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São Paulo São Ações

Enquanto 30% das crianças brasileiras padecem de sobrepeso, no restante do mundo quase 200 milhões de meninos e meninas menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda ou crônica.

Isso significa que eles não têm acesso a alimentos em quantidade suficiente para satisfazerem suas necessidades energéticas mínimas. Combinada com outras doenças ou infecções evitáveis, como diarreia e malária, a FAO calcula que a cada ano a desnutrição leva à morte pelo menos três milhões de crianças e, das que chegam à idade adulta, é alta a probabilidade de desenvolvimento de problemas crônicos de saúde como cardiopatias, diabetes e hipertensão arterial.

A triste ironia é que embora o continente africano seja um grande produtor e exportador de produtos de origem agrícola, a África se ressente por não poder alimentar sua própria população.

Pra se ter uma ideia da magnitude do problema, na porção subsaariana do continente estão quase uma quarta parte das pessoas subnutridas do mundo, revelando  um quadro socioecoonômico de extrema vulnerabilidade.

Fonte: http://www.wfp.org/content/hunger-map-2015

Para enfrentar a desnutrição, o Senegal (circulado no mapa acima)  e mais uns tantos países, na maior parte  da África Ocidental, têm buscado apoio no Centro de Excelência contra a Fome, fórum do Programa Mundial de Alimentos, para entender o modelo brasileiro de alimentação escolar e a partir daí, fomentar programas próprios, mais sustentáveis e menos dependentes de meras transferências de recursos. A experiência brasileira com a aquisição direta de agricultores familiares, tonificada por políticas publicas inspiradoras como o Programa Nacional de Alimentação Escolar é um dos fundamentos dessa cooperação que vem se instaurando entre o Brasil e esses países e entre eles próprios, numa lógica de cooperação SUL_SUL, extensiva a governos da África, Ásia e América Latina.

No Senegal, por exemplo, onde o ambiente político é propício a ações de governo mais duradouras, recentemente começou a ser implantado um programa de alimentação escolar baseado em “comida de verdade”. Em algumas escolas senegalesas as crianças já têm reconhecido o direito a duas refeições no decorrer do período letivo, medida que assegura minimamente sua nutrição e melhora consideravelmente seu aprendizado. Naquele país, o Programa Mundial de Alimentos associa-se com comerciantes locais para fornecimento de quatro categorias de itens: cereais, óleo, sal e grãos, com os quais são elaborados desjejuns e almoços baseados em itens produzidos prioritariamente na região.

Para conhecer de perto o programa senegalês e dialogar com outros 23 países da África Ocidental sobre estratégias possíveis de consolidação de politicas públicas de alimentação escolar, o município de São Paulo, cumprindo mais uma etapa do Prêmio Educação Além do Prato, reuniu duas merendeiras e duas educadoras para um seminário especial de alimentação escolar para o oeste da África que aconteceria na semana de 8 a 12 de junho de 2015. O objetivo era recompensar as duplas ganhadoras do prêmio com uma missão junto ao Programa Mundial de Alimentos que lhes desse a oportunidade de inspirar aqueles países por meio do compartilhamento de sua história particular de sucesso!

A escola de Ouadiour 

Na manhã da terça-feira, 09 de junho, fomos recebidos com uma celebração festiva sob a sombra de uma majestosa Nim, exemplar singular de árvore típica da região, capaz de abrigar mais de uma centena de crianças do calor e secura extremos de uma região quase desértica dando-lhes conforto mínimo para entoar seu canto de boas-vindas em wolof, uma de diversas línguas faladas no Senegal.

A mesma sombra serviu de antessala para a conversa franca e compenetrada entre a equipe de São Paulo e o conselho comunitário da escola de Ouadiour, uma das mais antigas do distrito de Gossas, pequena cidade no oeste do Senegal  pertencente a região de Fatick.

Ali falou-se de alimentos seguros, crianças saudáveis, garantia de aprendizagem por meio da alimentação na escola, trajetória paulistana no programa de alimentação escolar – do copo de leite aos orgânicos na refeição – semelhanças entre Brasil e África, e finalmente das possibilidades que se descortinam àquele continente diante da nova perspectiva de apoio sustentável do  PMA e do Centro de Excelência contra a Fome.

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Fotos: Mariana Rocha / WFP.

O engajamento da equipe e a legitimidade de seus propósitos foram evidenciados pelo carinho quase desmedido das “femmes mamans”, voluntárias mães merendeiras da escola, que acolheram as colegas brasileiras e identificaram nelas suas “almas gêmeas”, embora antes jamais uma desconfiasse da existência da outra.

Com a palavra, o prefeito de Oaudiour, ex aluno da escola e também seu professor.

Ao invés de pedidos, ouvimos : “queremos finalmente poder andar pelos próprios meios! Só precisamos de água!”

Esse depoimento fez lembrar o Brasil de alguns anos atrás, no início do “Fome Zero”. E trouxe luz aos resultados que considero talvez os mais emblemáticos e sustentáveis do Programa: as cisternas do semi árido, iniciativa do “Programa Água pra Todos”.

De repente percebemos como as realidades de nossos países são parecidas, na sua essência.

O flagelo da seca e da fome está sendo enfrentado com relativo sucesso no Brasil e o Brasil avançou muito nas últimas décadas, mas somos ofuscados por valores preconceituosos acerca da capacidade de diagnóstico e resposta dos outros povos a seus problemas fundamentais. Esquecemos que premissas básicas têm sido historicamente negadas a eles; a água é o principal, mas não o único exemplo!

Do privilégio de nos reconhecer na realidade de Ouadiour surge a vontade de estabelecer elos de cooperação para construção de vínculos mais duradouros.

O encontro em Ouadiour deixou a certeza de que São Paulo, com toda a maturidade que revela na alimentação escolar de suas crianças, precisa trocar e pode aprender muito com os sofridos países africanos.

Não estou certa sobre qual das duas cidades ficou mais transformada com a visita daquele dia… Mas tenho clareza de que  a nossa missão apenas começou.

“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” (Heráclito)

Erika Fischer, é diretora do Departamento de Alimentação Escolar (DAE) da Secretaria Municipal de Educação.

Fonte: São Paulo Carinhosa.

 

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), entrega à população no dia 29 de junho a primeira Unidade Móvel de Cidadania LGBT. O veículo (uma van Renault/Máster) é equipado e adaptado para realizar até três atendimentos simultâneos a vítimas de homofobia e tem investimento anual de R$ 261.993,60. A Unidade Móvel funcionará no Largo do Arouche, de quinta-feira a domingo, das 18h às 23h, podendo circular por outros espaços da região central.

A Unidade Móvel é a Meta 61 do Programa de Metas da Prefeitura de São Paulo. Estão previstas a inauguração de outras quatro Unidades, cada uma ligada a outros quatro Centros de Cidadania LGBT regionalizados, que serão inaugurados até o final de 2016.

Além de atender vítimas de homofobia, o veículo também está adaptado para divulgar serviços e programas da Coordenação de Políticas LGBT, como o Centro de Cidadania LGBT, o Plano de Saúde Integral e o Programa Transcidadania. Haverá ainda a articulação com a Base Permanente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e policiamento da região para reforço na segurança e inibição de casos de agressão e violência.

A escolha do Largo do Arouche como base para a Unidade Móvel deve-se ao grande movimento de público e estabelecimentos privados de socialização LGBT, como bares, boates, saunas, entre outros. Por essa característica, o local tem se tornado um ponto de turismo LGBT, inclusive sendo citado em Guias especializados e recebendo, anualmente, turistas de diversas partes do Brasil e do mundo. Aos finais de semana, dezenas de jovens, especialmente de regiões periféricas da cidade, se reúnem no local em busca de diversão.

 



Atividades específicas 

A Unidade Móvel de Cidadania LGBT ainda prestará outros serviços à população, como a realização de teste de fluido oral para HIV, a distribuição de material e atividades de orientação sobre Direitos e Políticas Públicas existentes, funcionando como ponto fixo de divulgação dos serviços de saúde, assistência social e promoção dos direitos humanos, a realização de atividades educativas e culturais, como exibição de curtas e videoclipes de campanhas da Prefeitura, e a formação de redes de acolhimento e sensibilização nos equipamentos públicos, envolvendo prioritariamente o Centro de Referência da Diversidade e o Centro de Cidadania LGBT - Arouche.

Serviço:
Lançamento da Unidade Móvel de Cidadania LGBT.
Dia 29 de junho, 10h. Em frente ao Edifício Matarazzo.

Fonte: Portal da Prefeitura.

Pelo menos neste começo de ano, a crise econômica que o país enfrenta não surtiu maiores efeitos sobre a venda de bicicletas em Curitiba.

Segundo André Hain Taborda, da Agência da Bicicleta, e Lee Américo Nascimento Vieira, da Bike Tour Club, o mercado vive um bom momento, com as vendas mantendo-se no mesmo nível registrado no ano passado. E isso é um reflexo do País. Um exemplo: nos últimos anos a produção de bicicletas está na casa de 4 milhões de unidades por ano. No ano passado, foram produzidos pouco mais de 3,1 milhões de automóveis no País.

“As vendas neste primeiro semestre estão a mesma coisa do ano passado, o mercado está bom. Nós não tivemos ainda queda em valor ou em quantidade de vendas”, afirma Taborda, que é sócio-gerente da empresa fundada em 1944 na Capital, enquanto Veira diz que para começo de ano o movimento foi bom. “Sempre tem venda, sempre tem manutenção para fazer, então a gente não fica parado. A crise (econômica) não afetou tanto.”

Apesar do momento positivo, nos próximos meses algumas mudanças importantes devem acontecer. Para começar, o movimento de ciclistas nas ruas deve cair, por conta da chegada do frio. “Com o inverno, o pessoal diminui o uso (da bicicleta), principalmente quem usa mais para lazer. Daí só ficam aqueles que usam (a bike) como meio de transporte mesmo”, opina Taborda.

Com menos ciclistas nas ruas, menos bicicletas irão precisar passar por algum tipo de reparo. Dessa forma, o movimento nas bicicletarias também deve dar uma “esfriada”. “Agora começa a fase do inverno, então dá uma segurada nas vendas e também tem uma queda na parte de manutenção. Mas terminando o inve rno a pessoa já começa a se programar para voltar a usar a bicicleta e o movimento volta a crescer”, relata Vieira.

Mas se o uso deve entrar em baixa por conta do frio, para quem está pensando em comprar uma bicicleta esse pode ser considerado um bom momento. É que nos próximos meses a tendência é que os preços comecem a subir, até por conta da inflação.

“Nós não tivemos queda nas vendas, mas os custos aumentaram e ainda não pudemos repassar os novos preços para o consumidor. A partir do próximo mês já vamos começar a fazer alguns reajustes”, explica Taborda. “Nós ainda estamos trabalhando no preço antigo, mas porque segurou o estoque. Quando estamos fechando pedidos novos, também notamos que o preço deu uma subida”, complementa Vieira.

Principais cidades com ciclovias implantadas no mundo

1 – Berlim: 750 km
2 – Nova York – 675 km
3 – Brasília – 420 km
4 – Amsterdã – 400 km
5 – Paris – 394 km
6 – Rio de Janeiro – 380 km
7 – Bogotá – 359 km
8 – Copenhague – 350 km
9 – São Paulo – 250 km
10 – Barcelona- 200 km

Fonte: Redação Bem Paraná


José Aparecido Cândido Vieira, 65, era vendedor na rua Santa Ifigênia, o paraíso dos componentes eletrônicos na cidade de São Paulo. Saía de casa para o trabalho às 5h30 e voltava só às 20h, depois de passar o dia batendo perna entre as lojas. Mas os anos foram-lhe pesando, ele já não rendia tanto, o dinheiro começou a minguar. Há dois anos, ele jogou tudo para o ar e transformou-se em um agricultor urbano.

Nos extremos da zona leste, em um tal de Jardim Imperador, debaixo de um linhão de transmissão de energia elétrica da Eletropaulo, Vieira começou sua nova vida, agora plantando alface lisa, crespa, mimosa, roxa, couve, rúcula, temperos, almeirão, repolho, catalônia, maracujá e banana -tudo sem agrotóxicos ou fertilizantes químicos.

A horta de produtos orgânicos emprega a mãe e a mulher do ex-vendedor, que mora a uma quadra do atual trabalho. Rendimento mensal por cabeça: de R$ 700 a R$ 1.200, dependendo da estação.

Longe de se constituir em excentricidade, a agricultura urbana é tendência no mundo todo. Por encurtar as distâncias que normalmente separam o produtor de seus consumidores, as hortas urbanas são consideradas ecologicamente corretas. Porque não usam pesticidas, também. Porque prescindem dos atravessadores (o consumidor pode ir até o produtor), são socialmente mais justas, remunerando melhor o trabalhador agrícola.

À frente da implantação de 21 hortas urbanas voltadas para a geração de renda e de 32 outras, instaladas cem escolas públicas, está o administrador de empresas e técnico em políticas ambientais Hans Dieter Temp, 50, coordenador da organização não-governamental "Cidades sem Fome/Hortas Comunitárias". Esqueça a horta hippie, cheia de espécies exóticas, com agricultores da nova era.

O objetivo principal das hortas do Cidades sem Fome é a geração de renda e oportunidades de trabalho em comunidades carentes, como as existentes na periferia de São Paulo. Nas escolas, é contribuir com a qualidade nutricional das merendas, além de ajudar as crianças a vivenciar um mundo alimentar diferente dos supermercados.

"Tem terreno que não acaba mais disponível na cidade. São as áreas debaixo das linhas de transmissão da Eletropaulo, áreas cortadas por dutos de petróleo da Transpetro, terrenos baldios, áreas públicas abandonadas, além dos terrenos vagos nas 680 escolas públicas de São Paulo ", diz Temp (ele não tem os números precisos).

A ONG legaliza o uso do solo por intermédio de contratos de comodato e cede o terreno para trabalhadores selecionados de acordo com critérios de necessidade e vulnerabilidade, a partir de indicações das comunidades do entorno.

Mas, como manter essas hortas urbanas em uma cidade, como São Paulo, crescentemente acossada pela falta d'água? Segundo o ex-vendedor que virou agricultor, o dispêndio de água na sua horta é baixíssimo. "Depois do cultivo, nós recobrimos os canteiros com uma manta de capim que mantém a umidade do solo por vários dias", diz. O resultado é que o consumo de água em sua horta de 900 metros quadrados é menor do que o de uma casa com cinco moradores.

Segundo Hans Dieter Temp, as hortas urbanas fomentadas pelo projeto Cidades sem Fome têm um tempo de maturação entre 12 e 18 meses para se tornarem auto-sustentáveis. A ideia é implantar essas hortas por toda a periferia, barateando o preço das hortaliças para as camadas mais pobres da população. "Em pouco tempo, quase 90% da população mundial estará morando em grandes cidades. É preciso inventar um modo para que as pessoas possam se alimentar de forma saudável, sem ter de importar alimentos imprescindíveis de lugares longínquos".

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Laura Capriglione - colaboração para a Folha de S. Paulo.

 

Durante a 1ª reunião aberta da Aliança pela Água, no dia 21 de Janeiro de 2015, bastaria um fósforo ser riscado na sala do Espaço Crisantempo para causar uma grande comoção: os nervos dos participantes estavam à flor da pele, pois o nível do Sistema Cantareira era de apenas 5,6% e, após um 2014 terrivelmente seco, temia-se pelo pior.  Uma catástrofe ambiental rondava a região metropolitana.

Mas felizmente São Pedro se apiedou de São Paulo, e as precipitações nos meses de Fevereiro e Março superaram as expectativas, dando um novo fôlego para o abastecimento de água na maior mancha urbana do país.  Fôlego esse que pode ser curto, pois o Inverno que se inicia é uma estação tradicionalmente seca. Não por outra razão, já há cinco dias o nível do Sistema Cantareira não sobe.  Desde o começo de Abril o nível do maior sistema abastecedor da capital tem oscilado em torno de 20%, ou de 9% negativos, se considerado o uso do “volume morto”.

Menos nervosos, porém atentos à situação ainda crítica , o coletivo Aliança pela Água fez sua 3ª reunião aberta, para apresentar um balanço do que foi feito até aqui e montar uma proposta de atuação conjunta nos próximos meses. A ambientalista Marussia Whatelly coordena essa rede composta por 48 entidades, e consolidou o conhecimento apurado pelo grupo em uma apresentação com  imagens e gráficos, que mostraram que a situação do nível total de água nos diversos sistemas que abastecem a Grande São Paulo é pior neste começo de Inverno do que no mesmo período em 2014.  Talvez não por outra razão houve um comparecimento recorde a esse encontro, com cerca de 60 pessoas presentes. 

“Água é um direito humano, não é mercadoria”.  Esse é o princípio básico que norteia a ação da Aliança pela Água.  A lógica mercantilista na geração e distribuição da água afastou a população de uma confortável segurança hídrica. A estiagem não foi a causadora, mas apenas o estopim da crise, e a crítica que se faz é que enfrentar essa crise hídrica não passa apenas por fazer obras emergenciais, que a bem da verdade apenas transferem água de uma represa para outra.  A questão é conseguir colocar em paralelo a esse modelo tradicional, uma forma mais ampla de gerir a água, considerando a recuperação de nascentes, o reflorestamento de córregos, a despoluição dos rios, a captação de água de chuva, e a utilização de água de reuso, além de uma ênfase na educação ambiental da população.

ONGs de expressão como SOS Mata Atlântica, WWF, Greenpeace, ISA, compõem a Aliança pela Água, ao lado de entidades com atuação local e propostas alternativas, como o uso de cisternas e práticas de reflorestamento.  Os meses a seguir serão de monitoramento da situação, e o movimento pretende manter a agenda de reuniões abertas bimestrais, enquanto seguem os trabalhos divididos em grupos de ação. 

Após lançar em Dezembro de 2014 uma Carta Aberta, e em Março deste ano o Manual de Sobrevivência para a Crise, a Aliança pela Água começa a preparar um manifesto pautado na construção de uma “nova cultura” para enfrentar a escassez hídrica, cuja realidade deve prosseguir nos próximos anos.

Mais informações no site do movimento, onde pode ser baixado o Manual de Sobrevivência para a Crise:  www.aguasp.com.br

A reunião aconteceu no Espaço Crisantempo – Rua Fidalga 521, Vila Madalena, em 18 de junho.


Eduardo Britto – portal ZNnaLinha

“Cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos apenas quando esse algo é criado por todos.” A frase da escritora e ativista estadunidense Jane Jacobs serve de inspiração para os criadores de um conceito ainda pouco conhecido no Brasil: o Placemaking (criação de lugares, em tradução livre).

Criado nos anos 1980, nos Estados Unidos, o Placemaking é um processo de planejamento, criação e gestão de espaços públicos, que estimula uma maior interação entre as pessoas e propõe a transformação dos pontos de encontro de uma comunidade (parques, praças, ruas e calçadas) em lugares mais agradáveis e atrativos.

Conheça outros projetos de intervenção urbana:

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Para isso, nada melhor do que ouvir os desejos e necessidades daqueles que vivem e usufruem do local a ser transformado. “Queremos incentivar a criação de espaços onde amigos possam se encontrar e pessoas possam se conhecer. Em suma, lugares onde a convivência cidadã floresça”, destaca Jeniffer Heemann, secretária-executiva do Conselho Brasileiro de Lideranças em Placemaking (CBLT) – plataforma lançada no início de outubro, que pretende articular esforços de poder público, iniciativa privada, academia e projetos da sociedade civil que tenham confluência neste tema.

“O Conselho vai debater questões sobre como transformar a cidade de uma forma que melhore a qualidade de vida e a saúde pública, trazendo mais bem-estar aos cidadãos.”

Carros x Pessoas

Conferência Internacional Future of Places (Futuro dos Lugares), promovida pela ONU Habitat, em setembro de 2014, em Buenos Aires, foi o berço do CBLT. “Um grupo de 20 brasileiros que participavam da Conferência teve a ideia de reunir esforços, pessoas e coletivos que têm interesse em desenvolver projetos ligados às melhorias urbanas”, explica Jeniffer. Hoje, o Conselho  conta com cerca de 50 membros e continua aberto para a participação de novos interessados.

Outra fonte de inspiração é a iniciativa Project for Public Spaces – PPS (Projetos para Espaços Públicos), uma das organizações mais assíduas na promoção internacional do Placemaking, além de referência no tema. Após diversos estudos em cerca de três mil comunidades de 50 países, o PPS identificou quatro qualidades comuns em espaços públicos bem-sucedidos: acessos e conexões; conforto e imagem; usos e atividades; e sociabilidade (leia mais no box).

O PPS organiza eventos como o Pro Walk Pro Bike, realizado em setembro em Pittsburgo (EUA), que discutiu a necessidade de se criar alternativas aos veículos motorizados. Foi uma frase de outro escritor estadunidense que serviu de mote para os debates: “Esqueçam os malditos carros e construam cidades para os amantes e amigos” (Lewis Mumford).

Em suas discussões no Brasil, o CBLP também prioriza a disparidade entre uma cidade para o automóvel e uma cidade para as pessoas. “Em visita ao nosso país, membros do PPS afirmaram que estamos copiando os mesmos erros do urbanismo ao construir vias largas apenas para carros. Para quem anda a pé, a cidade deixa de ser interessante e convidativa e passa a ser assustadora”, aponta Jeniffer.

Para ela, a largura da calçada, as atividades e serviços proporcionados pelo bairro e até mesmo a sombra podem propiciar uma experiência melhor para os cidadãos que se deslocam a pé ou de bicicleta. “Fora dos carros, as pessoas trazem vida para as ruas. E quanto mais gente na rua, mais segura ela é”, acredita. “Queremos recuperar um outro estilo de cidade que estimule esses pequenos trajetos a pé, o que ajuda tanto na questão de segurança como na de saúde pública, pois desencorajar o uso de carro reduz a poluição e incentiva o exercício físico.”

Agenda política

Para além da articulação entre diferentes setores interessados em uma nova cidade, o CBLP tem a intenção de promover workshops e oficinas sobre as ferramentas do Placemaking que trazem melhorias para os espaços públicos. Elas terão o apoio do PPS, que possui expertise no assunto.

Por fim, o Conselho quer inserir na agenda política brasileira as reais demandas de quem vive e utiliza os espaços das cidades. “Em suma, fazer com que o planejamento urbano voltado ao protagonismo das pessoas entre ainda mais na pauta dos governos”, declara Jeniffer, parabenizando a prefeitura de São Paulo pelo projeto Centro Aberto.

O segredo do sucesso de espaços públicos, segundo o PPS:

Acessos e conexões
Um bom espaço público integra-se com o bairro onde se encontra. É aberto à comunidade acessível e conveniente.

Conforto e imagem
O conforto pode ser avaliado pela beleza do local, mas também pela forma como é cuidado, se transmite uma sensação de segurança, se tem banheiros acessíveis, se é possível sentar-se, entre outros.

Usos e atividades
As atividades desenvolvidas em um local são a razão para as pessoas o frequentarem. Se não houver nada para fazer, é pouco provável que elas retornem.

Sociabilidade
A sociabilidade do espaço é um fator essencial para aflorar o sentimento de pertencimento por parte do cidadão. Quando se está com os amigos, se cumprimenta vizinhos e se sente mais à vontade para interagir com estranhos, as pessoas tendem a desenvolver um maior sentimento de comunidade e a preocupar-se mais com espaço público.

Danilo Mekari no Portal Aprendiz.