Pessoas - São Paulo São

São Paulo São Pessoas

Protecção, conforto e prazer. É isto que arquitectos e urbanistas devem ter na cabeça quando planeiam o espaço público das cidades: protecção, conforto e prazer para as pessoas, não para os carros. O arquitecto dinamarquês Jan Gehl anda a defender estas ideias há mais de quarenta anos, mas só na última década as começou a ver implementadas no terreno com mais constância, um pouco por todo o mundo.

Debaixo desses três grandes chapéus, Gehl definiu doze critérios para o bom espaço público “que têm o corpo humano como ponto de partida”, explica o arquitecto de 81 anos. Esta semana, 46 anos depois de ter lançado o livro A Vida entre Edifícios, no qual apresentou estes conceitos pela primeira vez, Jan Gehl está em Lisboa para lançar a versão portuguesa da obra, promovida pela editora Tigre de Papel, pela Cicloficina dos Anjos e pelo ISCTE.

Então como agora, o humano está no centro da sua teoria, que pretende ser global. “Somos todos animais caminhantes, temos todos a mesma história biológica, os mesmos comportamentos básicos e os mesmos sentidos”, diz.

Os doze critérios, adoptados como mandamentos de muito urbanismo contemporâneo, são a protecção contra o tráfego automóvel e acidentes, contra o crime e contra experiências sensoriais desagradáveis (ventanias, chuvadas, poluição, entre outras). Da lista constam também, debaixo do chapéu do conforto, as possibilidades de andar, ficar, sentar, ver, conversar, brincar. E, por fim e de forma a garantir prazer no espaço público, ele deve ser construído à escala humana e com qualidade estética, permitindo igualmente desfrutar dos “aspectos positivos do clima” – o sol, as sombras, o calor, a frescura. A partir desta checklist mais ou menos indispensável, o que vier por acrescento é uma vantagem, defende Gehl. “A cultura local, a topografia, o clima e a história podem e devem acrescentar outras dimensões”, explica o arquitecto.

No livro, Gehl desenha uma cronologia da evolução das cidades desde a Idade Média para explicar como, chegados ao princípio do século XX, os arquitectos optaram, quase por obrigação, por uma nova forma de planeamento urbano. “A história do modernismo como ideologia arquitectónica remonta aos anos 1920 e foi uma tentativa de garantir condições de vida melhores e mais saudáveis para os trabalhadores, por oposição às zonas de barracas sobrelotadas do início do século”, explica. Com esse propósito sanitário em mente nasceram os prédios altos em bairros exclusivamente residenciais. “Não foi sequer considerado que o desenho de edifícios pudesse influenciar actividades recreativas, padrões de contacto e possibilidades de encontro”, argumenta Gehl.
"Nos últimos 50 anos, os arquitetos esqueceram o que é uma boa escala para o ser humano". Foto: City Manager Magazine."Nos últimos 50 anos, os arquitetos esqueceram o que é uma boa escala para o ser humano". Foto: City Manager Magazine.

Apesar da “boa intenção” inicial, o modernismo “degenerou depois de 1960 numa produção de edifícios em massa, tecnocrática e com pouca preocupação pelas pessoas e pela vida”, diz o arquitecto, identificando Dubai como um exemplo de “modernismo decadente tardio”.

Por oposição a este urbanismo que tornava irremediável o recurso ao carro, Jan Gehl propõe a tal vida entre edifícios. O que é, afinal? “Não é meramente o tráfego pedonal ou as actividades recreativas ou sociais. A vida entre edifícios compreende todo o espectro de actividades que se combinam para tornar os espaços comunais nas cidades e nas áreas residenciais atraentes e significativos”, lê-se no livro.

“As cidades antigas foram feitas para que este homo sapiens se sentisse confortável.“ Foto: City Manager Magazine.“As cidades antigas foram feitas para que este homo sapiens se sentisse confortável.“ Foto: City Manager Magazine.

Em 2015, Jan Gehl esteve em Lisboa e deu uma conferência na câmara municipal, que elogia pelas obras que tem promovido na frente ribeirinha – são “boas e úteis”. A capital portuguesa é uma das cidades em que identifica a presença de uma “importante mudança nos paradigmas de planeamento urbano”, que começou por volta do ano 2000 e que teve como causa e efeito que “cidadãos e políticos exijam cada vez mais cidades saudáveis, sustentáveis e habitáveis”.

Mas isso não chegou às escolas de arquitectura, de um modo geral. “A maioria das escolas ainda ensina que: se tem bom aspecto, também será bom. Isto não é mesmo verdade. Há incontáveis locais no mundo que ganharam grandes prémios de arquitectura, mas que não funcionam para as pessoas”, comenta Gehl. E esse é o ponto: "Cidades amigas das pessoas devem ser um direito humano básico". 

***
Por João Pincha no PÚBLICO.

Uma parceria entre a chef de cozinha Paola Carosella, seu sócio Benny Goldeberg, o Ministério Público do Trabalho em São Paulo (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) vai oferecer capacitação profissional de travestis e homens e mulheres transsexuais em situação de vulnerabilidade.

A iniciativa que formará ajudantes de cozinha foi anunciada na última sexta-feira (10) em evento que reuniu representantes de empresas interessadas em ampliar a diversidade de seu quadro de funcionários, tais como Facebook, Univeler e Bradesco.

A primeira turma será composta por 25 homens e mulheres trans que participam do Transcidadania, projeto da prefeitura de São Paulo que acolhe pessoas trans em situação de vulnerabilidade.

O projeto é o início de outras iniciativas pensadas pelos organizadores. O logotipo, a identidade e o nome serão escolhidos pela chef Paola e sua primeira turma durante o curso.

De acordo com levantamento feito pela Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das travestis e transexuais brasileiras se sustentam hoje por meio da prostituição.

É no mercado informal do sexo que travestis e transexuais passam a trabalhar assim que são expulsas de casas, geralmente aos 12 ou 13 anos, por conta de sua identidade de gênero. Nesse cenário, o projeto em São Paulo tenta estimular a empregabilidade dessa população.

Ao todo, a capacitação terá nove módulos, chamados de sessões de acolhimento. Por meio desses módulos, os alunos vão aprender a realizar tarefas básicas de uma cozinha de restaurante - incluindo o controle de resíduos, estocagem de alimentos e preparo de pratos básicos.

Instruções sobre questões técnicas e burocráticas de uma cozinha profissional também estão previstas no curso. De acordo com a jurada do MasterChef Brasil, as alunas vão aprender também vão aprender "o que é uma jornada de trabalho, o que se considera hora extra, como se lê um holerite".

Paola disse no evento que mais do que ministrar as aulas, ela quer fazer com que as pessoas sintam-se acolhidas e que possam ter ferramentas e oportunidades para crescer profissionalmente. Ao final do curso, Paola empregará os cinco melhores cozinheiros em seus restaurantes

Além das aulas com a chef argentina, os alunos vão contar também com workshops ministrados pela poeta e atriz Elisa Lucinda.

Salomão Cunha Lima, fundador do GAMES, grupo que discute diversidade e inclusão no mercado, esteve presente no evento e afirma: "Esse tipo de iniciativa precisa ser fortalecida com apoio das empresas e da mídia e servir de inspiração para outros setores da economia. Precisamos pensar em qualificação profissional para trans. Essas pessoas precisam ser inseridas na sociedade a partir do mercado de trabalho."

***
Por Amaury Terto do Huffpost Brasil.

Um fotógrafo ganhou mais de um milhão de fãs no Facebook depois de compartilhar fotos de pessoas apaixonadas de beijando em todo o mundo. Ignacio Lehmann, argentino de 32 anos, viajou pelo mundo nos últimos três anos, capturando estranhos enquanto eles beijavam seus parceiros - ou enviavam para os parentes imagens ternas - em configurações exóticas. A série, chamada 100 World Kisses, fez Ignacio visitar 12 países em quatro continentes diferentes.

Um casal realiza acrobacias enquanto se beija em Nova York. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal realiza acrobacias enquanto se beija em Nova York. Foto: Ignacio Lehmann.

O fotógrafo, que fez seu primeiro clique em Nova York, diz que o projeto ocorreu enquanto ele estava passando por algumas dificuldades pessoais: "Era um projeto sem planejamento. Foi um momento difícil na minha vida e tirar essas fotografias me ajudou a me sentir melhor“.

O trabalho foi criado para exibir amor em todo o mundo, independentemente da preferência sexual das pessoas, cor da pele, crenças religiosas ou origem cultural.

Um casal em Roma compartilha um beijo apaixonado. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal em Roma compartilha um beijo apaixonado. Foto: Ignacio Lehmann.

Apesar das barreiras linguísticas, Ignacio conseguiu convencer com sucesso pessoas suficientes para produzir mais de mil fotos para o projeto. A série até criou um novo romance quando Ignacio confundiu duas pessoas como sendo um casal. Ele disse: "Lembro-me quando vi um casal do outro lado da rua. Esperei com a minha câmera para eles se beijarem uns aos outros, mas o tempo passou e o beijo não veio. Então, atravessei a rua para falar sobre o meu projeto. "Eles ficaram surpresos porque não namoravam, eram colegas de trabalho. "Devo pedir desculpas ou pedir um beijo?", Perguntei. "Eles olharam nos olhos uns dos outros e eles começaram a se beijar sem parar. O primeiro beijo de suas vidas em uma pausa do trabalho. Eles me escrevem todos os anos para lembrar aquele incrível momento que ainda os mantém juntos.

“O casal que estava atravessando meu caminho, não houve uma produção especial. Apenas eu, minha câmera e minhas anotações“. Foto: Ignacio Lehmann.“O casal que estava atravessando meu caminho, não houve uma produção especial. Apenas eu, minha câmera e minhas anotações“. Foto: Ignacio Lehmann.

O projeto também passou a incluir momentos de ternura entre os pais e seus filhos. Ignacio agora planeja transformar a série em um livro, fazendo-o escolher cuidadosamente entre centenas de beijos de casais. "Depois de viajar pela Europa, América e Ásia, minha coleção inclui mais de mil fotografias de beijos de rua com histórias e experiências de pessoas comuns de Nova York, Londres, Paris, Hiroshima, Berlim, Barcelona, ​​Tóquio, México, Amsterdã, Veneza, Florença, Bogotá, Cartagena, Buenos Aires, Lima e muito mais, tanto de cenas urbanas como rurais.

Garotinho dá um beijo na bochecha de seu pai na Cidade do México. Foto: Ignacio Lehmann.Garotinho dá um beijo na bochecha de seu pai na Cidade do México. Foto: Ignacio Lehmann."Todos eram pessoas aleatórias que eu encontrava enquanto caminhava com minha câmera. São pessoas que transmitem boa energia e me inspiraram a fotografá-las."A reação das pessoas ao projeto foi realmente emocionante. A página do Facebook chegou a mais de um milhão de seguidores. Ignacio já lançou uma campanha do Kickstarter para financiar o livro, que incluirá suas fotografias, juntamente com as experiências de pessoas normais.

Veja mais fotos do lindo ensaio abaixo! 
Jovem casal se beijando nas montanhas de Machu Pichu no Peru. Foto: Ignacio Lehmann.Jovem casal se beijando nas montanhas de Machu Pichu no Peru. Foto: Ignacio Lehmann.Namorados compartilham um beijo íntimo em Cartagena, Colômbia. Foto: Ignacio LehmannNamorados compartilham um beijo íntimo em Cartagena, Colômbia. Foto: Ignacio LehmannUm casal particularmente apaixonado em Veneza, Itália, se beija no chão, mesmo debaixo de chuva. Foto: Ignacio Lehmann.  Um casal particularmente apaixonado em Veneza, Itália, se beija no chão, mesmo debaixo de chuva. Foto: Ignacio Lehmann. Em parque de Londres, casal do mesmo sexo, faz pausa em seu passeio de bike para um beijo. Foto: Ignacio Lehmann.Em parque de Londres, casal do mesmo sexo, faz pausa em seu passeio de bike para um beijo. Foto: Ignacio Lehmann.Um garotinho em Kyoto no Japão, se inclina para dar um beijo na bochecha de sua irmã mais nova. Foto: Ignacio Lehmann.Um garotinho em Kyoto no Japão, se inclina para dar um beijo na bochecha de sua irmã mais nova. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal particularmente apaixonado se beija no chão, debaixo de chuva em Veneza, Itália. Foto: Ignacio Lehmann. Um casal particularmente apaixonado se beija no chão, debaixo de chuva em Veneza, Itália. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal se abraça enquanto se beija em as rua lotada de Bogotá, Colômbia. Foto: Ignacio Lehmann. Um casal se abraça enquanto se beija em as rua lotada de Bogotá, Colômbia. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal idoso compartilha um beijo suave e terno enquanto visita Hiroshima no Japão. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal idoso compartilha um beijo suave e terno enquanto visita Hiroshima no Japão. Foto: Ignacio Lehmann.

***
Por Martha Cliff no Daily Mail On Line (Inglês). 

Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos em quadro de Francisco Pedro do Amaral. Acervo: Museu Histórico Nacional / Ibram/MincDomitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos em quadro de Francisco Pedro do Amaral. Acervo: Museu Histórico Nacional / Ibram/MincUma movimentada programação cultural vai homenagear Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), a Marquesa de Santos, a mais conhecida das amantes do imperador d. Pedro I. Os eventos, que serão realizados entre a próxima sexta-feira e o dia 3 de novembro, relembram os 150 anos da morte da Marquesa e devem enfatizar seu protagonismo social em uma época em que às mulheres eram relegados papéis secundários, sempre sob a sombra do marido. 

Na agenda, serão duas peças teatrais, dois saraus temáticos, uma exposição de imagens, duas caminhadas históricas, almoços com pratos alusivos a personagens da época e uma palestra. 

É importante aproveitar a oportunidade para ressaltar a importância histórica, social e cultural da Marquesa de Santos. Apesar de ter vivido quase 70 anos, ele foi amante de d. Pedro apenas por sete - mas todos acabam a associando a isto”, comenta o historiador e escritor Paulo Rezzutti, autor da biografia Domitila: A Verdadeira História da Marquesa de Santos. “Se ela não tivesse sido uma mulher forte e importante para as relações culturais e a sociedade paulistana, fugindo do estereótipo da mulher do século 19, ela não seria mais do que uma nota de rodapé em alguma árvore genealógica.”

Domitila, como mostra Rezzutti em seu livro, foi grande doadora para a construção do prédio da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, auxiliou ainda muitos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e era presença constante em todos os importantes eventos daquela provinciana São Paulo imperial.

Da esquerda para a direita: Casa que abriga o Museu da Imagem, o pórtico do Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos. Fotomontagem: Victor Hugo MoriDa esquerda para a direita: Casa que abriga o Museu da Imagem, o pórtico do Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos. Fotomontagem: Victor Hugo MoriSua casa - hoje o Solar da Marquesa, equipamento público administrado pela Secretaria Municipal de Cultura - sediava saraus com poetas como Álvares de Azevedo (1831-1852). Aliás, dentro da programação em sua homenagem está previsto um evento do tipo no mesmo endereço, no dia 3 - exatamente 150 anos após sua morte -, com início às 15 horas e término previsto para às 16h30. Rezzutti organizou esse sarau e também as duas caminhadas, por pontos que remetem à Marquesa. 

Os demais pontos da programação foram ideia de Luiz Antonio Pereira dos Santos, proprietário do restaurante Cama & Café São Paulo, no centro. “Sou um apaixonado pela história dela”, afirma Santos. 

Homenagem. Santos, do Café & Cama São Paulo: ‘Sou apaixonado pela história dela’. Foto: Rafael Arbex / Estadão.Homenagem. Santos, do Café & Cama São Paulo: ‘Sou apaixonado pela história dela’. Foto: Rafael Arbex / Estadão.No cardápio da casa, há um prato chamado Marquesa de Santos (um escondidinho de carne seca) e outro chamado Imperador (carne seca, purê de abóbora, banana da terra, arroz e feijão). Uma vez por mês, a casa recebe um sarau - e o próximo, na sexta, será dedicado à figura histórica.

No restaurante, serão encenadas duas peças em memória da Marquesa, nos dias 1.º e 2, e ocorre a palestra sobre sua história, dia 3, ao meio-dia. Durante todo o período, ficam expostas lá imagens da Marquesa de Santos e outras iconografias do período. 

Programação

Sexta, 27/10.

12 horas: Lançamento do cardápio em homenagem à marquesa e abertura da exposição de imagens. Restaurante Cama & Café São Paulo. R. Roberto Simonsen, 79. Tel. (11) 3101-3760. 

19h30: Sarau, no Cama & Café.

Sábado, 28, e domingo, 29.

9 horas: Caminhada histórica seguida de almoço. R$ 60. Tel. (11) 99951-2262.

Quarta, 1/11.

19h30: Peça teatral Tu de Certo de Mim Nada Conheces. R$ 25. No restaurante Cama & Café São Paulo.

Quinta, 2.

18h30: Peça teatral Lírios Brancos.

Para a Marquesa. R$ 35. No Restaurante Cama & Café São Paulo.

Sexta, 3.

15 horas: Sarau no Solar da Marquesa. Rua Roberto Simonsen, 136.


Evento no Facebook.

***
Edison Veiga em seu blog São Paulo em O Estado de S.Paulo.

Você sabe que dia é hoje? Desde 2012, em 11 de outubro comemora-se o Dia Internacional da Menina. A data, instituída pela ONU, tem o objetivo de evidenciar a desigualdade de gênero e promover os direitos das meninas. Para dar início a celebração da data, aconteceu ontem no CEU Capão Redondo, periferia de São Paulo, um encontro que reuniu 10 mulheres para contar suas histórias.

No Girl´s Talk, organizado pela Plan International (uma organização não-governamental, não-religiosa e apartidária que defende os direitos das crianças e jovens do mundo todo), elas mostraram que podem ser ou estar onde bem entendem.

10 mulheres, 10 histórias

Na música, na poesia, no Direito, na tecnologia. Ser mulher é mirar em seus objetivos e realizá-los - independentemente de sua cor, raça ou classe social. Mais do que isso: é perceber que, unidas, se vai mais longe. Sororidade é a palavra. Com base nessa premissa, todas as 10 mulheres engajadas que subiram ao palco emocionaram uma plateia cheia.

"Filho não segura homem e casamento não é aposentadoria".Eliane Dias(advogada, empresária e coordenadora do SOS Racismo) levou um discurso empoderado, forte e realista ao Girl´s Talk. A esposa do Mano Brown defende que a todas as mulheres devem ser independentes, assim como aquela que a inspirou quando era empregada doméstica: sua patroa. O mesmo sentimento fez com que Jéssica Moreira (jornalista cofundadora do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, vencedora dos prêmios de mídia negra Almerinda Farias Gama e Antonieta de Barros) unisse a família na busca pelo sonho de "ir para o estrangeiro", como seu pai dizia.

Divertida, Buh D´Angelo (Fundadora do InfoPreta, empresa que contrata somente mulheres negras), faz a seguinte pergunta: onde estão as mulheres na tecnologia? Na literatura, elas estão. Carolina Peixoto e Mel Duarte, são poetizas. Apesar de terem uma vivencia completamente diferente, juntaram suas forças no coletivo Poetas ambulantes e há cinco anos declamam sua arte por ônibus de São Paulo.

Carolina, Eliane e Gabi no Girl´s Talk. Foto: Cristiane Senna.Carolina, Eliane e Gabi no Girl´s Talk. Foto: Cristiane Senna.Alice Juliana (estudante de biologia e fundadora do grupo Juventude em Ação), Gabi Oliveira (criadora do canal DePretas no YouTube) e Maria Clara Araújo (estudante de pedagogia e ativista afrotransfeminista) buscaram em suas histórias de vida a coragem necessária para assumir seus papeis na sociedade. Alice, vinda de uma pequena cidade do Maranhão, engravidou ainda adolescente e focou em ajudar outras manas a explorarem e entenderem melhor seus corpos. Gabi reúne virtualmente mais de 100 mil pessoas em seu canal e visa fortalecer as próximas gerações de negras, que ainda sofrem com a falta de identificação na mídia. Já Maria Clara espera, com a ajuda de sua profissão, garantir que meninas trans não sofram como ela e possam ser quem sonham.

Um outro ponto tocado no Girl´s Talk foi o casamento de meninas, muito comum nas regiões mais pobres do país. Embasada na pesquisa pioneira no Brasil "Ela vai no meu barco", Viviana Santiago (gerente técnica de gênero na Plan Internacional Brasil e militante pelos direitos das meninas e da população negra) apontou dados sobre o matrimônio infantil. "O casamento é colocado de forma tão natural na vida dessas meninas... A gente não consegue perceber toda a violência desse processo", disse.

Em tempo: até a atração musical era emponderada. Anná, compositora da Moóca, com seu batuque, cantou a gordofobia. "Não é sobre ser gorda, é sobre o peso de se estar acima de um peso", dizia a canção.

***
Por Cristiane Senna na Marie Claire.

Ruth Escobar não era uma unanimidade. Chegava como um trator com seu sotaque português pronta para ousar, para brigar, para resistir, para contestar, para criar, para amar. 

O Teatro Ruth Escobar, onde ela foi velada, envolveu várias polêmicas. Foi construído em 1964 no espaço de um mirante no Bixiga - assim como o Masp. Inicialmente subterrâneo, ganhou andares e críticas numa reforma. E deixou de ser de Ruth numa venda mal explicada envolvendo dinheiro da Telefônica no governo FHC.

Ruth Escobar no espetáculo ‘O Balcão‘. Foto: Djalma Batista.Ruth Escobar no espetáculo ‘O Balcão‘. Foto: Djalma Batista.

Nem mesmo suas disputadas festas fugiam à polêmica. Nas casas de Ruth, a última no Pacaembu, políticos da moda, empresários ricos, intelectuais, jornalistas, gente de teatro e dança do mundo todo, outsiders e um lendário ponche com fama de batizado animavam as noites marcantes. Numa delas Ruth Escobar deu literalmente umas palmadas na jornalista Cristina Ramalho, da Folha de S.Paulo, responsável por uma notícia equivocada sobre ela. Em outras se cruzava com um futuro presidente da República, com Bob Wilson, com Kazuo Ohno, com Sábato Magaldi, com uma bailarina sem pontas, com todo o melhor elenco do teatro e do cinema brasileiros, ou com um diretor de teatro argentino envolto em peles do guarda-roupa de Ruth Escobar.

Jerzy Grotowski, Fernando Henrique Cardoso e Beatriz Segall na casa de Escobar em 1974. Foto: Vamir Santos.Jerzy Grotowski, Fernando Henrique Cardoso e Beatriz Segall na casa de Escobar em 1974. Foto: Vamir Santos.O século 21 não foi gentil com essa mulher que promoveu uma revolução no meio cultural paulistano no século anterior. 2001 foi ano da última produção de Ruth, o musical Os Lusíadas inspirado em Luis de Camões. Um ano antes os primeiros sinais de Alzheimer já tinham se manifestado. Foram 17 anos de uma agonia lenta e solitária dentro do casarão do Pacaembu. Em 2011 um desacerto entre seus filhos, de cinco casamentos, a expôs publicamente assim como a notícia de que todo seu acervo, seus arquivos e seu patrimônio se deterioravam por mal cuidados.

Ruth Escobar no camarim em 1972. Foto: Silvio Correa / Agência O Globo.Ruth Escobar no camarim em 1972. Foto: Silvio Correa / Agência O Globo.Ruth Escobar ficará registrada na história pelos oito Festivais Internacionais de Teatro e outros de Dança que promoveu e que fizeram São Paulo plateia para Bob Wilson, Andrei Serban, Jerzy Grotowski, o grupo el Galpón, Mabu Mines, os japoneses do Hamada Zenya Gejiko. Feitos na garra, conseguindo patrocínios no grito e absorvendo prejuízos gigantescos. Ruth tinha a capacidade de transitar com intimidade pelo poder e carregou a decepção de nunca ter recebido o convite para assumir a pasta da Cultura.

Será lembrada também por sua militância feminista, pela atuação política que a levou à prisão durante a ditadura e duas vezes à Assembléia paulista. Por sua intensa e fervilhante produção cultural que envolveu atuação, direção e produção, pela histórica invasão do CCC durante a encenação de Roda Viva em junho de 1968 e, pouco depois, pelas encenações fabulosas de Cemitério de Automóveis de Fernando Arrabal e de O Balcão, que Jean Genet considerou a melhor montagem entre todas de sua obra, ambas dirigidas pelo argentino Victor Garcia que Ruth trouxe para fazer os espetáculos e que junto com ela destruiu um teatro para criar um cenário formado por passarelas construídas num vão livre de 20 metros. Quem mais seria capaz disso tudo?

Ruth Escobar em ato público pela libertação dos presos politicos no final da década de 1970. Ao fundo entre outros: Bete Mendes, Dom Paulo Evaristo Arns e Geraldo Siqueira. Foto: Saldana Muijica.Ruth Escobar em ato público pela libertação dos presos politicos no final da década de 1970. Ao fundo entre outros: Bete Mendes, Dom Paulo Evaristo Arns e Geraldo Siqueira. Foto: Saldana Muijica.

Dina Sfat, o ator Raul Cortez e a atriz e deputada estadual Ruth Escobar em comício das Diretas Já em 1984. Foto: Renato dos Anjos / Folha Imagem.  Dina Sfat, o ator Raul Cortez e a atriz e deputada estadual Ruth Escobar em comício das Diretas Já em 1984. Foto: Renato dos Anjos / Folha Imagem. Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, Portugal, em 31 de março de 1935. Ruth Escobar morreu ontem (5) às 13h30, aos 82 anos, em São Paulo, Brasil.

***
Heloisa Araujo Moreira é jornalista com passagens pelos principais veículos da imprensa. Entre eles, Jornal da Tarde, Folha de São Paulo e Editora Abril. Texto escrito com exclusividade para o São Paulo São.