Lixo: Precisamos cuidar melhor da nossa água - São Paulo São

Precisamos falar mais sobre a água. Com todo mundo. Sempre que houver oportunidade. Precisamos parar de jogar a água tratada no lixo. Precisamos adotar o reúso em casa e no trabalho. Precisamos aprender a ver e cuidar melhor dos rios urbanos. Precisamos proteger os mananciais. Precisamos saber que água já está chegando pelo cano. E o que fazer quando ela faltar por mais tempo.

O mês das chuvas acabou e os níveis de água dos sistemas que abastecem a região metropolitana de São Paulo não atingiram níveis necessários para afastar a crise.

A situação não é restrita à cidade. Sudeste e Nordeste, as duas regiões mais populosas do Brasil, com quase 70% da população, enfrentam uma seca severa. Os reservatórios de água das duas regiões, tanto para abastecimento como para geração de energia, poderão entrar em colapso, no próximo ano, caso a estação chuvosa do verão fique abaixo da média histórica.

Esse alerta foi feito pelo meteorologista Carlos Nobre, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e referência em estudos sobre mudanças climáticas, na terça (9), na Câmara dos Deputados. Nobre participou de audiência pública promovida pela comissão especial que analisa a crise hídrica.

Como a meteorologia não pode prever como será a próxima estação chuvosa nas duas regiões, é necessária a adoção de medidas urgentes, principalmente para economizar água. Nobre disse ainda que a área metropolitana do Rio não tem feito esforços suficientes nesse sentido, apesar da agenda de 2016 incluir as Olimpíadas, justo no período mais seco do ano.

Para Marussia Whately, urbanista que atua no Instituto Socioambiental (ISA) e uma das ativistas do projeto Aliança pela Água, que reune 40 entidades, no momento a cidade de São Paulo dá indícios de voltar ao estado de negação da crise vivido no ano passado.

"Parece que estamos de novo às cegas, sem saber como e quando nos preparar", diz Whately. A Aliança cobra mais transparência do governo do estado de São Paulo na condução do problema. "Não se divulga, por exemplo, quais são os gatilhos que determinam as medidas emergenciais", impossibilitando assim o acompanhamento, a vigilância e a cobrança da sociedade sobre a condução desses procedimentos.

As medidas adotadas pela Sabesp até agora, como a redução de pressão e a interrupção do fornecimento de água, não foram capazes de recuperar as represas e, segundo Whately, não existem outras providências de curto prazo já explicitadas para aumentar o volume de água nesses reservatórios.

A Aliança alerta também para o que considera um modelo de pior qualidade de água, com o uso da represa Billings sem o correto estudo de impacto e a falta de fiscalização sobre o manejo e a captura de água na cidade.

O grupo de entidades quer manter a interlocução da sociedade com o governo e cobra que seja feita a fiscalização permanente sobre a qualidade de água que será servida. Um plano de contingência claro, com determinação das fases e das responsabilidades entre governos do estado, município, federal e agências segue sendo reivindicado pela Aliança.

A Aliança também cobra dos governos estadual e municipais que apresentem e implementem uma política de reúso da água, dos esgotos e de aproveitamento de águas da chuva.

O grupo propõe que os governos reforcem programas de incentivo à instalação de equipamentos que permitam economia de água no uso doméstico, comercial e industrial, e as exigências de uso racional da água em novas obras e reformas, públicas e particulares.

Com a possibilidade de falta de água, é de esperar que a população comece a captar de toda e qualquer fonte disponível. Nesse cenário, seria essencial sinalizar as características de cursos de água, depósitos e rios urbanos e os problemas do consumo da água contaminada. "É questão de saúde pública", diz Whately.

"Semelhante ao que se faz nas praias, com avisos sobre a qualidade de água para o banho, deveríamos ter esse controle com os rios urbanos e avisos indicativos de que tipo de uso cabe em cada caso", diz a urbanista.

Para que isso ocorra, um mapeamento efetivo e sistemático das nascentes deveria ser incentivado e apoiado, pois seus resultados poderiam ajudar na proteção desses recursos contra a descarga de lixo e a contaminação.

Mara Gama na Folha de S.Paulo.