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Qual é a sensação de saber que este pode ser o seu último passo na areia de uma praia? Ou que este pode ser seu último passeio de bicicleta? Ou que esta talvez seja a última chance de andar de montanha russa?

Ricky Ribeiro conta cada uma dessas sensações, na auto-biografia Movido pela Mente, escrita em conjunto com Gisele Mirabai, a ser lançado na segunda, dia 4 de dezembro.

Pôr-do-sol no Guaiba. Foto: Ricky Ribeiro.Pôr-do-sol no Guaiba. Foto: Ricky Ribeiro.Diagnosticado com ELA – esclerose lateral amiotrófica, a mesma síndrome que tirou os movimentos do Stephen Hawkings, ele hoje se comunica com as pessoas através dos movimentos dos olhos.

Mas ele não se comunica apenas. Ele empreende, cria coisas novas, articula contatos e vive intensamente.

Mesmo com a doença num estágio avançado, ele criou um portal de mobilidade que fez pesquisas inovadoras sobre as cidades brasileiras e pautou políticas públicas, foi ao Itaquerão assistir a um jogo da Copa, começou um namoro, foi padrinho de crianças, manteve o quarto cheio de amigos, responde emails de pessoas por todo o Brasil e ainda voltou a trabalhar na consultoria que o empregava antes da doença.

É um livro sobre o convívio com o diagnóstico terrível da doença até agora incurável.

Mas também é um livro sobre mobilidade, pois o Ricky pré-doença viajou o mundo todo e encantou-se com a bicicleta, o andar a pé, os bondes e os metrôs.

Parque da Juventude. Foto: Ricky Ribeiro.Parque da Juventude. Foto: Ricky Ribeiro.

Também é um livro sobre a alma das cidades – o prazer de explorar Recife a pé, a sensação inebriante das ruas de Barcelona e a satisfação de ver as ciclovias mudando  São Paulo.

Também é um livro sobre empreendedorismo, pois Ricky é um realizador nato. Mesmo amarrado à cama, criou o portal Mobilize, arregimentando centenas de voluntários no Brasil e ainda criou um sistema de linguagem visual que tem sido usado por outros pacientes pelo Brasil.

Mas o livro é, sobretudo, sobre o amor à vida e à busca pelo sentido.

Na primeira parte, vemos o jovem incansável, que trabalha, viaja, namora, toca violão e faz amigos.

A segunda parte mostra Ricky após receber o diagnóstico de ELA, que lhe daria uma expectativa de vida de no máximo cinco anos.

Quando se confrontam com uma notícia tão devastadora quanto uma doença terminal, as pessoas passam por várias fases, descritas pela psiquiatra suíça Katherin Kübler-Ross em sua obra essencial Sobre a morte o morrer: o choque, a negação, a raiva, a negociação, a depressão até a aceitação da doença.

Ricky Ribeiro passou logo por todas essas fases, mas chegou rapidamente à conclusão de que iria buscar ser feliz no tempo que lhe restasse, aceitando o conselho de um médico: “não sofra por antecipação”.

A partir daí, acompanhamos sua busca de adaptar-se à doença, ao mesmo tempo em que corre para fazer a última viagem, encontrar pessoas, fotografar as pessoas em suas cidades, encontrar os incontáveis amigos que fez em suas andanças, até instalar-se de vez na casa dos pais.

A essas alturas, o livro já nos levou para perto do paciente e vamos acompanhando-o enquanto ele encara cada um dos desafios que a doença traz.

Movido pela Mente é um relato da trajetória do jovem que decidiu construir o Mobilize Brasil durante sua luta para manter-se vivo e ativo. Foto: Mobilize Brasil. Movido pela Mente é um relato da trajetória do jovem que decidiu construir o Mobilize Brasil durante sua luta para manter-se vivo e ativo. Foto: Mobilize Brasil. Vemos quando ele se conforta com o tratamento de João de Deus em Abadiânia, em Goiás. Torcemos pelo seu transplante de células tronco na Alemanha. Perdemos um pouco o ar quando ele é obrigado a fazer a traqueostomia para não sufocar e respiramos felizes quando ele consegue dar um passeio numa nova cadeira de rodas na avenida Paulista aberta para os pedestres num domingo, ao lado de amigos e da família.

Talvez a paixão pela mobilidade essa seja a coisa mais surpreendente no livro, a decisão de ajudar as pessoas a se moverem pelas cidades, mesmo estando aprisionado na cama, ou como ele diz: “uma mente móvel em um corpo imóvel”.

A metáfora da prisão aparece algumas vezes no livro, quando ele lembra de Nelson Mandela, saindo da sua cela após quase trinta anos. Outras grandes sagas de prisioneiros vêm à mente. Enquanto o conde de Monte Cristo planejava a sua vingança na cela, Papillon mergulhava em suas memórias e passava a tarde recriando as suas experiências mais banais, como um passeio em Pigalle com sua irmã.

Caminhando sobre os trilhos. Foto: Ricky Ribeiro.Caminhando sobre os trilhos. Foto: Ricky Ribeiro.

A vida de Ricky Ribeiro parece fortemente alicerçado no passado – seus muitos amigos, sua família enorme, suas viagens e suas realizações, mas tem um foco claro no futuro.

É dessa combinação que emerge sua força, tanto para superar a expectativa de vida dada no início da doença como para realizar coisas que desafiariam qualquer um de nós.

O livro Movido pela mente, no fundo no fundo, é uma inspiração para a vida, ao acompanhar a longa saga desde a infância até seus 38 anos desse rapaz que destrói preconceitos, encara com criatividade seus percalços e que parece acima de tudo, querer amar a vida em qualquer circunstância.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.

Os sonhos, pensamentos e desenhos de 22 crianças refugiadas no Brasil agora viraram livro. Entre as autoras está a síria Shahad Al Saiddaoud, de 12 anos. "A paz começa com um sorriso no rosto. Quero meu país, a Síria, feliz, sem guerras", deseja ela. Suas irmãs Yasmin, 7, e Razan, 5, também participam da coleção, mas com desenhos que ilustram a alegria de estar no Brasil, longe da guerra civil que devasta a Síria há seis anos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), 5 milhões de sírios deixaram sua terra natal.

Refugiadas junto com seus pais no Brasil, Shahad, Yasmin e Razan e também outras 19 crianças, de 5 a 13 anos, puseram seus sonhos no papel e a partir de agora compartilham suas histórias e emoções na primeira coleção de livros infantis escritos por crianças refugiadas lançada no país.

“No livro falo sobre meu sonho, sobre a Síria, sobre meus parentes, eu queria todo mundo feliz na Síria, não queria guerra. Esse é meu sonho, queria todo mundo em paz”, emociona-se Shahad, que está há pouco mais de um ano no Brasil. Já as irmãs falam pouco o português ainda, mas afirmam que gostaram de participar da coleção. Já Shahad, quer escrever outro livro. “Quero fazer uma ficção agora”, adianta.

O projeto é resultado da parceria da AlphaGraphics, empresa de impressão digital, com o Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus) e a Estante Mágica, que atua com projetos editoriais pedagógicos voltados a crianças. “Virou mais do que um projeto, virou um sonho", conta um dos idealizadores da coleção de livros, Rodrigo Abreu, conselheiro do Adus e CEO da AlphaGraphics Brasil.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Ele conta que a ideia surgiu depois que ele se tornou conselheiro do instituto e quis unir os dois projetos. "Pedimos para que as crianças nos contassem os seus sonhos e o resultado foi incrível, mostrando que o que falta para elas é uma simples oportunidade", completa Abreu.

A AlphaGraphics foi a responsável pela impressão dos livros e a seleção das crianças ficou por conta do Adus. "Desde 2010, temos como missão no Adus atuar em parceria com refugiados e pessoas em situação análoga ao refúgio para sua reintegração à sociedade. Buscamos a valorização e inserção socioeconômica, cultural para que se reconheçam e exerçam a cidadania novamente", explica Marcelo Haydu, diretor executivo da instituição.

Dois educadores da Estante Mágica prepararam o ambiente, conversaram com os pequenos autores, ouvindo as histórias e trajetórias de cada um. Imersos num mundo da imaginação e criatividade, cada uma das crianças se permitiu pensar nos seus maiores sonhos e então colocaram no papel todas as suas fantasias e expectativas.

Segundo Abreu, nesta primeira etapa os livros não serão vendidos. “A primeira edição foi para as famílias das crianças, para o Adus, e a imprensa, e agora vamos entregar para escolas e bibliotecas”. Futuramente, as vendas serão revertidas às famílias das crianças e a projetos que apoiam refugiados no Brasil. Para o idealizador, o projeto ainda não terminou. “Vamos dar oportunidade para novas crianças e as que participaram poderão fazer novas edições”.

Os sonhos das jovens autoras vão longe - de princesas a astronautas. No fértil imaginário infantil, bosques, arco-íris, helicópteros, Chapeuzinho Vermelho e a paz são alguns dos personagens e referências que dão vida às histórias e ilustrações de seus primeiros livros, agora eternizados. Acima de tudo, os pequenos sobreviventes compartilham suas histórias de resiliência e esperança.

"Meu nome é Bader Munir Bader. Tenho 5 anos. Gosto do sol. Dos pássaros. E das cores bonitas", escreve Bader, 5 anos, nascido na Arábia Saudita. Na história, ele conta que adora futebol, pular e sua cor preferida é verde-claro."As pessoas não têm coração para fazer o bem para outras pessoas", conta a síria Hebra, fã de história, geografia, artes e educação física.

Crianças refugiadas

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), mais de 9 mil refugiados de 82 nacionalidades vivem no Brasil, principalmente vindos da Síria, Angola, Colômbia, República Democrática do Congo e Palestina. Do total acumulado de refugiados entre 2010 e 2015 (4.456), 599 eram crianças entre 0 e 12 anos, compondo 13,2% da população refugiada no país.

Para a legislação brasileira, a criança refugiada é aquela que foi obrigada a deixar seu país devido a um temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social, opiniões políticas de seus familiares, conflitos armados, violência e violação generalizada de direitos humanos.

No mundo todo, 91% das crianças estão matriculadas na escola primária, enquanto que entre as crianças refugiadas esse índice é de apenas 61%, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

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Por Ludmilla Souza da Agência Brasil.

Colombiana Maria Clara trocou conforto e estabilidade financeira por quitinete no Brasil para fugir das Farc; Lara Lopes deixou apartamento e carro em Moçambique por ser discriminada por sua orientação sexual; em São Paulo, elas enfrentaram barreiras por serem refugiadas, mas não se arrependem da mudança.

Há pouco mais de três anos, Maria Clara Guzmán vivia em um apartamento amplo, com dois quartos, em Ciudad de Pasto, na Colômbia (840 km de Bogotá), junto com suas duas filhas pequenas e o marido Cristiano - que acabava passando pouco tempo com elas por trabalhar em outra cidade. Ainda assim, eles tinham uma vida bastante confortável, jantavam fora com frequência e não enfrentavam qualquer dificuldade financeira.

Hoje, ela e a família se apertam em uma quitinete no Brás (centro-leste de São Paulo) e dividem uma única cama. O conforto diminuiu, é verdade, mas, diante do que passaram desde 2014, Maria Clara e Cristiano dizem que hoje estão "tranquilos e felizes".

"O Brasil nos trouxe a paz e a estabilidade emocional que nos faltavam na Colômbia. Aqui somos mais unidos, mais felizes. É um país de oportunidades, com pessoas muito boas", afirma Maria Clara à BBC Brasil.

A família chegou a São Paulo em dezembro de 2014 após três meses de perambulação entre Colômbia, Venezuela e Brasil na busca por um lugar seguro longe das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) - eles haviam sido sequestrados pelo grupo naquele ano e conseguiram o status de refugiados em terras brasileiras depois de uma longa jornada.

A história de Lara Lopes é, em certo grau, similar à da família Guzmán. Aos 33 anos, ela é formada em Administração de Sistemas e morava em Maputo, capital de Moçambique, com a namorada. O "problema" começava aí.

Lara se diz muito mais feliz aqui: "Brasil me devolveu dignidade e me fortaleceu" Foto: BBCBrasil.Lara se diz muito mais feliz aqui: "Brasil me devolveu dignidade e me fortaleceu" Foto: BBCBrasil.No país africano, a homossexualidade ainda é um enorme tabu. A discriminação a impedia de conseguir trabalho. Depois de uma tentativa de suicídio da parceira, Lara decidiu, então, buscar um lugar onde pudesse "ser quem era".

A inspiração pelo Brasil veio das novelas, que faziam muito sucesso em Moçambique e, recentemente, vinham abordando as questões LGBT.

Foi assim que, em 2013, ela desembarcou em São Paulo. Trocou o conforto que tinha em Maputo pelas incertezas da vida de refugiada na capital paulista: passou fome, dormiu em igreja, limpou banheiros, e até hoje enfrenta algumas dificuldades. Mas não se arrepende da mudança.

"O Brasil me fortaleceu, me deixou ser Lara. Resgatou a dignidade que eu tava perdendo. Sou muito grata ao Brasil por poder falar sem medo: eu sou homossexual", diz à BBC Brasil.

Atualmente, existem 9.552 refugiados regularizados no Brasil - nos últimos cinco anos, segundo dados do Ministério da Justiça, foram mais de 89 mil solicitações de refúgio. O processo é burocrático, longo e criterioso, então poucos efetivamente conseguem, como foi o caso de Lara e da família de Maria Clara.

Não há dados oficiais sobre quantos refugiados conseguem trabalho no país, mas a dificuldade em se empregar é uma das principais queixas deles.

Um programa da ONU chamado "Empoderando Refugiadas" conseguiu obter trabalho para 21 das 81 mulheres participantes até o momento.

A maior dificuldade, segundo a entidade, é o idioma, seguida pela validação do diploma dos refugiados e, por último, a resistência das próprias empresas em empregar os estrangeiros.

Sequesto e fuga

A quitinete onde Maria Clara mora hoje com o marido e as filhas é bem simples - esquenta bastante no verão e falta espaço para tudo, até para as filhas brincarem. Mas a colombiana se sente "no paraíso" agora.

Cristiano e Maria Clara tinham uma vida confortável e estabilidade financeira na Colômbia Foto: BBCBrasil.Cristiano e Maria Clara tinham uma vida confortável e estabilidade financeira na Colômbia Foto: BBCBrasil.Há três anos, ela se viu sob a mira de guerrilheiros junto com Valentina, com 2 anos e meio na época, e Rafaela, que tinha apenas alguns dias de vida. Cristiano, seu marido, trabalhava em uma exportadora de madeira e foi pego pelas Farc quando voltava de uma entrega. Ele passou semanas amarrado, em cativeiro, sem contato com a família.

Membros do grupo foram, então, até o apartamento onde estavam Maria Clara e as meninas e lá se mantiveram por quase um mês, exigindo um resgate de US$ 500 mil pelo marido.

"As meninas choravam muito. A Rafaela tinha apenas dez dias de vida, precisava de atenção", relembra Maria Clara.

Cristiano foi eventualmente solto e, durante a ação policial, um líder guerrilheiro acabou morto. Isso despertou temores de uma retaliação contra a família Guzmán.

"A polícia disse que não podia me dar segurança. Só me deram um colete à prova de balas e um celular. Então pedi para sair do país. Aí me mandaram para a Venezuela", relata Cristiano.

A estadia no país vizinho foi marcada por mais dificuldades: desde a demora para obter refúgio, o que os impedia de obter trabalho, até uma piora na qualidade de vida.

"A gente morava num quarto de hotel, quente, pequeno. Valentina pegou chikungunya, ficou no hospital. Nós quatro tivemos anemia. Foi um período difícil. Eu tenho uma doença (lúpus) e precisava de remédio, mas não encontrava", diz a colombiana.

Quando a família soube que guerrilheiros das Farc ainda estavam em seu encalço, decidiu que era hora de fazer as malas novamente. "Deixamos tudo, só pegamos uma mala e documentos".

Ficaram um mês em Caracas até conseguir ajuda da organização Cáritas para viajar ao Brasil. Passaram por Boa Vista e Manaus até conseguirem embarcar para São Paulo.

Na quitinete onde vivem hoje, Maria Clara, Cristiano, Valentina e Rafaela dormem juntos Foto: BBCBrasil.Na quitinete onde vivem hoje, Maria Clara, Cristiano, Valentina e Rafaela dormem juntos Foto: BBCBrasil.

Na capital paulista, mesmo regularizados como refugiados, nenhum dos dois conseguia emprego, o que os forçou a morar em albergues - Cristiano tinha que dormir no quarto masculino, enquanto a mulher e as meninas ficavam no feminino. Depois, mudaram-se para um casa de acolhida para estrangeiros onde moravam todos em um quarto minúsculo e, finalmente, quando Maria Clara conseguiu um trabalho, alugaram a quitinete no Brás.

Agora, sentem-se seguros. "É uma coisa muito forte sentir que chegamos a uma terra onde a gente sentia que ia poder ficar em segurança", afirma a colombiana.

"Somos pessoas normais agora. O conflito interno no nosso país nos machucou muito. Passamos por momentos difíceis, mas emocionalmente estamos muito melhores."

Preconceito e quase suicídio

Enquanto isso, a moçambicana Lara evitava contar às pessoas no Brasil o real motivo de ter deixado seu país natal. "Eu dizia que tinha vindo por causa da guerra".

Mas a verdade é que ela já não aguentava mais viver num país onde era vista como "abominação" e "obra do diabo".

No Brasil, Lara passou a falar sobre sua orientação sexual e agora quer ser ativista da causa LGBT Foto: BBCBrasil.No Brasil, Lara passou a falar sobre sua orientação sexual e agora quer ser ativista da causa LGBT Foto: BBCBrasil."Você não consegue um emprego (em Moçambique), mesmo que tenha faculdade. Muitos dos homossexuais que conheço trabalham por conta própria, ou trabalham com alguém que luta pela causa. Outras fingem que não são (gays)", diz Lara.

"Eu ia a lugares, e as pessoas comentavam. Mesmo que tentasse ser forte e ignorar tudo isso, chegava em casa e desabava em lágrimas."

Por muito tempo, Lara se trancou em casa sem fazer nada. Católica fervorosa, chegou a pedir a Deus que lhe tirasse a vida se ela realmente fosse "tudo aquilo que as pessoas falavam". O alento sentido ao iniciar um relacionamento com a namorada Myra foi abalado por uma ação policial.

"Nos levaram para a delegacia porque a Myra estava dirigindo sem carteira de motorista. Normalmente, eles só aplicariam uma multa, mas quiseram nos levar. Colocaram ela numa cela, e o próprio delegado a assediou. Ele disse que ela tinha que me deixar porque ele poderia lhe dar coisas melhores. Um agente da lei! Aí você começa a pensar: se um agente da lei faz isso, o que um civil pode fazer?"

Assim, Lara optou por tentar a vida no exterior.

"Se eu continuasse em Moçambique, ia chegar num ponto em que me suicidaria. Eu já pensava em suicídio, a Myra chegou a tentar (se matar). Eu ia esperar que algo acontecesse?"

"Aprendi uma coisa: não vou mais ser submetida a esse tipo de coisa. Fiz isso a vida toda. Deixei que as pessoas fizessem de mim o que elas quisessem. Aqui (no Brasil) encontrei espaço para ser eu mesma, sem tabu, sem nada. Hoje sou uma pessoa mais alegre."

Estigma de 'refugiado'

Lara chegou ao Brasil em 2013, e Maria Clara veio no fim de 2014. As duas hoje vivem situação financeira muito mais difícil do que a que tinham em seus países, mas isso não as incomoda. O problema ao longo desses anos foi carregar o estigma de "refugiadas".

Hoje, Lara trabalha para ajudar outros refugiados a conseguirem emprego (Foto: Divulgação Projeto "Estou Refugiado") Foto: BBCBrasil.Hoje, Lara trabalha para ajudar outros refugiados a conseguirem emprego (Foto: Divulgação Projeto "Estou Refugiado") Foto: BBCBrasil."A palavra 'refugiada' no Brasil tem um peso muito forte, dificulta tudo. Há algumas vagas (disponíveis) de garçom, de camareira, de empregada doméstica. Mas vagas mais qualificadas nunca aparecem para os refugiados. E, olha, te garanto que a maioria deles tem faculdade, mestrado até", argumenta Lara.

Pela dificuldade em validar seu diploma no Brasil, o primeiro emprego da moçambicana foi como camareira em um hotel em São Paulo. Lá, ela conta que, diferentemente do seu país de origem, não sofreu preconceito por ser homossexual - mas sim por ser refugiada e negra.

"Tudo que era trabalho braçal era dado para nós, refugiadas", conta.

"Se um hóspede suja o apartamento, por que tem que chamar a Lara para limpar? A pessoa tinha sujado a parede com bosta e tudo. Por que só nós refugiadas éramos chamadas para essas tarefas? Por que quando some alguma coisa, eles só chamavam nós refugiadas para perguntar?"

Maria Clara e Cristiano tiveram as mesmas dificuldades para conseguir emprego. "Já tentei todos os tipos de vaga. Não sei como romper esse tabu, porque nós só queremos emprego", afirma Cristiano, que é especializado em Comércio Exterior e fala quatro línguas (inglês, alemão, espanhol e português).

Programa "Empoderando Refugiadas" da ONU virou um minidocumentário contando histórias de algumas mulheres que participaram do projeto. Foto: Fellipe Abreu / Empoderando Refugiadas.Programa "Empoderando Refugiadas" da ONU virou um minidocumentário contando histórias de algumas mulheres que participaram do projeto. Foto: Fellipe Abreu / Empoderando Refugiadas."Se para mim, que sou branco, tem problema, imagina para as pessoas negras."

Hoje, ele dá aulas particulares de inglês e espanhol e fica em casa cuidando das crianças, enquanto Maria Clara trabalha em uma agência de viagens. Ela conseguiu um emprego em março, depois de anos enviando currículos.

"Eu enviava o currículo e ninguém me ligava. Tentei emprego de camareira, mas pediam experiência. Nós estamos começando uma nova vida do zero, então não temos como ter experiencia nessas áreas", conta a colombiana.

Lara e Myra, que hoje é sua esposa - as duas se casaram no Brasil. Foto: Fellipe Abreu, Empoderando Refugiadas.Lara e Myra, que hoje é sua esposa - as duas se casaram no Brasil. Foto: Fellipe Abreu, Empoderando Refugiadas.Lara e Maria Clara contaram com a ajuda do programa de empoderamento de refugiadas da ONU. Maria Clara trabalha fazendo a comunicação entre clientes que falam espanhol e operadores de turismo, e Lara trabalha no projeto "Estou Refugiado", revisando currículos e auxiliando outros refugiados a conseguirem entrar no mercado. Sua namorada Myra também veio ao Brasil, e as duas hoje são casadas.

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Por Renata Mendonça da BBC Brasil em São Paulo.

Protecção, conforto e prazer. É isto que arquitectos e urbanistas devem ter na cabeça quando planeiam o espaço público das cidades: protecção, conforto e prazer para as pessoas, não para os carros. O arquitecto dinamarquês Jan Gehl anda a defender estas ideias há mais de quarenta anos, mas só na última década as começou a ver implementadas no terreno com mais constância, um pouco por todo o mundo.

Debaixo desses três grandes chapéus, Gehl definiu doze critérios para o bom espaço público “que têm o corpo humano como ponto de partida”, explica o arquitecto de 81 anos. Esta semana, 46 anos depois de ter lançado o livro A Vida entre Edifícios, no qual apresentou estes conceitos pela primeira vez, Jan Gehl está em Lisboa para lançar a versão portuguesa da obra, promovida pela editora Tigre de Papel, pela Cicloficina dos Anjos e pelo ISCTE.

Então como agora, o humano está no centro da sua teoria, que pretende ser global. “Somos todos animais caminhantes, temos todos a mesma história biológica, os mesmos comportamentos básicos e os mesmos sentidos”, diz.

Os doze critérios, adoptados como mandamentos de muito urbanismo contemporâneo, são a protecção contra o tráfego automóvel e acidentes, contra o crime e contra experiências sensoriais desagradáveis (ventanias, chuvadas, poluição, entre outras). Da lista constam também, debaixo do chapéu do conforto, as possibilidades de andar, ficar, sentar, ver, conversar, brincar. E, por fim e de forma a garantir prazer no espaço público, ele deve ser construído à escala humana e com qualidade estética, permitindo igualmente desfrutar dos “aspectos positivos do clima” – o sol, as sombras, o calor, a frescura. A partir desta checklist mais ou menos indispensável, o que vier por acrescento é uma vantagem, defende Gehl. “A cultura local, a topografia, o clima e a história podem e devem acrescentar outras dimensões”, explica o arquitecto.

No livro, Gehl desenha uma cronologia da evolução das cidades desde a Idade Média para explicar como, chegados ao princípio do século XX, os arquitectos optaram, quase por obrigação, por uma nova forma de planeamento urbano. “A história do modernismo como ideologia arquitectónica remonta aos anos 1920 e foi uma tentativa de garantir condições de vida melhores e mais saudáveis para os trabalhadores, por oposição às zonas de barracas sobrelotadas do início do século”, explica. Com esse propósito sanitário em mente nasceram os prédios altos em bairros exclusivamente residenciais. “Não foi sequer considerado que o desenho de edifícios pudesse influenciar actividades recreativas, padrões de contacto e possibilidades de encontro”, argumenta Gehl.
"Nos últimos 50 anos, os arquitetos esqueceram o que é uma boa escala para o ser humano". Foto: City Manager Magazine."Nos últimos 50 anos, os arquitetos esqueceram o que é uma boa escala para o ser humano". Foto: City Manager Magazine.

Apesar da “boa intenção” inicial, o modernismo “degenerou depois de 1960 numa produção de edifícios em massa, tecnocrática e com pouca preocupação pelas pessoas e pela vida”, diz o arquitecto, identificando Dubai como um exemplo de “modernismo decadente tardio”.

Por oposição a este urbanismo que tornava irremediável o recurso ao carro, Jan Gehl propõe a tal vida entre edifícios. O que é, afinal? “Não é meramente o tráfego pedonal ou as actividades recreativas ou sociais. A vida entre edifícios compreende todo o espectro de actividades que se combinam para tornar os espaços comunais nas cidades e nas áreas residenciais atraentes e significativos”, lê-se no livro.

“As cidades antigas foram feitas para que este homo sapiens se sentisse confortável.“ Foto: City Manager Magazine.“As cidades antigas foram feitas para que este homo sapiens se sentisse confortável.“ Foto: City Manager Magazine.

Em 2015, Jan Gehl esteve em Lisboa e deu uma conferência na câmara municipal, que elogia pelas obras que tem promovido na frente ribeirinha – são “boas e úteis”. A capital portuguesa é uma das cidades em que identifica a presença de uma “importante mudança nos paradigmas de planeamento urbano”, que começou por volta do ano 2000 e que teve como causa e efeito que “cidadãos e políticos exijam cada vez mais cidades saudáveis, sustentáveis e habitáveis”.

Mas isso não chegou às escolas de arquitectura, de um modo geral. “A maioria das escolas ainda ensina que: se tem bom aspecto, também será bom. Isto não é mesmo verdade. Há incontáveis locais no mundo que ganharam grandes prémios de arquitectura, mas que não funcionam para as pessoas”, comenta Gehl. E esse é o ponto: "Cidades amigas das pessoas devem ser um direito humano básico". 

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Por João Pincha no PÚBLICO.

Uma parceria entre a chef de cozinha Paola Carosella, seu sócio Benny Goldeberg, o Ministério Público do Trabalho em São Paulo (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) vai oferecer capacitação profissional de travestis e homens e mulheres transsexuais em situação de vulnerabilidade.

A iniciativa que formará ajudantes de cozinha foi anunciada na última sexta-feira (10) em evento que reuniu representantes de empresas interessadas em ampliar a diversidade de seu quadro de funcionários, tais como Facebook, Univeler e Bradesco.

A primeira turma será composta por 25 homens e mulheres trans que participam do Transcidadania, projeto da prefeitura de São Paulo que acolhe pessoas trans em situação de vulnerabilidade.

O projeto é o início de outras iniciativas pensadas pelos organizadores. O logotipo, a identidade e o nome serão escolhidos pela chef Paola e sua primeira turma durante o curso.

De acordo com levantamento feito pela Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das travestis e transexuais brasileiras se sustentam hoje por meio da prostituição.

É no mercado informal do sexo que travestis e transexuais passam a trabalhar assim que são expulsas de casas, geralmente aos 12 ou 13 anos, por conta de sua identidade de gênero. Nesse cenário, o projeto em São Paulo tenta estimular a empregabilidade dessa população.

Ao todo, a capacitação terá nove módulos, chamados de sessões de acolhimento. Por meio desses módulos, os alunos vão aprender a realizar tarefas básicas de uma cozinha de restaurante - incluindo o controle de resíduos, estocagem de alimentos e preparo de pratos básicos.

Instruções sobre questões técnicas e burocráticas de uma cozinha profissional também estão previstas no curso. De acordo com a jurada do MasterChef Brasil, as alunas vão aprender também vão aprender "o que é uma jornada de trabalho, o que se considera hora extra, como se lê um holerite".

Paola disse no evento que mais do que ministrar as aulas, ela quer fazer com que as pessoas sintam-se acolhidas e que possam ter ferramentas e oportunidades para crescer profissionalmente. Ao final do curso, Paola empregará os cinco melhores cozinheiros em seus restaurantes

Além das aulas com a chef argentina, os alunos vão contar também com workshops ministrados pela poeta e atriz Elisa Lucinda.

Salomão Cunha Lima, fundador do GAMES, grupo que discute diversidade e inclusão no mercado, esteve presente no evento e afirma: "Esse tipo de iniciativa precisa ser fortalecida com apoio das empresas e da mídia e servir de inspiração para outros setores da economia. Precisamos pensar em qualificação profissional para trans. Essas pessoas precisam ser inseridas na sociedade a partir do mercado de trabalho."

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Por Amaury Terto do Huffpost Brasil.

Um fotógrafo ganhou mais de um milhão de fãs no Facebook depois de compartilhar fotos de pessoas apaixonadas de beijando em todo o mundo. Ignacio Lehmann, argentino de 32 anos, viajou pelo mundo nos últimos três anos, capturando estranhos enquanto eles beijavam seus parceiros - ou enviavam para os parentes imagens ternas - em configurações exóticas. A série, chamada 100 World Kisses, fez Ignacio visitar 12 países em quatro continentes diferentes.

Um casal realiza acrobacias enquanto se beija em Nova York. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal realiza acrobacias enquanto se beija em Nova York. Foto: Ignacio Lehmann.

O fotógrafo, que fez seu primeiro clique em Nova York, diz que o projeto ocorreu enquanto ele estava passando por algumas dificuldades pessoais: "Era um projeto sem planejamento. Foi um momento difícil na minha vida e tirar essas fotografias me ajudou a me sentir melhor“.

O trabalho foi criado para exibir amor em todo o mundo, independentemente da preferência sexual das pessoas, cor da pele, crenças religiosas ou origem cultural.

Um casal em Roma compartilha um beijo apaixonado. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal em Roma compartilha um beijo apaixonado. Foto: Ignacio Lehmann.

Apesar das barreiras linguísticas, Ignacio conseguiu convencer com sucesso pessoas suficientes para produzir mais de mil fotos para o projeto. A série até criou um novo romance quando Ignacio confundiu duas pessoas como sendo um casal. Ele disse: "Lembro-me quando vi um casal do outro lado da rua. Esperei com a minha câmera para eles se beijarem uns aos outros, mas o tempo passou e o beijo não veio. Então, atravessei a rua para falar sobre o meu projeto. "Eles ficaram surpresos porque não namoravam, eram colegas de trabalho. "Devo pedir desculpas ou pedir um beijo?", Perguntei. "Eles olharam nos olhos uns dos outros e eles começaram a se beijar sem parar. O primeiro beijo de suas vidas em uma pausa do trabalho. Eles me escrevem todos os anos para lembrar aquele incrível momento que ainda os mantém juntos.

“O casal que estava atravessando meu caminho, não houve uma produção especial. Apenas eu, minha câmera e minhas anotações“. Foto: Ignacio Lehmann.“O casal que estava atravessando meu caminho, não houve uma produção especial. Apenas eu, minha câmera e minhas anotações“. Foto: Ignacio Lehmann.

O projeto também passou a incluir momentos de ternura entre os pais e seus filhos. Ignacio agora planeja transformar a série em um livro, fazendo-o escolher cuidadosamente entre centenas de beijos de casais. "Depois de viajar pela Europa, América e Ásia, minha coleção inclui mais de mil fotografias de beijos de rua com histórias e experiências de pessoas comuns de Nova York, Londres, Paris, Hiroshima, Berlim, Barcelona, ​​Tóquio, México, Amsterdã, Veneza, Florença, Bogotá, Cartagena, Buenos Aires, Lima e muito mais, tanto de cenas urbanas como rurais.

Garotinho dá um beijo na bochecha de seu pai na Cidade do México. Foto: Ignacio Lehmann.Garotinho dá um beijo na bochecha de seu pai na Cidade do México. Foto: Ignacio Lehmann."Todos eram pessoas aleatórias que eu encontrava enquanto caminhava com minha câmera. São pessoas que transmitem boa energia e me inspiraram a fotografá-las."A reação das pessoas ao projeto foi realmente emocionante. A página do Facebook chegou a mais de um milhão de seguidores. Ignacio já lançou uma campanha do Kickstarter para financiar o livro, que incluirá suas fotografias, juntamente com as experiências de pessoas normais.

Veja mais fotos do lindo ensaio abaixo! 
Jovem casal se beijando nas montanhas de Machu Pichu no Peru. Foto: Ignacio Lehmann.Jovem casal se beijando nas montanhas de Machu Pichu no Peru. Foto: Ignacio Lehmann.Namorados compartilham um beijo íntimo em Cartagena, Colômbia. Foto: Ignacio LehmannNamorados compartilham um beijo íntimo em Cartagena, Colômbia. Foto: Ignacio LehmannUm casal particularmente apaixonado em Veneza, Itália, se beija no chão, mesmo debaixo de chuva. Foto: Ignacio Lehmann.  Um casal particularmente apaixonado em Veneza, Itália, se beija no chão, mesmo debaixo de chuva. Foto: Ignacio Lehmann. Em parque de Londres, casal do mesmo sexo, faz pausa em seu passeio de bike para um beijo. Foto: Ignacio Lehmann.Em parque de Londres, casal do mesmo sexo, faz pausa em seu passeio de bike para um beijo. Foto: Ignacio Lehmann.Um garotinho em Kyoto no Japão, se inclina para dar um beijo na bochecha de sua irmã mais nova. Foto: Ignacio Lehmann.Um garotinho em Kyoto no Japão, se inclina para dar um beijo na bochecha de sua irmã mais nova. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal particularmente apaixonado se beija no chão, debaixo de chuva em Veneza, Itália. Foto: Ignacio Lehmann. Um casal particularmente apaixonado se beija no chão, debaixo de chuva em Veneza, Itália. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal se abraça enquanto se beija em as rua lotada de Bogotá, Colômbia. Foto: Ignacio Lehmann. Um casal se abraça enquanto se beija em as rua lotada de Bogotá, Colômbia. Foto: Ignacio Lehmann.

Um casal idoso compartilha um beijo suave e terno enquanto visita Hiroshima no Japão. Foto: Ignacio Lehmann.Um casal idoso compartilha um beijo suave e terno enquanto visita Hiroshima no Japão. Foto: Ignacio Lehmann.

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Por Martha Cliff no Daily Mail On Line (Inglês).