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Há nove anos, o Trip Transformadores celebra o trabalho de pessoas que, por todo Brasil, mostram que o jeito mais eficiente de tornar o mundo um lugar melhor para se viver é traduzindo suas paixões em atitudes práticas e a serviço do bem comum. São médicos, agricultores, líderes espirituais, cozinheiros, artistas, esportistas, banqueiros, ex-moradores de rua, empreendedores. Um coletivo de gente diversa que já entendeu que descobrir o seu talento e colocá-lo a serviço de algo maior vale à pena. 

Mais do que uma premiação, o Trip Transformadores é um movimento que vem ganhando força. Nossos quase 100 homenageados são exemplos de gente apaixonada pelo que faz e que, por alinhar propósito e trabalho, vem garantindo mais igualdade e equilíbrio para a sociedade – além de satisfação em suas trajetórias pessoais. De projetos filantrópicos a negócios sociais, o intuito de reunir tantos bons exemplos é inspirar cada um de nós a empreender a própria felicidade. A apostar naquilo em que acreditamos, a eleger uma ou mais causas para serem nossas escolhas profissionais e de vida. Porque, chavões à parte, toda transformação genuína começa de dentro para fora.

 

OsGemeos

Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo trabalham juntos desde crianças. Conhecida internacionalmente como OsGemeos, a dupla explora a rua como lugar de estudo, intervenção e arte. Os artistas têm obras individuais e coletivas em mais de dez países e seguem usando o improviso para resgatar a atenção por espaços abandonados, mal cuidados ou esquecidos. A primeira obra permanente da dupla está desde janeiro nos jardins do Museu Casa do Pontal, no Rio: uma espécie de bunker que serve de manifesto contra a especulação imobiliária desenfreada e sem planejamento. As construções ao redor do terreno vêm causando problemas em sua estrutura e pondo em risco o acervo do museu, tido como o maior em arte popular brasileira. Para os irmãos Pandolfo, a ocupação criativa é um caminho para ressignificar a cidade.

Ozires Silva

“Os próximos 30 anos da minha vida serão dedicados a melhorar a educação do Brasil”. É o que diz Ozires Silva do alto de seus 84 anos de idade e de uma trajetória que se cruza com a história do desenvolvimento do país. Engenheiro Aeronáutico, foi o fundador e o primeiro presidente da Embraer. Presidiu a Petrobras, a Varig e dirigiu o Ministério da Infraestrutura no início dos anos 90. Aos 72 anos, criou a Pele Nova Biotecnologia, primeiro fruto da Academia Brasileira de Estudos Avançados, empresa focada em produção de tecnologias para saúde humana. Desde 2008, é reitor do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos (SP), e oferece o prêmio Ozires Silva de Empreendedorismo Sustentável para os melhores projetos nas áreas de empreendedorismo e sustentabilidade.

Katiele Fischer 

Se uma substância ilegal é vital para manter a saúde de um filho, é preciso romper tabus. Katiele Fischer rompeu, em nível nacional, o tabu da comercialização do canabidiol (CBD), substância derivada de maconha, para uso medicinal. A necessidade da filha, portadora da síndrome CDKL5, problema genético que causa epilepsia grave e sem cura, a levou a ser a primeira brasileira a conseguir na justiça o uso do remédio – uma luta dela e de outras mães, retratada no documentário Ilegal, de 2014. O caso reacendeu a discussão para a liberação do uso da maconha medicinal e fez com que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberasse o CBD sob recomendação médica.

Caio Guimarães

Desde pequeno Caio Guimarães sonhava em fazer algo grandioso e benéfico para a humanidade. Aos 23 anos, ele fez. Criou uma “lanterna medicinal” portátil capaz de erradicar infecções provocadas por bactérias resistentes a antibióticos, usando apenas frequências de luz. A descoberta torna os tratamentos mais simples, acessíveis, menos invasivos e mais rápidos. Por quebrar paradigmas da medicina, os passos do estudante de engenharia, que começaram na Escola Politécnica de Pernambuco, passaram pelo Wellman Center for Photomedicine, em Boston, e chegaram à maior conferência de fotomedicina do mundo, onde Caio representou Harvard e MIT.

Ernsst Götsch 

É preciso preservar, mas é possível regenerar. O agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch é prova de que a agricultura regenerativa pode ser um caminho de desenvolvimento para o país. Estabelecido em uma fazenda na zona cacaueira do sul da Bahia desde os anos 80, vem desenvolvendo técnicas de recuperação de solos. O equivalente a 480 campos de futebol foi recomposto, dos quais 350 se transformaram na primeira Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) da Bahia. Além da colheita agrícola, observou-se que a fazenda desenvolveu seu próprio microclima, 14 nascentes de água foram recuperadas e a fauna repopulou o lugar. A partir do experimento – chamado de agricultura sintrópica –, Götsch elaborou um conjunto de princípios e técnicas para integrar produção de alimentos e regeneração natural de florestas que tem sido adaptado a diferentes regiões e climas nos últimos 30 anos.

Stela Goldestein 

Desde 1975, muito antes de termos como “ecologia” e “sustentabilidade” caírem no gosto popular, a geógrafa Stela Goldenstein já militava na área de urbanização com foco no meio ambiente e liderava programas de gestão ambiental em São Paulo. Foi secretária estadual do Meio Ambiente na gestão Mário Covas, secretária municipal na gestão Marta Suplicy e assessora do prefeito e depois do governador José Serra. Hoje, à frente da diretoria executiva da Fundação Águas Claras do Rio Pinheiros, Stela sonha de forma prática com a despoluição da Bacia do Pinheiros e com sua reconciliação com a cidade.

Lama Michel 

Aos 5 anos de idade, ele foi reconhecido como a reencarnação de um iogue e mestre tibetano. Aos 12, começou na vida monástica: por 11 anos, viveu em um monastério na Índia, para receber a formação dedicada aos Lamas – e para estudar Budismo, Tantra, medicina e astrologia. Hoje, aos 34 anos, Lama Michel orienta centros budistas na Itália e o Centro de Dharma da Paz, em São Paulo. Presidente da Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz, divide seu tempo entre a casa na Itália e as viagens pelo mundo para dar sequência ao trabalho de seus mestres, compartilhando conhecimento com o intuito de ajudar as pessoas a ter uma visão mais clara da vida e, assim, eliminar o sofrimento. Autor dos livros: Uma ideia de paz e Coragem para seguir em frente, ele diz que o sentido da vida está no processo de escutar, refletir, compreender e compartilhar. E assim chegar à felicidade.

Guga Kuerten 

Ex-número 1 do mundo e maior tenista da história do país, Gustavo Kuerten, sempre reservou parte do tempo para ações sociais. O envolvimento com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) aconteceu desde os primeiros anos como profissional. Com o sucesso nas quadras, Guga e a família fundaram no ano 2000, em Florianópolis (SC), o Instituto Guga Kuerten, com programas de esporte, educação, políticas de defesa dos direitos dos cidadãos e projetos voltados à pessoa com deficiência. Mais do que isso, sua atitude simples, humana e digna, como atleta e figura pública, enche os brasileiros de orgulho.

Regina Tchelly 

O Favela Orgânica é o sonho de vida da chef autodidata, empresária e ex-doméstica Regina Tchelly. Em 2011, juntou mães das comunidades dos morros da Babilônia e Chapéu Mangueira, na zona sul do Rio de Janeiro, e com um investimento de pouco mais de R$ 100 realizou a primeira oficina. Desde então, a paraibana levou o projeto para mais sete estados brasileiros e criou mais de 400 receitas, com a missão de mudar nossa relação com os alimentos. O impacto é sistêmico: a proposta mostra que hábitos e práticas alimentares saudáveis e sustentáveis transformam a vida de cada um e que conhecer o ciclo dos alimentos é essencial para evitar desperdícios e reduzir a fome em comunidades vulneráveis.

Thomaz Srougi 

Thomaz Srougi é fundador de um dos mais bem-sucedidos negócios sociais do Brasil: a Dr. Consulta, rede de clínicas particulares voltadas a pessoas das classes C e D sem plano de saúde, e que oferece atendimento em mais de 27 especialidades por, em média, R$ 80. Um hemograma sai por R$ 10; o raio-X do joelho, por R$ 25. A iniciativa não tem nada a ver com filantropia. É um negócio criado para fazer dinheiro, com metas rígidas de desempenho e controle de custos, que já fatura mais de R$ 6 milhões por ano. A ideia surgiu quando Srougi estava na Universidade Harvard, nos EUA, onde estudou gestão. A rede conta hoje com cinco unidades, todas na grande São Paulo, e uma equipe de 150 médicos.

Acesse o site: http://revistatrip.uol.com.br/transformadores/site/index.php


Fonte: Revista Trip.

Nas estações de trem de São Paulo há de tudo um pouco: músicos, poetas, pedintes, loucos, vendedores, missionários... Prender a atenção de quem passa apressado, mais preocupado em não levar uma bronca do chefe, da namorada ou do marido, de enxergar mais cedo o sorriso do filho, costuma ser tarefa inglória. Andréia Garcia encara, porém, o desafio com humor, movida pela crença de que os livros melhoram a vida dos leitores. Naquele 13 de maio, aniversário da Abolição da Escravatura no Brasil, ao pé das escadas de acesso às linhas 11 e 12 da CPTM no Terminal Tatuapé, ela comandava a sexta edição de seu Sarau até Quarta. Escritores, poetas e músicos homenageavam Carolina Maria de Jesus, negra criada em uma favela, autora do clássico Quarto de Despejo, obra precursora da literatura marginal no País.

Entre os integrantes do sarau, Débora Garcia, sem parentesco com a organizadora, lia trechos da obra de Carolina de Jesus. Um pouco antes, a música de Victor Cali havia atraído dezenas de curiosos para o evento iniciado às 7h10 da noite e encerrado, com muito custo, duas horas depois. “Quem frequenta sarau sabe que, se não se estabelecer uma hora-limite, varamos a noite. Mas no outro dia acordamos cedo para trabalhar, né?”, brinca a idealizadora.

Andréia Garcia tem 42 anos e trabalha com Tecnologia da Informação, setor no qual bits e bytes, a linguagem das máquinas, são mais importantes do que as palavras humanas. A exemplo de boa parte dos moradores da Grande São Paulo (ela vive no município de Suzano), gasta muito tempo no deslocamento diário entre sua casa e o trabalho. São ao menos três horas no transporte público. Um fardo? Não, segundo ela.  “Nunca fui mal-humorada e não encaro como sacrifício. É uma parte pequena do meu dia para estragá-lo por completo.”

Com um olhar atento às múltiplas realidades que a cercam, principalmente dentro dos vagões, Andréia começou a escrever pequenos registros, que logo se transformaram em crônicas, inspirados nas diversas situações e personagens do dia a dia. Há pouco mais de dois anos, criou um site, A Viajante do Trem, para desovar a produção. A experiência levou-a a se unir a Sidney Leal e criar o sarau nas plataformas de trem, sempre às quartas-feiras. A ideia, afirma, é “levar cultura para um espaço público, em horário de pico, para os passageiros terem algo que os fizessem atrasar a viagem com alegria, além de ser uma oportunidade para se expressar”.  A CPTM apoia a iniciativa e cede cadeiras, microfones e amplificadores, além de divulgar os eventos em sua rede, realizados mensalmente no mezanino da Estação Brás, embora a sexta edição aqui relatada tenha ocorrido no Tatuapé, em homenagem aos 23 anos da companhia de trem e dos 15 anos de inauguração do Expresso Leste.

A escritora não esconde a fonte de inspiração, o Sarau Suburbano criado por Alessandro Buzo e já tradicional na capital paulista. Andréia conheceu a experiência no ano passado e ouviu do mentor: sarau vicia. De fato. Desde então, ela tornou-se uma habitué desse tipo de encontro. “O Buzo foi o cara que me colocou nesse cenário. Até então nem conhecia esse movimento, infelizmente.”

Andréia não ganha dinheiro com a iniciativa. Nem é esse o objetivo. “Por mais que possa parecer chavão, a realização não tem preço.” Ela aprecia particularmente acompanhar quem no início assiste de longe, tímido, e aos poucos ganha coragem para subir ao palco. “A energia é tanta que eles mudam de ideia, pois percebem tratar-se de um espaço democrático. Mesmo se alguém subir e declamar ‘Batatinha quando nasce...’, vai ser bem recebido e aclamado.” São senhoras envergonhadas, escritores independentes, cantores, compositores e diversos artistas. Os temas mais comuns versam sobre questões sociais, da pobreza aos preconceitos de diversos tipos e gêneros. “Nos saraus o participante é sempre importante, nunca mais um. Ninguém quer saber sua origem, o que faz ou o que fez. É um lugar para todos serem felizes, e isso contagia.”

Toda essa empolgação rendeu a Andréia outras oportunidades e experiências. O Viajante do Trem virou livro e, atualmente, ela escreve crônicas em dois jornais diferentes, o Diário do Alto Tietê e O Estação. “Devo muito aos trilhos”, diz, antes de abrir um largo sorriso.

Rodrigo Casarin na Carta Capital.

 

 

Com a cena estonteante da cidade contornada pela linha do horizonte, raramente vista na cidade de São Paulo, Camila Haddad visiona um futuro que pode até não se concretizar em grande escala. Mas que já coleciona sementes aqui e ali, espalhando-se no chão nem sempre a céu aberto. E geram pequenas trincas no cimento do status quo, pelas mãos de pessoas que simplesmente se juntam para fazer coisas e resolver problemas de forma independente das instituições. Nesta última frase ela resumidamente define o que é a economia colaborativa.


Leitora de Mudar o Mundo sem Tomar o Poder e de Fissurar o Capitalismo, de John Holloway, a jovem que estudou economia e trabalhou com sustentabilidade não vê outra mudança para este mundo — sob vários aspectos em crise — que não seja pela trilha da colaboração. “Esse movimento não tem a pretensão e não é organizado politicamente para revolucionar. Mas justamente por isso tem muito mais capacidade de mudança”, diz, em entrevista concedida no apê que divide com os amigos.
É fundadora, junto com a irmã, do Cinese, uma plataforma de aprendizagem colaborativa.

O Cinese, conta ela, nasceu muito para responder a angústias pessoais da irmã, que havia ticado todas as caixinhas definidas pelo mainstream como sucesso, mas não a de encontrar sentido para o que faz. Então as duas criaram uma iniciativa com o espírito de que a educação deve fazer a pessoa se conhecer, conhecer o que gosta e descobrir como pode atuar a partir disso no mundo. Da mesma forma, a economia colaborativa provoca um repensar sobre a forma como as pessoas se organizam social e economicamente, e o que esperam dessas relações.
A entrevista foi montada também de forma colaborativa, inspirada em perguntas que o Conselho Editorial da Página22 fez ao debater a pauta desta edição.

Parece que estamos vivendo um florescer da economia colaborativa. A crise financeira dos últimos anos tem a ver com isso?

Os processos de colaboração sempre aconteceram, a gente não teria conseguido se manter como estrutura social se eles não existissem. Mas foi ficando menos presente quando mais coisas foram se convertendo em produto ou serviço, por exemplo, alimentação. Antes não fazia sentido pagar para comer, as pessoas cozinhavam dentro de casa. E mais coisas foram sendo convertidas em produto ou serviço conforme a gente foi atingindo um certo padrão de desenvolvimento. Processos inerentemente sociais ou colaborativos foram se distanciando. Mas o atual modelo está obviamente em crise, tanto financeira como em termos de recursos naturais. Além disso, o fenômeno da internet foi muito importante, porque agora a gente percebe que pode se conectar com as pessoas. Essa possibilidade sempre existiu, mas com a internet ficou mais tangível. Vejo a internet como a primeira organização humana distribuída, não hierárquica. E a não hierarquia e a horizontalidade são o pressuposto para que qualquer organização colaborativa se constitua. Economia colaborativa é basicamente isso, uma rede de pessoas conectadas para fazer coisas e resolver problemas de forma independente das instituições.

E que não necessariamente pressupõe uma transação monetária?

Em qualquer relação que a gente faça, existe uma troca de valor. Em todos os sentidos. O dinheiro é uma forma de tangibilizar essa troca, mas não é a única. E não é um problema. Só que é muito limitado para dar conta. O dinheiro serve para facilitar fluxos de bens e serviços, para girar a economia, mas às vezes não é necessário, é possível fazer muitas coisas sem recurso monetário.

Você vê a economia colaborativa sob qual prisma? Pelo caráter revolucionário ou rejuvenescedor da internet? Pela maior conscientização sobre os limites do planeta? Ou pela ótica psicológica e cultural, de como e por que humanoides desde a Pré-História resolveram fazer coisas em conjunto?

Uma mistura de tudo, porque a gente cada vez mais tem notícias de que o modelo atual não responde às nossas necessidades. Colaboração e competição são inerentes às pessoas, mas criamos um sistema que estimula só um dos lados.
A economia colaborativa pode ser só um arcabouço de outras coisas, mas tem, sim, um aspecto muito transgressor e revolucionário que desafia duas premissas básicas da economia. Uma é a escassez, só precisa ser gerido o que é escasso, e só tem valor econômico o que é escasso. Então a gente gera escassez artificial para criar valor econômico, ou seja, cria escassez na tentativa de administrar a escassez, o que não faz muito sentido. E a outra premissa é a do Homo economicus, segundo a qual a gente é competitivo e precisa criar um sistema que transforme competição em mais bem-estar social, na história de que, quanto mais autointeressado e competitivo a gente for, mais vai gerar produtos e serviços que são bons para a sociedade.

Mas uma economista de que gosto muito, a Elinor Ostrom, diz que, quando a gente acha que as pessoas são inerentemente egoístas, concebe sistemas que premiam pessoas egoístas e garante que de fato elas se comportem da maneira que achou que iam se comportar. Se formos pensar em todas as estruturas hierárquicas, óbvio que o único caminho é o topo, e nem todo mundo vai chegar lá. E pensando no cenário de recursos escassos, obviamente vou querer competir e garantir o meu, é uma dança das cadeiras. E com a previsão ruim, ainda que eu não queira sentar na cadeira agora, vou guardar lugar porque vai que eu precise sentar lá na frente…

Desafiar a premissa da escassez e da competição não é pouco. Como falar de abundância em um cenário no qual os recursos estão se exaurindo? É uma mudança de ótica. A matéria é escassa, mas a capacidade de transformação é infinita. A gente é única espécie que pensa de forma linear, mas a resposta está na capacidade contínua de transformação. E esta só acontece quando a gente inova. E a gente só inova quando as pessoas colaboram.

Então a sustentabilidade necessariamente passa pela trilha da economia colaborativa?

A meu ver, sim. Inclusive o meu caminho para a colaboração veio a partir da sustentabilidade. Eu compreendi que a única forma de se organizar socialmente para se manter a longo prazo exige colaboração. Quando a gente se organiza de forma industrial, entende a perenidade dessa forma: essa empresa vai existir para sempre, fazendo as coisas assim, e aí a capacidade de transformação se perde.

Dá pra colocar uma empresa como o Uber no balaio da economia colaborativa? Ou está na economia do compartilhamento?

O compartilhamento é uma parte da economia colaborativa. É a gente perceber que não precisa possuir recursos, só precisa acessá-los. A colaborativa é mais ampla, inclui iniciativas como a Rede Nossas Cidades, com pessoas se conectando para transformar a política local. No Uber, a ideia da colaboração está sendo usada sem desafiar as premissas da economia. O CEO do Uber, por exemplo, falou que o único problema deles eram os motoristas! Então tem um entendimento muito errado aí. Não é à toa que já tem união de motoristas contra o Uber. Se o valor da empresa é conectar pessoas, como se pode dizer que o problema são as pessoas? Essas empresas podem até crescer muito a curto prazo, mas estão cavando a própria cova.

O que motivou a declaração do CEO?

A criação de um sindicato de motoristas do Uber. Ele falou que já existem carros autodirigidos do Google e que, quando não precisarem de motoristas, não terão mais esse problema. Mas isso não tem capacidade de se manter por muito tempo, pois, quando as pessoas percebem que não está sendo gerado valor real para elas, vão simplesmente pular o Uber. Já está nascendo um “uber” descentralizado, um aplicativo que não tem uma empresa por trás, as pessoas se conectam diretamente e têm uma moeda própria, gerada no processo de carona. Se te dou carona, consigo uma moeda que é usada quando eu precisar de carona. Então as pessoas vão criar alternativas, é a história do protagonismo. Não precisamos mais das instituições e dos intermediários que não nos agregam valor.

A economia colaborativa pressupõe a descentralização de poder e a quebra de hierarquia, mas ao mesmo tempo o mundo digital tem como expoentes grandes corporações. Como fica isso?

Se a minha resposta é ter de remunerar o acionista, eventualmente vou chegar em um momento contraditório em que me pergunto: “É melhor pra quem?” Tem muitas empresas tradicionais surgindo que prestam serviços colaborativos, o que já é bastante interessante. Mas eu falo mesmo é da colaboração da porta pra fora e da porta pra dentro. Boa parte das empresas percebe a colaboração da porta pra fora, mas ainda continua se organizando de forma hierárquica, vertical, compartimentalizada – muita gente pensa que não funciona se não for assim. Só que isso tudo é construído socialmente.

Também deve haver dúvidas no que se refere à capacidade de gerar renda. No exemplo do aplicativo que substitui o Uber, as pessoas não conseguiriam viver disso. Mas no Uber, sim, é uma empresa que pode proporcionar o ganha-pão de muita gente.

Tem alguns pontos aí. Existe um processo de longo prazo. O dinheiro surgiu para os recursos circularem, para as coisas que estão em um espaço chegarem de forma mais eficiente em outro. Essa única moeda, que está tão presente, não é a única resposta para uma economia que funcione. Economia é troca de valor. Penso que no futuro teremos diversas moedas, pode ter a da carona, a da alimentação, e a gente vai conseguir moeda na medida que coopere e gere valor na sociedade. Não terei o emprego que me dá moeda corrente com a qual conseguirei fazer todas as coisas. Se gero valor, serei reconhecido, terei reputação, outras moedas e isso permitirá com que eu faça todas as coisas para continuar existindo. É quase como, de forma mais ampliada, voltar para processos muito tribais.

É o caso de relativizar o aspecto inovador da economia colaborativa? Ou há algo realmente novo devido às tecnologias?

Quando a gente olha para os processos tribais, a existência estava garantida. Se tinha alguma pessoa doente, todos iam prover recursos para ela, porque sabiam que, quando ela estivesse bem, ia voltar a gerar valor, caçar etc. Só que isso não consegue se estender para além de uma comunidade pequena, porque não conheço todas as pessoas e a sua reputação. O dinheiro serviu para estender isso, respondendo à pergunta: “Se não te conheço, como a gente vai fazer uma troca?”

Daí a palavra crédito, no sentido de confiar…

Exato. A gente não joga fora tudo o que conquistou esses anos, não se trata de todos voltarem a viver em comunidades. Porque a tecnologia traz a possibilidade de pegar esses processos e fazer com que se ganhe muito mais escala, gerando interações com pessoas de todas as partes do mundo. Mesmo quando a gente fala de uma economia monetizada, respondendo à sua pergunta sobre o substituto do Uber, vou falar da nossa experiência no Cinese, que entendemos não como empresa, mas como uma comunidade de aprendizagem.

Cada vez mais a gente anda no sentido de a plataforma ser autogerida, o código é aberto, qualquer um pode propor uma mudança, copiar e fazer outro etc. A ideia é que a plataforma está aí para servir às pessoas e elas se conectarem, e não para as pessoas servirem à plataforma. Não é a plataforma em si que precisa gerar renda para pagar alguém, e sim ser um ponto de partida para as pessoas gerarem sua própria renda, cobrando, se quiserem, por suas habilidades. Embora iniciadora do Cinese, eu sou apenas uma usuária dela, a comunidade não tem de me remunerar. Enquanto as pessoas virem valor e quiserem que o Cinese continue existindo, vão contribuir com o financiamento coletivo da plataforma. Faz sentido?

Parece que sim. Mas é se de perguntar se o mundo tradicional, que opera com regras tão diferentes, tende a migrar para isso, ou se essa experiência ficará restrita a nichos. O que você pensa disso?

Que tem muita capacidade de ganhar escala. Não é nada de outro mundo. Eu percebo isso acontecendo cada vez mais. Quando a gente fala de hortas urbanas, ocupação de espaço público, como o Parque Augusta, tudo isso tem a ver com empoderamento, com a percepção de que é a gente que faz a política, a economia. Podemos optar em ser participante de um sistema que já existe, que foi pensado antes da gente, ou criar coisas novas.

É o power to the people? Na hora em que esse poder se dá, não se volta mais atrás?

É difícil. Mas o que falta é o nosso entendimento de que coisas muito transformadoras podem acontecer sem uma estrutura de controle. Porque dá um medinho, né? “Se a gente não se organizar, será que as coisas vão acontecer? Vai virar uma bagunça.” Tenho cada vez mais visto que é possível pensar em contornos e estruturas horizontais que geram coisas incríveis. Tem o exemplo básico da Wikipédia. Fizeram um teste de inserir erros na Wikipédia, e a média de tempo para isso ser corrigido era de 10 segundos! Que outro lugar tem tanta acurácia e rapidez? Só em alguma coisa com muita gente conectada. E por que as pessoas editam artigos na Wikipédia? Alguém paga? Alguém organiza? Não, é o próprio sistema de reputação. Se tem uma disputa por edição, quem está muito tempo editando pode dizer o que é o certo. Não tem um cargo para definir o editor, qualquer um pode ser, então o editor é reconhecido pelo seu trabalho de qualidade.

Acredito que todos os processos podem ir nesse sentido. A mídia pode ser distribuída desse jeito. Gosto muito da Reportagem Pública, de jornalismo investigativo, que os leitores financiam e definem a pauta, o assunto que querem ver investigado. Os papéis de leitor, financiador e editor ficam mistos e isso permite que as coisas continuem existindo (mais sobre mídia “O poder do usuário“). Outro exemplo de que gosto bastante é theSkyNet, que é uma rede de processamento de dados e pesquisas espaciais. Para isso, precisaria de uma capacidade de processamento muito grande, supercomputadores etc. – o que demanda uma grande instituição, uma grande universidade, um grande investimento. A ideia deles foi a seguinte: por que a gente precisa de um superprocessador, se tem várias pessoas com computador e capacidade de processamento sobressalente?

Isso é a economia da ociosidade?

Exatamente. Se a gente fosse pelo lado da escassez, precisaria entender como montar uma estrutura para prover os recursos. Já a abundância é perceber que os recursos de que a gente precisa já existem, a gente só precisa conectá-los. Então basta qualquer pessoa baixar um aplicativo e, toda a vez que seu computador está ocioso, pode processar dados espaciais. E você escolhe quais pesquisas você quer que o seu computador processe. E essas pessoas não ganham nada em troca.

Mas essas pessoas também precisam pagar as contas no fim do mês. Como dá para viver de economia colaborativa?

Tudo isso é mais dificil se for pensado dentro das estruturas industriais, empresariais. Eu, por exemplo, gero minha renda dentro desse mundo. Eu presto meu serviço e as pessoas que veem valor nessas habilidades me remuneram, ou a plataforma ajuda a me remunerar.

E, quanto mais troca tiver, é possível viver com menos dinheiro?

Você pode viver com menos dinheiro e manter a mesma qualidade de vida, no sentido de que pode acessar muita coisa de forma não monetária. Muitas coisas das quais a gente depende hoje tem a ver com o estilo de vida tradicional: comer fora, terceirizar os cuidados com os filhos, educar os filhos, hospedar-se em hotéis. São coisas que antes estavam inseridas nos processos da vida em comunidade.

A impressão que dá no público em geral é que os casos de sucesso da economia colaborativa são poucos.

Tem muita coisa acontecendo fora do radar. A maioria das pessoas só ouve falar do que é sucesso no sentido tradicional de sucesso, ou seja, que viraram grandes empresas, como Uber e Airbnb. A gente ouve falar muito menos do Couchsurfing, que não gera dinheiro, mas é uma rede enorme de viajantes que se recebem uns aos outros nas próprias casas, com o princípio da reciprocidade. Eu cedo meu sofá e sei que vou conseguir um sofá em outro lugar do mundo, sem precisar pagar um hotel. A Laboriosa 89 é um exemplo de sucesso, é um espaço de trabalho colaborativo em que qualquer um pode fazer a cópia da chave, e quem deseja que o espaço continue existindo contribui para pagar as contas. Não tem instância de tomada de decisão.

Tem aquele ditado de que cachorro com muitos donos morre de fome. Isso não acontece no Laboriosa, por exemplo?

Não. Parece que ou tem muito processo ou não tem nada, e aí é o caos. Lá a gente está começando a prototipar os processos para que a casa continue funcionando, mas sem hierarquias ou um grupo tomador de decisão. Criamos, por exemplo, caixas distribuídos para pagamento de água, luz, aluguel. Se faltou dinheiro para a luz e ela é cortada, os interessados em que a luz volte se juntam para pagar.

Qual o impacto da economia colaborativa para as contas nacionais e para a arrecadação de impostos? Uma furadeira pode ser compartilhada entre muitos, mas o sistema contábil e fiscal só registra uma transação, que foi a compra da furadeira.

Quando a gente fala em quebra de estruturas hierárquicas, a maior é o Estado, a forma como a gente se organiza politicamente. A nossa capacidade de regular vai muito aquém da transformação da realidade. A gente vai encontrar uma forma de regular e medir essas relações. Só que não precisa impedir que elas existam porque ainda não sabe como regulá-las. As instituições é que têm de evoluir, e não a gente voltar para trás. E há muitas alternativas para medir progresso além do PIB. Vai passar muito por isso: como medir troca de valor que não seja exclusivamente pela troca monetária. A questão da arrecadação seria no caso de não haver nenhuma transação monetária. Mas por que isso é um problema, se a gente está fazendo os recursos circularem de forma mais eficiente?

Outras turmas desafiaram estruturas de poder e paradigmas, como os anarquistas, os comunistas, os hippies, os punks. São ondas que sempre questionam e propõem outros modos de vida. Será que estamos em uma nova onda, protagonizada por esta geração?

Tem muito a ver com geração, internet, globalização, conexão. Invariavelmente surgem movimentos sociais contra o status quo. A única diferença é que a gente não precisa acabar com o sistema e implantar um novo. Tem dois livros de que gosto muito, Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder e Fissurar o Capitalismo [ambos de John Holloway]. Não preciso pensar tanto no macro, em qual é a solução para o mundo. Eu crio uma solução local, conectada com outras pessoas, para melhorar a nossa qualidade de vida aqui, para ter uma relação mais justa aqui, para se reconectar com a natureza aqui. A gente tem as ferramentas para fazer isso. E ponto.
E, se está nas nossas mãos, tenho a impressão de que as instituições vão se esvaziando. Não há tentativa de mudar por cima. A gente vai fazendo… Esse movimento não tem a pretensão e não é organizado politicamente para revolucionar. Mas justamente por isso tem muito mais capacidade de mudança. Quem é capaz de acabar com o sistema? Ninguém e todo mundo. Então a gente está mudando a nossa vida em nível local e a de quem está ao redor. E, porque é um movimento social e de baixo para cima, é capaz de gerar mudança de forma tão rápida. Eu visiono esse futuro, mas pode ser que ele não aconteça. Nem por isso eu jogo essa experiência fora.

Qual é a história do Cinese, como surgiu e com que propósito?

A historia do Cinese tem a ver com a historia minha e da minha irmã, que hoje é minha sócia, a Ana. Fiz mestrado em Economia, em Londres, e conheci o fenômeno da colaboração como um ingrediente importante para pensar novos modelos econômicos. Quando voltei para cá, depois do mestrado, eu estava com a história da colaboração muito viva. E a Ana, que estava saindo de um grande escritório de advocacia, repensava a carreira, a qualidade de vida. Ela notou que o processo de educação que a gente teve foi muito responsável por ela ter chegado onde chegou, no sentido de não questionar o que ela queria viver. Ela nunca havia passado por um processo de autoconhecimento e, lá pelos 25 anos, começou a questionar o que era sucesso para ela, o que queria fazer. “Eu não estou feliz, mas tiquei todas as caixinhas de sucesso”. Então foi estudar modelos alternativos de educação. Parecia que ela não tinha feito nenhuma escolha, e sim que o caminho já estava definido.

Daí se perguntou por que não tinha se dado conta antes. O processo de educação deveria ter feito com que ela olhasse para essas coisas, mas foi o contrário – especialmente porque estudamos em colégios tradicionais, muito quadrados. Nas nossas conversas fez sentido combinar educação com colaboração, para estimular processos mais abertos em termos de autonomia e liberdade para formar pessoas críticas.

Pessoas que façam essa pergunta mais cedo que ela.

Exato. Que a educação seja esse processo que faça você se conhecer , conhecer o que gosta e como atuar pode atuar a partir disso no mundo. E aí se vai adquirindo habilidade e conhecimento, sempre com referência a você mesmo. Porque aprendizagem é um processo muito individual, é parte do aprendente. E o Cinese foi uma das soluções para essa busca. É uma plataforma de aprendizagem colaborativa. A ideia é que o processo de aprendizagem acontece na relação entre as pessoas. O conhecimento está presente, cada vez mais é ubíquo e fácil de acessar, só que educação não é só conteúdo pura e simplesmente. A educação está na relação e nos encontros, na experiência, e não só na exposição do conteúdo. Tem a ver com a nossa vida em uma cidade como São Paulo, que separa tanto as pessoas, onde os encontros significativos sempre precisam ter um propósito definido.

Não tem o flanar, o encontro espontâneo?

Falta isso que faz a gente se deparar com outras referências, que tem a ver com o processo de aprendizado.

O Cinese é voltado para que público?

Como estamos falando de uma plataforma na internet, acaba sendo uma aprendizagem para adultos, que já estão fora do sistema de ensino formal. Qualquer um pode propor um curso, encontro, workshop e isso vai direto pro ar, se tem pessoas interessadas elas se inscrevem e se encontram em qualquer lugar da cidade, isso pode acontecer em em qualquer lugar do País. E não tem curadoria, porque a gente não quer ser a instituição que valida qual conhecimento é importante ou não, e repetir o que a gente criticava nas instituições de ensino. Por conta dessa liberdade e por não ter curadoria, aparecem conteúdo que eu nunca imaginaria que reuniria pessoas para falar daquilo, por exemplo, curso em espanhol sobre minhocários. Tem muita diversidade mesmo.

E se tiver algum conteúdo com o qual vocês não concordam?

Existe uma autorregulação, com sistema de reputação, então a curadoria acaba sendo feita pela rede.

E como o Cinese se mantém financeiramente?

Antes a gente funcionava como plataforma de financiamento coletivo. Toda a vez que acontece um encontro e se esse encontro é cobrado, uma parte ficava com o o Cinese. Mas a gente gastava muito tempo nessa intermediação e não era o valor que a gente queria entregar. Então a gente mudou e agora a plataforma funciona com financiamento coletivo recorrente. Então quem usa o Cinese e quer que continue existindo contribui para isso. 


Ps: Camila Haddad é formada em Administração de Empresas na FGV, trabalhou na ONG Artemisia e no Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp (GVces). Fez mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável na University College London, onde tomou conhecimento sobre consumo e economia colaborativa. 

Cinese: https://goo.gl/eZPeSN

Por Amália Safatle no Página22 / FGV.

Enquanto tanto se discute sobre a redução da maioridade penal, aprovada na Câmara dos Deputados essa semana, Bruno dos Santos é prova de como é possível a recuperação de jovens infratores. Ele foi apreendido aos 16 anos, concluiu sua pós-graduação na USP (Universidade de São Paulo) aos 25, e hoje é um empreendedor que já contou sua experiência em palestras como o TEDx.

Filho mais novo de cinco irmãos, Bruno cresceu com a avó em Capão Redondo, na capital paulista, onde mora até hoje. Todas as casas da rua depositavam o lixo na mesma esquina para que o caminhão fosse buscar. Além de gostar de brincar com aquilo que não servia mais para os outros, ele conta que sempre se divertia observando o trabalho dos catadores.

Bruno veio de uma família humilde e cresceu no meio do tráfico. O crime fez com que seus parentes próximos fossem presos e, com ele, não foi diferente. "Aos 16 anos eu já estava na Febem, por pequenos furtos, aprontando para caramba", conta.

Em uma conversa decisiva com o pai, o jovem decidiu mudar de atitude e investir em um novo futuro. "Eu tinha um sonho muito grande dentro de mim, mas não sabia traduzir o que era. Eu queria mudar minha vida, não aceitava aquela condição”.

Quando deixou a extinta Febem (atual Fundação Casa), Bruno fez supletivo e conseguiu emprego no posto que almejava desde de criança: coletor no caminhão de lixo. “É um trabalho difícil, insalubre. Independentemente das condições de clima, você tem que estar na rua para poder limpar. Exige muita resistência física e psicológica”, conta.

Enquanto isso, a família de Bruno participava de um projeto do Instituto Rukha, que atua em comunidades com palestras e programas culturais para tirar famílias da miséria.

Este mesmo instituto viu que Bruno tinha perfil para ser um líder comunitário, e deu a ele a oportunidade de cursar uma graduação , paga por empresários. Conversando com especialistas da área e sempre com olhos na sua paixão, a de cuidar de resíduos, ele optou pelo curso de Gestão Ambiental.

A contrapartida da oferta era fazer um trabalho em prol da comunidade. Bruno então reuniu os jovens de onde morava e, de um jeito bem informal, dar aulas sobre o que aprendia na faculdade. “Era tudo muito precário. Assistíamos a documentários, eu comprava coisas da xepa para preparar o lanche para eles, mas eles adoravam e queriam sempre que eu falasse mais.”

Bruno teve então a ideia de criar um projeto chamado Sustenta CaPão, em parceria com seu irmão. É um bistrô que vai até comunidades, onde fabricam pães artesanais. O objetivo é reunir os moradores para integrá-los e discutir questões relacionadas a comunidade onde vivem.

 

Com toda a bagagem que conseguiu, Bruno não parou mais. Foi convidado pela ONG Outward Bond Brasil a viajar para a Romênia para falar sobre o que aprendeu. "Fiz um workshop de reciclagem para jovens de 10 países, levando a experiência dos catadores que trabalham na invisibilidade no Brasil."

Como empreendedor, ele já foi convidado a falar sobre sustentabilidade e sobre o Sustenta CaPão em três eventos TEDx. Em São Paulo, Campinas, em 2013, e no Rio de Janeiro, em 2014.

Bruno ainda queria se especializar. “Participei de um Laboratório de inovação social onde uma empreendedora que trabalha com projetos de sustentabilidade topou investir e pagar o meu curso de pós-graduação”, conta ele. Desta vez, o curso escolhido foi Resíduos Sólidos, que ele terminou este ano, na Universidade de São Paulo (USP).

Professora de Bruno, Sylmara Lopes faz elogios ao aluno: “Ele faz comentários articulados, se posiciona”. Segundo Sylmara, o empreendedor se destaca dos demais. “Ele tem um perfil de muita luta e entende a posição de destaque que tem. Ele representa toda uma categoria batalhadora”, diz a professora.

Em novembro do ano passado, Bruno e seu irmão foram prestigiados na Câmara Municipal de São Paulo como autores do melhor projeto social de gastronomia com o Sustenta CaPão.

Bruno no TEDx: https://youtu.be/Z1BIZmy31SI

Por Larissa Baltazar no Brasil Post.

 

"Sabotage – O Maestro do Canão", do diretor Ivan13P, foi exibido na noite de quarta-feira (2), na 'cracolândia', no centro de São Paulo, dentro do projeto CineB, circuito itinerante que leva cinema brasileiro para comunidades da capital e região metropolitana. O filme, que conta a história de um dos ícones do rap nacional, foi exibido ao ar livre em parceria com o programa De Braços Abertos, por iniciativa do secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Eduardo Suplicy. 

“Quando vi o filme no Cine Direitos Humanos, gostei tanto que disse ao Ivan 13P e para o Denis Feijão (diretor e produtor do filme), que seria ótimo exibir o documentário em todos os CEUs de São Paulo e também aqui na cracolândia. Eles acharam uma boa ideia, assim como os coordenadores do programa Braços Abertos e também o prefeito Fernando Haddad”, disse Suplicy.

O coordenador do projeto CineB, Cidálio Oliveira, falou sobre a recepção na cracolândia. “Não tivemos nenhuma rejeição. As pessoas perguntavam se eu ia mesmo para a cracolândia, falavam que eu era maluco. Eu respondia que ia sim. E você está vendo que não tivemos nenhum problema, ninguém falando alto, pessoal pedindo licença. Estou super feliz”, afirmou. 

Para Ivan13P, o documentário pode influenciar positivamente os frequentadores da região. “A história do Sabota pode inspirar a galera para o lado positivo. Ele passou por situações que, com certeza, muita gente aqui também passou. De certa forma, através dos esforços pessoais, ele conseguiu sair dessa”, afirmou. “É uma honra e uma oportunidade poder ajudar um programa como o Braços Abertos. A gente teve o prazer de o Suplicy adotar o filme como ferramenta e ter feito esse convite”, disse Denis Feijão.

Implementado pela prefeitura no início de 2014, o programa Braços Abertos oferece para dependentes químicos que moram nas ruas de São Paulo a oportunidade de trabalhar com serviços de zeladoria, com remuneração de R$ 15 ao dia, três refeições diárias, atividades de capacitação profissional, atendimento de saúde, além de vagas em hotéis da região central.

Fonte: Rede Brasil Atual.

 


Pisar nos ladrilhos pretos e brancos com o formato do mapa do Estado de São Paulo certamente também faz alguma coisa acontecer no coração dos paulistanos.

Mas parte da emoção sentida ao cruzar o marco geográfico da canção de Caetano Veloso pode diminuir porque o famoso 'piso paulista' está sumindo de parte da cidade, inclusive do cruzamento mais famoso de Sampa, a Ipiranga com a São João.

A desenhista Mirthes Bernardes, 80, se entristece ao falar do descaso com os ladrilhos, mas o orgulho de ter criado um dos principais símbolos da cidade é maior. Em 1965, o desenho dela venceu o concurso que padronizou todas as calçadas da capital paulista, na gestão do prefeito Faria Lima.

"Eu achava que tinha coisas bem mais bonitas [entre as concorrentes], mas não acharam", diz, rindo.

A desenhista aposentada pela Prefeitura de São Paulo conta que não tinha pretensões de vencer a disputa na época, quando rascunhou o desenho, mas confessa que buscou inspiração nas calçadas cariocas. "As ondas [do calçadão] de Copacabana, um traço lindo por sinal, e eu não quis imitar, mas queria fazer alguma coisa parecida. Se lá [no Rio] tem uma coisa tão linda, por que aqui não pode ter?", questiona.

Meio século depois, o "piso paulista" ainda faz muito sucesso, mas Mirthes, a dona da patente, diz que nunca ganhou um centavo por isso. "Faz 50 anos que eu estou lutando. Não consegui nada, nem um alô. Eu acho que eu merecia", diz.

O famoso símbolo já estampou panfletos de grandes bancos, chinelos e propagandas de toda a sorte.

Mirthes disse que vai continuar brigando na Justiça contra as empresas e se desanima ao falar do cuidado com os ladrilhos. "Qualquer piso desses que está aí em São Paulo está esculhambado. Vão passando por cima, vão tampando buracos ao invés de restaurar."

Seu maior medo é que o todo o "piso paulista" desapareça.

Em 2012, a avenida Amaral Gurgel, uma das primeiras vias a receber o "piso paulista", teve todas as suas peças arrancadas e trocadas por concreto "para melhorar a drenagem e aumentar a durabilidade", diz a prefeitura.

As calçadas da São João, Consolação e parte do centro velho também estão sumindo porque os comerciantes tem a opção de restaurá-las ou não, pois elas não são tombadas. O município diz que o "piso paulista" implantado nas calçadas de prédios públicos são sempre restaurados.

Incentivo

O historiador da USP e conselheiro do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico), Pedro Puntoni, disse que símbolos da cidade precisam de apoio para se manterem preservados.

O historiador diz que tornar o piso um patrimônio histórico daria a ele um reconhecimento e ajudá-lo financeiramente, como a possibilidade de obter apoio pela lei Rouanet. "Mas isso não significa respeito porque muitos bens tombados estão ruindo. Alguns são vistos até como estorvo para o crescimento e desenvolvimento", disse.

Para ele, a prefeitura deveria ser responsável por implantar todos os calçamentos da cidade. "Cada um cuidar de sua calçada em São Paulo é uma besteira. O poder público teria de cuidar e cobrar de cada um, senão o vizinho põe um degrau, outro põe cimento. Cidades modernas, como Paris, as calçadas são municipalizadas", afirmou Puntoni.

Felipe Souza na Folha de S.Paulo.