Igreja é suspensa a 31 metros para ser preservada no futuro Complexo Matarazzo - São Paulo São

Anunciado em 2016, o complexo Cidade Matarazzo está em obras nos arredores da Avenida Paulista, em São Paulo. Além de uma torre projetada pelo arquiteto francês Jean Nouvel - vencedor em 2008 do prêmio Pritzker Prize, o mais prestigioso da arquitetura - o conjunto conta com a recuperação do antigo Hospital Matarazzo e Igreja de Santa Luzia, ambos tombados pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo.

A escavação abaixo da capela Santa Luzia, na Bela Vista, em São Paulo, parte do projeto do complexo comercial Cidade Matarazzo. Foto: Heitor Feitosa.A escavação abaixo da capela Santa Luzia, na Bela Vista, em São Paulo, parte do projeto do complexo comercial Cidade Matarazzo. Foto: Heitor Feitosa.

A igrejinha é a capela de Santa Luzia. Projetada pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi, ou simplesmente João Bianchi, como ficou conhecido no Brasil, a capela foi inaugurada em 1922 nas dependências do Hospital e Maternidade Umberto I, o antigo Hospital Matarazzo.

Para proteger a estrutura da igreja durante as movimentações de terra, a equipe de engenharia responsável pelo empreendimento do Grupo Allard realizou um delicado procedimento para manter o edifício de mil e duzentas toneladas suspenso 31 metros acima do solo. 

Em vez de estacas, a equipe usou uma perfuratriz de baixa percussão, evitando qualquer rachadura na antiga estrutura. Oito grandes pilares de 54 metros de profundidade foram concretados sob a igreja que, agora suportada pelo novo conjunto estrutural, teve seu solo rebaixado em 31 metros.

A estrutura sob a capela de Santa Luzia será integrada ao subsolo da torre comercial de cinco andares a ser erguida ali ao lado. Foto: Instagram / Cidade Matarazzo.A estrutura sob a capela de Santa Luzia será integrada ao subsolo da torre comercial de cinco andares a ser erguida ali ao lado. Foto: Instagram / Cidade Matarazzo.

O espaço abaixo da Igreja de Santa Luzia, cujas fundações originais não ultrapassavam um metro e meio de profundidade, será ocupado por oito pavimentos subterrâneos, cinco dos quais servirão como estacionamento e os demais receberão áreas de apoio ao hotel desenhado por Nouvel. 

“O parque do Matarazzo é uma sobrevivência. Diria até mais do que uma sobrevivência, é um oásis. É o lugar de uma urbanização calma. É o lugar de árvores incríveis: fícus, talaumas. E este hospital no meio é uma espécie de pequena cidade, muito bem organizada com seus pátios. Ao redor disso, uma cidade tumultuada. O que é interessante é trabalhar a partir da memória do lugar”, comenta Jean Nouvel.

A igreja será restaurada e voltará a receber celebrações quando o Cidade Matarazzo for inaugurado. Imagem: Divulgação.A igreja será restaurada e voltará a receber celebrações quando o Cidade Matarazzo for inaugurado. Imagem: Divulgação.

Memória mantida através de grandes esforços da equipe de engenharia liderada por Maurício Bianchi, que, além de realizar a virtuosa tarefa de fazer flutuar a antiga estrutura, também precisou catalogar e remover todo o piso da Igreja para evitar possíveis danos durante as movimentações de terra. As peças removidas serão, ao fim, reinstaladas de acordo com a posição original.

Indagado sobre eventuais prejuízos ao edifício tombado, Bianchi afirma que "o resultado é impecável. Apesar da estrutura de tijolos antigos, não houve absolutamente nenhum dano."

Técnica representa o menor risco à capela, diz engenheiro

A previsão para a conclusão da escavação e da construção das estruturas abaixo da capela é setembro de 2018. Foto: Instagram / Cidade Matarazzo.A previsão para a conclusão da escavação e da construção das estruturas abaixo da capela é setembro de 2018. Foto: Instagram / Cidade Matarazzo.

Com cerca de 2.500 obras de engenharia no currículo ao longo de 65 anos de carreira, o engenheiro aposentado Mario Franco, de 89 anos, elege o projeto da escavação sob a capela de Santa Luzia entre os vinte mais complexos que assinou. Ele fez à mão os primeiros cálculos da estrutura construída sob a igreja.

“No Brasil, certamente é pioneiro. O que é importante é que a capela é muito pesada e a escavação, muito funda. Se você escava dois andares, é uma coisa, se você escava oito… Nunca tinha visto isso em lugar nenhum”, diz Franco, que passou pouco mais de quatro anos, entre 2012 e 2017, projetando o Cidade Matarazzo.

Ao final, a obra terá custado cerca de 5 milhões de reais. Imagem: Divulgação.Ao final, a obra terá custado cerca de 5 milhões de reais. Imagem: Divulgação.

Segundo Mario Franco, a solução para a capela foi encontrada por ele e o engenheiro Carlos Eduardo Moreira Maffei diante dos planos irredutíveis do empresário francês Alexandre Allard, dono do empreendimento, de ter um cinema sob a igreja.

Franco conta que até haveria outras técnicas para executar a obra sob o templo – uma delas seria colocar trilhos sob a edificação e tirá-la do lugar, para depois recolocá-la onde esteve nos últimos 96 anos. Ele pondera, contudo, que mantê-la no lugar, transferir sua fundação e cavar abaixo dela foi a solução mais segura para a capela. “Outras obras já usaram trilhos para mudar um edifício de lugar, mas, estudando as várias possibilidades, a melhor, a que tinha menos risco, sobretudo menos risco de estragar a capela, foi essa”, afirma Franco.

Croqui revela como ficará o complexo que está sendo construído no local da antiga Maternidade Matarazzo. Imagem: Jean Nouvel Arquitetos. Croqui revela como ficará o complexo que está sendo construído no local da antiga Maternidade Matarazzo. Imagem: Jean Nouvel Arquitetos.

Mario Franco cita como “chave” ao sucesso da empreitada abaixo da capela a utilização dos jatos de água de alta pressão que removeram, lenta e gradualmente, a terra sob a fundação original. “O hidrojatemento eu inventei na minha cabeça, depois de muitas noites de insônia”, brinca.

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Fonte: Folha de S. Paulo

 



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