Girl Power: mulheres se unem em projetos coletivos e ampliam a cena cultural de São Paulo - São Paulo São

Com o poder feminino cada vez mais aflorado, na vida, na atitude e na mídia, podemos enfim enxergar a mulher além de padrões estéticos e conservadores. As “Amélias” se rebelaram e agora mostram o quanto as mulheres já fizeram e ainda fazem nas mais variadas áreas de atuação que permeiam a evolução da espécie: da ciência à engenharia; da gastronomia à educação. Elas estão lá. Sempre estiveram. Nunca deixarão de estar.

Nos últimos anos, vários projetos coletivos formados por mulheres têm ampliado a cena cultural de São Paulo, seja ocupando as ruas ou ocupando cargos que antes eram atribuídos somente ao público masculino. Entre eles está a arte urbana, contando com presença feminina cada vez mais forte e enraizada. Simone Sapienza “Siss”, Magrela, Negahamburguer, Nina Pandolfo, Katia Suzue, Tikka Meszaros e Minhau são apenas algumas das representantes da cena do grafite paulistano.

Parte destes nomes fazem parte do Efêmmera, grupo formado por 30 mulheres que se relacionam artisticamente com a cidade. Elas se revezam entre palestras, oficinas, live-paintings e ações urbanas para disseminar a cultura de rua feita pelo público feminino. Em 2015, o coletivo realizou a primeira edição de seu próprio festival, chamado Trilha. “A palavra central do evento foi união. Nessa vida, a gente não realiza nada sozinho, mas se o bonde se junta e trabalha para um objetivo comum, a força que isso tem é gigantesca. A mobilização das minas foi algo emocionante. Ver todas elas ali produzindo, trocando e se conhecendo é inexplicável”, contou a idealizadora Bela Gregório.

Coletivo Efêmmera. Foto: Divulgação.Coletivo Efêmmera. Foto: Divulgação.Poetizando os muros também estão os lambe-lambes, cartazes que espalham mensagens de empoderamento, autoestima, combate ao assédio e ao machismo. Ryane Leão é a mente por trás dos nomes “Se essa rua fosse nossa” e “Onde jazz meu coração”, enquanto Lela Brandão espalha pela cidade o Frida Feminista, projeto inspirado na artista mexicana Frida Kahlo. As duas se unem para ministrar oficinas de lambe-lambes e espalham essa ideia para outras garotas. Nessa ciranda também entram o Encontrarte, de Mari Vieira e Aline Fidalgo; o Microrroteiros da Cidade, da Laura Guimarães; o Poesia Móvel, da Carol Mondin; e o Manifesto das Minas, de Bianca Maciel, além de muitos outros, afinal, o talento é inesgotável.

Onde jazz meu coração e Frida Feminista em ação. Foto: Jéssica Mangaba.Onde jazz meu coração e Frida Feminista em ação. Foto: Jéssica Mangaba.

 Além de usar sprays, a criatividade feminina flui e chega aos poderosos desenhos feitos com linhas de crochê pelas mãos de Karen Dolorez. Os novelos também alcançam a arte do Coletivo Meio Fio, composto por sete mulheres que criam intervenções urbanas com fios coloridos. “Através de fios imaginários e reais, ligamos presente, passado, pessoas e memórias. Buscamos o valor de elementos ignorados e esquecidos da cidade com o objetivo de construir um futuro viável, acolhedor e convidativo”, se lê no site oficial.

Coletivo Meio Fio. Foto: Divulgação.Coletivo Meio Fio. Foto: Divulgação.

Na música que invade as ruas e espaços públicos, o grupo Ilu Obá de Min, nome yorubá que significa “mãos femininas que tocam os tambores para o rei Xangô”, é um dos mais importantes da capital. Realizando um trabalho focado em educação, cultura e arte negra há 12 anos, a associação fundada por Beth Beli e Adriana Aragão desenvolve atividades de empoderamento da mulher e de enfrentamento do racismo, sexismo, discriminação, preconceito e homofobia. Seus tambores e corpo de baile feminino já conta com 150 participantes.

Ilú Obá de Min. Foto: Ricardo Matsukawa.Ilú Obá de Min. Foto: Ricardo Matsukawa.

 São Paulo também revela o coletivo Feminine Hi Fi, que deu origem à primeira festa de sound system brasileira formada só por mulheres. Produzido por Dani I-Pisces, Lovesteady, Laylah e Rude Sistah, o projeto recebe convidadas de maneira alternada, abrindo espaço para profissionais e principiantes. A ideia é unir, incentivar e fundir conhecimento e aprendizado. “Queremos dizer o quanto é importante nos unirmos para combater todo mal que durante anos nos foi causado e a importância da sonoridade e do empoderamento. Tudo está fluindo, mas ainda achamos pouco, queremos mais e merecemos muito mais!”, exclamou o grupo numa entrevista que fiz.

Mulheres em projetos culturais de SP. Foto: Reprodução.Mulheres em projetos culturais de SP. Foto: Reprodução.

 O projeto TPM: Todas Podem Mixar também ajuda a incluir mais força feminina na cena eletrônica. Criado pela DJ Miria Alves, a proposta é disseminar os conceitos teóricos e práticas da mixagem através de oficinas, além de orientar o público sobre como se sobressair num mercado ainda majoritariamente masculino. A mulherada também comparece em peso na Festa Mulheril, iniciativa de Dani Pimenta e Dé Schuw, focada em propagar a cultura do vinil e compartilhar experiências musicais. Além disso, valoriza e propaga as produções femininas dentro da arte, da fotografia e da moda.

Já no samba, quem dá o tom são as Sambadas, roda de samba formada só por mulheres, que comandam violão, pandeiro, tamborim, surdo, atabaque, chocalhos, clarinete e vozes. As rimas de resistência permeiam as letras de artistas e grupos de rap como Pretas Sonoras, Amanda Negra Sim, Cris SNJ, Shirley Casa Verde, Drik Barbosa e Mayarah Magalhães, a maioria parte da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop, movimento forte de equidade de gênero.

DJ Miria Alves do Todas Podem Mixar. Foto: Divulgação.DJ Miria Alves do Todas Podem Mixar. Foto: Divulgação.

 Se tudo isso ainda não basta para comprovar a importância e o impacto feminino na sociedade, calma que ainda tem mais. Haja força para seguir nas lutas diárias. Haja fôlego para continuar falando o que se recusam a ouvir. Haja união para que se fortaleçam. Haja inspiração para continuar transformando a sua própria história e outras tantas realidades. As mulheres estão por aí, aclamando por seus direitos, pedindo respeito, praticando a sororidade, vivendo o louco sonho de liberdade. Elas têm cores, ritmos, dons, personalidades. Depois de alcançar voos tão distantes e ampliar tantos horizontes, é a cidade que começa a ficar pequena para elas.

Dolorez Croche. Foto: Divulgação.Dolorez Croche. Foto: Divulgação.

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Por Brunella Nunes da Redação.