Na Zona Sul de São Paulo, a rua que virou praça - São Paulo São

No lugar do asfalto, grama árvores. No lugar dos carros, pessoas.

Essa é a história de uma intervenção simples, modesta até, para a escala de São Paulo. Um pedacinho de uma rua que virou praça, graças à conjunção de três atores: moradores, um hospital particular e o poder público.

A avenida Jurubatuba corta o bairro da Vila Cordeiro, Zona Sul de São Paulo e sempre foi congestionada com os carros que cruzavam a Roberto Marinho para acessar a Berrini. Em 2007, o Hospital Premier, dirigido pelo Dr. Samir Salman, de cuidados paliativos se instalou no local. Os pacientes são idosos que necessitam de cuidados nessa fase difícil da vida e começou uma conversa com a Associação dos Moradores da Vila Cordeiro, a VIVACORD. A conversa prosperou até pelo interesse comum: Marcos Smetana, presidente da Associação conta que o bairro concentra um dos maiores índices de idosos de São Paulo.

Em 2012, graças a uma emenda parlamentar (aquela verba que os vereadores dispõem) do vereador Gilberto Natalini, pagou-se pela obra, que fechou um canto da rua e transformou-o numa praça. Sergio Saraiva Martins, Assessor de Gabinete do atual Secretário do Verde considera a praça um exemplo da visão de “empoderar as associações de bairro. É no bairro que se encontram as soluções”.

Os pacientes do hospital na praça. Foto: Mauro Calliari.Os pacientes do hospital na praça. Foto: Mauro Calliari.A praça não é muito grande, mas é um alívio para quem está lá. Há árvores, grama e uma integração discreta com o hospital. Os pacientes se misturam aos moradores do bairro. Foi lá que aconteceu um dia uma parte do encontro entre as crianças de uma escola local e os idosos. O médico Guilherme Krähenbühl conta esse encontro: “o objetivo para os idosos é mitigar a solidão e para as crianças é alfabetizá-las no convívio com os mais velhos”.

No sábado, dia 8, houve um encontro dos moradores no local. Para marcar a data de aniversário de uma moradora já falecida, que liderou as negociações iniciais, foram plantadas 72 árvores. Os moradores pleiteiam a legalização da praça e a melhoria de manutenção.

Curiosamente, a prefeitura ainda não se entendeu sobre a praça. Para a Secretaria do Verde, é uma praça. Para a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, ainda é uma rua. São as minúcias da burocracia se auto-alimentando enquanto as pessoas da vida real estão plantando árvores e desfrutando da praça.

A estranha presença do monotrilho nas imediações da praça. Foto: Mauro Calliari.A estranha presença do monotrilho nas imediações da praça. Foto: Mauro Calliari.

Pode-se discutir por que ainda temos verbas parlamentares, decididas por critérios desconhecidos, mas é um alívio ver que parte delas tenha sido gasta em uma praça num lugar que precisa de verde e para pessoas que precisam do verde. O congestionamento da Jurubatuba apenas mudou de lugar, mas a proximidade da praça já fez a diferença na vida de muitos idosos que conseguem sair do hospital para dar uma volta e ver um pouco de verde e de céu. Diante da horrenda silhueta do eternamente inacabado monotrilho, é um grande alívio.


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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.  *Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão.