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São Paulo São Pessoas

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Desde que descobriu que sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica, a ELA, doença neurodegenerativa irreversível, Luis Henrique da Cruz Ribeiro, mais conhecido como Ricky Ribeiro, teve apenas um dia de infelicidade: o do seu diagnóstico. Mas, ali, o paulista de 35 anos decidiu que a doença não o definiria, nem o deixaria abatido. Com sede de fazer acontecer, colocou a mão na massa e juntou, em uma só causa, gente interessada em sua história de vida (agora, com a mobilidade cada vez mais comprometida) e na questão de mobilidade (em maior escala) nas grandes cidades para criar o portal Mobilize Brasil que, só em 2014, teve quase 3 milhões de acessos. Nele há notícias, estudos e estatísticas sobre deslocamentos urbanos que, muitas vezes, são mais precisos que os dos órgãos competentes.

Sua condição torna o sucesso do Mobilize algo tocante, mas muito antes do diagnóstico Ricky já tinha descoberto o seu propósito nessa vida: queria contribuir para o bem comum. Com isso em mente, cursou Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, e nos primeiros anos de faculdade conseguiu estagiar no Departamento de Planejamento Urbano e Meio Ambiente e na Secretaria de Cultura de Santana do Parnaíba. Ricky respondeu às perguntas do Draft por escrito (ele não fala e usa um leitor óptico para mexer no computador) e lembrou dest fase: “Na Prefeitura, meu desejo de trabalhar para um bem público cresceu. Criei um banco de dados com informações sobre todos os eventos culturais e equipamentos turísticos do munícipio”.

Conheça a história de Ricky Ribeiro, que criou o Mobilize, melhor portal de mobilidade urbana do país: http://goo.gl/joHA6I

F
onte: Projeto Draft.

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Algumas histórias são interrompidas e nos deixam a sensação de que o final ainda não foi contado, os capítulos omitidos flutuam como penas na atmosfera pesada da realidade. Do lado de cá estamos ainda pasmos com a notícia, assustados com a perda e lidando com a finitude no silêncio. Não se espera que a morte venha tão cedo para uma pessoa tão cheia de vida e de planos, não se imaginava que aos 36 anos a vida lhe pregaria tal rataria.

Tatiana Ivanovici, que morreu nesta terça (10), era ávida conhecedora dos becos e vielas. Pós graduada na rua, virou jornalista e descreveu, como pouquíssimos, a periferia. Sem glamurização, sem frescura, meteu muito o pé na lama pra contar as histórias da favela e com o mesmo boot fez muita reunião com engravatado pra traduzir a língua da quebrada.

Foi importante pro rap nacional, pro jornalismo, pro mercado de consumo, mas acima de tudo foi importante pra muita gente. Tati tava com o facão cortando o mato e abrindo o caminho para que uma galera pudesse passar depois. Incansável, fez seu corre e destravou muita fita, conseguiu muito contato e fez muita ponte por aí. Ela era a própria ponte entre a redação e a rua, entre o escritório e a realidade. Ela era foda e vai deixar muita saudade.

Um câncer silencioso, rápido e destruidor no pâncreas a levou de surpresa, sem tempo para despedidas, de um último abraço ela foi pro lado de lá. Aqui ficamos para não deixar o mato cobrir a trilha que você abriu. Vá em paz guerreira.

Para entender a caminhada da Tatiana Ivanovici dá uma lida no DoLadoDeCá

"O hip hop é um jogo curioso, inicia suas ações movendo as peças pretas e de repente subverte todas as ordens vigentes e acaba alterando o tabuleiro todo. Meus camaradas dizem que não é algo que você faz, é algo que você vive e eu concordo. Entregar seu tempo a causa de uma maneira tão intensa é para poucos, poucos conseguem fazer com que sua causa se torne algo maior até do que sua própria vida. Acredito que a Tati foi isso. 

Existem uma série de elogios que podemos listar para definir a pessoa dela, falar sobre o quanto ela foi importante para mim, para o hip hop e para a periferia, mas acho que a coisa mais bonita que ela fez e fazendo isso nos ensinou a fazer também, foi acreditar. Sonhar e acreditar a ponto de realmente mudar as coisas.

Tem umas pessoas que são como despertadores, nos acordam pra vida simplesmente por fazer o que nasceram pra fazer, falam, correm, fazem conexões, ligam pontos que aos olhares menos cuidadosos parecem desconexos. Mas ai vem alguém como a Tatiana e mostra o quão tudo continua sendo uma coisa só e que não pode se dividir. Uma vez o KL Jay disse que o hip hop é a mente livre, um ajudando o outro. Partilhamos da mesma terra no mesmo tempo, o melhor que podemos fazer para nossos semelhantes é compartilhar as bençãos que nos são dadas por uma força maior que rege todo o universo. Nesses momentos eu prefiro sorrir e guardar na mente o sorriso dela, lembrando o quão felizes somos de poder ter tido a honra de conviver com alguém tão especial e que teve uma jornada tão breve, 36 anos. É dificil, mas seguimos em frente, fazendo o que acredito que a Tati fez muito bem seja no Yo, na MTV, nas produções pelo Brasil a fora, ou no seu incrível projeto Doladodecá, que foi acima de tudo sonhar e acreditar.
Hip hop é isso, o resto é confusão do tempo em que vivemos." 
Emicida

"A primeira vez que eu vi a Tati foi na TV. Já gostei dela desde o princípio, meio maluca, mas com muita firmeza e conhecimento sobre o que estava falando. Em 2004, quando o Pentágono concorreu ao VMB, eu a conheci pessoalmente. Nós chegamos a MTV totalmente crus, mas ela nos ajudou e nos deixou confortáveis para falarmos, nos comunicarmos e expressarmos o que queríamos.
Eu já vi a Tati brava quando precisava, mas também já a vi lutando pelos direitos dos artistas, quando mereciam. Desde a época em que ela estava na frente das câmeras até quando ela passou para trás delas, ela teve uma postura forte com o hip hop e a periferia, sempre lutando pelos seus ideais.
Quando ela criou o DoLadoDeCá, sempre me apoiou em todos os meus projetos e shows. A Tati foi uma grande guerreira que lutava pela periferia e pelo rap, o que muita gente não sabe. Ela tinha algo para dizer e para mostrar, uma luta maior que tudo isso. Fui pego de surpresa, estou mal com a sua partida, ainda mais porque o hip hop e a periferia estão perdendo uma de suas maiores militantes. Só nos resta ficar tristes quando vai um dos nossos, por perdermos alguém que luta pela causa. Nós perdemos força, mas eu espero que outras pessoas se inspirem no trabalho dela, que mais jornalistas façam o que ela fez pelo hip hop. Ela é só exemplo para mim, espero que ela esteja em um lugar de paz, onde ela mereça."
Msário

"Ser de luz, amiga de todas as horas, sorriso que não cabia nesse plano. Feito leoa, mãe, fazia de tudo pra proteger nossos sonhos." 
Criolo

"Tatiana Ivanovici era intensa. Eu a conheci pela TV como VJ do Feijão MTV. E na mesma época ela namorava um amigo meu do skate. Mas não tivemos muito contato. Nossa amizade se fortaleceu aos poucos até que ela me chamou pra um teste. Pra ser VJ/Apresentador do YO! Mtv Raps. Depois do meu teste ela disse que tinha sido um dos melhores que ela tinha feito e que tava em dúvida entre mim e o Richard Hebano Benicio, mas a TV tinha um nome de sua preferência (Thaide). Quando Thaide foi efetivado no programa ela disse que eu podia sugerir e fazer a matéria que quisesse pro Yo. Entao eu sugeri a matéria sobre o primeiro show grande solo do Sabotage que ela, até então, conhecia pouco. Mas confiou em mim e na minha indicação. Desde então fizemos algumas outras paradas por lá. E rimos muito juntos, como em quase todas as vezes que nos encontramos. Há tempos não a via, mas sempre acompanhei sua caminhada. Fez muito mais pelo rap do que você imagina. Triste vê-la partir assim... Mas feliz por tê-la conhecido e trabalhado junto. Vá em paz... Espero que boas coisas te aguardem por lá. E a sua, a nossa caminhada, continua DoLadoDeCá. Faz a festa, véi... (frase que ela dizia sempre no Feijão MTV)."
Kamau

"Quando soube do ocorrido, fiquei muito sentido. A Tati era uma das figuras ativas do hip hop mais gente boa e firmeza. Com ela não tinha tempo ruim, nem nariz empinado. Quando penso nela, lembro das paradas da MTV, quando ela produzia o Yo!. Ela sempre segurava a maior onda e fazia questão de garantir que tudo corresse bem, que a gente se sentisse confortável, aquele lance da hospitalidade. Podíamos chegar com trinta negos lá na tevê que não pegava nada, ela arrumava lugar pra ficar, lugar pra gente fumar. Sempre firmeza, sempre na linha de frente. Ela também era uma das pessoas que sempre colavam na laje, era amigona da Negra Li e da Dina Di."
Helião - RZO

"Eu conheci a Tati nos rolês, acho que ela ligava o Pentágono, um grupo do qual eu fiz parte durante dez anos. E ela sempre admirava, falava que a gente tinha uma pegada diferente. Me aproximei mais dela quando a gente foi gravar o Yo!, e ela era diretora do programa. O Thaíde apresentava na época. E eu lembro que ela lutou bastante para que tivesse mais tempo de rap na televisão. Tinha só meia hora, acho que esticou pra uma hora, aí eu lembro que o KL Jay entrou e ela continuou sendo diretora e conseguiu uma hora e meia de programa, por lutar pelo rap, por acreditar na parada. Quando eu trombava ela tinha sempre essa questão da luta, de tentar fazer o bagulho aumentar, fez um corre pelas várzeas também, nas quebradas, tinha o portal dela, o DoLadoDeCá, que sempre deu notícia de rap, de várzea, de quebrada. Enfim, uma pessoa muito iluminada, sempre pra cima. É uma pena essa perda pra gente. É muito triste, mas... são coisas dessa vida, a gente fica sem palavras pra dizer. Pela energia que ela me passou, vejo que a passagem dela pro outro lado, o oculto da coisa, vai ser uma passagem tranquila." 
Rael

"A Tati foi uma precurssora em conectar os dois lados da ponte. Ela foi a primeira em vários aspectos. A começar por ser uma menina branca dentro do hip hop numa época difícil. Uma pessoa que lutava para divulgar o hip hop de um jeito profissional na televisão. Depois ela foi cada vez mais engendrando o hip hop nos lugares e participando de eventos, criando eventos. Ela ajudou muita gente quando começou a trabalhar com publicidade, levou o pessoal. Daí ela criou o DoLadoDeCá, um espaço de mídia para falar da cultura da periferia, movimentava mil projetos. Foi uma pioneira em trabalhar com informação, mídia e hip hop numa época em que isso tudo era bem delicado, o hip hop não estava preparado para ir para a mídia e muitas pessoas eram contra. Ela fazia um trabalho incrível nos bastidores. Nos encontramos milhares de vezes em muitos lugares. Semana passada ela até postou uma foto de quando eu a entrevistei em 1999. Recentemente estive em Fortaleza e a encontrei fazendo um evento de futebol na periferia da cidade. Era uma pessoa muito ativa, que venceu vários preconceitos aí, e que teve uma atuação importante, pois além de ser uma profissional ela era uma ativista. Ajudava em vários projetos, principalmente aqui na Zona Sul. Pô, uma pessoa que ajudou a construir o que o hip hop é hoje."
Alexandre De Maio

"A Tati não era só parceira do Pagode da 27, ela era amiga. Frequentávamos os mesmos lugares, tínhamos as mesmas ideias, e defendíamos a mesma causa, que é lutar pelos direitos e difundir, mostrar tudo de melhor que existe dentro da favela. Foi assim que a gente se conheceu. Ela se identificou com a causa do nosso projeto e nos procurou lá no Pagode da 27. Nessas ela virou parceira em várias coisas que dizem respeito ao Pagode da 27. Nós até demos a ela o título carinhoso de Madrinha de Todas as Favelas. É isso que as pessoas precisam saber a respeito dela. Tem a ver com a militância dela de abraçar a causa e levar adiante. Ela não era atuante só na cultura hip hop, mas na cultura como um todo, em todas as vertentes artísticas dentro da favela. Ela era ativa em todas. A nossa ligação com ela não era aquele negócio de se ver de vez em quando, a gente se falava direto, e ela sempre foi uma pessoa preocupada com as causas do povo da periferia. É como se fosse da nossa família."
Ricardo Rabelo - um dos fundadores do Pagode da 27

"Quando eu fiquei sabendo, a primeira parada que me deu foi que ela saiu fora rápido porque cumpriu tudo o que tinha que cumprir em termos de evolução espiritual durante essa passagem, tá ligado? Ela se focou tanto nisso que acabou antes da hora. Sabe aquelas pessoas que estudam tanto e fazem a prova de duas horas em meia hora? Eu tive esse impressão. Quando a gente se conheceu, em 1994, ela era uma moleca menor de idade , boba, perdida, engraçada e até às vezes meio pesada. A gente viveu milhões de coisas, algumas bem engraçadas, já fumamos mais de 100 baseados, tomamos enquadro. Já rolou de estarmos os dois na roubada precisando de grana e fazermos mutretas de juntar o equipamento de som que eu tinha com o equipamento de som que ela tinha para alugar no casamento da Soninha que chamou porque sabia que estávamos na roubada de grana. A gente chegou lá e conseguiu queimar o som todo. Com o passar do tempo eu fui vendo ela evoluir e se descobrir pra caralho. Ela achou o que realmente ama e caiu de cabeça nesse negócio., virou um anjo da guarda da periferia e de toda sua expressão. Ela mudou o ponto de vista de muita gente e quebrou preconceito pra caralho e isso por si só é inacreditável, ainda mais quando você tinha em perspectiva aquela moleca de cabelo laranja que colecionava toy art. Ela virou um mulherão, uma pessoa realmente muito importante e cada vez que a gente se encontrava eu percebia sua evolução espiritual, principalmente nos últimos dez anos. A última vez que ela veio aqui em casa faz pouco menos de um ano e a gente só teve conversa sobre evolução espiritual."
Rodrigo Brandão

"A gente virou amigo trabalhando na MTV, no YO!, ela foi a minha última diretora. Ela sempre gostou muito de rap, além disso éramos do mesmo signo. A gente brincava, ela me chamava de meu irmão do sol e eu a chamava de minha irmã do sol. A gente virou amigo a partir disso, demos uma afastada nos últimos tempos, a gente não tava de mal, não, mas demos uma afastada. Eu fiquei muito surpreso e triste por ela estar com câncer, eu não sabia. Ela era muito competente em tudo e gostava muito de trabalhar, embora eu sempre achasse que ela trabalhava demais, mas tudo que ela fazia dava certo, ela fazia com muita dedicação. Sempre foi muito trabalhadora e independente, desde muito nova sempre foi muito independente. Muito nova. Não consegui vê-la no hospital nem no enterro, mas fiz minhas orações e tem uma vela acesa aqui pra ela. Isso aqui é uma passagem e nós não podemos ficar lamentando e chorando, porque isso é ruim pra ela espiritualmente. Tem que desejar uma outra vida melhor onde ela estiver."
KL Jay

***
Eduardo Ribeiro e Peu Araujo na Vice. 

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"Eu fiquei conhecido por ser aquele morador de rua que devolveu quase 3 mil cheques. Meu nome é Gilberto, só que eu sou conhecido aqui como 'Maivei', é o diminutivo de 'mais velho'.

Em 2007, eu tava catando latinha e de repente achei várias folhas de chegue numa caçamba, tudo assinado de pessoa física e jurídica. Tinha de 100 reais até quantia que dava pra comprar um carro, tudo preenchido. 

Na hora eu tremi muito e saí andando com aquele bolo de dinheiro até um lugar mais calmo. Eu não sabia o que fazer. Como sou evangélico, fui ver a resposta na Palavra e abri e fechei a Bíblia 7 vezes no mesmo versículo, 'de que vale o homem ganhar o mundo e perder a alma'. Vi que não era coincidência e fui na delegacia devolver. Hoje to com a consciência limpa e devolveria de novo, mesmo sabendo que eu seria bilionário. 

Pelo menos, a imprensa e o governo abriram o olho pro morador de rua. Ainda não tá bom, mas tá melhor. Eles gastam mais purificando o Rio Tietê do que purificando o ser humano. O rio é importante, mas e o morador de rua? Esse outro programa também: eu queria entrar nesse negócio, mas só empregam como varredores. Queria ensinar minhas habilidades. Precisa ver pra quem o braço tá aberto." ‪#‎SPinvisivel‬ ‪#‎SP‬

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A filósofa Márcia Tiburi é foda. Simplesmente porque ela coloca a filosofia onde ela deve estar: na ação. E a tolerância e compreensão que ela tem com ideias diferentes fazem dela uma pessoa muito agregadora. Lembro que em 2012 palestramos juntas sobre o pós-feminismo no evento Rock e Filosofia no CCBB SP e discordamos em muitos pontos ao longo do debate.

A maneira elegante e inteligente com a qual ela lidou com nossas discordâncias foi tão interessante – diferente de alguns filósofos que ficam enclausurados em suas certezas estáticas, ela entende o poder da dialética para a evolução de uma ideia, de uma sociedade. É assim nas palestras dela, era assim no programa Saia Justa quando ela era uma das apresentadoras e está sendo assim com seu novo projeto que está conseguindo reunir todas as vertentes do feminismo no país. O projeto: um partido feminista, que ela chama de #partidA.  

“A ideia é que as reuniões proliferem e que as pessoas usem a #partidA como movimento feminista para construir fóruns, plataformas, ações em geral. O que a #partidA quer é empoderar mulheres para a sua participação na política institucional. Seremos um partido político para isso, ainda que esteja em aberto a discussão sobre o sentido disso.”, ela explicou. O movimento esta se espalhando de uma forma incrivelmente rápida, já está sendo marcada outra reunião em SP por pessoas que são de outras regiões da cidade, no Rio, em Porto Alegre, Goiânia. “A ideia é ainda que não existam líderes em sentido personalista, mas que as pessoas do #partidA empoderem umas às outras. Imagine poder criado a partir de diálogo em que todo mundo se autorepresenta numa metodologia dialógica. Em que cada uma cria a outra como potência. É a Revolução.” 

Me conta como foi o encontro aqui em São Paulo, acabei não conseguindo ir, to super curiosa!
A reunião no Rio no dia 25 de maio foi linda. A reunião em SP foi maravilhosa. Um clima feminista de fazer política: afetivo, generoso, colaborativo, compreensivo. Sem disputa. Foi no Espaço Revista Cult, tinha gente sentada no chão. Aliás, quase todo mundo. Ali, as pessoas falaram o que pensavam e sentiam em relação ao estado atual da sociedade e o papel político e cultural do feminismo. Havia um diálogo real. Feministas históricas como Amelinha Lemos, como Inês Castilho, como Ana Reis, Solange Padilha e muitas outras estavam ali prontas a conversar com as novas gerações. E todo mundo estava querendo conversar. Tinha gente do ABC, do interior, do Rio. E o clima geral foi de apoio à criação do Partido Feminista, ainda que haja muita consciência e, por isso, muita critica em relação à forma partido. Ao mesmo tempo, a consciência de que o poder não pode mais ficar onde está é igualmente forte. De que é preciso chegar onde o poder de decisão está, ou seja, no governo. As mulheres são sub-representadas no Legislativo e no Executivo. Também sofrem em seus partidos que são sem exceção machistas em um sentido estrutural. Somente um partido feminista pode mudar esse cenário real. 

Há muita discordância, às vezes até brigas, entre diferentes tipos de feministas hoje em dia, especialmente as duas vertentes que podemos identificar com mais clareza, as radfem e as libfem. O que você acha disso?
Eu vejo todas as formas de feminismo como social e historicamente necessárias. Acho que a existência de vertentes é sinal de que existem contradições sociais, teóricas e práticas. Não vejo que precisemos de um feminismo único, ou na forma de um pensamento único. Ao mesmo tempo, algo que une essas tendências é o feminismo como ético-política, como defesa de uma sociedade justa em que mulheres – e outras individualidades e grupos excluídos do poder – estejam inclusas. Acredito no diálogo. Como filósofa, penso que a grande contribuição da filosofia para a nossa época é justamente a proposta do diálogo. Plantar diálogo no mundo é a nossa tarefa histórica. No caso, essas vertentes opostas trazem, cada uma à sua maneira, questões sobre as quais devemos pensar. Abrir-se ao ponto de vista da outra é, a meu ver, um gesto urgente. Ao mesmo tempo, um feminismo mais tenso, mais nervoso, mais irritado, também me encanta, coisa que eu, por minha natureza, não pratico. O feminismo sempre foi voltado à singularidade e ao diálogo, mas as formas de diálogo podem ser sempre postas em discussão.

Como surgiu a ideia de um partido feminista?
Prestando atenção no lugar político das mulheres percebe-se uma histórica subalternidade. As mulheres sempre estiveram em segundo plano. Sempre foram proibidas de participar da esfera pública e do poder constituído. Sempre foram proibidas do voto e da auto-representação. Vemos que a situação das mulheres em relação ao poder e ao governo, não mudou muito ao longo da história e, se levarmos em conta, o fato de que do começo do século 20, quando certas mulheres entraram na justiça pelo direito ao voto, até hoje, as mudanças na política institucional não foram muitas (temos apenas 10% de cargos paramentares composto por mulheres), então é evidente que a coisa vai mal. As mulheres continuam longe do poder, ao mesmo tempo, estão no mercado de trabalho e sempre segurando as barras econômicas e sociais mais variadas. Empoderam-se economicamente, acessam a universidade, sobem nas estatísticas acadêmicas, em muitos casos estamos superando a fantasmagoria opressiva do machismo, mas não mudam as condições em termos de política. A criação de um partido tem como fim entrar de cabeça na disputa por cargos, espaço, governo. A meu ver, feministas (e a maioria das feministas são mulheres e não homes) devem governar para que tenhamos direitos das mulheres (e das minorias com as quais as mulheres partilham uma história de opressão) como prioridade na política. Mas não apenas isso. O feminismo é outra forma de poder, é potência dialógica, participativa e solidária. Um poder diferente, um poder outro. Voltado ao outro, aos excluídos e, ao mesmo tempo, razoável e prático, voltado à construção de uma sociedade sem violência. Chamos isso de Revolução, porque o feminismo foi a única que vem dando certo. É hora de organizar essa Revolução na direção de um salto histórico. 

Como você definiria o #partidA?

A #partidA é um movimento que já está acontecendo. Nasce já provocando porque muitas pessoas acham absurda a ideia de um partido feminista, como sempre se pensou em termos aliás masculinistas, o feminismo um absurdo. É que o feminismo está por demais ligado à proibição vivida pelas mulheres de estarem na política. O feminismo sempre foi antagonista do patriarcado e por isso sempre incomodou. Estamos confrontando essa estupidez histórica. Estamos confrontando e ressignificando a ideia tradicional de partido. Por que o feminismo nunca foi, nem será, algo tradicional. Por isso, a #partidA é um movimento no sentido de um começo novo que estamos dando a nós mesmas e a toda a sociedade brasileira. Estamos em um momento precioso, em que cada participante é convidado a inventar a #partidA. Como movimento sua qualidade é o encontro em nome de uma democracia feminista, não uma democracia de fachada, mas uma democracia concreta em que cada participante dialoga, pensa, conversa e faz junto com os outros. A metodologia é o diálogo. Daí tomaremos decisões em conjunto. O afeto que rege a conversa é a alegria, porque ela é a força revolucionária, anti-fascista, aberta à singularidade e à diferença. Falo coisas mais teóricas pra quem se interessar no meu blog. A Carla Rodrigues, professora da UFRJ, também escreveu algo legal a partir do #partidA.

O que devem fazer as mulheres que estão interessadas em participar desse movimento ?
Devem escrever pra gente, pelo Facebook, pelo Twitter, por e-mail. Por enquanto, não temos nada oficial, porque queremos antes ter a nós mesmas. Eu recomendaria que as pessoas perguntassem pelas redes sociais, “onde está a #partidA? Ela vai nos achar. Podem entrar em contato com alguém do grupo, eu ou outras pessoas. Podem mandar uma mensagem informal que vamos nos apresentando e inventando juntas. Por fim, podem também mandar mensagem para: [email protected] que vamos inserindo nas conversas.


Fonte: 'A Obscena Senhorita C', blog de Carol Teixeira - http://bit.ly/1B6ICzh

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Exposição na Casa de Vidro revela o diálogo entre a arquiteta italiana e a cultura brasileira.

A casa onde a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) morou entre 1952 e sua morte está de portas abertas. A Casa de Vidro abriga a exposição “Lina em casa: percursos” até 19 de julho. “Lina em casa” é a última de uma série de exposições que entraram em cartaz no Brasil e em vários outros lugares do mundo como parte das comemorações do centenário da arquiteta, celebrado em dezembro de 2014. Segundo o curador Renato Anelli, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), Lina em casa é uma exposição complementar, que almeja apresentar a trajetória intelectual de Lina e mostrar como o Brasil transformou a italiana em uma arquiteta brasileira.

A Casa de Vidro, localizada no meio de um bosque no Morumbi, bairro nobre de São Paulo, foi construída em 1951. A casa combina os traços geométricos da arquitetura moderna com aposentos simples, que lembram uma pensão italiana ou uma casa do interior de Minas Gerais. Quem visita a exposição, pode passear pelos cômodos da casa, observar a mobília original – que conta com peças projetadas pela própria Lina – e também cartas, livros, fotografias, registros de viagens, documentos e painéis que revelam a relação dela com seu país adotivo. “Procuramos identificar, no acervo do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, aspectos da formação intelectual, do posicionamento político e da visão de país que ela adquiriu no Brasil e como a sua arquitetura acompanha essa transformação”, afirma Anelli.

Lina chegou ao Brasil, em 1947, acompanhando o marido, o crítico e mercador de arte Pietro Maria Bardi (1900-1999). Bardi veio ao Brasil à procura de novos mercados. A Europa arrasada pela 2ª Guerra Mundial não era o melhor lugar para se vender quadros. Bardi viu na América do Sul, que se industrializava e onde viviam muitos imigrantes italianos enriquecidos, uma oportunidade para os negócios. Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, convidou o italiano para dirigir o Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Lina trabalhou ao lado do marido e projetou a nova sede do museu, a caixa de vidro e concreto apoiada em colchetes vermelhos que parece flutuar ao longo da avenida Paulista.

Em 1959, Lina foi convidada para restaurar e dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), instalado no Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico do século XVII. Cartas trocadas entre a arquiteta e Lavínia Magalhães, primeira-dama da Bahia, estão expostas na Casa de Vidro. Lina acreditava que os museus não deveriam ser templos dedicados à memória dos tempos passados, mas locais vivos e dinâmicos. “Lina e Bardi acreditavam no papel didático dos museus na formação cultural do público”, afirma Anelli. “É neste novo sentido que se constitui o Museu de Arte de São Paulo, que se dirige especialmente à massa não informada, nem intelectual, nem preparada”, disse Lina.

No Nordeste, a arquiteta mergulhou na cultura popular brasileira. Ao lado de outros intelectuais, Lina realizou pesquisas etnográficas no sertão. Lá, ela conheceu o que chamou de “civilização da sobrevivência” e observou como os sertanejos, que viviam na extrema pobreza, eram capazes de criar soluções inventivas e transformar materiais que iriam para o lixo em objetos de uso cotidiano. Na exposição, há registros fotográficos do que Lina encontrou no sertão, como lamparinas feitas a partir de lâmpadas queimadas e carrinhos de bebê feitos com latas usadas. Na entrada da Casa de Vidro, está a reprodução de uma cadeira construída com quatro pedaços de pau, réplica da original que arquiteta viu na beira de uma estrada nordestina. “Lina via nessa inteligência da cultura popular, nessa capacidade de reaproveitar as coisas, uma base para a renovação da cultura moderna”, afirma Anelli.

“Não foi uma influência direta. O que ocorreu foi um diálogo maravilhoso entre uma arquiteta que já tinha sensibilidade aguçada e encontrou uma realidade cultural que respondia a isso”, diz Zeuler Lima, arquiteto, professor da Universidade Washington e autor da biografia, ainda inédita no Brasil. Lima afirma que o que encantou a arquiteta italiana não foram as obras monumentais de Oscar Niemeyer e outros arquitetos acostumados a trabalhar para os governos, mas a arquitetura espontânea, a arte popular e os objetos do cotidiano. “A arquitetura brasileira era monumental, do tipo “grande nação”, representava o Brasil pujante, o país do futuro. Lina suspeitava desse discurso, que ela conhecera no fascismo italiano. Ela se interessava por manifestações culturais que vinham de baixo para cima. Foi isso que ela encontrou no Nordeste e se apaixonou”, afirma.

Até 19 de julho, está em cartaz, no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, a exposição “América Latina em construção: Arquitetura (1955-1980)”, dedicada à arquitetura moderna produzida no continente. Lina é uma das homenageadas. Nos últimos meses, o trabalho da arquiteta ítalo-brasileira, que deixou apenas 14 obras construídas, foi reconhecido em exposições no Brasil, na Alemanha e na Itália. Um reconhecimento bem maior do que Lina desfrutou em vida. “Obras mais delicadas e de caráter social como a Lina Bo Bardi, ganharam espaço depois da crise econômica de 2008. Esse resgate da memória dela traz esperança para uma arquitetura mais humanista, mais ética e mais respeitosa com a vida que vai dentro do edifício”, afirma Lima.

Ruan de Souza Gabriel com edição de Guilherme Evelin na Revista Época.

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Ele já pintou painéis na França, Estados Unidos, Reino Unido, Canada, Rússia, Grécia, Itália, Suécia, Polônia e Suíça, mas sua história começou no Campo Limpo, em São Paulo.

Outra madrugada de insônia. O mais importante artista plástico do Brasil na atualidade pula da cama, pega o carro e sai pelas ruas de São Paulo. A cidade é sua galeria. Os edifícios e muros são suas telas. O hip-hop e o chumbo correm nas suas veias. O muralismo existe desde a era paleolítica.

Artistas pintando em grandes espaços ao ar livre estavam presentes nas civilizações clássicas da Grécia, Egito e Império Romano. Giotto, Michelangelo e Leonardo da Vinci foram muralistas. Na década de 1920, a arte floresceu no México especialmente com seu maior representante, Diego Rivera. No fim do século 20, se espalhou por Nova York na onda do hip-hop. É a arte fora da galeria, para todos e qualquer um. Kobra é um muralista. Mas o que ele faz ganhou um nome mais contemporâneo e universal: street art.

O garotinho Carlos Eduardo Fernandes Leo, nascido (em 1976) no Campo Limpo, bairro periférico de São Paulo, nunca foi bom aluno. Seus cadernos – não importa a matéria – eram só desenhos. Ao mesmo tempo, o menino não aguentava ficar em casa. Percebeu que sua arte precisava de espaço.

Juntou a arte e o chamado da rua participando, no fim dos anos 1980, do grupo Jabaquara Breakers. Enquanto os garotos dançavam o break, Eduardo sacava o spray e pichava onde podia e onde não podia. Queria apenas espalhar seu nome cada vez mais longe, marcando território. Seus pais não gostaram nada daquilo. “Grafiteiro” era sinônimo de vagabundo. Dava cadeia. Mas as pichações toscas evoluíram para ilustrações cada vez mais sofisticadas.

Como Carlos Eduardo era muito bom no que fazia, era chamado de “cobra”. E assim virou o Kobra. Sempre caminhando no limite da lei. “Eu já fui bem radical. Já fiz parte de um movimento de rua em que lidava com as coisas de uma forma muito agressiva. Tudo eu queria descontar na base da violência.”

Numa noite de 1990, Kobra vivia a fúria dos seus 14 anos pintando os muros de um acesso à Avenida Paulista. Uma viatura apareceu e ele foi levado com outros grafiteiros para a delegacia. Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo. O delegado avisou: eles iriam esperar o fim de jogo de pé. Se a Seleção perdesse, permaneceriam detidos.

“Nunca torci tanto pelo Brasil”, lembra Kobra. O Brasil ganhou. O delegado não só liberou o adolescente como reconheceu seu talento e o convidou a pintar um mural na parede da delegacia: um anjo aparando um policial ferido. (Por falar em futebol: Kobra é corintiano. Mas traumatizado. Achou que estaria bem num ônibus que levava a Gaviões da Fiel para um jogo no Pacaembu. Alguém no ônibus inventou que ele era são-paulino. Levou uma surra de alvinegros como ele. Hoje não quer saber muito de futebol. E cruza a rua quando vê uma torcida organizada.)

Por  Dagomir Marquezi na VIP 

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