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Eduardo Alves da Costa faz sinal para o ônibus elétrico no ponto que margeia o parque Buenos Aires, em Higienópolis (região central de SP). O gesto banal para pegar a linha Machado de Assis foi repetido inúmeras vezes pelo escritor, que é autor de um dos poemas mais famosos da literatura brasileira, "No Caminho, com Maiakovski".

O circular de número 408A –que sai da rua Cardoso de Almeida, no Sumaré, e vai até a rua Machado de Assis, na Vila Mariana– é um dos cenários do novo romance do também poeta niteroiense.

"Tango, com Violino" (ed. Tordesilhas) tem como paisagem a cidade de São Paulo, que se descortina das janelas do 408A e de tantos outros ônibus, definidos como "veleiros a navegar no seco".

Metáfora da Vida

"Decidi escrever sobre a condição de ser um homem de 70 anos. O ônibus é metáfora da própria vida, com pontos de partida e de chegada. Simboliza a vida e a morte, já que muitos não chegam ao fim da linha ou ao ponto final", compara o autor de 78 anos, que iniciou a empreitada há sete. "Não queria um dramalhão, mas escrever com autoironia uma reflexão sobre a vida."

Ao longo de 352 páginas, a solidão da velhice passeia pela metrópole em viagens intermináveis, nas quais cotidianamente o protagonista Abeliano, um septuagenário, vai se enchendo de vida. Não a sua, uma existência já esvaziada, mas a de tantos outros passageiros ou habitantes da megalópole com os quais esbarra nesse vaivém.

"Não tenho mais nada para fazer o resto da vida", conclui melancolicamente o personagem, ao se jogar em aventuras e encontros inesperados no intrincado de linhas do transporte público.

Perdendo o bonde.

"Os caras já perderam o bonde", traduz o autor, que está na mesma faixa etária de Abeliano, seu alter ego. Nas aventuras da ficção, o protagonista se faz acompanhar do amigo Teobaldo, também aposentado. Os dois vão dialogando sobre um futuro incerto e as novidades que permeiam o "maravilhoso mundo novo" do qual se veem apartados.

"Eu fico estarrecido com o que vem por aí, com a quantidade de coisas que desconheço. A verdade é que meu pequeno mundo ficou pra trás. Envelhecer não é só chegar aos 70 anos. É começar a desconhecer a realidade em que se vive", conclui Abeliano.

Eduardo faz coro com seu personagem. "Ao envelhecer ficamos invisíveis" constata o escritor, que teve tal percepção em uma viagem a Nova York, quando tinha 60 anos e decidiu ir ao bar da moda com a mulher e uma amiga. "Ninguém olhava pra gente."

Eliane Trindade em seu blog na Folha de S.Paulo.

O GZA acha que falta lirismo no rap, mas se depender do Emicida, o Brasil não sofre desse problema. "Boa Esperança", novo single do rapper, pintou nesta quarta (24) no YouTube com uma letra pesadíssima. "Cês diz que nosso pau é grande/ Espera até ver nosso ódio", manda Emicida na música, um hino dedo na ferida (como é típico dele) sobre o racismo.

A faixa traz no título referência a um navio negreiro do livro “A Rainha Ginga”, do angolano José Eduardo Agualuza.Ainda sem título definido, o disco tem conexão direta com a África, com partes gravadas em Cabo Verde e Angola. O lançamento está previsto para o início do segundo semestre. Ele passou uma temporada na África para gravar com instrumentistas e cantores locais em estúdios em Praia (Cabo Verde) e Luanda (Angola), e finalizou o álbum em São Paulo. 

Em “Boa Esperança”, Emicida canta na companhia do rapper J Ghetto. Racismo, violência policial e referências a países da África são alguns temas abordados na faixa em tom combativo. “Já viu eles chorar pela cor do orixá? / E os camburão o que são? / Negreiros a retraficar / Favela ainda é senzala jão / Bomba relógio prestes a estourar”, diz o trecho final da música.

O áudio original: https://youtu.be/s96Xp0EmfDw

Já o clipe, gravado em um casarão na Zona Sul de São Paulo, será lançado, no Music Video Festival (m-v-f-), no dia 7 de junho, durante a cerimônia de encerramento do festival, no MIS, em São Paulo. 

Na trama, empregadas domésticas se revoltam contra as injustiças cometidas por seus patrões e armam um motim que se estende por todo o país. Emicida interpreta o vigia da mansão. A mãe do rapper, Dona Jacira, também está na produção, como uma das empregadas, acompanhada de Domenica e Jorge Dias – filhos de Mano Brown – e da modelo Michelli Provensi. “Boa Esperança” foi gravado nessa semana e tem direção de João Wainer e Katia Lund (de “Cidade de Deus”).

Com informações de Taís Toti / Noisey, Catraca Livre e Bárbara Tavares, Glamurama.


O poeta brasileiro Augusto de Campos, foi homenageado nesta quarta-feira com o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, outorgado pelo Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile. Homenagem é feita pelo governo chileno a escritores de carreira consagrada. 

A láurea inclui um diploma, uma medalha e US$ 60 mil. — É uma surpresa. Minha poesia não foi feita para prêmios — disse Augusto de Campos. — Sempre explorei novas linguagens, coisas que tinham certa dificuldade de assimilação para o grande público. Um reconhecimento como esse é raro, aconteceu poucas vezes. Aceito com muita humildade.

O ministro da Cultura chileno, Ernesto Ottone, anunciou o prêmio, agregando que "o reconhecimento também contribui para dar visibilidade a autores de excelente nível, cuja obras às vezes é pouca conhecida fora de seus países de origem."

Escritor, ensaísta e tradutor, Augusto de Campos, de 84 anos, ficou conhecido junto com o irmão, Haroldo de Campos, como um dos fundadores do movimento da poesia concreta, no qual as palavras e as imagens são tão importantes quanto a rima.

— Pertenço a uma família de escritores e poetas que não têm expectativas de reconhecimento — destaca Campos. — Décio Pignatari, por exemplo, nunca ganhou um prêmio sequer, no Brasil ou no exterior. Espero que a escolha repercuta na valorização da poesia, que hoje está tão marginalizada. Se o prêmio servir a esse propósito, ficarei feliz. A valorização ao meu nome é o que menos me interessa.

Segundo o júri, os poemas de Campos se destacam "por sua transversalidade, ao serem transpostos a formatos como o audiovisual, a computação gráfica e até mesmo a música."

Por Mateus Campos em O Globo com Agências Internacionais.

Augusto Luís Browne de Campos, nasceu em São Paulo, 14 de fevereiro de 1931.

O site oficial: http://goo.gl/dfDLvX

'Agora Aqui Ninguém Precisa de Si' reúne poemas inéditos produzidos por ele nos últimos cinco anos; compositor também se prepara para inaugurar exposição.

A palavra pode ser escrita, cantada ou visualizada. Independentemente dos fins, para Arnaldo Antunes, os meios para alcançá-los sempre envolvem longos processos, de rascunhos feitos à mão, salvos em pastas no computador, editados, passados a limpo. Não necessariamente nessa ordem. “É muito raro que eu me satisfaça com uma coisa que saia rapidamente, espontaneamente, e ache que está pronta. Sempre uso aquilo como matéria-prima para depois retrabalhar, seja subtraindo partes que estão sobrando, ou seja acrescentando coisas”, conceitua ele. “Preciso ver materialmente as diferentes opções, para poder ir escolhendo e chegando ao resultado.”

E como saber se, neste momento, Arnaldo está poeta, compositor ou artista visual? Não dá: os três simplesmente coexistem dentro dele. E podem atuar, todos eles, em sincronia. Prova disso é que Arnaldo, além de atualmente retomar sua agenda de shows e se dedicar à gravação de um novo disco, lança um livro de poemas inéditos, Agora Aqui Ninguém Precisa de Si – com direito a evento com performance poética e projeções de Marcia Xavier neste dia 23, no Cine Joia – e, a partir de julho, vai expor suas obras, entre caligrafias, colagens, instalações, vídeos, na mostra Palavra em Movimento (leia mais abaixo), que terá início em São Paulo. Ele participará também da Flip deste ano, no dia 4, com Karina Buhr, da mesa Desperdiçando Verso. “Nem sei ainda (como será a mesa). Fui selecionado para fazer junto com a Karina pelo fato de a gente ser músico e ter publicado livros numa mesma época. Adoro o trabalho dela.”

Agora Aqui Ninguém Precisa de Si compila seus poemas, escritos ou visuais, realizados nos últimos cinco anos (seu livro de poemas mais recente, n.d.a, havia sido lançado em 2010). Ou até há mais tempo, como pedra de pedra, que estava guardado nos arquivos de Arnaldo, sem uma resolução aparente. “Peguei ele e o enfrentei. Achei que cabia bem no livro, um poema maior”, conta Arnaldo. “pedra de pedra de pedra/o que a faz tão concreta/senão a falta de regra/de sua forma assimétrica/incapaz de linha reta?”, inicia-se o poema. 

Os experimentos caligráficos se mostram parte importante em sua obra, a ponto de esse tipo de arte visual já ter sido tema exclusivo de exposição e livro dele. No novo livro, aparecem poucos exemplares do gênero, mas, segundo Arnaldo, a caligrafia se mantém como território de grande interesse para ele. “É uma linguagem pela qual sou apaixonado, por toda sua tradição. Expressa sugestões de sentidos que vão para além daquilo que as palavras grafadas estão expressando. E tem essa coisa de ser uma extensão do corpo, porque incorpora o gesto, a velocidade, o tremor da mão, a espacialização das palavras no papel.” 

As incursões pela escrita se mesclam aos trabalhos visuais, com presença de destaque das fotografias de placas, que despertam a atenção de Arnaldo em suas viagens pelo mundo, enxergando nelas rico material para suas poesias visuais, com combinações de imagens ou mesmo fragmentação delas. Caso derecuerde, também saída de seu acervo mais antigo para o livro. “É uma fotomontagem, fiz uma série de fotos dessa placa de dentro do carro com o retrovisor.” O olhar mira para frente, o retrovisor deixa para trás o passado. 

Concreta. 

No livro Como É Que Chama o Nome Disso – Antologia, de Arnaldo Antunes, lançado em 2006, ele já falava o quão lhe parecia natural, desde sempre, a atitude lúdica com a linguagem. “Eu lembro de um dos primeiros poemas que fiz, que já tinha um procedimento experimental. Li ele na classe, no ginásio, a professora me pediu para ler em voz alta. Eu devia ter uns 12 ou 13 anos”, rememora Arnaldo, no livro. 

E é, sobretudo, na poesia concreta que Arnaldo consegue dar vazão ao “processo do brincar” com a palavra, o corpo a corpo com a linguagem, apropriando-se dos preceitos do movimento concretista, que prega, entre outros pontos, a valorização do conteúdo sonoro e visual e o jogo com formas, fragmentação e montagem das palavras. 

Trazendo na sua ampla bagagem de referências literárias a influência de nomes como Haroldo de Campos, Arnaldo reúne, em Agora Aqui Ninguém Precisa de Si, uma boa coleção de poesias concretas, em que ora as palavras, quando desconstruídas, podem originar outros significados, ora, quando combinadas, emulam a mesma sonoridade. “Acho que a poesia concreta radicaliza um procedimento que é da poesia de todos os tempos: essa relação de aproximar o sentido daquilo que você está dizendo à forma como você diz”, afirma ele.

Artista de vanguarda, Arnaldo Antunes transita, sob bons olhos, pelos diferentes métiers nos quais atua. É compositor respeitado, autor de diversos livros publicados, artista com exposições realizadas no Brasil e no exterior, incluindo Bienais do Mercosul e de São Paulo. Ele acaba de sair de um período sabático, que durou seis meses, em que aproveitou para compor para seu novo álbum, ainda sem nome, que deve ser lançado no segundo semestre. “Estava pensando em fazer um EP, mas acabei decidindo fazer um disco inteiro. O primeiro dia de gravação foi na segunda, no Rio.” 

Na época em que o debate sobre as biografias não autorizadas pegava fogo, Arnaldo se posicionou contra a censura delas e, por isso, concorda com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de liberá-las. “Acho que se inaugurou uma discussão muito interessante, de até que ponto a preservação da intimidade ou a privacidade das pessoas se contrapõem ao direito de liberdade de informação, de expressão”, avalia. “Roberto Carlos diz que sabe mais da vida dele do que qualquer pessoa. Ele sabe uma versão, e a vida da pessoa é feita de versões que se completam. O que você sabe sobre você não é necessariamente uma verdade absoluta, você é também a imagem que as pessoas têm de você. Acho que é uma questão viva ainda socialmente.”

Mostra revisita produção visual do compositor

Atuando há três décadas em produção visual, Arnaldo Antunes já participou de diversas exposições, individuais e coletivas, mas, a partir do dia 11 de julho, será a primeira vez que o artista terá toda a sua obra reunida numa mostra. Intitulada Palavra em Movimento, tem início em São Paulo, no Centro Cultural Correios, onde permanece até 30 de agosto, e, itinerante, segue depois para outras partes do País, com passagens já certas por Brasília e Rio. 

Ao revisitar mais de 30 anos da obra de Arnaldo, a exposição evidencia as múltiplas técnicas e suportes utilizados por ele, incluindo aí caligrafias, colagens, instalações, objetos poéticos, além de adesivos, cartazes, áudios e vídeos. Ao longo do espaço expositivo, o visitante poderá vê-la organizada por séries:Caligrafias, Oráculo (com sua produção mais antiga), O Interno Exterior (com o trabalho mais recente de Arnaldo). Haverá ainda o videopoesia Nome, a cabine Black Out Flash Back e gravações sonoras com leituras poéticas de Arnaldo. 

“No ano passado, fiz a exposição O Interno Exterior, na Galeria Laura Marsiaj, no Rio, e chamei o Daniel Rangel para fazer a curadoria. Ele teve essa ideia de fazer uma grande exposição”, conta Arnaldo. “Comecei a pensar nela, a juntar os trabalhos. É uma produção em vários suportes, mas sempre pensando na coisa da poesia visual e, claro, às vezes, incorporando o som também.”

Arnaldo admite que relutou em exibir algumas de suas colagens mais antigas, um trabalho que nunca havia exposto, do começo dos anos 1980. Foi convencido por Rangel. “Ele achou que funciona, que dialoga com todo o resto, principalmente porque tem camadas de papel rasgado, um pouco parecido depois com o que eu fiz com os lambe-lambe rasgados. Não era algo que eu tivesse desejo de expor, mas aí está o papel do curador também, de desencavar essas coisas.”

Daniel Rangel conhece Arnaldo desde o início dos anos 2000, quando o curador ainda trabalhava com Tunga e o artista participou da inauguração do CCBB, em São Paulo, ao lado do compositor. Depois, os dois, Rangel e Arnaldo, formaram parceria na exposição coletiva Luzescrita e também na individual de O Interno Exterior. “As pessoas não entendem que o Arnaldo é artista, já participou de Bienal, Mercosul, expôs fora do País”, diz Daniel Rangel. “Ele tem uma trajetória como artista visual. Isso começa nos anos 1980 e ele não parou de produzir nunca.” 

Adriana Del Ré no Estadão.

O documentário "Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz" com direção de Laura Artigas e Pedro Gorski, une passado e presente. A trajetória do icônico arquiteto brasileiro João Batista Vilanova Artigas é costurada pelas lembranças de familiares, amigos, alunos, por imagens do seu arquivo pessoal e por relatos inéditos do arquiteto. Enquanto suas principais obras, tais como o Edifício Louveira, o Estádio do Morumbi e a FAU-USP, são reveladas pelo olhar de seus atuais frequentadores.

O trailer oficial: https://youtu.be/vTLU1XwIfjs

Neste mês de junho, completa-se cem anos do nascimento de João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), uma das maiores referências da Arquitetura brasileira do século 20. Entre as comemorações, está previsto o lançamento de um documentário, no dia 25/06, com depoimentos de profissionais como Paulo Mendes da Rocha, Rosa Kliass e Ruy Ohtake, uma exposição no espaço Itaú Cultural, além de dois livros: um deles destacando trajetória de Artigas como “pensador, educador e arquiteto”, e outro infantil, com desenhos que fazia para os netos.

Em novembro de 2014, com o patrocínio do CAU/SP, foi lançado um portal com detalhes de sua vida e obra, imagens e uma série de vídeos (veja alguns abaixo) que antecipam o documentário.

Conheça aqui o site dedicado ao arquiteto: http://vilanovaartigas.com/

“Artigas foi um dos principais nomes da Escola Paulista e formou uma geração de arquitetos, deixando um grande legado à arquitetura brasileira”, destaca o Presidente do CAU/SP, Gilberto Belleza. “Tive a oportunidade de conviver com ele na minha época de estudante na FAUUSP, momentos inesquecíveis de aprendizado”, lembrou.

Autor do projeto do edifício da FAUUSP
Nos anos 40, participou da criação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (1949), onde se tornou um de seus primeiros professores e da qual, doze anos mais tarde, projetaria o prédio localizado na Cidade Universitária.

“O Artigas deu uma nova dimensão do que era ser arquiteto. Porque o Artigas vislumbrava um destino de uma grandiosidade para esse país que só um otimista e um idealista como ele poderia ter. (…) Ele nos inculcava essa ideia de país grande, e nesse país grande, ele encontrava uma coisa fundamental para contribuir para esse país crescer, que era a profissão do arquiteto”, relatou o aluno e depois colega de docência na USP Jon Maitrejean, em depoimento ao portal dedicado ao arquiteto.

A perseguição do regime militar
Nas décadas seguintes, ganhou reconhecimento internacional ao receber o prêmio Jean Tschumi, da União Internacional dos Arquitetos, em 1972, por seu trabalho como professor. Ao mesmo tempo, sofreu as consequências do Golpe de 1964, que interrompeu sua carreira acadêmica por mais de uma década.

O primeiro afastamento da universidade ocorreu justamente em 1964, quando se refugiou no Uruguai. Filiado ao PCB desde 1945, fez parte da primeira leva de vítimas do recém-instalado regime militar. Retornou clandestinamente ao país em 1965, retomando as aulas na USP dois anos depois e por pouco tempo. Em abril de 1969, junto com vários outros professores da universidade, foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5 (o Ato Institucional nº 5).

O retorno à Universidade de São Paulo
O “exílio” da USP durou até 1980. A década da redemocratização do país marcou seu retorno à universidade paulista, porém como auxiliar de ensino até 1984, quando retomou seu cargo de professor titular após prestar novo concurso.

Infelizmente, desfrutou pouco dessa condição. Faleceu no dia 12 de janeiro de 1985, “num dia claro de verão”, como recorda sua filha Rosa Artigas, em artigo publicado na página do Facebook dedicada ao pai (https://www.facebook.com/vilanova.artigas#). Ainda em 85, recebeu postumamente o prêmio Auguste Perret, o segundo concedido pela União Internacional de Arquitetos, por sua obra construída.

Fonte: CAU/SP.

Cantor une dois curtas para formar curta-metragem sobre uma comunidade futurística. Como será o cotidiano de um bairro periférico de São Paulo daqui a 30 anos? A tecnologia dos drones (pequenos veículos aéreos não tripulados) e das impressoras 3D chegará à periferia. Para o bem e para o mal. 

É este o olhar do diretor Cisma nos clipes filmados por ele para as músicas Duas de Cinco e Cóccix-ência, singles lançados em 2013 pelo cantor e compositor Criolo. Os dois vídeos, foram feitos em sequência, como se fossem um curta-metragem. 

Na favela futurística, jovens ainda deixarão a sala de aula seduzidos pelo caminho mais curto da violência e do tráfico de drogas. Situação retratada nas duas canções de Criolo: "Um governo que quer acabar com o crack/ Mas não tem moral pra vetar comercial de cerveja" (Duas de Cinco) e "O que não é seriado da Fox/ É playboy se acabando no oxi" (Cóccix-ência). "A desgraça consegue ser mais rápida que a tecnologia. 

Agora cada bairro tem a própria Cracolândia em sua porta. Pensamos em 2044, mas isso chegou em três meses", diz Criolo. Fazendo shows com os repertórios de Nó na Orelha (2011) e Ainda Há Tempo (2006), Criolo completa 25 anos de uma carreira que teve projeção nacional há quatro. 

E segue compondo – para a reportagem, canta algumas inéditas, entre elas uma marchinha, uma canção com sotaque de fado, um forró e um samba que estará no próximo disco de Tom Zé. 

Sem pressa de lançar o próximo álbum, Criolo atualmente trabalha num texto que apresentará no Festival de Poesia de Berlim, em junho."Criação de arte não está ligada a uma esteira competitiva em que quanto mais você aparecer, mais louros você colher, maior vai ser o seu cachê", comenta. 

Em entrevista, o cantor de 38 anos fala dos novos clipes, de racismo e da disparidade entre aentre a arrecadação de impostos e o que é devolvido à sociedade. 

Os clipes mostram a tecnologia na rotina do Grajaú em 2044. Pela visão de vocês, isso vai acontecer para o bem e para o mal, não? 

Não cuidam da gente, então vamos mostrar como vai ser daqui tantos anos. O abandono é total e absoluto, as ações são paliativas. O que as pessoas vão ser capazes de fazer para continuar exercendo seus pequenos poderes? Como vai ser o habitat das bordas em 2044? A gente pensou que estava se adiantando, nesse ínterim foi desmontada a Cracolândia, agora cada bairro tem a sua Cracolândia na sua porta e o convite ao garoto à sua referência mais próxima, seu herói. A desgraça consegue ser mais rápida que a tecnologia.

 

Mesmo com a evolução tecnológica, as necessidades básicas vão continuar existindo.

A grosso modo, se os corruptos roubassem metade do que roubam, não precisaria de controle de natalidade e todo cidadão brasileiro teria um nível de classe média. Se você passa ali no Largo São Bento ou no Pátio do Colégio, tem aquele equipamento maravilhoso, extremamente tecnológico, o impostômetro: impostor por metro quadrado. Você passa lá e tem R$ 134 milhões arrecadados com impostos (até a conclusão desta edição, o número era de R$ 387 bilhões). Todos os dias a palavra destrói a poesia. Quanta poesia não consegue destruir de um cara passando ali, que comeu às duas da tarde porque não teve o café e não vai ter janta, e ele está vendo aquele número, R$ 134 trilhões.

Dos problemas que o país tem em saúde, educação, qual o mais agudo para você?

Vamos falar do básico: a cada dois segundos alguém morre de fome no planeta. Fora quem morre da alma por não enxergar mais solução e fazer da sua vida um pesadelo. Também somos um desses. Lembro quando eu era pequeno, nas vielas perto de casa, eu vi gente morrer, vi três, quatro assassinatos na minha frente, de certa forma, você morre também, todos os dias, de alma.

Duas coisas que acontecem desde que o mundo é mundo. Paixão é irracional, para responder a primeira parte. A segunda parte, vou contar um caso para você bem rapidinho. Quando eu tinha uns 8 anos, me acidentei em casa, meu pai estava chegando do trabalho. Do jeito que ele estava, me pegou e me levou para um pronto-socorro. Fui atendido em 20 minutos, um dos melhores atendimentos que tive na vida. Só que levei uma hora e meia para chegar em casa porque meu pai (Seu Cleon, que é negro) foi detido, acharam que era possível eu ter sido sequestrado por ele, que tinha acontecido algo no cativeiro e ele levava uma criança sequestrada.

E de que maneira isso ainda te serve de motor criativo?

Não me serve para nada, isso só nos destrói. Agora, quando você tem contato com uma coisa tão brutal dessas, não quer para você. E esse não querer algo brutal para você e para o mundo, isso é o motor, para você minimamente falar que disso você não gosta. Falei isso pra Spike Lee, quando ele aqui esteve, perguntou sobre preconceito. Disse a ele: mano, no Brasil o currículo tem de vir com foto! Acho que isso resume.

Há previsão de um novo disco?

Há quatro anos, eu e o DJ Dan Dan saíamos da Rinha dos MCs com R$ 15, era um pão na chapa e uma vitamina para cada um, e a gente ia embora para casa. Esperar o almoço de R$ 3 virar dois e o cara que já te conhece separa um copo de suco para você. Isso aconteceu comigo com 21 anos de carreira, bicho. O Nó na Orelha, falo com muito orgulho da felicidade de ter o Daniel (Ganjaman), o (Marcelo) Cabral (produtores do disco) e toda a turma que eles montaram, um time dos sonhos, sabe? Às vezes, fico até me questionando: existe a necessidade de fazer outro álbum se ele já me deu tudo isso? Vou fazer outro álbum, sim, porque é uma inquietação minha, não por uma necessidade de manter uma agonia ou um pódio que o outro criou. Cantamos para tentar fazer com que o nosso coração se acalme e isso não está ligado a prateleiras e troféus. Você tem de entender que criação de arte não está ligada a uma esteira competitiva, em que quanto mais você aparecer e quanto mais louros você colher, maior vai ser o seu cachê.

Gravação traz jovens protagonistas do Jaçanã

Com o reconhecimento nacional de Criolo e toda a estrutura da produtora do diretor Cisma (a Paranoid, dos sócios Heitor Dhalia, Tatiana Quintella e Egisto Betti), eles tinham tudo para optar por rostos de atores famosos na linha de frente dos clipes de Duas de Cinco e Cóccix-ência. Mas escolheram justamente o contrário.

Em vez de figuras conhecidas do público, eles decidiram que os protagonistas seriam jovens estreantes. E, para os vídeos filmados na zona sul de São Paulo, no Grajaú, eles encontraram os atores na zona norte, numa oficina de teatro do CEU Jaçanã.

Os três protagonistas não passaram por testes, foram escolhidos na base da confiança. Sem atores principais para os clipes, o diretor Cisma tinha apenas uma certeza: que uma “molecada” atuasse nos filmes. Após receber uma dica de que poderia encontrar seus protagonistas no CEU Jaçanã, ele foi até lá e, por indicação do professor do local, conheceu os três jovens Daniel Dantas, Morgana Naughty e Léo Loá.

“Eu nem fiz teste com eles, olhei e acreditei. A única coisa que rolou foi uma conversa na produtora e já estava decidido. Você coloca uma câmera na frente desse personagem principal, o Daniel Dantas, e vê muita verdade”, diz Cisma.

“A atuação desses caras está emocionante. Não é um clipe do Criolo, tem a canção que por acaso é a trilha para o filme desses jovens tão talentosos”, comenta Criolo.

Nos clipes filmados no Grajaú, os três atores representam uma realidade comum a muitos jovens brasileiros, a de abandonar os estudos ao serem seduzidos pelo tráfico de drogas e pela violência do crime.

E a oportunidade que surgiu para os protagonistas também serviu para demonstrar o quanto alguns deles encararam a empreitada como o sonho de um futuro na profissão. “Um dos meninos, na segunda diária, falou: ‘Acho que perdi meu emprego. Avisei lá no telemarketing que eu ia faltar para gravar um clipe, meu chefe não entendeu, me deu uma bronca e eu nem apareci no dia seguinte’. Eu disse: Mas não era para isso acontecer, quer que eu ligue lá para dar uma palavra com seu chefe? Ele respondeu: ‘Não, estou indo atrás do meu sonho, isso aqui está perfeito para mim’”, lembra o diretor.

“Precisa ter muito brio, muita garra para tomar uma atitude dessas com essa idade. Aí você se identifica e começa a aplaudir esse cara. E como dói no coração apagar a luz do set no último dia de filmagem, e a gente não ter força para fazer mais por esses caras”, diz Criolo. “Eu lutei a vida toda, não esperei, fui atrás, alguém me deu condição e mudou minha vida completamente. Ninguém quer nada dado. É o mesmo com esses jovens, nem a oportunidade eles querem, eles conquistam. Querem a situação para ir atrás da oportunidade. Se de tudo o que a gente fez até hoje, nesses 25 anos de carreira, se as pessoas reconhecerem esses atores e se rolar alguma coisa para esses caras, já valeu”, completa o compositor.

Videoclipe curta metragem das músicas "Duas de Cinco" e "Cóccix-ência" de autoria do MC, cantor e compositor Criolo, dirigido por Cisma e produzido pela Paranoid: https://youtu.be/MCtVS9wh26Y

Lucas Nóbile especial para o Estado de S.Paulo em 2014.