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Tudo começou em 2012. Para combater a ideia de que moradores e animais de rua são seres invisíveis, o fotógrafo Edu Leporo decidiu lançar mão de suas lentes. “Saí às ruas procurando fotografar e contar essas histórias cheias de amor, respeito e companheirismo'', conta ele.

Assim surgiu o projeto “Moradores de Rua e Seus Cães”, em São Paulo. As histórias e imagens são reunidas em um site: http://zip.net/bqrBsd 

Agora, Leporo quer publicar um livro com esse material. Para isso, lançou uma "vaquinha virtual". O objetivo é arrecadar R$ 43.485,00 até 26 de agosto. 

As doações começam em R$ 10, e quem quiser ajudar pode acessar o sitewww.startando.com.br/livromrsc


Maria Carolina Abe no Blog Pet Money

 


Um amigo que começou a correr e se livrou do estresse. Outro que perdeu peso e está muito mais disposto, cheio de energia. Relatos positivos de quem adota a corrida como atividade física regular não faltam. Você até já tentou, comprou um par de tênis e arriscou ir para a rua (ou esteira), mas logo perdeu o ânimo típico dos iniciantes. Além disso, "correr para lugar algum não faz muito sentido".

São inúmeras as desculpas de quem não consegue se livrar da vida sedentária. O joelho dói. É difícil sair mais cedo da cama. É impossível achar tempo na rotina apertada de trabalho. Já passei da idade de começar. Pois o médico oncologista Drauzio Varella derruba todas elas ao longo das 208 páginas de seu novo livro, "Correr - O Exercício, a Cidade e o Desafio da Maratona", o 13º de sua carreira de escritor.

Em tom mais de bate-papo com um amigo que descobriu há 20 anos o prazer de correr do que de médico prescrevendo saúde, Varella divide com o leitor a própria experiência. Ele decidiu correr sua primeira maratona quando já estava prestes a completar 50 anos. Cruzou com um ex-colega de escola, dele ouviu um "você está chegando à idade da decadência do homem" e resolveu provar a si mesmo que decadência era uma palavra que não cabia em seu estilo de vida.

"Quem consegue correr 42 quilômetros deve ser capaz de encarar o futuro com mais otimismo e sabedoria", ele escreve nas primeiras páginas do livro - e mostra, ao longo dele, quanto isso realmente tem de verdade. Menos de um ano mais tarde, em novembro de 1993, Varella estreava na distância, na Maratona de Nova York. A paixão foi instantânea - tanto que hoje, aos 72, ele já correu outras 19, incluindo a Maratona de Boston, a mais antiga e cobiçada do mundo por exigir tempo de qualificação do participante. "Parecia um sonho", conta o médico, que participou da prova no ano passado. 

Foram experiências tão especiais que Varella dedica uma das cinco partes em que o livro é dividido às suas maratonas mais marcantes. Para quem já pratica corrida, principalmente os também maratonistas, é o capítulo mais emocionante de "Correr". 

Quem já investiu meses de treinamento para cruzar a linha dos 42 quilômetros vai se identificar com cada gota de suor relatada pelo médico, cada dor na panturrilha, cada confissão da vontade de desistir, cada prazer de vencer o desafio. E provavelmente vai derramar algumas lágrimas quando ele descreve a sensação que teve ao correr em Chicago, em 2009, acompanhando a filha caçula, 32 anos mais jovem que ele, em sua estreia como maratonista. "Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso."

As outras quatro partes são dedicadas aos primeiros passos de Varella na corrida, à história da maratona, aos treinos inusitados que o médico já fez mundo afora - como em uma pequena ilha de areia no meio do Rio Negro, onde desde 1993 ele coordena um projeto de bioprospecção de plantas - e aos encontros e descobertas que aconteceram ao longo de duas décadas de rodagem pelas ruas de São Paulo, cidade onde Varella nasceu e cresceu. 

Entre os relatos, há blocos curtos batizados de "intervalos", nos quais o médico veste o jaleco branco e aborda questões de saúde relacionadas à corrida. Num deles, derruba com dados de pesquisas a tese (furada) de que os joelhos são destruídos no esforço dos 42 quilômetros (era essa a sua desculpa?). 

Ler Varella descrever sua rotina de trabalho e como, mesmo assim, ele consegue tempo para treinar - seja às 5 horas ou entre um e outro atendimento no hospital - é de deixar no mínimo envergonhado cada leitor que já usou a agenda apertada como desculpa para ficar parado. Além de oncologista, ele coordena o projeto no Rio Negro, para onde viaja regularmente, dá palestras, frequenta congressos internacionais, atende doentes em cadeias de São Paulo uma vez por semana, escreve uma coluna quinzenal em um jornal e outra a cada três semanas numa revista, publica livros, dirige um site com informações médicas, conduz séries educativas no "Fantástico", da TV Globo e ainda arruma tempo para, além de treinar, conviver com a família.

"Controlar a ansiedade gerada por tantas solicitações, o estresse de atendê-las numa cidade como São Paulo, e manter o preparo físico necessário para os deslocamentos e as viagens de vai e volta em 24 horas que sou obrigado a fazer exige disciplina, equilíbrio psicológico e uma paz de espírito que só descobri ao correr", explica. "Correr é experimentar a liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança." Depois de ler "Correr", difícil, para o leitor, vai ser ficar parado. 


"Correr - O Exercício, a Cidade e o Desafio da Maratona". Drauzio Varella. Companhia das Letras 208 págs., R$ 29,90.

Por Ana Paula Alfano para o Valor.

 


Quinze anos depois de abandonar os gramados, Raí ainda torce por casa cheia. Mas se nos tempos de jogador ele queria ver as arquibancadas lotadas, o objetivo agora é encher o cinema . Desde outubro do ano passado, o ídolo da torcida do São Paulo é um dos donos do 
Cinesala, no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. 

Bicampeão da Libertadores, campeão mundial interclubes e titular da da seleção brasileira nas primeiras partidas da conquista da Copa de 1994, Raí tenta repetir o sucesso que conseguiu nos gramados para a nova atividade. Com filmes de autor, o Cinesala tem sido bem sucedido. Tanto que o ex-jogador e os três sócio planejam para o primeiro semestre do ano que vem a abertura de uma segunda sala, em outro ponto da cidade. Os detalhes ainda são mantidos em sigilo, mas uma característica do novo empreendimento é certa: o cinema será de rua. O plano do ex-jogador e seus parceiros é ter, no médio prazo, um total de três ou quatro espaços desse tipo espalhados por São Paulo.

Mais do que um negócio, o ex-craque trata o empreendimento como causa. Fazem parte de seus planos articular um movimento para unir os proprietários das salas de projeção instaladas fora de shopping em busca de melhorias na legislação para viabilizar o funcionamento dos espaços.

‑ É preciso dar visibilidade para a importância que um cinema pode ter para um bairro, essa coisa do encontro das pessoas, com valorização da qualidade de vida. Tem que ter alguns incentivos. São apenas seis ou sete salas em São Paulo hoje. Vamos levantar reivindicações para que esse modelo de cinema seja mais viável – afirma o ex-craque, que nos tempos de jogador, assim como o irmão Sócrates, se diferenciava dos colegas por se interessar por atividades culturais.

No Cinesala, o letreiro na entrada informa que o espaço funciona como “cinema de rua desde 1962”. Antes de Raí e seus sócios assumirem a administração do espaço, o local funcionava como sala patrocinada por empresas.Ao adquirirem o negócio, o ex-jogador e seus sócios promoveram uma reforma para dar ao prédio características originais da construção. Também foi instalada uma sorveteria. A ideia é reservar um espaço gastronômico para cada novo empreendimento. A a sala que será inaugurada no ano que vem deve ter uma hamburgueria.

A ideia de investir nos cinemas de rua ganhou forma em 2006, ano em que Raí passou em Londres para aprimorar o inglês. O ex-craque se impressionou com o Electric Cinema, no bairro de Notting Hill, perto da casa onde viveu no período sabático. O sócio do craque na empresa de gestão de imagem, Paulo Velasco, que já alimentava há anos a ideia de ter um cinema, foi para a capital inglesa conhecer o espaço.

- A gente pirou no conceito.O cinema é uma restauração e tem um bistrô anexo. Ficamos empolgados com o modelo de negócio, com a importância que o cinema tem para o bairro.

De volta ao país, Raí e Velasco passaram a trabalhar para implantação do cinema.

- Tivemos que adaptar o projeto à realidade brasileira. E também alguns lugares que tentamos negociar não deram certo. Por isso demorou.

Do Electric, o Cinesala copiou os sofás das primeiras fileiras, que permitem ao expectador assistir os filmes esparramado como se estivesse na sala de casa.

Para o ex-ídolo, a abertura do Cinesala acabou sendo impulsionada por uma mudança na relação do paulistano com a cidade, o que bate com a proposta do seu cinema.

- Depois de muito tempo, há uma valorização da rua, com as pessoas ocupando mais as praças e os parques. As pessoas estão se interessando mais pelo espaço público.

Apesar de se interessar por cinema desde jovem, a relação do craque com os filmes se estreitou durante os anos em que ele viveu em Paris para defender o Paris Saint-Germain. O grupo Canal Plus, principal produtor de filmes franceses, era dono do time na época e os jogadores acabavam sendo convidados para as pré-estreias.

- Os incetivos governamentais para os filmes franceses sempre me interessariam. O incetivo à manutenção das salas lá dão resultado.

Mesmo com o seu interesse por cinema, Raí confessa que não se intromete na programação de filmes que são exibidos no Cinesala. A tarefa fica a cargo de Adhemar Oliveira, diretor de programação do Espaço Itaú, outro sócio do ex-jogador no Cinesala.

Se fosse o caso de opinar, Raí nunca deixaria de exibir os filmes de Woody Allen, seu cineasta favorito. O brasileiro Walter Salles e o espanhol Pedro Almodóvar completam o grupo de preferência do ex-craque.

Os filmes preferidos de Raí:

"Magia ao Luar", de Woody Allen.
"Thelma e Louise", de Ridley Scott.
"Amelie Poulain", de Jean-Pierre Jeunet.
"O Filho da Noiva", de Juan José Campanella.
"O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella.

Por Sérgio Roxo em O Globo.


Uma porta numa ruazinha estreita em Guaianazes, um dos bairros no extremo da Zona Leste de São Paulo. São oito e meia da manhã de um sábado: o Vinicius Rodrigues, 22, abriu sua barbearia mais cedo, a "Bom de Corte", a fim de fazer uma preza pra molecada que não tem grana pra cortar o cabelo. Fora do salão todo pintado de azul bebê, uma meninada, ansiosa, espera sentada nos pufes coloridos para dar um tapa no visual.

Essa é a primeira vez que ele chama uma rapaziada pra cortar de graça em seu próprio salão, mas, pelo menos uma vez por mês, ele e seu amigo Esdras Gomes, 19, colam em algum pico pra mandar ver nos cortes na faixa. Na lista, entram asilos, creches, albergues ou então alguma outra quebrada mais carente.

A pouca idade dos dois não condiz com o tanto de coisas que os moleques já realizaram ou planejam. O Vinicius entrou em contato com a profissão no ano passado quando fez um curso de cabeleireiro por quatro meses incentivado pelo seu pai, que já tinha o ponto de aluguel do salão. Lá, ele conheceu o Esdras – e a caminhada dos dois se mantém até hoje.

                 Gif: Guilherme Santana/VICE

O Vini conta que já tinha trampado como garçom, estoquista no Brás e num almoxarifado, mas que, apesar de nunca antes ter pensado na profissão atual, foi preciso só o primeiro curso pra ele se amarrar na parada. "Comprei a cadeira de cabeleireiro num ferro-velho por 50 reais, o espelho foi minha mãe que deu", se orgulha. O lugar é simples, mas tem tudo de que um salão e sua clientela precisam: "Nós somos modernos. Não tem revista no salão pros clientes lerem, mas tem wi-fi". O corte mais básico custa R$ 12; e, num dia bonzão, o Vinicius chega a aparar até 25 cabelos.

Daí que a carreira do cara tá sendo só ouro. Sempre pegando referências na internet das barbearias negras norte-americanas, ele quis se aperfeiçoar na arte dos cortes chavosos, com linhas e formas geométricas, que hoje são parte muito forte do estilo e da cultura das periferias de São Paulo. "Antes de a gente fazer esses cortes, ninguém fazia aqui [em Guaianazes]." E ele também conta que, de certo modo, acha que ditou moda: "A gente lança um corte na internet, e na semana seguinte já tem gente nas escolas com eles".

E não para por aí. Ele não só tem planos de fazer mais uma pá de cursos, como também dá aula pra uma galera de Itaquera toda terça sobre os cortes monstros que manja fazer. "Os cursos são caros, aí dá uma quebrada. Tem curso de um dia que custa R$ 300, mas, se não ficar atualizado, a gente fica pra trás."

No dia em que fomos sacar o "Bom de Corte" e conhecer a molecada que ia cortar o cabelo, eles colocaram as cadeiras e os apetrechos todos na rua, fazendo o trampo na garotada lá mesmo. Foi ao som de Racionais MC's que cada um teve seus fios milimetricamente desenhados. Em dois meninos, eles passaram um produto que chamaram de "desenrola nó" pra dar aquela alisada nas madeixas. Todo mundo saiu de lá feliz da vida; afinal, dar um xablau no cabelo melhora qualquer autoestima. "Vem gente até de outras quebradas cortar com a gente, a galera fica sabendo mesmo", relatou Vinicius.

A dupla conta que começou a fazer trabalho social depois que o Vini viu um vídeo na internet doPaulo Bronksdando um salve geral pros MCs, pedindo que eles fizessem doações pruma rapaziada carente. "Eu entrei em contato com ele e disse 'Olha, grana eu não tenho, mas posso cortar o cabelo de graça'."

Logo mais, os dois pretendem abrir um salão juntos, o "Barbeiros in Broken" (diga-se de passagem, melhor nome). A amizade é tanta que, por coincidência, eles vão ser pais com só alguns meses de diferença. E quem corta o cabelo deles? "Eu corto o dele, e ele corta o meu. A gente faz essa preza um pro outro", se divertem.

Larissa Zaidan na VICE

 


Quer uma boa leitura de graça? Basta procurar Giovanna Pampolin no Minhocão. 

Perdido num lugar distante de tudo, um homem se abriga na casa de uma família simpática e diferente. Essa gente tem um hábito esquisito: sair todas as noites para buscar o dia. Quando passa de novo por ali, o homem leva um presente que muda a rotina daquelas pessoas...”

Na infância, o fotógrafo Paulo Pampolin adorava esta história de Edy Lima, “A gente que ia buscar o dia”, contada pela mãe. O livro se perdeu, mas Pampolin guardou a fábula na cabeça e, a seu modo, passou a recontá-la para embalar os sonhos da filha Giovanna, hoje com 9 anos. Tal era a conexão entre pai e filha que Patrícia, atual mulher de Pampolin e madastra de Gigi, decidiu procurar um exemplar da obra nos sebos de São Paulo. Lima repousa atualmente nas estantes da família e é um dos raros livros aos quais a menina se apega. Os demais ela faz questão de compartilhar, depois de lidos, obviamente, com quem quiser. Quase todos os domingos ela e o pai oferecem literatura de graça aos pedestres do Minhocão, região central da capital paulista. 

A ideia de doar livros começou há pouco mais de seis meses. Dona de uma biblioteca invejável para a idade, Gigi se perguntou: por que não compartilhar com outros leitores? Encontro-a em uma manhã fria e cinzenta de inverno. O termômetro marca 13 graus, mas não a desanima. A menina empurra um carrinho repleto de obras de sua coleção rumo a um ponto do elevado, fechado aos carros no domingo. Entre artistas, ourives, ciclistas e turistas, ela monta sua pequena banca de exposição de tomos gratuitos.

Diante do empenho da filha, Pampolin criou no Facebook a página “A menina que doa livros”. Pela rede social, avisa quando estará ao lado de Gigi no Minhocão (as doações acontecem nos fins de semana que a menina passa com o pai), elenca os títulos disponíveis e aceita pedidos de encomendas. Giovanna lê todos os comentários, mas, por motivos de segurança, deixa as respostas a cargo do pai. “Em uma tarde, a página passou de 30 curtidas (seguidores) para mais de mil. Com isso comecei a juntar meus livros para doar também”, diz o fotógrafo.

Os adultos são a maioria dos frequentadores e também os mais desconfiados. Já perguntaram se havia câmeras escondidas ou se era pegadinha. Chegam tímidos, mas no fim sempre escolhem um título. Vários se comprometem a trazer seus livros para doar, embora poucos o façam de verdade.

O movimento varia e depende muito do clima. Nesse domingo frio e cinzento, Gigi doou apenas 5 dos 41 livros à disposição. Em dias mais ensolarados, relata a menina, não sobra nenhum exemplar. Eros, o cão da família, também é um bom garoto-propaganda. Quando ele vai junto, a visita aumenta. “O pessoal chega para brincar com ele e acaba pegando um livro”, conta a garota, ciente da empatia causada pelo animal.

Há quem peça para tirar fotos com a menina. Outros querem uma dedicatória no título escolhido, caso de Eliana Raposo, que passeava com o marido e aproveitou para dar uma olhada nas opções. Ela escolheu Trem-Bala, de Martha Medeiros, presente para a mãe. “Ela está querendo esse livro há tempos e encontrei aqui”, comemora Eliana. O marido, Wilson Rodrigues, até pensou em levar o poeta chileno Pablo Neruda, mas mudou de ideia e escolheu A Cidade dos Bichos, texto infantil de Arlette Piai. Dará a uma criança. Prova de que gentileza gera gentileza, como dizia o poeta carioca. 

Aos leitores Gigi e Pampolin só pedem um favor: a manutenção da corrente de doações. “O ideal é que o livro circule, não só troque de estante”, explica o fotógrafo. Para quem tem dificuldade em se livrar de seus livros (discos etc.), a menina aconselha: “Desapega”.

Pai e filho têm um trato. Gigi ganha livros quando quer. Outro tipo de presente só em datas muito especiais (aniversário, Dia das Crianças e Natal). Depois de sorver cada página, a menina coloca o exemplar na lista de doações. É o que acaba de fazer com O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, clássico preferido das aspirantes a miss. Encomenda, aliás, de um frequentador da página no Facebook.

Apesar de leitora voraz, Gigi não abre mão de um momento de prazer: a leitura noturna feita pelo pai antes de ela dormir. A voz a conecta com sua mais tenra infância. Só não valem histórias tristes. 

Wanezza Soares em Carta Capital.


Estela Renner era muito menina quando assistia à avó paterna, dona Cilú, filmar a família com uma Super-8 em punho. Era meados de 1970, e o cinema era não só um passatempo, mas uma paixão daquela mulher, que tinha como atividade principal cuidar da casa, olhar pelos quatro filhos e, como bem lembra Estela, “ser avó”. Em um dos cômodos de sua casa, Cilú construiu uma ilha de edição. Sabia montar os filmes, gravava em planos variados e investia no equipamento. Foi suficiente para encantar Estela.

Se para a avó era custoso e ousado demais seguir com o cinema como profissão, para a neta foi não só viável como infalível. Hoje, aos 41 anos, Estela é diretora e roteirista, reconhecida dentro e fora do Brasil por documentários estilo nocaute, que desestruturam quem os assiste. O motivo é simples: ela toca em temas caros à sociedade e cada vez mais quentes. Infância é sua especialidade, e sobre o assunto já são dois longas lançados e um em fase de finalização.

O primeiro, Criança, a alma do negócio, de 2008, coloca luz na má publicidade dirigida aos pequenos e inaugurou o trabalho da Maria Farinha Filmes, produtora criada ao lado dos sócios Marcos Nisti e Luana Lobo. Muito além do peso (2012), seu maior sucesso, é derivado do primeiro filme, mas com um foco específico: a epidemia de obesidade infantil no Brasil e no mundo. O longa já ultrapassou 2 milhões de visualizações na internet. Nele, Estela e sua equipe viajam o país visitando famílias e mostrando o que e como nossas crianças comem. Um mérito e uma coragem desse projeto: os rótulos e as marcas dos produtos são todos expostos. Tabelas nutricionais são escancaradas ao lado de punhados surpreendentes de açúcar, gordura e sal; ingredientes muitas vezes velados nos alimentos.

O projeto mais recente foi um pedido de três instituições à diretora. A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o Instituto Alana – ONG parceira e a maior incentivadora das obras de Estela – e a Fundação Bernard van Leer, todas dedicadas a causas da infância. “Queremos que você faça um filme autoral sobre a importância dos três primeiros anos de vida de uma criança”, dizia o convite que Estela atendeu “com o coração”. O longa está sendo chamado de Be - um filme sobre os primeiros 3 anos da vida de uma pessoa, mas o nome ainda pode mudar, e deve estrear no primeiro semestre de 2016. “Sem afeto e presença simplesmente uma criança não acontece. Por isso é tão precioso e primordial investir no amor na primeira infância”, diz a diretora, convicta depois das filmagens do documentário.

De família de classe média alta, criada no bairro paulistano de Alto de Pinheiros e educada em uma escola de elite, Estela foi ter contato com o que lhe era diferente na adolescência em viagens que fazia como bandeirante a comunidades carentes do interior do país. Antes de decidir o que faria da vida, deu boas voltas. Foi modelo, atriz, cursou nutrição na USP e desenho industrial no Mackenzie, e dirigiu muita publicidade. Mas sempre soube que precisava trabalhar com pessoas e para elas. Ela gosta de chamar isso de “empatia pelo outro”. O cinema virou certeza quando foi fazer um vídeo no México, um trabalho voluntário para promover uma creche que cuidava de crianças que viviam na fronteira do país com os Estados Unidos. “Dirigi e me dei conta de que queria mesmo fazer audiovisual.”

E ali está ela, pronta para perturbar. Na sede do Instituto Alana, em um arranha-céu no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde também fica a Maria Farinha Filmes, Estela nos contou sobre sua vontade de cutucar através das câmeras. Ainda falou de maternidade, dos três filhos, de seu casamento com o cineasta Tadeu Jungle, publicidade, redução da maioridade penal e transformação social. “Me interesso por filmes que provoquem e sensibilizem, que ajudem a transformar o mundo em um lugar melhor. Pode parecer utópico e clichê, mas levo a sério. Sendo um pouco sonhadora, acredito na transformação que podemos realizar com o cinema.”

Tpm: Em 'Be' você fala sobre a importân-cia do amor na primeira infância. Sua experiência como mãe influenciou? 

Estela Renner: Tenho três filhos, mas isso não significa que já sabia o suficien-te. Claro que eu tinha um começo, um lugar de onde partir. Além de ser mãe, não tive babá. Sempre tive uma relação muito próxima com eles. Mas estudei muito para fazer o filme. As três instituições que me convidaram são sérias, idôneas, e lidam com esse assunto há muitos anos. Foi assim que decidi ficar em cima de uma das descobertas científicas que mais revolucionaram o olhar para a primeira infância. A criança não é uma tábula rasa quando nasce, em que você insere um monte de informações. Mas também não é puramente bagagem genética. Ela vai se formar através das relações humanas e da genética. Então, esses primeiros três anos são uma janela gigante para a formação dos indivíduos. Muita gente acredita que não há aprendizado nesse período. Mas, na verdade, esse é o momento mais formador da vida. Isso muda tudo.

Por isso o amor nessa fase é tão importante?

Sim. Sem amor simplesmente essa criança não acontece. E amor se estende a muitas coisas. É você amamentar seu filho, e quem não puder amamentar, é dar a mamadeira com amor e atenção, olhando nos olhos dele. Segurar esse filho nos braços e se dedicar ao contato amoroso através do olhar, do toque.

O filme está sendo finalizado em um momento no qual discutimos a redução da maioridade penal. Esquentando essa discussão vemos diversas histórias de menores infratores que nasceram e cresceram em famílias fragmentadas, sem amor. Você concorda que o problema dos crimes muitas vezes está nesse contexto familiar? 

Vou recorrer a James Heckman, um dos especialistas que entrevistei para o Be. Ele ganhou o prêmio Nobel de economia e tem muitos artigos publicados nos Estados Unidos. James falou de um estudo que fez para identificar em qual idade a criança aprendia mais. Quando chegaram na primeira infância, viram que era o momento em que de fato mais se aprendia. E perceberam que as sociedades que mais cuidavam dessa fase conseguiam prevenir crime, violência, comportamentos compulsivos e uso de drogas.

Para o James, é mais fácil e possível, em termos econômicos, oferecer uma primeira infância saudável e amorosa do que tentar consertar no adulto comportamentos nocivos. É mais importante investir na família e nos cuidadores dessa criança do que depois “fix a broken man”, como ele diz. Porque como você vai voltar lá atrás em experiências traumáticas formadoras daquela identidade? Elas estão solidificadas, vêm de um tempo em que aquela pessoa era bebê. E mais, essa pessoa nem tem mais acesso a essas memórias. Que adulto esperamos que uma criança abandonada constantemente, que vive um estresse tóxico diário, vire? Segundo James Heckman, nada dá mais lucro pro Estado do que investir no ser humano assim que ele nasce.

Leia a íntegra da entrevista a Natacha Cortêz na Revista TPM: http://goo.gl/xpzF89