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Estela Renner era muito menina quando assistia à avó paterna, dona Cilú, filmar a família com uma Super-8 em punho. Era meados de 1970, e o cinema era não só um passatempo, mas uma paixão daquela mulher, que tinha como atividade principal cuidar da casa, olhar pelos quatro filhos e, como bem lembra Estela, “ser avó”. Em um dos cômodos de sua casa, Cilú construiu uma ilha de edição. Sabia montar os filmes, gravava em planos variados e investia no equipamento. Foi suficiente para encantar Estela.

Se para a avó era custoso e ousado demais seguir com o cinema como profissão, para a neta foi não só viável como infalível. Hoje, aos 41 anos, Estela é diretora e roteirista, reconhecida dentro e fora do Brasil por documentários estilo nocaute, que desestruturam quem os assiste. O motivo é simples: ela toca em temas caros à sociedade e cada vez mais quentes. Infância é sua especialidade, e sobre o assunto já são dois longas lançados e um em fase de finalização.

O primeiro, Criança, a alma do negócio, de 2008, coloca luz na má publicidade dirigida aos pequenos e inaugurou o trabalho da Maria Farinha Filmes, produtora criada ao lado dos sócios Marcos Nisti e Luana Lobo. Muito além do peso (2012), seu maior sucesso, é derivado do primeiro filme, mas com um foco específico: a epidemia de obesidade infantil no Brasil e no mundo. O longa já ultrapassou 2 milhões de visualizações na internet. Nele, Estela e sua equipe viajam o país visitando famílias e mostrando o que e como nossas crianças comem. Um mérito e uma coragem desse projeto: os rótulos e as marcas dos produtos são todos expostos. Tabelas nutricionais são escancaradas ao lado de punhados surpreendentes de açúcar, gordura e sal; ingredientes muitas vezes velados nos alimentos.

O projeto mais recente foi um pedido de três instituições à diretora. A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o Instituto Alana – ONG parceira e a maior incentivadora das obras de Estela – e a Fundação Bernard van Leer, todas dedicadas a causas da infância. “Queremos que você faça um filme autoral sobre a importância dos três primeiros anos de vida de uma criança”, dizia o convite que Estela atendeu “com o coração”. O longa está sendo chamado de Be - um filme sobre os primeiros 3 anos da vida de uma pessoa, mas o nome ainda pode mudar, e deve estrear no primeiro semestre de 2016. “Sem afeto e presença simplesmente uma criança não acontece. Por isso é tão precioso e primordial investir no amor na primeira infância”, diz a diretora, convicta depois das filmagens do documentário.

De família de classe média alta, criada no bairro paulistano de Alto de Pinheiros e educada em uma escola de elite, Estela foi ter contato com o que lhe era diferente na adolescência em viagens que fazia como bandeirante a comunidades carentes do interior do país. Antes de decidir o que faria da vida, deu boas voltas. Foi modelo, atriz, cursou nutrição na USP e desenho industrial no Mackenzie, e dirigiu muita publicidade. Mas sempre soube que precisava trabalhar com pessoas e para elas. Ela gosta de chamar isso de “empatia pelo outro”. O cinema virou certeza quando foi fazer um vídeo no México, um trabalho voluntário para promover uma creche que cuidava de crianças que viviam na fronteira do país com os Estados Unidos. “Dirigi e me dei conta de que queria mesmo fazer audiovisual.”

E ali está ela, pronta para perturbar. Na sede do Instituto Alana, em um arranha-céu no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde também fica a Maria Farinha Filmes, Estela nos contou sobre sua vontade de cutucar através das câmeras. Ainda falou de maternidade, dos três filhos, de seu casamento com o cineasta Tadeu Jungle, publicidade, redução da maioridade penal e transformação social. “Me interesso por filmes que provoquem e sensibilizem, que ajudem a transformar o mundo em um lugar melhor. Pode parecer utópico e clichê, mas levo a sério. Sendo um pouco sonhadora, acredito na transformação que podemos realizar com o cinema.”

Tpm: Em 'Be' você fala sobre a importân-cia do amor na primeira infância. Sua experiência como mãe influenciou? 

Estela Renner: Tenho três filhos, mas isso não significa que já sabia o suficien-te. Claro que eu tinha um começo, um lugar de onde partir. Além de ser mãe, não tive babá. Sempre tive uma relação muito próxima com eles. Mas estudei muito para fazer o filme. As três instituições que me convidaram são sérias, idôneas, e lidam com esse assunto há muitos anos. Foi assim que decidi ficar em cima de uma das descobertas científicas que mais revolucionaram o olhar para a primeira infância. A criança não é uma tábula rasa quando nasce, em que você insere um monte de informações. Mas também não é puramente bagagem genética. Ela vai se formar através das relações humanas e da genética. Então, esses primeiros três anos são uma janela gigante para a formação dos indivíduos. Muita gente acredita que não há aprendizado nesse período. Mas, na verdade, esse é o momento mais formador da vida. Isso muda tudo.

Por isso o amor nessa fase é tão importante?

Sim. Sem amor simplesmente essa criança não acontece. E amor se estende a muitas coisas. É você amamentar seu filho, e quem não puder amamentar, é dar a mamadeira com amor e atenção, olhando nos olhos dele. Segurar esse filho nos braços e se dedicar ao contato amoroso através do olhar, do toque.

O filme está sendo finalizado em um momento no qual discutimos a redução da maioridade penal. Esquentando essa discussão vemos diversas histórias de menores infratores que nasceram e cresceram em famílias fragmentadas, sem amor. Você concorda que o problema dos crimes muitas vezes está nesse contexto familiar? 

Vou recorrer a James Heckman, um dos especialistas que entrevistei para o Be. Ele ganhou o prêmio Nobel de economia e tem muitos artigos publicados nos Estados Unidos. James falou de um estudo que fez para identificar em qual idade a criança aprendia mais. Quando chegaram na primeira infância, viram que era o momento em que de fato mais se aprendia. E perceberam que as sociedades que mais cuidavam dessa fase conseguiam prevenir crime, violência, comportamentos compulsivos e uso de drogas.

Para o James, é mais fácil e possível, em termos econômicos, oferecer uma primeira infância saudável e amorosa do que tentar consertar no adulto comportamentos nocivos. É mais importante investir na família e nos cuidadores dessa criança do que depois “fix a broken man”, como ele diz. Porque como você vai voltar lá atrás em experiências traumáticas formadoras daquela identidade? Elas estão solidificadas, vêm de um tempo em que aquela pessoa era bebê. E mais, essa pessoa nem tem mais acesso a essas memórias. Que adulto esperamos que uma criança abandonada constantemente, que vive um estresse tóxico diário, vire? Segundo James Heckman, nada dá mais lucro pro Estado do que investir no ser humano assim que ele nasce.

Leia a íntegra da entrevista a Natacha Cortêz na Revista TPM: http://goo.gl/xpzF89


Adoniran Barbosa é uma figura única. Cantor, compositor, humorista e ator com um jeito extremamente pessoal de atuar em cada uma de suas vertentes artísticas. A maior de todas? Provavelmente a forma como mesclava as quatro em suas letras e músicas, potencializadas pela estética marcante do chapéu, gravata borboleta, bigodinho, voz rouca e sotaque bem paulistano – principalmente da Mooca, meo!

Dizer que a vida e obra de Adoniran dá filme é chover no molhado. Mas a grata surpresa é que a história tem tudo para ser extremamente bem contada na telona em breve. Em 2016, o filme com o artista como tema central deve ser finalizado. Mas antes disso, uma prévia sensacional do que deve estar por vir é “Dá licença de contar”, curta-metragem de Pedro Soffer Serrano que teve sua pré-estreia na noite desta segunda-feira (20), em São Paulo. O trabalho traz Paulo Miklos no papel principal, além de elenco formado por Gero Camilo, Gustavo Machado, Aisha Jambo, Caio Juliano e Zemanuel Piñeiro.

Ficcional, a história de cerca de 20 minutos de duração mostra Adoniran voltando ao bairro onde supostamente morou, na “Saudosa Maloca”, desencadeando uma série de lembranças. Cada passagem traz ligação a alguns dos principais clássicos do artista, como entre elas “Trem das Onze”, “Samba do Arnesto” e “Iracema”. As referências, algumas sutis e outras óbvias, remetem a importantes trechos e versos de cada uma das canções, do bilhete na porta do Arnesto às taubas que caía; da lâmpida às mariposa.

O filme agora passa por diversos festivais – o primeiro será o de Gramado –, até chegar à algumas salas de exibição e provavelmente a internet. Ele tem coprodução da Latitude Filmes e trilha da DaHouse Studio, do nosso Inspirador Lucas Mayer. Dá para seguir as novidades pela página do Facebook.

Se você é fã ou admirador de Adoniran, vale a pena cada minuto do curta. Se você ainda não conhece a obra do homem, dá licença de contar: tá na hora!

Assista o trailer: https://youtu.be/RZT6d9EP9Vg

Elenco: Paulo Miklos, Gero Camilo, Gustavo Machado, Aisha Jambo, Caio Juliano e Zemanuel Piñeiro
Direção e roteiro: Pedro Soffer Serrano.

Karan Novas no Inspirad.

PS: O filme tem duração de 15 minutos e é um projeto para o desenvolvimento de um longa-metragem, que deve começar a ser rodado em janeiro de 2016. Por enquanto, o curta-metragem está fazendo carreira em festivais – participa, por exemplo, da competição de Gramado, em agosto.


O Theatro Municipal do Rio recebeu na tarde desta última segunda-feira (20) a cerimônia de premiação da 10ª Olímpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), com a presença do matemático Artur Ávila, o brasileiro vencedor da Medalha Fields, considerada o "Nobel da Matemática".

No total, participaram 18 milhões de estudantes: 6.500 ganharam medalha e 46.200, uma menção honrosa. Neste último grupo estão 37 adolescentes que cumpriam medida socioeducativa no Brasil. O G1 conversou com um deles, A. T. S., de 18 anos, ex-interno da Fundação Casa, em São Paulo.

O adolescente parou os estudos ainda no ensino fundamental para trabalhar. Durante o período em que ficou internado, em uma unidade na Zona Sul da Capital, ele voltou a ter aulas e concluiu o primeiro ano do ensino médio. Sem ter aulas preparatórias para a Obmep, o jovem teve a nota mais alta da unidade – no total 542 internos da fundação chegaram à segunda fase do torneio.

"Eu fiquei feliz [quando soube da menção honrosa]. Foi um passo muito grande para mim ter conseguido terminar a prova. Tentei fazer a prova com tudo o que eu aprendi aqui dentro", conta o jovem.

O gosto por fazer cálculos, porém, não se estende às regras do português. "Eu fiz a olímpiada de português, mas não passei. Eu gosto mesmo é de educação física e matemática. Das outras matérias eu não gosto muito, não. Prefiro fazer contas, pensar. A matemática faz a gente pensar muito e eu consigo raciocinar."

Volta às aulas

A. foi desinternado em março deste ano, após cumprir um ano e sete meses de medida socioeducativa por roubo. Hoje, planeja fazer carreira e voltar aos estudos. "Eu trabalho com descarregamento de carga. Eu tenho que terminar a escola, mas não tem vaga. Ficaram de ver se conseguem para este meio de ano, mas acho que no ano que vem tem."

De acordo com a pedagoga Kátia Martins de Aguiar, que há três anos trabalha na Fundação Casa, a olimpíada é uma forma de medir o desenvolvimento do aluno e de motivá-lo. "Essas competições são um incentivo, é muito bom para eles. Proporciona a procura de um sentido, de reconhecer o próprio potencial. Faz com que eles possam se apoiar nos estudos e ver que este é o caminho", afirma.

Filho de uma doméstica e sem contato com o pai, A. pretende mudar sua vida para crescer junto com a namorada e a filha de quase dois anos. "Quero crescer na vida, ser alguém, dar orgulho para a minha mãe, família, minha filhinha."

Defasagem escolar

Segundo balanço da Fundação casa, 9.965 adolescentes cumprem medida socioeducativa em 148 centros no estado de São Paulo

Para Aguiar, a defasagem escolar é muito comum entre os adolescentes que são internados. "Eles não frequentaram a escola, se evadiram, e aqui dentro acontece a escola. Estes adolescentes têm que amadurecer e pensar no porquê estão aqui. Eles não podem simplesmente passar por aqui, tem que haver uma reflexão e devem evoluir aqui dentro", afirma a pedagoga, que ressalta que a mudança é um processo lento.

"O meu trabalho é de plantar sementinhas. Demora, mas quando eu vejo um resultado como esse me encorajo a seguir em frente."

Obmep 2014

Mais 18 milhões de alunos de 46.698 escolas do país todo se inscreveram na 10ª Obmep. Para participar, os estudantes devem estar matriculados da 6ª a 9ª série do ensino fundamental e nos três anos do ensino médio de escolas públicas. Alunos do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) também podem participar.

Os 6.500 jovens com maiores pontuações na segunda fase da Olimpíada receberão medalhas. Segundo a Obmep, são 501 de ouro, 1.500 de prata e 4.500 de bronze.

Os medalhistas também receberão bolsas de iniciação científica e poderão se candidatar ao Programa de Iniciação Científica e de Mestrado (PICME), quando estiverem matriculados no ensino superior. Além disso, 46.200 participantes receberão também certificados de menção honrosa. Os professores, as instituições de ensino e as secretarias municipais de educação também receberão prêmios.

A edição de 2015 da Obmep ainda está em andamento.

Gabriela Gonçalves do G1, em São Paulo.

 

No metrô e nos cruzamentos, meninos se anunciam como artistas de rua para ganhar nova identidade social.

Os meninos vão se juntando, menino graúdo e miúdo, menina quase nenhuma, em volta do concretinho da praça. Corre entre eles o pó. O pó alemão, a purpurina, o glitter. O “sigiloso”. Um dos moleques mistura o pó com um creme hidratante, numa proporção de um tanto pra outro tanto. Quem não tem hidratante se vira com a água do banheiro.

Mãos ressecadas, unha rente à carne, eles mergulham os dedos na pasta. Espalham uma película grossa em todo poro aparente: no rosto, nas orelhas, no pescoço, nos braços, nas pernas, nos pés. Um cheiro químico perfura o nariz. Os garotos ajeitam o moletom cinza, a camiseta cinza, a gola cinza. Quem tem chapéu bota chapéu. Quem tem gravata pendura a gravata. Quem tem aparelho nos dentes metaliza o sorriso. Vão aos poucos na direção do metrô, em busca de destaque na multidão. “Nóis é prateado.”

O concretinho, retângulo branco todo carcomido, fica na Praça Armênia, do lado da estação que já foi Ponte Pequena. Bolada pelo carioca Marcelo Accioly Fragelli, premiada em 1968, a estação é um exemplar da arquitetura brutalista, concreta e funcional, com seus volumes que afloram da linha. Uma “poesia na matéria”. Para os prateados, a estação elevada da Armênia é a matéria bruta que pediram aos céus.

Eles galgam a grade de 1,80 metro em volta da estação, lá em cima da grade alcançam uma segunda proteção de tapumes de vidro de 1,90 metro e já saltam no acesso aos elevadores. Sobem até a plataforma, um andar acima, e apertam o botão de descer, pra quem ficou lá embaixo. Tudo na discrição, camuflados de metrópole. “Tem que ser assim, por causa dos urubu.”

Urubus são os seguranças da estação, que circulam de uniforme preto pela área. A moita não é somente porque os meninos entram sem pagar. É porque circulam para mendigar, prática proibida nas vias férreas de São Paulo. A Armênia atende cerca de 31 mil passageiros por dia, mas tem capacidade para acomodar 20 mil por hora no horário de pico.

Não é na superlotação que os prateados surfam. Preferem vagões mais vazios para andar entre as pessoas sem manchá-las de tinta, distribuindo praticamente o mesmo bilhetinho, impresso numa lan house ali perto. “Senhores passageiros primeiramente meu nome é Vinicius e estou aqui para pedir uma ajuda para vocês. Minha mãe está passando por muitas necessidades, fomos despejados de casa e não temos condições de pagar aluguel nós nem temos o que comer, aquele que puder ajudar com 0,05 ou 0,10 eu agradeço e que Deus abençoe sua viagem obrigado! Melhor pedir do que roubar.”

Primeira – e obviamente – nem todos são Vinícius. Tem também Gabriel, Rafael, Cauê, Felipe, Moisés, Henrique, Juliano, Diego e todos os codinomes beija-flor. Como ninguém no metrô vai tirar o fone de ouvido e perguntar o nome deles, tirando os seguranças, tudo bem pagar R$ 1 por 60 cartões impessoais. Na estatística flutuante deles próprios, 70 garotos, entre menores e maiores de idade, rodam por ali. Grande parte vem de Guarulhos, porque a estação agrega um terminal de ônibus intermunicipais que chegam da cidade vizinha. Mas Jardim Romano, que faz divisa com Guarulhos e ficou conhecido pelas casas alagadas em 2009, também deixa vazar pelo ladrão uma série de meninos prateados. Um trouxe o outro, que trouxe o um. Mãe, praticamente todo mundo tem na ponta da língua. Pai, foi difícil encontrar. Entre os pais mencionados, muitos estavam perdidos para o álcool, e não poucos entraram para o rebanho das igrejas evangélicas. Das mochilas, aliás, brotam Bíblias pretas e Bíblias douradas. Mas nem todos os meninos seguram na mão de Deus. “Não sou crente, sou desviado.”

Se despejo significa morar na rua, o bilhetinho também parece trolar nessa questão. Os prateados da Armênia podem não ter casa própria, mas afirmam ter um lar para voltar todo dia, na qual se dão um papel provedor. Teriam cacife pra isso. De quinta a domingo, dias quentes para a atividade, eles contabilizam uns R$ 100 por dia, tudo em moeda pequena, que trocam no comércio do metrô ou em mercadinhos no meio do caminho. Bem verdade que a crise chegou e a coleta minguou consideravelmente. Daí que os prateados soltam a voz para tocar o coração: o feijão-com-arroz depende deles, a luz depende deles, o gás depende deles, os três irmãos de sangue e os dois de criação dependem deles. O que não contam para os passageiros é que a mãe morre pela volta deles, e acha ruim essa opção de vida. “Ela diz que isso não é futuro, que metrô é só uma ilusão.”

O futuro lustroso estaria na escola, para a qual eles dizem que vão voltar um dia. Enquanto isso, titubeiam quando perguntados sobre a última série que cursaram. Quinta, sétima, primeiro colegial, não sabem bem. Aproximam o rosto do meu caderno de anotações e dizem que aquilo é letra de médico. O que estou escrevendo ali? Olham para o horóscopo no painel do vagão, que propõe ao escorpiano voltar aos estudos. O que está escrito ali? Tudo está escrito, pouco ou nada está compreendido. Muitos daqueles meninos não sabem ler nem escrever. Tiram o chapéu e o enrolam entre as mãos, envolvendo ainda mais o presente contínuo num papel gris. Culpam a falta de vagas nas escolas da quebrada, se bem que perderam a data da matrícula; o professor que foi passando a turma de ano sem repetir, se bem que repetiram, sim, uma ou duas vezes; a diretora que os expulsou porque jogaram a carteira na cabeça do professor, se bem que o professor foi ignorante pra c*. “Só sei contar dinheiro, se estudar eu não como.”

Se tivessem uma oportunidade de trabalho, estavam saindo do prateado. Se bem que estão trabalhando. Como não? Saem cedo de casa, chegam ao metrô às 9 da manhã, saem à meia-noite. A vantagem de trabalhar por conta, dizem, é que podem fazer o próprio horário. Um dia pedem nos vagões, noutro empinam pipa. E, nos fins de semana, uns até atravessam a Avenida Tiradentes pra se juntar aos prateados do malabares. Foram eles, aliás, que deram a ideia da pintura no corpo, pra parecer artista de rua. São artistas de rua. Por que não? Estátuas ambulantes que sobem num banquinho trôpego e fazem contagem regressiva do sinal vermelho para ganhar uns trocados ou um lanche de drive thru. “É o farol da nota.”

Acontece que nem todo mundo se dá bem com aqueles bastões feitos de colchão na base, um pedaço de ferro no corpo, uma tira de calça jeans na ponta e um arame pra arrematar. É exigir muita destreza no improviso. E precisa reservar dinheiro pra gasolina e pra jogar uma lábia no frentista, porque posto não pode vender combustível assim. Passando a régua, os prateados do malabares fogem dos guardas do metrô, e os prateados do metrô fogem do fogo dos malabares. As duas categorias também procuram escapar do crack – caiu ali não volta mais. Mas alguns dão seus pegas cotidianos na Praça Armênia por R$ 5 o quadradinho de maconha – pra aliviar a tristeza. O que os une mesmo é o pó alemão, o “sigiloso”, que avermelha os olhos no fim do dia e dá uma urticária desgraçada de tempos em tempos. “Nóis tem medo de pegar câncer a qualquer momento.”

Saindo da Armênia, o papo é outro. Os prateados compram o pó em lojas de fantasias na 25 de Março e na Ladeira Porto Geral, a R$ 45 o quilo. Um dos pacotes menciona purpurina made in China e diz conter acetato irisado, unhas brocal (sic), lantejoulas quadrada e cubeta, fitas metálicas, pastilhas e tecido de paetê. Registro no Ministério da Saúde, nenhum. “Parece uma mistura à base de tecido, algo com celulose, o que explicaria sair fácil com água”, diz a dermatologista Ida Duarte, professora de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. “Mas não há qualquer controle, pode causar alergia, entrar na mucosa, ter algum tipo de absorção renal, dar o gatilho para uma doença autoimune.” 

“Pois eu não acho que faça mal”, alivia Marcello Zago, estátua viva hás uns dez anos. Ele explica que existem maquiagens mais próprias, mas que exigem um demaquilante para sair. Deve ser uma daquelas também à venda na Porto Geral, cujo rótulo sugeria o uso por “torcedores, atores, palhaços e estudantes”. Para Zago, a dourada certamente causa mais coceira, daí a maioria preferir a prata. Mas o que pega para ele na história dos prateados é outro ponto: “Estão prostituindo o nosso serviço”. Artista de rua é profissão séria, muitos procuram o desenvolvimento, ainda que a profissão esteja passando por um abalo porque a rua não está rendendo como rendia. Ganha mais quem se faz de Estátua da Liberdade em festa de debutante ou Homem das Cavernas em lançamento de filme. Os meninos prateados estariam, a seu ver estático, fazendo isso para ganhar uns trocados e cheirar cola. “Nada mais.” 

No olhar da socióloga Fraya Frehse, professora da USP, a ética do ofício mudou muito nos últimos tempos, tempos em que, por exemplo, rareia a carteira assinada. “Nada é trabalho, tudo é trabalho.” E mendigo... bem, mendigo é sempre o outro. “Mendigar seria o fim da linha, aquele que não troca de roupa, uma categoria na qual ninguém quer se incluir.” A antropóloga Maria Filomena Gregori, professora da Unicamp, segue num trilho paralelo: “Esses meninos querem se diferenciar, seja pela pintura, seja pela afirmação de que não são meninos de rua nem dependentes do crack”. Seriam meninos na rua, como destacou no seu livro Viração, garotos que têm um vínculo territorial e que criam uma dinâmica de circulação. Estão vulneráveis? “Certamente, mas por uma situação que passa pela incapacidade de resolver a vida pela escolaridade.”

Se é para terminar todos os parágrafos com aspas, que chamemos João do Rio. Em A Alma Encantadora das Ruas, de 1910, já dizia o cronista: “Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue”. Então, parando numa frase concreta, nua, brutalista, resumia: “A rua é agasalhadora da miséria”.

Mônica Manir no Estadão.

 

Meu pai diz que nasci com rodinhas nos pés. Desde que aprendi a andar minha vida se resume em querer viajar. Nasci em Botucatu, interior de São Paulo, mas nem sei onde fica no mapa. Com menos de um ano minha família e eu nos mudamos para a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, e lá vivi a infância dos sonhos, onde aprendi o valor de ser livre, de andar descalça, pescar na lagoa, nadar no mar e claro, andar de bicicleta. Foram muitos tombos pela Beira Mar Norte, em uma época em que ninguém sabia o que era uma ciclovia.

Aos meus 10 anos fomos para a capital paulista. Difícil transição…. Viver em São Paulo nunca foi fácil para mim. Cheguei na cidade pela primeira vez com uma referência de vida que não cabia na metrópole. Da liberdade das ruas, árvores e do mar fui diretamente para o concreto, para o anonimato e para a hostilidade. Foi então que comecei a pedalar pra valer, estava com 15 anos, era 1989. Comecei e nunca mais parei. Foi nesse período também que iniciei minha vida de viagens. Meu primeiro trabalho foi aos 13 em uma oficina mecânica e todo o dinheiro que ganhava gastava viajando. No início para locais próximos, acampar pelas praias do litoral norte ou de Ilhabela.

Depois, aos 20 anos, me mudei para Londres, capital da Inglaterra, onde vivi por 10 anos. Nesse período pude transitar pela Europa, fosse para rever amigos, dançar, comer ou apenas caminhar pelas cidades cheias de passado.

Aos 30 anos deixei Londres e passei um ano mochilando pelo mundo. Índia, Sudeste Asiático, Estados Unidos, Américas Central e do Sul. Com 31 pousei novamente em São Paulo, trabalhei, fiz faculdade, casei. Aos 40 descasei, deixei o emprego e voltei a fazer aquilo que faço melhor e mais feliz: pedalar por aí.

De volta ao mundo conhecido

A bicicleta me devolveu para o mundo que eu conhecia. Vento no rosto, autonomia, bem estar e prazer. Quando pedalamos enxergamos os espaços de outros ângulos. A bicicleta nos aproxima da dinâmica da cidade, humaniza nosso olhar e traz uma sensação autêntica de pertencimento, onde aprendemos a dividir e cuidar. Sou ciclista há mais de 25 anos. Mudei de cidade, de país, de estado civil, mas nunca mudei o hábito de transitar em duas rodas.

Para minha sorte, andar de bicicleta e viajar é um casamento perfeito, pois em qualquer lugar do mundo você encontra uma bicicleta. Seja para alugar, pegar emprestado e às vezes até comprar. E não há forma melhor de ver o mundo. De bike você se enfia em qualquer lugar, não há burocracias ou custo com transporte. Você chega em qualquer cidade e tem autonomia para ir e vir. Não tem medo nem preguiça de se perder (aliás, se perder faz parte da diversão). E pra finalizar, mas não menos importante, é saudável e prazeroso.

A opção pela estrada

Trabalho, carreira, profissão? A formação acadêmica e, portanto, a resposta oficial seria: Administração de Empresas e Gastronomia. Mas na realidade, qualquer coisa que seja lícita, minimamente prazerosa e que, vez ou outra, me permita ir para o mundo. Tenho 4 paixões na vida, das quais não abro mão: pedalar, fotografar, viajar e Paco, meu cão (safado, mimado e absurdamente adorável).

E aí muita gente me pergunta: mas como você faz para pagar por essa vida de viagens? Eu conto: não tem patrocínio, não tem herança ou dinheiro de família. É dinheiro de trabalho suado mesmo. Mas acima de tudo, uma escolha! Não tenho casa própria, não tenho filhos e não tenho bens de valor. Mas tenho a estrada! Optei por ela, afinal, a felicidade está em lugares diferentes para pessoas diferentes. O mundo seria insuportavelmente chato se fôssemos todos iguais, com os mesmos pensamentos, ideais e sonhos.

Trabalho, trabalho, trabalho, compro imóvel e quando está tudo estável deixo o trabalho, vendo o imóvel e vou viajar.

Quando estou trabalhando e as viagens se resumem a um mês por ano me dou ao luxo de ficar em hotéis melhores e não me privo de coisas gostosas como bons vinhos, jantares, teatro, etc. Já nos períodos sem salário as viagens têm outro aspecto. Sou econômica sem ser mesquinha. Isso é importante, pois seres mesquinhos me incomodam. Fico em albergues, hospedarias ou na barraca do camping. A alimentação pode ser em qualquer boteco, conto moedinhas para pagar a conta e uso sabonetes de “amostra-grátis” para lavar roupa.

Não tenho mais idade para ser radical, todos os mundos me encantam, cada qual com suas qualidades e limitações. E a beleza é saber que consigo transitar por eles saboreando o que cada um tem a oferecer. O real luxo é ser livre. Livre de estereótipos, de preconceitos, de intolerâncias, do medo do que é diferente, e claro, livre do medo de que não vamos conseguir.

Raquel Jorge, nova colaboradora do Vá de Bike.

 

 

‘O sentido da vida é aprender a lembrar que hoje pode ser o último dia’, diz jornalista que largou direção no Yahoo! para se dedicar a sebo de livros

No final de 2014, o jornalista Ricardo Lombardi, de 44 anos, largou o cargo que tinha de diretor de conteúdo do Yahoo! para se dedicar à venda de livros usados em um sebo montado na garagem da casa de sua mãe. A corajosa decisão dele, que inclui a redução dos gastos mensais em 70%, me fez ir até lá para entrevistá-lo, curiosa para saber o que ele responderia sobre o sentido da vida.

Cheguei no endereço onde fica a simpática loja de livros usados, chamada Desculpe a Poeira, em Pinheiros, no meio da tarde. Ricardo estava sentando numa mesinha na calçada do sebo, tomando um café e escrevendo no notebook. Na mesa, um livro e uma revista. Ao redor dele, duas bicicletas: uma para uso pessoal e outra adaptada com caixas para carregar livros.

A cena denunciou uma intenção que o jornalista em seguida me confirmaria verbalmente: a busca por simplificar a vida.

“Acho que simplificar é uma palavra interessante para mim. O mundo em que a gente vive é de muito consumo, as próprias escolhas são voltadas para o consumo. A gente tem que ter um celular melhor, e a tendência é sempre trocar as coisas por algo melhor ou superior. E acho que falta um pouco aquele momento que você para e pensa, eu preciso disso? Preciso dessas coisas? Eu preciso desse tênis, dessa roupa, desse celular? Se questionar um pouco mais acho que você consegue simplificar a sua vida e sua escolha também.”

Eu perguntei a ele o que o moveu para apostar na mudança. Ricardo explicou que a escolha tem a ver com uma fase de ter mais tranquilidade na vida. Comentou, ainda, sobre a percepção de que o tempo é finito.

Em 2013, num curto período, a filha dele nasceu e seu pai morreu. Apesar de os dois fatos não terem relação direta com sua decisão de mudar a rotina, a experiência de vivenciar quase no mesmo tempo o nascimento e a morte fez com que ele refletisse mais sobre o sentido de sua existência. “Você começa a perceber que vai envelhecer, que as coisas vão passar, que você não vai poder voltar para fazer coisas que deixou de fazer.”

E foi essa sensação que o motivou a pensar que poderia fazer coisas que dão mais sentido para ele, de forma a passar mais tempo com a família, citando a mãe, a esposa e dois filhos. “Eu acho que a gente vai ficando mais velho e vai percebendo que andar de bicicleta é mais saudável, que andar a pé é mais saudável, que você pode se vestir de forma mais simples, se alimentar de forma mais simples e saudável, aproveitar mais as coisas que não custam nada.”

Para ele, o sentido da vida é “viver plenamente” e saber que as questões de hoje é que precisam ser colocadas na mesa, já que o passado já foi e o futuro ainda não aconteceu.

“Acho que cada um precisa entender a sua participação no mundo. Para mim, o sentido sempre foi viver o presente. É aproveitar o dia e tomar as decisões naquele dia como se fosse o último da sua vida, porque você não sabe o que vai acontecer, você pode escorregar numa casca de banana ou você pode ser diagnosticado com uma doença incurável. É um erro você projetar muito para o futuro. ”

E completou: “o sentido da vida, acho que é aprender a lidar com a questão do presente, aprender a sempre lembrar que hoje pode ser o último dia.”

Vida no jornalismo

Ricardo trabalhou em redações de jornais por 25 anos, muitos deles em cargos de editor e diretor. Começou aos 17, como arquivista do Estadão, onde se apaixonou pela profissão e largou o curso de Direito que fazia para estudar jornalismo. Entre os veículos onde trabalhou está o Jornal da Tarde, editora D’Ávila, América Online (AOL), editora Abril e o Yahoo! (onde estava até setembro deste ano).

A mudança de vida não aconteceu de uma hora para outra. Na verdade, o que Ricardo fez foi sair do emprego para poder se dedicar a um projeto pessoal que toca há alguns anos. Desde 2007, ele tem um blog chamado Desculpe a Poeira, hoje hospedado no site do Estadão, onde dá dicas e sugestões de leituras.

Em 2013, numa viagem à Argentina, viu um sebo que despertou nele a ideia de criar, em suas próprias palavras, a “extensão analógica” do blog. “Pensei, e se eu fizesse um sebo com edições que eu gosto ou que alguém gostou, deu para mim e eu posso passar adiante? Eu tive essa ideia e pensei nessa garagem, que é da minha mãe. Falei, vou colocar em prática.”

Na época, o jornalista era diretor da revista VIP e trabalhava de segunda a sexta-feira. Foi nos finais de semana que ele mesmo reformou e transformou a pequena garagem da mãe no simpático sebo, processo que durou um ano e meio. “Primeiro eu pintei, coloquei as luminárias, fiz as prateleiras, o móvel, tudo. Até esse banquinho eu fiz”, disse, me apontando para um pequeno banco de madeira – a reportagem do Draft explica que ele fez cursos de marcenaria.

Desapego!

O desprendimento com relação aos bens materiais começou nessa época, inclusive. Ricardo percebeu que para tornar o sebo realidade precisaria desapegar do próprio acervo pessoal de livros. “Toda a minha biblioteca que eu tenho está aqui. Eu não queria me livrar dela, mas isso aqui só seria possível se eu começasse com ela.”

Em setembro de 2014, a ideia do sebo já estava formatada o suficiente e ele viu que o projeto precisava de mais tempo e dedicação para ganhar força. E foi por isso que resolveu sair do Yahoo!. “Eu acho que quando você tem um projeto em que acredita, você precisa gastar toda a sua energia nele, e não dividir em várias atividades, fracionar seu dia e sua energia, esse é meu modo de pensar.”

Para que a mudança fosse possível, ele vendeu o carro, mudou o estilo de vida e cortou seus gastos em 70%. Eu perguntei a ele se estava fazendo falta: “não, até agora não fez falta.” Ricardo estava vivendo de sua poupança, mas acreditava que dentro de um ano o sebo começaria a dar retorno financeiro.

“A beleza da nossa vida é que a gente pode fazer o que a gente quiser. A gente pode nascer de novo, mudar de profissão, reformular ou reformatar a nossa vida de outro jeito, que faça mais sentido naquela fase especifica. Eu não estou dizendo que é errado gastar dinheiro com roupa ou comer em restaurante caro, eu não acho errado. Você tem que saber que aquilo se encaixa com aquela fase da vida que está vivendo. Na minha fase atual, eu prefiro ter uma vida mais simples, prefiro ganhar menos, e gastar mais tempo com as pessoas que eu gosto, essa é a maneira que eu acho que pretendo gastar meu empo no resto dos dias.”

Gabriela Gasparin é jornalista, blogueira e escritora. Em 2013 criou o blog www.vidaria.com.br, onde publica depoimentos sobre o sentido da vida. O trabalho resultou no livro “Vidaria, uma coletânea de sentidos da vida”, à venda no site www.autografia.com.br

Vidaria é um projeto parceiro CONTI outra.