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São Paulo São Pessoas

O sambasurgiu há 100 anos como a voz dos pobres, dos excluídos, dos iletrados, dos negros. De lá para cá, no entanto, sofreu inúmeras mudanças, se tornou um dos mais poderosos símbolos da identidade nacional, ganhou o mundo, mas ficou mais "branco". A "voz do morro" hoje, tanto nas comunidades quanto na periferia, é o funk.

Fui para São Paulo por amor - uma boa razão para fazer qualquer coisa - e fiquei por 10 anos. Ela é o cenário para o meu romance de estreia.

O tamanho da cidade é assombroso: demora muito tempo para voar sobre toda a mancha urbana. Você sente que está sendo engolido pela cidade quando sai do aeroporto internacional. O ar fica mais pesado, o fedor do rio mais forte, o calor mais intenso. Voando para o aeroporto doméstico, você está tão perto dos arranha-céus que pode quase ver as pessoas nas janelas dos prédios.

São Paulo se sente como o centro do mundo. Embora o dia-a-dia de moagem seja intenso - faz Londres se sentir como uma vila - é um lugar energizante. Não é bonito, é muito densa e o tráfico e o crime são terríveis, mas é tão cheia de vida que você se sente poderoso, politizado e importante.

Há mais lugares para encontrar paz e tranquilidade do que você imagina. O Parque Ibirapuera é grande e verde, com pessoas patinando e jogando futebol, basquete e tênis, e tem dois dos melhores museus da cidade. O Museu de Arte Moderna é um pouco como o Serpentine de Londres, mas muito maior e incrível. O museu e o Parque foram projetados pelo grande arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, cujo trabalho está por toda a cidade. E o Museu Afro Brasil dá uma ideia da fascinante história do país.

 Parque do Ibirapuera. Foto: Filipe Frazão / Getty Images. Parque do Ibirapuera. Foto: Filipe Frazão / Getty Images.

Outra coisa que não se pode perder é a casa da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. É a residência de uma família de colecionadores de arte, tem história e natureza, cercada por uma vegetação exuberante - quando você entra na rua de repente sente o ar um pouco amortecido e mais limpo. Oscar Americano criou a fundação em 1974, dois anos após a morte de sua mulher Maria Luisa, filantropa das artes e meses antes de sua própria morte.

Se você é atraído por sensações, assim como arte e cultura, você vai encontrar uma São Paulo fascinante - as duas vivem lado a lado. No centro antigo está a Pinacoteca, uma bela galeria, e a Sala São Paulo, um local de música clássica, a poucos quarteirões da Cracolandia, o inferno na terra em uma bela parte da cidade.

Para ver vistas extraordinárias (e bebidas caras), vá para o 30º andar do The View Bar nos Jardins. Em um adorável bairro antiquado há, acima de tudo, a cidade rolando abaixo. Ele é cercado por uma mistura de escritórios e quarteirões residenciais, e no crepúsculo os semáforos piscam como um estranho código morse que sinaliza que as pessoas estão deixando o trabalho e indo para casa. Jardins é provavelmente a melhor área para se ficar e também tem outros ótimos bares e restaurantes. A cobertura do Skye Bar no Hotel Unique tem ainda mais vistas lindas e seria um lugar perfeito para James Bond descer de pára-quedas. Há uma piscina na cobertura e o hotel tem a forma de um grande barco.
A vista do topo do Hotel Unique. Foto: Paulo Fridman / Corbis - Getty Images.A vista do topo do Hotel Unique. Foto: Paulo Fridman / Corbis - Getty Images.

Meu livro, Paradise City, tem o nome da favela de Paraisópolis, onde um incidente importante acontece no início. São Paulo é um grande cenário para um romance de ficção policial por causa do enorme abismo entre ricos e pobres - há uma subclasse desprotegida e uma sensação de ilegalidade. É um lugar rico em cultura, nadando em dinheiro e minado pela anarquia política. Um romance policial permite o acesso a esses mundos diferentes. O crime em São Paulo é dirigido da prisão por uma gangue chamada PCC. No fim de semana antes da Copa do Mundo de 2006, eles exigiram TVs de tela plana para assistir os jogos. Quando as autoridades se recusaram eles disseram que provocariam o caos pela cidade - e o fizeram por três dias. A polícia foi atacada, os ônibus seqüestrados e incendiados - quando as autoridades finalmente concordaram com as TVs, o caos cessou. Foi nesse fim de semana que a semente da idéia para o meu romance foi plantada.

A melhor coisa a fazer em São Paulo é comer. Você tem conhecer a feijoada, um cozido de carne de porco e feijão que é o prato nacional do Brasil e é tradicionalmente comido às quartas e sábados. Dizem ter sido inventado por escravos que costumavam cozinhar cascos, pés e orelhas de porco com feijão. Existem duas versões: a completa, onde você pode ser servido com a orelha de porco, ou a versão "light" com bons cortes de carne. Experimente-a no Figueira Rubaiyat, um belo restaurante construído em torno de uma enorme figueira.

O detetive no meu romance está constantemente comendo um pastel - uma massa frita com enchimento de queijo ou de carne que você encontrará em barracas por todos os lugares. Deve comê-los quentes pois eles são crocantes e deliciosos com molho. Ao lado da caipirinha, a principal bebida aqui é o chope, cerveja de pressão. Há muitos bares - o Bar do Juarez em Vila Madalena é uma ótima chopperia, e o Bar do Léo, bem no centro, é pequeno mas a cerveja é do outro mundo. Se você quiser vida noturna, tente o Love Story (Rua Araujo, 232) - que é muito famoso: Nick Cave costumava ser um frequentador e Mike Tyson foi preso alí. Ele não funciona antes das 2h30 e atrai de policiais fora de serviço a prostitutas, jovens ricos e criminosos. A melhor maneira de terminar uma noite é em uma padoca (padaria) que vende cerveja, compartilhando uma bebida e trocando histórias com estranhos enquanto o sol nasce.

Bar do Juarez. Foto: Divulgação.Bar do Juarez. Foto: Divulgação.

Paulistanos (pessoas de São Paulo) são muito orgulhosos. Eles gostam de reclamar da sua cidade, mas ninguém mais pode! Há uma grande rivalidade entre eles e cariocas (pessoas do Rio). Acham que eles são triviais e preguiçosos e passam o dia todo na praia. E eles pensam que os paulistas são obcecados pelo trabalho e caretas e passam todo o tempo em shoppings!

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Entrevista de 

Negra, pobre, estudante de escola pública, moradora da periferia. Assim era possível definir Bruna Sena, de 17 anos, filha de uma caixa de supermercado de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, criada sozinha pela mãe. Uma entre milhões de brasileiras.

Faltava pouco mais de um mês para o Carnaval deste ano e Rosemeire Marcondes, 49 anos, cortava dezenas de fantasias para o desfile da Lavapés em seu apartamento no bairro do Glicério.