecnologia em comunidades de baixa renda - São Paulo São

Vinicius Melo, de 15 anos, passou parte da infância e da adolescência dentro de uma lan-house em Salvador, até 15 horas sentado na frente de um computador. Aos 9, quando descobriu a Campus Party, o maior festival de tecnologia e inovação do país, que acabou neste domingo em São Paulo, passou a juntar dinheiro num cofrinho, mas nunca conseguiu viajar à capital paulista. No ano passado, porém, houve uma edição do evento em sua cidade, e Vinicius foi à reunião da organização, que costuma pré-consultar engajados em tecnologia da comunidade.

Francesco Farruggia, presidente do Instituto Campus Party, ouviu sobre os projetos de Vinícius, então com 14 anos — um deles ensinava crianças de rua a hackearem seus brinquedos. E o jovem ganhou, então, uma nova responsabilidade: ser embaixador de um laboratório na cidade de Canudos, município pobre no sertão baiano, com 18 mil habitantes, sem bancos e sem acesso à internet. A iniciativa é o projeto-piloto de educação e tecnologia da Campus Party, o Include, cuja ambição é implementar até 10 mil laboratórios em comunidades de baixa renda do país nos próximos quatro anos. Os monitores serão jovens da comunidade local e receberão remuneração.

Cinquenta projetos já estão em fase de idealização ou de implementação. Os objetivos são identificar “gênios escondidos”, como diz Francesco, desviar jovens do tráfico para a tecnologia e permitir que possam desenvolver uma carreira na área. Para o modelo vingar, é necessário unir três agentes: a comunidade, que precisa aceitar e ceder um espaço ao laboratório, o poder público, que auxilia com parte dos recursos (como o Ministério de Ciências, Tecnologia e Inovação, que dará computadores reciclados) e a iniciativa privada, que patrocina a estrutura.

Foto: Divulgação.Foto: Divulgação.Prestes a cursar automação industrial, Vinicius aceitou o desafio. Uma vez por semana, viaja sete horas em um transporte bancado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia e chega a Canudos, que fica a 376 quilômetros de Salvador. Lá, ele e outro monitor ensinam introdução à lógica de programação, eletrônica básica, automação com arduíno e o básico do sistema GNU/Linux.

O jovem tem 66 alunos, todos de Canudos, filhos de lavradores, arrumadeiras ou mecânicos:

— A sensação é de que dou sentido à vida de outras pessoas, e à minha também — diz Vinicius.

O laboratório é equipado com impressora 3D, robôs, drones e placa solar. A USE Telecom, empresa de telecomunicações, forneceu o acesso à internet. A Universidade Estadual da Bahia deu espaço, água, segurança e energia. A estrutura veio do Instituto Campus Party, mas a ideia é que os próximos centros contem com empresas e com seu “lixo eletrônico”, que pode ser reciclado.

— Se conseguimos fazer em Canudos, um lugar sem internet, fazemos em qualquer lugar do mundo — afirma Franscesco.

Segundo o Instituto Campus Party, outros cinco laboratórios devem ser inaugurados na Bahia neste semestre: em Salvador (duas unidades), Camaçari, Lauro de Freitas e Cachoeira. Até junho, Natal (RN), Brasília (DF), Pato Branco (PR) e municípios do norte de Minas Gerais também devem receber laboratórios.

Entrada gratuita

Em 2015, 7 mil alunos de escolas públicas da periferia de São Paulo visitaram a área gratuita da Campus Party. Em um levantamento da organização, 83% responderam que gostaram da experiência, de ver os drones e robôs, mas chegaram à conclusão de que “tecnologia não é para nós”. A área gratuita oferece mentoria para empreendedores e atrações ligadas a áreas como robótica e realidade virtual. Já o espaço pago possibilita o acesso a palestras e a oficinas de tendências tecnológicas mais complexas, como blockchain, rede que opera o bitcoin, internet das coisas e neurociência.

Muitos dos jovens que acampam no evento já cursam alguma faculdade de Ciências Exatas e têm no festival a chance de se conectar com profissionais experientes da sua área, além de recrutadores, líderes empresariais ou influenciadores digitais. Quem não pode desembolsar de R$ 150 a R$ 390, a depender do pacote, fica de fora dessa parte da programação, ligada ao mercado de trabalho.

Jhulyane Souza, 25 anos, participou de projeto que levou 200 jovens da periferia de São Paulo para a Campus Party. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo. Jhulyane Souza, 25 anos, participou de projeto que levou 200 jovens da periferia de São Paulo para a Campus Party. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo. Jhulyane Souza, de 25, sempre quis visitar o evento, mas o valor total é a metade de seu orçamento doméstico. Este ano, ela circula na área paga graças a uma iniciativa que levou a periferia para o centro. Thiago Vinicius, produtor cultural e criador da Agência Popular Solano Trindade, articulou a entrada de 200 pessoas de zonas periféricas de São Paulo na Campus Party. Moradora de São Mateus, bairro da zona leste da capital paulista, Jhulyane escreve sobre quadrinhos no site “re-verso” e tem, pela primeira vez, a chance de se conectar com outras pessoas da sua área.

— É uma oportunidade única. O primeiro dia de evento ainda foi no dia do meu aniversário — diz a jovem.

Para ir da sua casa ao festival, realizado no Complexo do Anhembi, na Zona Norte de São Paulo, Jhulyane tem que pegar duas horas de transporte público. Na sexta-feira, ela não precisou voltar para São Mateus após acompanhar a programação. Ficou em uma das barracas do festival.

Para chegar aos 200 nomes que foram ao festival, Solano escolheu jovens com alguma ligação com tecnologia, empreendedorismo e criatividade, como finalistas de concursos escolares.

— Pela primeira vez, estamos entrando na Campus pela porta da frente, não só para sermos seguranças ou faxineiras, mas como espectadores do evento — diz Thiago.

Em sua décima primeira edição, a Campus Party reuniu 130 mil pessoas ao longo da semana passada no espaço gratuito do evento, o Open Campus. Além dessas pessoas, oito mil acamparam e outros 4 mil pagaram para assistir a palestras e participar de workshops. Os organizadores do evento comemoraram o aumento da participação das mulheres no festival. Em 2015, 27% do público era do sexo feminino. Neste ano, as mulheres foram 43%.

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Por Paula Soprane em O Globo.



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