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Meu pai diz que nasci com rodinhas nos pés. Desde que aprendi a andar minha vida se resume em querer viajar. Nasci em Botucatu, interior de São Paulo, mas nem sei onde fica no mapa. Com menos de um ano minha família e eu nos mudamos para a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, e lá vivi a infância dos sonhos, onde aprendi o valor de ser livre, de andar descalça, pescar na lagoa, nadar no mar e claro, andar de bicicleta. Foram muitos tombos pela Beira Mar Norte, em uma época em que ninguém sabia o que era uma ciclovia.

Aos meus 10 anos fomos para a capital paulista. Difícil transição…. Viver em São Paulo nunca foi fácil para mim. Cheguei na cidade pela primeira vez com uma referência de vida que não cabia na metrópole. Da liberdade das ruas, árvores e do mar fui diretamente para o concreto, para o anonimato e para a hostilidade. Foi então que comecei a pedalar pra valer, estava com 15 anos, era 1989. Comecei e nunca mais parei. Foi nesse período também que iniciei minha vida de viagens. Meu primeiro trabalho foi aos 13 em uma oficina mecânica e todo o dinheiro que ganhava gastava viajando. No início para locais próximos, acampar pelas praias do litoral norte ou de Ilhabela.

Depois, aos 20 anos, me mudei para Londres, capital da Inglaterra, onde vivi por 10 anos. Nesse período pude transitar pela Europa, fosse para rever amigos, dançar, comer ou apenas caminhar pelas cidades cheias de passado.

Aos 30 anos deixei Londres e passei um ano mochilando pelo mundo. Índia, Sudeste Asiático, Estados Unidos, Américas Central e do Sul. Com 31 pousei novamente em São Paulo, trabalhei, fiz faculdade, casei. Aos 40 descasei, deixei o emprego e voltei a fazer aquilo que faço melhor e mais feliz: pedalar por aí.

De volta ao mundo conhecido

A bicicleta me devolveu para o mundo que eu conhecia. Vento no rosto, autonomia, bem estar e prazer. Quando pedalamos enxergamos os espaços de outros ângulos. A bicicleta nos aproxima da dinâmica da cidade, humaniza nosso olhar e traz uma sensação autêntica de pertencimento, onde aprendemos a dividir e cuidar. Sou ciclista há mais de 25 anos. Mudei de cidade, de país, de estado civil, mas nunca mudei o hábito de transitar em duas rodas.

Para minha sorte, andar de bicicleta e viajar é um casamento perfeito, pois em qualquer lugar do mundo você encontra uma bicicleta. Seja para alugar, pegar emprestado e às vezes até comprar. E não há forma melhor de ver o mundo. De bike você se enfia em qualquer lugar, não há burocracias ou custo com transporte. Você chega em qualquer cidade e tem autonomia para ir e vir. Não tem medo nem preguiça de se perder (aliás, se perder faz parte da diversão). E pra finalizar, mas não menos importante, é saudável e prazeroso.

A opção pela estrada

Trabalho, carreira, profissão? A formação acadêmica e, portanto, a resposta oficial seria: Administração de Empresas e Gastronomia. Mas na realidade, qualquer coisa que seja lícita, minimamente prazerosa e que, vez ou outra, me permita ir para o mundo. Tenho 4 paixões na vida, das quais não abro mão: pedalar, fotografar, viajar e Paco, meu cão (safado, mimado e absurdamente adorável).

E aí muita gente me pergunta: mas como você faz para pagar por essa vida de viagens? Eu conto: não tem patrocínio, não tem herança ou dinheiro de família. É dinheiro de trabalho suado mesmo. Mas acima de tudo, uma escolha! Não tenho casa própria, não tenho filhos e não tenho bens de valor. Mas tenho a estrada! Optei por ela, afinal, a felicidade está em lugares diferentes para pessoas diferentes. O mundo seria insuportavelmente chato se fôssemos todos iguais, com os mesmos pensamentos, ideais e sonhos.

Trabalho, trabalho, trabalho, compro imóvel e quando está tudo estável deixo o trabalho, vendo o imóvel e vou viajar.

Quando estou trabalhando e as viagens se resumem a um mês por ano me dou ao luxo de ficar em hotéis melhores e não me privo de coisas gostosas como bons vinhos, jantares, teatro, etc. Já nos períodos sem salário as viagens têm outro aspecto. Sou econômica sem ser mesquinha. Isso é importante, pois seres mesquinhos me incomodam. Fico em albergues, hospedarias ou na barraca do camping. A alimentação pode ser em qualquer boteco, conto moedinhas para pagar a conta e uso sabonetes de “amostra-grátis” para lavar roupa.

Não tenho mais idade para ser radical, todos os mundos me encantam, cada qual com suas qualidades e limitações. E a beleza é saber que consigo transitar por eles saboreando o que cada um tem a oferecer. O real luxo é ser livre. Livre de estereótipos, de preconceitos, de intolerâncias, do medo do que é diferente, e claro, livre do medo de que não vamos conseguir.

Raquel Jorge, nova colaboradora do Vá de Bike.

 

 

‘O sentido da vida é aprender a lembrar que hoje pode ser o último dia’, diz jornalista que largou direção no Yahoo! para se dedicar a sebo de livros

No final de 2014, o jornalista Ricardo Lombardi, de 44 anos, largou o cargo que tinha de diretor de conteúdo do Yahoo! para se dedicar à venda de livros usados em um sebo montado na garagem da casa de sua mãe. A corajosa decisão dele, que inclui a redução dos gastos mensais em 70%, me fez ir até lá para entrevistá-lo, curiosa para saber o que ele responderia sobre o sentido da vida.

Cheguei no endereço onde fica a simpática loja de livros usados, chamada Desculpe a Poeira, em Pinheiros, no meio da tarde. Ricardo estava sentando numa mesinha na calçada do sebo, tomando um café e escrevendo no notebook. Na mesa, um livro e uma revista. Ao redor dele, duas bicicletas: uma para uso pessoal e outra adaptada com caixas para carregar livros.

A cena denunciou uma intenção que o jornalista em seguida me confirmaria verbalmente: a busca por simplificar a vida.

“Acho que simplificar é uma palavra interessante para mim. O mundo em que a gente vive é de muito consumo, as próprias escolhas são voltadas para o consumo. A gente tem que ter um celular melhor, e a tendência é sempre trocar as coisas por algo melhor ou superior. E acho que falta um pouco aquele momento que você para e pensa, eu preciso disso? Preciso dessas coisas? Eu preciso desse tênis, dessa roupa, desse celular? Se questionar um pouco mais acho que você consegue simplificar a sua vida e sua escolha também.”

Eu perguntei a ele o que o moveu para apostar na mudança. Ricardo explicou que a escolha tem a ver com uma fase de ter mais tranquilidade na vida. Comentou, ainda, sobre a percepção de que o tempo é finito.

Em 2013, num curto período, a filha dele nasceu e seu pai morreu. Apesar de os dois fatos não terem relação direta com sua decisão de mudar a rotina, a experiência de vivenciar quase no mesmo tempo o nascimento e a morte fez com que ele refletisse mais sobre o sentido de sua existência. “Você começa a perceber que vai envelhecer, que as coisas vão passar, que você não vai poder voltar para fazer coisas que deixou de fazer.”

E foi essa sensação que o motivou a pensar que poderia fazer coisas que dão mais sentido para ele, de forma a passar mais tempo com a família, citando a mãe, a esposa e dois filhos. “Eu acho que a gente vai ficando mais velho e vai percebendo que andar de bicicleta é mais saudável, que andar a pé é mais saudável, que você pode se vestir de forma mais simples, se alimentar de forma mais simples e saudável, aproveitar mais as coisas que não custam nada.”

Para ele, o sentido da vida é “viver plenamente” e saber que as questões de hoje é que precisam ser colocadas na mesa, já que o passado já foi e o futuro ainda não aconteceu.

“Acho que cada um precisa entender a sua participação no mundo. Para mim, o sentido sempre foi viver o presente. É aproveitar o dia e tomar as decisões naquele dia como se fosse o último da sua vida, porque você não sabe o que vai acontecer, você pode escorregar numa casca de banana ou você pode ser diagnosticado com uma doença incurável. É um erro você projetar muito para o futuro. ”

E completou: “o sentido da vida, acho que é aprender a lidar com a questão do presente, aprender a sempre lembrar que hoje pode ser o último dia.”

Vida no jornalismo

Ricardo trabalhou em redações de jornais por 25 anos, muitos deles em cargos de editor e diretor. Começou aos 17, como arquivista do Estadão, onde se apaixonou pela profissão e largou o curso de Direito que fazia para estudar jornalismo. Entre os veículos onde trabalhou está o Jornal da Tarde, editora D’Ávila, América Online (AOL), editora Abril e o Yahoo! (onde estava até setembro deste ano).

A mudança de vida não aconteceu de uma hora para outra. Na verdade, o que Ricardo fez foi sair do emprego para poder se dedicar a um projeto pessoal que toca há alguns anos. Desde 2007, ele tem um blog chamado Desculpe a Poeira, hoje hospedado no site do Estadão, onde dá dicas e sugestões de leituras.

Em 2013, numa viagem à Argentina, viu um sebo que despertou nele a ideia de criar, em suas próprias palavras, a “extensão analógica” do blog. “Pensei, e se eu fizesse um sebo com edições que eu gosto ou que alguém gostou, deu para mim e eu posso passar adiante? Eu tive essa ideia e pensei nessa garagem, que é da minha mãe. Falei, vou colocar em prática.”

Na época, o jornalista era diretor da revista VIP e trabalhava de segunda a sexta-feira. Foi nos finais de semana que ele mesmo reformou e transformou a pequena garagem da mãe no simpático sebo, processo que durou um ano e meio. “Primeiro eu pintei, coloquei as luminárias, fiz as prateleiras, o móvel, tudo. Até esse banquinho eu fiz”, disse, me apontando para um pequeno banco de madeira – a reportagem do Draft explica que ele fez cursos de marcenaria.

Desapego!

O desprendimento com relação aos bens materiais começou nessa época, inclusive. Ricardo percebeu que para tornar o sebo realidade precisaria desapegar do próprio acervo pessoal de livros. “Toda a minha biblioteca que eu tenho está aqui. Eu não queria me livrar dela, mas isso aqui só seria possível se eu começasse com ela.”

Em setembro de 2014, a ideia do sebo já estava formatada o suficiente e ele viu que o projeto precisava de mais tempo e dedicação para ganhar força. E foi por isso que resolveu sair do Yahoo!. “Eu acho que quando você tem um projeto em que acredita, você precisa gastar toda a sua energia nele, e não dividir em várias atividades, fracionar seu dia e sua energia, esse é meu modo de pensar.”

Para que a mudança fosse possível, ele vendeu o carro, mudou o estilo de vida e cortou seus gastos em 70%. Eu perguntei a ele se estava fazendo falta: “não, até agora não fez falta.” Ricardo estava vivendo de sua poupança, mas acreditava que dentro de um ano o sebo começaria a dar retorno financeiro.

“A beleza da nossa vida é que a gente pode fazer o que a gente quiser. A gente pode nascer de novo, mudar de profissão, reformular ou reformatar a nossa vida de outro jeito, que faça mais sentido naquela fase especifica. Eu não estou dizendo que é errado gastar dinheiro com roupa ou comer em restaurante caro, eu não acho errado. Você tem que saber que aquilo se encaixa com aquela fase da vida que está vivendo. Na minha fase atual, eu prefiro ter uma vida mais simples, prefiro ganhar menos, e gastar mais tempo com as pessoas que eu gosto, essa é a maneira que eu acho que pretendo gastar meu empo no resto dos dias.”

Gabriela Gasparin é jornalista, blogueira e escritora. Em 2013 criou o blog www.vidaria.com.br, onde publica depoimentos sobre o sentido da vida. O trabalho resultou no livro “Vidaria, uma coletânea de sentidos da vida”, à venda no site www.autografia.com.br

Vidaria é um projeto parceiro CONTI outra.

 

Há um ano, Aline Marques passou a ver mais a luz do dia. Em vez de trabalhar nas noites de São Paulo, ela agora acorda cedo, vai para a escola, recebe bom dia dos colegas e ganha abraços no trabalho. Aline diz que a nova rotina é "pura felicidade" - e o que ela chama de felicidade é não ser humilhada, não sofrer ameaças e não apanhar. 

Aline é uma das 100 transexuais e travestis que participam do Transcidadania, projeto piloto da prefeitura de São Paulo que dá bolsas de R$ 827,40 reais para quem cumprir 30 horas de aulas semanais. O G1 acompanhou as aulas e as atividades do grupo durante um mês e entrevistou dez participantes - veja o vídeo com os relatos.

Além de frequentar a escola (86% não haviam terminado o ensino fundamental), as participantes recebem atendimento psicossocial, pedagógico e médico. O foco do programa são pessoas em situação de vulnerabilidade: 85% vivem em quartos compartilhados, em casa de cafetina ou hoteis, 6% estão em albergues, 5% em ocupações e 4% são moradores de rua. Uma das exigências para ingressar no programa é estar há pelo menos três anos sem emprego com carteira assinada.

Após seis meses do lançamento, a taxa de evasão é de 10% - além dessas dez, outras três pessoas saíram porque foram presas, uma conseguiu emprego e uma transexual morreu (baleada por um cliente quando estava se prostituindo). Mais de mil pessoas se inscreveram para a lista de espera e 171 estão aptas a participarem de uma eventual segunda turma.

As 30 horas obrigatórias são preenchidas por atividades escolares e cursos ministrados no Centro de Cidadania LGBT, recém-inaugurado no Largo do Arouche. As salas ficam cheias (as faltas são descontadas do pagamento) e muitas vezes os professores têm dificuldade de lidar com a ansiedade dos alunos pela vez de falar - e a vontade de serem ouvidos.

“A primeira aula foi impossível de dar. Todo mundo falava junto”, contou o professor Fabio Mariano, doutorando em ciências sociais. Além da dificuldade de relacionamento entre os participantes - em uma das turmas a aula foi interrompida porque o grupo considerou a roupa de uma das alunas muito curta e transparente para o ambiente do curso - há ainda a dificuldade de se conviver com o contexto de violência que muitos vivem e acabam reproduzindo em falas e discursos agressivos. “A violência que sofremos na rua às vezes é internalizada e explode no outro”, disse Fabio em uma das aulas.

Mas, aos poucos, as coisas parecem mudar. “Teve uma aluna que pra qualquer coisa falava: ‘vou pegar fulano pelo pescoço’, e foi parando. Ao mesmo tempo, ela foi começando a participar de fóruns e debates públicos”, contou o professor.

No curso de Cidadania e Direitos Humanos, os homens e mulheres trans aprendem como funciona o Congresso, quais são os direitos que todos temos garantidos pela Constituição, como é a divisão de poderes e como se faz uma lei no Brasil.

Nos debates, surgem dúvidas sobre a possibilidade de usar o nome social nas escolas e em hospitais, e sobre a recente questão da retirada de referências às questões de gênero no Plano Municipal de Educação. Os professores estimulam os alunos a pensar políticas e formas de ter mais representação nos assuntos de interesse do público LGBT. “A gente precisa investir na formação de vocês”, diz Fábio para os alunos. “Eu não sou a voz de vocês. Vocês são a voz de vocês.”

A certeza é a rua

O perfil dos participantes do programa é muito parecido. A maior parte é de negros e pardos - 63%. São 52 travestis, 43 transexuais e cinco homens transexuais. Alguns foram expulsos de casa pelos pais ou sairam por vontade própria e conheceram a vida na rua. A grande maioria, segundo a coordenação, se prostitui - poucas pararam, mas muitas conseguiram diminuir a frequência dos programas.

“Diminuiu minha carga horária, mas preciso complementar minha renda. [...] Antes eu tinha que ir todo dia. O projeto não é a salvação, mas é uma ajuda. A única certeza é a rua”, diz Ciara Pitma, uma piauiense de 25 anos que sonha em trabalhar com moda.

Algumas - geralmente as mais jovens - dizem gostar da liberdade que a prostituição dá. Mas as falas são geralmente de cansaço e vontade de mudar de vida. “Nunca consegui um trabalho assalariado. O que me restou foi fazer programa. [...] Já fui espancada, já me abusaram, já me roubaram. Eu não quero mais isso pra mim. Eu quero apenas ter um trabalho digno”, diz Ciara.

A grande preocupação dos integrantes do programa é conseguir um emprego - segundo uma avaliação feita ao final do semestre, 54% buscam no projeto uma inserção no mercado de trabalho. E esse é também o grande desafio da coordenação. “A gente não quer absorver essas pessoas dentro do poder público. A gente quer que elas vão pro mercado de trabalho. [...] Se a gente conseguir 100 pessoas estagiando em empresas ao final do programa a gente tem aí uma vitória", disse a então coordenadora do programa - e também transexual - Symmy Larrat.

Mas para algumas participantes, a mudança, mesmo que pequena, significa um recomeço. “Você sabe a dignidade de levantar de manhã, tomar um café, pegar um ônibus e as pessoas te tratarem bem? Eu revivi. Eu vivia na escuridão, eu me vestia de palhaço pra dar sexo pra um monte de homens. Eu fiquei depressiva, eu pedia pra Deus me levar", diz Aline. "E hoje… Hoje eu me sinto integrada na vida das pessoas. Hoje eu vejo que é simples a vida. É simples ser feliz.”

Giovana Sanchez do G1 São Paulo.

 

O artista plástico Eduardo Kobra fez uma intervenção artística na última terça-feira, na rua Helvétia, também conhecida como Cracolândia.

Ele contou com a ajuda de dependentes químicos que vivem na região. Tanto eles quanto quem passasse pelo local eram convidados pelo artista a usar as tintas. O projeto, que segue por outros nove diferentes destinos nos próximos dias, foi intitulado por Kobra como "São Paulo: Uma realidade aumentada".

O painel colaborativo criado nesta terça será leiloado no final do mês, na Galeria Victor Hugo. O valor arrecado será revertido para o programa Braços Abertos, iniciativa da Prefeitura que dá abrigo e emprego aos dependentes químicos da região.

Kobra aproveitou também para expôr algumas de suas telas. Entre os retratados estava John Lennon, Martin Luther King, Gandhi, Nelson Mandela e Albert Einstein.

Rafael Nardini no Brasil Post.

 

Nos últimos dias, o inverno deu as caras na cidade de São Paulo. Porém, pra quem dorme pelas calçadas e pelos viadutos, ele é ainda mais impetuoso. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua divulgado este ano, existem 15.905 pessoas vivendo nessas condições pela capital.

A maioria está nas regiões da Sé e no bairro da Mooca. Principalmente os homens, que correspondem a 82%. Dentre tantos números, o mais preocupante é saber que cerca de 7.335 pessoas rejeita os centros de acolhida oferecidos pela prefeitura e continuam dormindo nas ruas mesmo quando o frio é de bater os dentes.

Conversamos com quem vive em situação de rua e as reclamações parecem pontuais: os abrigos são impessoais e o tratamento nem sempre é dos melhores. Mas o que mais parece incomodá-las são os horários de entrada e saída – que costumam ser às 16h e às 6h ou 7h, respectivamente. Priscila, há oito anos na rua, dá sua opinião: "Lá, tem hora certa de levantar. Na calçada, a gente levanta a hora que quer."

Isabel Bueno, coordenadora de Proteção Social Especial, explica que as regras são necessárias nos centros de acolhida, mas que podem ser mais rígidas ou mais flexíveis, dependendo do local. "Tem limite de horário pra entrar. Não dá pra toda hora ter alguém chegando porque a pessoa que está em repouso é incomodada." Atualmente, 10 mil vagas são oferecidas pela prefeitura. Mas podem aumentar de acordo com a demanda, principalmente em época de inverno.

O Padre Julio Lancelloti, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo, problematiza a situação e acredita que esses encaminhamentos são muito burocráticos. "O discurso oficial tem resposta pra tudo. Está tudo solucionado, está tudo encaminhado. A vida das pessoas é mais complexa. Não é tão simples assim."

Conhecido não só pela militância política, mas também pelo sólido trabalho social que há anos realiza com a população de rua, ele acredita que as medidas ofertadas são raciocinadas em cima de quantidade, e não de diversidade. Ele cita o fato de casais hetero ou homossexuais não poderem dormir juntos nunca, já que os quartos são sempre separados.

A impessoalidade dos abrigos e o desejo de ter alguma intimidade são outros motivos pelo quais a rua parece ser mais confortável. "Uma grande busca que eles tem é por moradia. Ter o seu próprio lugar de aconchego, de sossego. É isso que não existe. O que existe são respostas massivas, de grande quantidade, que não respeitam a individualidade, a autonomia. Essas pessoas são consideradas sem autonomia."

A própria galera de rua rejeita qualquer sentimento de coitadice e sabe bem de suas condições em boa parte dos casos: álcool, drogas, falta de rotina, instabilidade emocional e financeira, bicos constantes pra levantar algum dinheiro. Entretanto, se os centros de acolhida são pensados e estruturados com base nesses perfis, por que parecem não agradar mesmo diante do inverno? Pra entender melhor, conversamos com os protagonistas dessa história.

Cristiano: Existe muita discriminação dos funcionários nos abrigos. Tratam a gente como animal. Não vira. [É melhor] ficar na rua mesmo. Você vai pedir alguma coisa pra eles e eles já vem xingando, perguntando por que a gente não vai trabalhar. Tem albergue que você tem que entrar às 16h e sair às 7h.

Seria melhor se a prefeitura desse emprego pra nós. Podiam alugar um barraquinho pra nós. Até comprar um barraquinho na favela eu comprava.

Priscila: Mal a gente não passa porque chegam muitas doações de coberta. Fico embaixo do viaduto. Desculpa, mas de albergue eu também não gosto. Ainda mais agora que tá no inverno. Lá, tem hora certa de levantar. Na calçada, a gente levanta a hora que quer. O duro é de manhã, pra sair. Geralmente, sai antes das 7h.

Pra melhorar, podiam tirar a gente da rua. Tem tanto prédio construído. Podiam fazer CDHU, pegar nossos nomes e colocar a gente pra morar lá dentro. A nossa parte a gente tinha de fazer. Pagar a luz, a água, o gás. Se dessem essa oportunidade... É isso que eu estou esperando. Eu não. Nós todos.

Genivaldo da Silva, 38 anos, atualmente em abrigo

Eu tenho vaga fixa em um abrigo. As pessoas não gostam de ir porque a qualidade dos abrigos em São Paulo está defasada. Antigamente, era só gente a partir de 40 anos de idade na rua. Hoje, tem até gente de 19 anos nessa situação. Tem muita droga, álcool. Na verdade, as pessoas são causadoras de situação, de incômodo. Elas furtam muito. Só querem brigar. Elas são difíceis de lidar. Os abrigos seriam pra gente que está nessa situação e não tá conseguindo se inserir na sociedade. É muito complicado lidar com essa gente.

Luizmar, 28 anos, dez meses em situação de rua

Durmo aqui na rua. O inverno é complicado porque baixa muito a temperatura. Se não tivermos o socorro que vem de vocês, das ONGs, do pessoal da doação, é complicado. As pessoas não gostam de ir pra abrigo porque... É muito bonito falar em abrigo. Mas só estando lá dentro... A superlotação é um dos fatores que faz todo mundo ficar tumultuado. Objetos somem. Custa conseguir uma roupa mais ou menos, uma caixa de música. Aí você vai prum lugar desse e some, te roubam. Não são todos, mas em alguns lugares existe também a opressão por parte dos funcionários. Alguns se sentem porque a pessoa tá num estado de rua e não conhece seus direitos. Eles acham que podem pisar. Por isso, a maioria prefere ficar na rua. Tem a questão da liberdade também. Geralmente, quem está na rua ama a liberdade ao extremo.

A dificuldade da pessoa que vive na rua é lidar com certos tipos de regra, ficar trancado. Se fosse pra todo mundo entrar e sair do abrigo, todo mundo ia querer. Mas eles sabem que quando der 16h, 17h você entra e fica lá.

A rua também tem regras. Existem casos e acasos. A população de rua é complicada. Não dá pra falar de todo mundo. Cada um está na rua por diversos motivos. Quem já está há alguns anos se acostumou com esse ritmo. As chances de voltar pra família são bem mais difíceis.

Faz dez meses que tô nessa situação e meu problema é familiar. Divórcio. A rua é boa pra quem tem dificuldade de lidar com família, com regras, com drogas. Porque 80% das pessoas que estão aqui tem problema com drogas. A família já abriu mão.

David, 33, espanhol, há oito meses em situação de rua em São Paulo

Tenho dormido no Cimento da Bresser [região repleta de pessoas em situação de rua na Zona Leste]. A gente vai sobrevivendo como pode. Graças a Deus tenho enfrentando melhor. Antes, quando eu morava na calçada era pior. O abrigo tem muitas obrigações, tem que chegar antes das 21h, tem que ir embora às 6h. Ninguém gosta. Mas os funcionários me tratam bem.

Amanda*, 16 anos, há três meses na rua

Estou em situação de rua há três meses. Vim pra cá por causa da morte da minha mãe. Vai fazer duas semanas que ela faleceu. Viver na rua tem liberdade. Pra mim, é liberdade. Já fiquei em abrigo e, tipo assim, é difícil lá dentro. Tem que acordar às 5h da manhã. Não pode dormir mais. Na rua, você pode dormir no horário que quiser. Eu faço minhas regras. Eu tenho minhas regras. Acordo de manhã, monto meu barzinho ali, vendo minhas coisinhas. Arrumo o barraquinho, ajudo o pessoal. Não gosto de acordar às 5h da manhã, né.

É um sufoco dentro do abrigo porque lá é muita lotação, tem muita mulher, muito homem. Tem que ter espaço pra dormir. Se não tem, tem que ir pra outro abrigo. Se você ficar quinze dias no abrigo, você consegue pegar vaga fixa. Aí você pode morar no albergue. Mas você não pode usar nada lá dentro. Tem regras. Não pode usar maconha, álcool, você tem de estar sã dentro do albergue. Não pode todo mundo ficar tumultuando. Eu não tumultuo, não. Eu gosto de ajudar os outros. Eu sou uma alma caridosa.

Eu quero ter uma casa, morar com o meu esposo, ter um filho. Tô tentando. Um dia eu consigo.

* O nome da entrevistada foi trocado para preservar sua identidade.

Fonte: VICE.

 

 

Emicida está prestes a lançar seu sexto trabalho. Completando oficialmente dez anos de carreira, ele esteve, pela primeira vez, na África. Fez a travessia em busca de elementos para fundamentar suas músicas e a própria vida. No palco ou fora dele, o rapper marca um posicionamento claro a favor da liberdade em tempos de reacionarismo.

“Quer algo mais rock’n’roll que a vida dos preto?”, pergunta Emicida em um post no Facebook. O texto vem acompanhado de um vídeo em que ele aparece curtindo um som pesado, que fala de camburões e antigos navios negreiros. Na caixa de comentários, os fãs debatem que som é aquele, que não encontram em lugar nenhum. Os mais espertos comentam que deve ser uma música nova do rapper. Estão certos. O nome da música é Boa Esperança e estará no novo disco de Emicida, ainda sem título definido, trabalho que nasceu a partir da viagem para Cabo Verde e Angola, parte da África lusófona, e foi finalizado no Brasil.

Essa canção, no entanto, foi criada na Água Fria, bairro da zona norte de São Paulo, onde Emicida vive. Momentos antes de embarcar para o continente africano, em março passado, ansioso com o que iria encontrar por lá, ele revelou à reportagem da Brasileiros por que deu esse título à música: “Boa Esperança é o nome de um navio negreiro no livro A Rainha Ginga, do angolano José Eduardo Agualuza. Um navio no qual um padre viaja e faz o caminho contrário da escravidão. “Passei um tempo sem fazer nada, só lendo esse livro.” Além da inspiração literária, o fato de os navios negreiros levarem nomes que sugeriam confiança e felicidade incomodou o rapper. Obras de outros autores africanos, como os moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane, estão entre suas preferências. “Mia Couto é foda, o jeito que ele escreve é muito bonito, fala de maneira doce da realidade.”

Boa Esperança foi devagarzinho ganhando o mundo. Primeiro, no palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro. Depois pelo YouTube, com uma gravação amadora de um trecho da música apresentada no show carioca. As imagens são bonitas, o som não é dos melhores, só que a cena toda faz a gente se lembrar dos tempos em que ele era um desconhecido do grande público, mas um MC de sucesso por seus vídeos nas batalhas de rima que aconteciam na Galeria Olido ou no metrô Santa Cruz, entre outros pontos de São Paulo.

Não acabou aí a repercussão da nova música. No Twitter, frases da canção, como “cês diz que nosso pau é grande, espera até ver o nosso ódio”, já se espalhavam.

Emicida - "Boa Esperança" (Videoclipe Oficial - Direção Kátia Lund e João Wainer): https://youtu.be/AauVal4ODbE

 

Na última quarta-feira de junho, sem aviso prévio, Emicida liberou a íntegra de Boa Esperança, mais uma vez pelo YouTube. Também divulgou um clipe do single, dirigido por João Wainer (diretor do documentário Junho) e Kátia Lund (codiretora de Cidade de Deus ao lado de Fernando Meirelles), em que conta a história de uma revolta propagada por um grupo de empregadas domésticas. No Youtube, o vídeo já soma quase 600 mil visualizações, além de ter gerado um forte debate sobre seus significados. (Leia: 5 textos para provar que “Boa Esperança”, a música nova de Emicida, é uma aula de história negra e contemporânea). 

Por enquanto, o rapper não pode contar mais sobre o novo disco, previsto para o final deste mês de julho. Mas, durante os quatro encontros que manteve com a reportagem da Brasileiros, foi adiantando os efeitos da recente viagem à África. “Mudou tudo. Tem um Emicida antes e depois de Cabo Verde e Angola.” Na sequência, faz referências ao cientista social cubano Carlos Moore ao dizer: “É muito difícil odiar a África e os africanos sem que, em algum ponto, você odeie a si mesmo. Esse bagulho ficou girando na minha cabeça”.

Em território africano, Emicida reavaliou tudo o que leu durante a vida sobre o continente. “Percebi a interrupção gerada por uma cultura que não era dali, que passou a criminalizar a dança, o canto, o sorriso. Um mês depois, eu fui na França, fui olhar os murais da igreja e fiquei triste porque de todos os murais da igreja, aqueles vitrais lindões, o único que tava sorrindo era o diabo, mano. Aí pensei: ‘Caralho, a felicidade é um pecado mesmo, né?’.”

As composições do novo CD chegam após um 2014 quase parado em termos de produção. “É bom parar um pouco, cruzar os braços, parar de dar sua perspectiva para o mundo e ouvir o que os outros estão falando. É bom ouvir também. Isso é um ensinamento do jazz, porque, quando a gente ouve, consegue entrar na história de uma maneira melhor, entendeu?”

O artista em processo, como gosta de se definir, ouviu bastante e agora quer falar. Está de volta à ação, chegando ao ponto de se tornar uma figura difícil de se fotografar. É a intensidade com que sempre comandou o ritmo dos seus 15 minutos de fama que agora já duram uma década. Quando menos se espera, lá está Emicida na Virada Cultural de São Paulo, no final de junho, com todos da banda vestidos de branco, em protesto aos recentes casos de intolerância religiosa, como o da garota apedrejada saindo de um culto de Candomblé, em Salvador, e virando assunto nas redes sociais pelo discurso rimado e incisivo que fez antes da última música do show, abordando tópicos quentes que andam longe da boca de muitos artistas: redução da maioridade penal, racismo, violência policial, greve dos professores, padrão de beleza:

“E aí vira o quê? Os com diploma versus os consciência. A Fundação é tudo, menos Casa pra um interno. É mó boi odiar o diabo, eu quero ver cê se ver lá no inferno. Não existe amor em SP? Existe pra caralho. Cês acham que as Mães de Maio chora por quê? Tendo que sobreviver ao pai que abusa, ao ferro sob a blusa, às farda que mata nós e nunca fica reclusa, ao Estado que te usa, ao padrão de beleza musa e aos otário que inda quer vim me falar de racismo ao contrário. Tempo doido, tempo doido, a espinha gela, onde as mulher é estuprada e no final a culpa ainda é delas. O problema é seu e da sua dor. Às vezes, eu me sinto inútil aqui, que eu não valho nada, igual o governo tem tratado os professor. Mas pra esses bunda mole aí, que acha que nós tá dormindo, um aviso: não é porque nós tá sonhando que nós tá dormindo, viu?”

Emicida encara a responsabilidade de se posicionar politicamente da mesma forma com que se preocupa com sua vida artística e empresarial. Ele declarou voto em Dilma Rousseff nas últimas eleições, participou de um vídeo na campanha do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e não é fã da gestão do governador Geraldo Alckmin. Não se arrepende de nada, mas avalia: “Passou eu lá na televisão durante a campanha. Aí, saio nas ruas e os caras que gostam dela me falam: ‘Aê, Emicida, é isso mesmo’. E no meu bairro era só Aécio, mas ninguém fala nada para mim, não. Vai falar o quê? Eu sou a síntese desse outro Brasil aí no bairro”.

A ideia de Emicida é não ficar preso a um pensamento ou, em outras palavras, ser radical. “A coisa mais saudável para um governo é ser questionado, mas se você não faz ideia de quem é a responsabilidade, temos um problema muito sério. Se a gente que sugere um pensamento novo para o mundo, que é os caras de cabeça aberta, não conseguir trocar ideia por causa de política, fudeu.”

Do fundão

A ideia de liberdade para Leandro Roque de Oliveira, nome de batismo de Emicida, nem sempre foi clara. Nascido no bairro Jardim Fontalis, na zona norte paulistana, filho do Miguel e da dona Jacira, pais de outros três filhos, o rapper enfrentou as muitas barreiras impostas para os garotos da periferia. Perdeu o pai quando tinha 6 anos, vítima de uma briga de bar. Conviveu tanto com a violência a ponto de não sentir muita coisa ao ver um corpo estendido no chão enquanto ia para a escola, onde também não teve uma rotina suave. Quando estudou em uma sala majoritariamente de meninos, sofreu com o bullying e o racismo, inclusive de um colega negro. “Eu me vi como o último degrau mesmo”, diz, enquanto se lembra das risadas que o chinelo que calçava para ir ao colégio, mesmo durante o inverno, provocava nos colegas. Diante dessa situação, ele perdeu um ano de estudo, depois de ter cabulado aulas. Na rua, flertou por caminhos perigosos.

Hoje, ele conta que fumou escondido dos 10 aos 12 anos – hoje não bebe e não fuma, está mais para o nerd que gosta de quadrinhos da Vertigo e descolou um velho Super Nintendo. Para dona Jacira, a mudança de comportamento veio quando uma professora a alertou sobre a atenção que o filho dava para o desenho, o que a fez mudar sua postura diante do menino. “Antes, falava para ele: ‘Nunca vi japonês de olho grande’. E jogava tudo fora. Depois, parei de falar mal dos desenhos.” Foi pela paixão por mangás e histórias em quadrinhos que ele traçou um caminho rápido pelo design, área que cursou após terminar o Ensino Médio, e o gosto pelo rap, que sempre foi a trilha sonora de sua vida.

Fazer freestyle e improvisar rimas logo passou de hobby a trabalho e, tempos depois, um sonho. O apelido veio logo, por causa dos incontáveis “homicídios de MC”, que cometia usando seus versos como arma. A Rinha dos MCs, famoso encontro de rappers amadores em São Paulo, criado por Criolo e DJ Dan Dan, foi vencida por ele 14 vezes seguidas. “No metrô Santa Cruz, quem tinha contato com o rap já sabia que o Emicida seria uma promessa que vingaria. Ele era o melhor nas batalhas, tinha um improviso que ninguém tinha. Era muito melhor que todos os outros MCs. Na época, eu falava para alguns amigos: ‘Guardem o nome desse cara, porque ele vai estourar, vai ser capa de revista’”, conta o jornalista Bruno Tálamo.

Por Vinicius Felix. Leia a íntegra da matéria na edição 96 da Brasileiros. A revista completa 8 anos de vida.