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“Voltou de férias, meu amigo?” Francisco Seixas grita do lado de lá do pátio, tão logo avista o recém-chegado. É uma manhã de terça-feira e passa pouco das 9 horas. Parado junto ao jardim da Casa do Migrante, José Kinvunzila – colete azul sobre a camiseta colorida, uma prancheta apertada com firmeza nas mãos – responde com um sorriso.

Um mês se passou desde a última vez que Kinvunzila pôs os pés ali. O prédio, mantido pela Igreja Católica na Rua do Glicério, centro de São Paulo, existe desde os anos 1930 – tempo em que acolhia imigrantes italianos. Hoje, abriga até 101 pessoas, todas recém-chegadas ao país. São homens, mulheres e famílias inteiras, de 29 nacionalidades, a maioria vinda da África. Fugida da miséria, de alguma guerra ou simplesmente em busca de melhores oportunidades em uma terra nova. Kinvunzila é um agente comunitário de saúde. Algumas vezes por mês, vai ao local saber se seus moradores passam bem. Cobra que as crianças sejam levadas para vacinar e que as mulheres grávidas não faltem às sessões de pré-natal. “Voltei, meu amigo. E o Abuba? Ele está bem?”

O corpulento Seixas deixa escapar um suspiro. Cearense de Sobral – “a cidade do Renato Aragão” –, Seixas é monitor na Casa há mais de dez anos. Ficou preocupado quando, na sexta-feira anterior, o miúdo Abuba começou a se queixar de enjoos e dores de cabeça. O rapaz, segundo conta, sofre de alguma doença ainda incerta. Aguarda o resultado de exames. Seu mal-estar começara pouco depois de tomar um remédio receitado na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Sé, distante poucas ruas dali. No mesmo dia, Seixas o levou a um hospital na Zona Norte. “Não pude acompanhar a consulta. Mas deixei lá outro angolano que falava a mesma língua que ele”, diz Seixas – em Angola, além do português, falam-se ao menos outras 20 línguas. “Hoje, o Abuba estava sentado ali, no murinho do jardim, meio desanimado.”

117.700 imigrantes chegaram ao Brasil em 2015. Os haitianos foram o maior grupo e representaram 12% do total

Haitianos que vivem no Brasil lutam por uma nova realidade. Foto: Claudio Bochese.Não demora, Abuba aparece no pátio – a passos lentos, com chinelo de dedo e camisa azul fechada até o último botão. Traz uma malinha azul dependurada por um ombro só, carregada com exames e receitas médicas. “Bonne santé!” (“Boa saúde!”), cumprimenta Kinvunzila, numa saudação em creole, uma língua estrangeira para os dois, mas comum no bairro (ela é falada pelos muitos haitianos que vivem por lá). A conversa segue em ngola, a língua que Abuba aprendeu com os pais na infância. Um dos muitos dialetos falados no norte de Angola –  a região onde Abuba nasceu e de onde Kinvunzila fugiu na adolescência.

José Kinvunzila tem 37 anos e modos polidos. Nasceu num vilarejo chamado Maquela do Zombe. Fugiu dali para o Congo, país vizinho, aos 17 anos, acompanhado pela mãe. A família tentava escapar à Guerra Civil Angolana – o conflito que vitimou seu pai e espalhou seus parentes por todo o continente. No Congo viveu até os 22 anos e se formou enfermeiro. “Meu sonho era fazer medicina”, diz. A vida seguiu outro rumo. Em 2002, quando a guerra acabou, ele e a mãe voltaram para Angola. Em seu vilarejo natal, havia pouco o que recuperar. As casas tinham sido destruídas, seus parentes estavam mortos. Decidiram tentar a vida na capital, Luanda. “Mas logo ela percebeu que eu deveria sair do país.”

55% é o aumento no número de imigrantes a chegar por ano ao Brasil, entre 2011 e 2015
Bernardo Malangu fugiu de Angola com a família. “O imigrante não sabe onde procurar ajuda médica”. Foto: Gui Christ.Kinvunzila veio para o Brasil em 2016. Trouxe o diploma de enfermagem e o desejo de trabalhar na área da saúde – como fizera, por um tempo, em sua Angola natal. A Casa do Migrante, que hoje visita a trabalho, foi um de seus primeiros destinos no país. Há pouco mais de um ano, soube que a UBS da Sé, no coração da capital paulista, precisava de novos agentes  comunitários de saúde. Candidatou-se ao posto e conseguiu o emprego. “Você deve ter reagido mal à medicação”, diz Kinvunzila a Abuba em bom português (a língua oficial de Angola), depois de examinar os papéis do rapaz. “Volte ao médico e diga que teve uma reação à medicação. Diga que teve uma reação”, repete, com ênfase na última palavra. Abuba meneia a cabeça afirmativamente.

Todos os dias, cerca de 500 pessoas passam pela UBS da Sé.  São pacientes em busca de vacinas, consultas agendadas ou alguma orientação sobre saúde. A unidade não sabe números exatos, mas estima que 10% dessa demanda seja gerada pelos imigrantes que vivem na região. São haitianos, chineses, angolanos e gente de várias partes da África. Além de serem atendidas no prédio da UBS, essas pessoas também recebem as visitas domiciliares de agentes como Kinvunzila. Eles fazem parte do programa Saúde da Família, a principal estratégia do governo federal, desde 1994, para expandir a atenção básica à saúde no país. Apesar do nome, a atenção básica se propõe uma tarefa complexa – compreender como vivem as pessoas e acompanhá-las em tempos de saúde, para prevenir doenças. Ou para evitar que seus males se agravem. O desejo é impedir que uma pressão arterial mal controlada culmine num infarto, por exemplo.

A cada agente é determinado um território – um grupo de famílias, em uma determinada região. A ideia é que ele trabalhe na mesma comunidade em que vive, fazendo visitas entre vizinhos. Essa tarefa se torna especialmente árdua quando famílias e agentes não falam a mesma língua. Quando cultura e idioma se chocam, a ajuda de imigrantes como Kinvunzila se torna providencial. Além de português com forte sotaque afrancesado, ele fala quicongo e esmerilha no ngola e no francês: “E falo um pouco de inglês. Mas assim, assim”, diz, agitando as mãos. É algo comum em Angola, “onde cada província fala uma língua”, descreve ele. Na região da Sé, há 6.100 famílias cadastradas no Saúde da Família. Kinvunzila tem, sob sua responsabilidade, 230 delas, que visita todo mês. “Mas o número sempre muda. Porque muita gente nova chega, muita gente vai embora.” São casas de imigrantes e também de brasileiros.

“A gente já vacinou o bebê”, diz um casal de haitianos logo que cruza com Kinvunzila em uma esquina. Ele caminhava ligeiro. Depois de falar com Abuba, tinha ainda 15 casas a visitar naquele dia. “Très bien (muito bem). Semana que vem, passo na casa de vocês.” Na geografia paulistana, as ruas por onde Kinvunzila circula compõem a Baixada do Glicério, um bairro central e deteriorado, formado às margens do Rio Tamanduateí. Para um visitante desavisado, passa bem por um enclave haitiano na cidade. “Ça va, mon ami”, cumprimenta um rapaz, enquanto Kinvunzila sobe uma ladeira.

A chegada maciça de haitianos a São Paulo começou em 2011, na esteira do terremoto que devastou o país no ano anterior. O fenômeno marcou uma mudança indelével no perfil migratório brasileiro. Até ali, despontava no Brasil a migração de bolivianos. O novo contingente de haitianos inverteu uma trajetória de queda: desde meados do século XX, o número de recém-chegados ao Brasil diminuía. Em 1940, segundo o IBGE, chegaram 2,1 milhões de estrangeiros ao país. Em 2011, foram 76 mil, dos quais 476 vinham do Haiti. Em 2015, os haitianos lideravam: eram 14.500, 12% do total de 117.700 recém-chegados.

Nas estatísticas oficiais, vinham seguidos por bolivianos, chineses e colombianos. E, à distância, por congoleses, angolanos e, mais tarde, por sírios. Rostos novos, atraídos pelo bom momento econômico do país. Aqui trabalhariam, criariam filhos e precisariam de serviços essenciais. “Eram culturas e rostos desconhecidos dos brasileiros”, diz Deisy Ventura, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). E com as quais o Poder Público tinha dificuldade para dialogar.

3% dos nascimentos registrados no SUS em 2014 em São Paulo eram de filhos de imigrantes
Quando engravidou, Jeanneth temeu não ser entendida pelos médicos. Hoje, ajuda outros imigrantes. Foto: Gui Christ.Boa parte do trabalho de Kinvunzila consiste em suavizar esse contato. Sem muita cerimônia, ele se embrenha pelos corredores de cortiços e pensões mal iluminadas, poeirentas e úmidas. Onde um único quarto serve de morada a famílias inteiras e por onde o ar circula mal. Em cada casa, repete uma bateria de perguntas que variam conforme o interlocutor: “A senhora se lembra da consulta no dia 18?”, diz a uma moça magrinha, parada à porta de casa.“Le dix-huit”, repete a data, para que ela não se esqueça. Ou “o bebê já tomou todas as vacinas?” – pergunta ao pai de uma criança gordinha. As respostas alimentam as fichas dos pacientes – e, nas mãos de médicos e enfermeiros, tornam-se informações valiosas para orientar diagnósticos e tratamentos.

A cada visita, Kinvunzila também dá informações diversas. Responde sobre a agenda dos médicos, sobre a chegada de medicamentos à UBS e sobre qual a melhor forma de conseguir encaminhamentos a especialistas. Algumas dúvidas nem sequer são sobre saúde – naquela terça-feira, já ao final da visita, um rapaz haitiano arriscou em francês: “E o Bolsa Família, tem como eu conseguir ?”. Kinvunzila titubeia um pouco antes de responder que voltaria dali a uns dias, com a assistente social.

Avançando por um corredor apertado, por onde caminha desviando de fios soltos, Kinvunzila chega ao quarto onde vivem Vikens Regulas, de 29 anos, com a mulher, Fara, e o filho, Theo. A criança, um menino com pouco mais de 2 meses, tirara o sono do casal: “Ele tomou uma vacina na coxa. Chorou a noite inteira”, diz Regulas, sorridente, enquanto convida o visitante a entrar. Uma cama de casal divide o espaço com fogão, TV e uma pia cheia de louça. Uma sequên­cia de outros dez quartos segue corredor adentro, a maioria ocupada por famílias haitianas.

Regulas é pedreiro. Chegou ao país há um ano. Diz que aprendeu português na marra, perguntando a amigos com mais tempo de Brasil a tradução de palavras cotidianas. Dez meses depois, chamou Fara para segui-lo, do Haiti para São Paulo. Theo nasceu aqui. A conversa entre os dois homens acontece em francês. É Regulas quem responde às perguntas sobre a mulher, silente durante todo o diálogo. “O bebê está com as vacinas em dia?” Estava. “E com a mãe? Está tudo bem?” Também. “Mas ela não consegue amamentar, o bebê toma leite em pó”, responde Regulas. Quando chegou ao Brasil, o rapaz pouco sabia sobre como procurar ajuda médica. No Haiti, diz ele, tudo é pago. Achou que por aqui também seria.

90% das mães paraguaias, haitianas, bolivianas e nigerianas em São Paulo deram à luz na rede pública

Em São Paulo, as discussões sobre as experiências dos imigrantes resultaram, no final de 2016, na criação de uma Política Municipal para essa população. Foto: Geraint Rowland.

Os mesmos amigos que ensinaram português o orientaram a procurar cuidados na UBS onde Kinvunzila trabalha. Quando o agente começou a visitá-los, Regulas se sentiu reconfortado. Não que temesse ficar doente: “Sou forte, não adoeço. E Theo puxou ao pai”. Mas, enfim, tinha alguém de confiança a quem direcionar suas dúvidas. “Além disso, ele fala francês. Isso é bom para a Fara, que ainda não aprendeu o português”, diz. É com afeto que Regulas se despede de Kinvunzila: “Volte quando quiser, meu amigo”.

Por anos, grassou na legislação brasileira a concepção de que o estrangeiro era um elemento potencialmente perigoso. A expressão máxima dessa visão foi o Estatuto do Estrangeiro. O documento, de 1980, foi concebido durante a ditadura militar e tratava de medidas a ser tomadas para proteger as fronteiras do país: “O estrangeiro, na época, era a presença indesejada. Era o ‘comunista’ cuja proximidade se temia”, diz o padre Paolo Parisi, coordenador da Missão Paz – a instituição católica que administra a Casa do Migrante e mantém um centro dedicado a estudar esses fluxos.

No campo dos direitos básicos, essa mentalidade deu uma guinada progressista com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988. Ele tem por princípio atender a todos, brasileiros ou não. “Na concepção de alguns gestores, isso significava que o imigrante teria acesso aos mesmos serviços que o restante da população. E que isso bastaria” diz Deisy, da USP. O quadro tornaria a mudar a partir de 2011, na esteira do fenômeno haitiano. Hoje, esse fluxo de novos imigrantes declina, afugentado pelos reveses econômicos que o Brasil enfrenta. Na época, causou impacto o bastante para interferir no desenho de políticas públicas: “Essa mudança se refletiu na criação de iniciativas municipais específicas para imigrantes”, diz Deisy. Elas são pautadas pela percepção de que há elementos a dificultar o acesso do imigrante aos serviços de saúde: “O imigrante que fica doente não sabe como procurar ajuda”, diz Bernardo Malangu, um angolano de costas muito retas e sorriso perene. Desde novembro de 2016, Malangu trabalha como agente de saúde na UBS Humaitá, no centro de São Paulo – uma unidade cercada por duas casas de acolhida onde são recebidos, sobretudo, refugiados africanos. “Sempre me perguntam: a consulta é cara? Quem chega ao Brasil não sabe que o SUS é gratuito.”

10% dos usuários da UBS Sé, no centro de São Paulo, são imigrantes, segundo a estimativa da unidade

Em Angola, Malangu trabalhou em empresas petrolíferas e, mais tarde, como farmacêutico. Fugiu do país temendo perseguição política. Vieram com ele a mulher e os dois filhos pequenos. Conhece a experiência de estar perdido em terra estrangeira. “Quem não fala bem o português teme vir ao médico. É preciso insistir, acompanhar de perto”, diz. E quem está no Brasil de maneira irregular teme se complicar com a lei ao buscar atendimento.

Em São Paulo, as discussões sobre as experiências dos imigrantes resultaram, no final de 2016, na criação de uma Política Municipal para essa população. Ela estabelece que é responsabilidade da Secretaria Municipal da Saúde facilitar o acesso do imigrante aos cuidados médicos. Nacionalmente, a grande mudança foi a substituição do Estatuto do Estrangeiro pela Lei de Migração – uma nova legislação federal que pretende conferir direitos aos imigrantes –, em vigor desde novembro.

A política paulista inclui um artigo para estimular a contratação de agentes imigrantes. Foi um reconhecimento oficial da importância desses profissionais, que surgiram bem antes de a lei ser redigida. Eles começaram a ser contratados ainda nos anos 2000, por iniciativa dos serviços de saúde, atribulados que estavam com o frenesi de vozes e sotaques que ia dar em suas portas. Há oito agentes em São Paulo. Jorge
Gutierrez é o que está na ativa há mais tempo.

8 dos agentes comunitários de saúde que trabalham em São Paulo são imigrantes  – vêm de Angola ou da Bolívia

Jorge Gutierrez é agente comunitário há 12 anos. Radialista, fala sobre saúde nas rádios da comunidade boliviana. Foto: Gui Christ.“Pai, mãe, os agentes de saúde chegaram a sua casa. Abra sua porta para a saúde.” Há 12 anos, o slogan na voz de Gutierrez soa pelas casas e oficinas do Bom Retiro, um bairro central da cidade. Gutierrez – ou Don Jorge, como é chamado pelos amigos e conhecidos de bairro – tem 62 anos, cabelos grisalhos e óculos de aros pretos. Veio da Bolívia para o Brasil em 1980, tratar uma lesão que sofrera durante uma partida de futebol – diz que jogou como profissional em seu país natal. Desacreditado pelos médicos, fixou residência por aqui. Virou costureiro e mandou buscar a mulher e os filhos em La Paz. Em 2005, Don Jorge se tornou parte da segunda geração de agentes comunitários bolivianos contratados pela UBS do Bom Retiro, um bairro com tradição na acolhida de imigrantes. A iniciativa respondeu a uma dificuldade enfrentada pela unidade no início dos anos 2000. “Não conseguíamos dialogar com essa população de imigrantes por causa do idioma e porque não tínhamos acesso às oficinas de costura”, diz Clélia de Azevedo, gerente da unidade.

Foi uma aplicação engenhosa de uma ideia que já se mostrara bem-sucedida em outros contextos. Os agentes de saúde (em sua versão com profissionais brasileiros) surgiram no Brasil na década de 1980, como uma iniciativa isolada em algumas cidades do Nordeste. Ao longo das décadas seguintes, se espalharam pelo país, conforme se expandia a estratégia Saúde da Família. Chamaram a atenção de observadores internacionais: em 2012, a revista britânica BMJ – uma das mais importantes publicações médicas do mundo – publicou um editorial elogioso sobre o modelo de cuidados brasileiro. E recomendou que os gestores britânicos se inspirassem no que era feito por aqui.

Como são membros da comunidade em que trabalham, os agentes ajudam a criar laços de confiança. Nessa tarefa, Don Jorge contou também com seu talento com a voz – ele mantinha um programa sobre futebol em uma rádio comunitária. Percebendo a resistência das pessoas a receber as visitas dos agentes, decidiu inserir dicas sobre saúde no meio da programação. Foi certeiro: mesmo naquelas ocasiões em que as portas das casas e oficinas não se abriam, a voz de Don Jorge alcançava os moradores pelas ondas do rádio. Acostumadas com aquela presença, as pessoas logo entenderam que os agentes estavam ali para ajudá-las: “Foi como se tivéssemos descoberto a palavra mágica do Ali Babá”, diz. É difícil mensurar o impacto dessa ajuda estrangeira. Mas suspeita-se que ela tenha interferido em indicadores importantes: “Hoje, todas as crianças com menos de 1 ano de idade do bairro estão com as vacinas em dia”, diz Clélia. “Há dez anos, esse índice mal chegava a 70%.”

Jeanneth Orozco entende como poucas a importância dessas ações. Logo que chegou ao Brasil, em 2004, Jeanneth se meteu a costurar – ainda que nunca tivesse pregado sequer um botão em toda a vida. Queria juntar dinheiro logo e voltar para a Bolívia com algumas economias. Mas as costuras não iam bem. No primeiro ano o dinheiro não entrou. Nem no segundo. E Jeanneth foi ficando. “Na época, as oficinas eram imensas. Ocupavam um andar inteiro de um prédio. Umas 30 ou 40 pessoas costurando sob o mesmo teto”, diz, gesticulando animada. Era no rádio que ela procurava refúgio da rotina exaustiva de trabalho. E foi pelo rádio que Jeanneth conheceu Jorge e suas dicas de saúde. Não muito depois, ficou grávida. Sentiu medo: “Eu tinha vergonha, não falava português muito bem. E se o médico não me entendesse?”. Os agentes de saúde da época, bolivianos como ela, a ajudaram a superar esse temor. E fizeram mais – em 2009, quando a UBS decidiu contratar novos agentes, sugeriram que ela se candidatasse a uma das vagas. Jeanneth, insegura, fez o teste e conseguiu o emprego.

Hoje, acompanha a saúde de cerca de 200 famílias que vivem nas cercanias da UBS: “Dificilmente alguém se recusa a me receber”, diz, satisfeita. Conhece de cor as histórias de algumas. É o caso de dona Domingas, uma peruana com mais de 30 anos de Brasil. Jeanneth entra na casa com a liberdade de quem é velha conhecida: “E a Cínthia, está bem? Os remédios dela chegaram”, diz, passando os olhos pela oficina de costura da família – um ambiente quente que também faz as vezes de sala de estar. Domingas já se acostumou ao jeito da amiga. E gosta da atenção que ela devota aos seus cinco filhos: “Ela ouve minhas queixas de saúde e também meus desabafos”, diz. “A gente se conhece há dez anos. Ela viu dois dos meus filhos nascer.” Jeanneth sorri: “Não, Domingas. Quando a gente se conheceu, esta aqui já tinha nascido”, afirma, apontando para uma das meninas num dos cantos da sala. “Será?”, Domingas se atrapalha. “É sim. Aliás, não esquece da consulta da Cínthia.”

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Por Rafael Ciscati na Época.

A rotina começa cedo. Às seis da manhã, Fernando Bezerra da Silva acerta os últimos detalhes do equipamento. No vestiário, coloca o uniforme laranja com detalhes verde fluorescente, amarra o calçado emborrachado e se prepara para percorrer os habituais 25 quilômetros diários de pesos e obstáculos. Sobre um armário de escritório, na salinha de entrada, repousam quinze troféus, menos de um terço de suas conquistas como atleta.

Aos 33 anos, Fernando corre para viver. Ele é um dos 3.000 coletores de lixo da cidade de São Paulo e, também, um corredor profissional. Parecem carreiras opostas, impossíveis de conciliar, mas são, na verdade, complementares. Durante o expediente de oito horas, o paulistano se exercita para melhorar o desempenho nas provas que gosta de realizar. É, ao mesmo tempo, seu ganha-pão e o seu treino.

Com 28 maratonas e 60 provas curtas na bagagem, o coletor no momento se prepara para os 18 quilômetros da Pampulha, em Minas Gerais, e para a tradicional Corrida de São Silvestre, na capital paulista. Sua estreia foi em 2006, na Santos Dumont, na Praça Campos de Bagatelle, uma prova de 10 quilômetros. Ele se inscreveu por curiosidade e notou que se dava bem ao percorrer longas distâncias. Fez o trajeto em menos de 40 minutos. 

Fernando Bezerra da Silva antes do expediente. Foto: Guilherme Santana / VICE.

Nos dois anos seguintes, Fernando correu aqui e ali por diversão. Já em 2008, quando sentiu segurança nas corridas como coletor de lixo, decidiu se dedicar fora do expediente. "Percebi que tinha talento no meu dia-a-dia de trabalho. Eu corria esporadicamente algumas provinhas, mas foi aqui na empresa que comecei a correr e participar de muitas provas", afirma. "Achei um pouco difícil, mas fui me adaptando e peguei gosto."

Enquanto corre pelas ruas de Guaianases, no extremo leste de São Paulo, ou na cidade vizinha Ferraz de Vasconcelos, Fernando curte reparar nas áreas urbanas, nas pessoas que caminham e nos seus pares que correm. "O prazer que me dá é o de saber que ainda me sobra energia pra poder fazer o que eu gosto", diz. "Fico muito feliz por ter essa energia sobrando."

Seus tempos vêm melhorando. Hoje ele faz provas de 10 quilômetros em 31 minutos e as maratonas, de 42 quilômetros, completa em em 2 horas e 34 minutos. "Meu melhor tempo foi em 2013 na Maratona de São Paulo, eu fiquei em 13º na classificação geral", conta.

A dupla antes de subir a bordo do caminhão do lixo. Foto: Guilherme Santana / VICE.Fernando não está só na carreira de coletor-velocista. Ao seu lado está Zelito Tavares Barbosa, de 40 anos, também funcionário da Loga, uma das empresas que fazem a remoção de detritos na cidade de São Paulo.

Os dois saem juntos a bordo do caminhão ao lado do coletor José Cícero de Lima Silva, de 40 anos. Pelas ruas residenciais da Penha, Fernando, Zelito e José serpenteiam à caça de sacos de lixo. As vias estreitas armazenam lixos leves, mas com grande risco de cortes e perfurações devido aos vidros e objetos cortantes. Os acidentes acontecem, dizem. Muitos moradores ainda não se conscientizaram da importância de embalar seu lixo.

Fernando e Zelito usam o serviço da coleta não só para o preparo físico, mas também para beneficiar a saúde. "Costumo tirar proveito do meu trabalho. Ele me ajuda a ter resistência, é como se fosse uma academia", diz Fernando. "Temos em torno de oito horas executando vários movimentos. Você se agacha com uma média de peso de dois quilos, por exemplo. Esses movimentos ajudam e fazem com que você ganhe, querendo ou não, uma resistência."

Os coletores e o treino atrás do caminhão. Foto: Guilherme Santana / VICE.Zelito, mais velho que o colega, sabe bem das vantagens de ser um corredor em tempo integral. "Pra você correr nesse nível com 40 anos e ter esse tempo que eu tenho é preciso treinar dois períodos", diz. "A coleta me ajuda porque esse trabalho, para nós que somos atletas, é um treinamento."

Baiano de Barreiras, cidade no extremo oeste do estado, Zelito veio para São Paulo aos 17 anos. Anos atrás o único esporte que praticava era o futebol – chegou até a ser federado no Corinthians. Ele costuma dizer que o sonho de corredor estava adormecido nele. Atleta há cinco anos, ele começou a praticar o esporte com a idade que muitos pensam em aposentadoria. Seus números impressionam. Os 10 quilômetros são percorridos em uma média de 33 minutos e as maratonas são completadas em duas horas e 35 minutos. Sua melhor colocação foi um terceiro lugar em Goiás e sétimo geral em Assunción, no Paraguai. "Só queniano tinham 15. Fui o segundo melhor brasileiro. Só perdi pro Marcos Elias, que é da seleção brasileira. Ele vive só pra correr e eu trabalhando na coleta."

Zelito também é um estudioso do esporte. Aluno do segundo semestre da faculdade de Educação Física, ele sabe muito bem onde pretende chegar com tudo isso. "Eu pretendo, cada vez mais, melhorar como atleta. Quero ajudar na empresa que eu trabalho."

Extremamente organizado, ele exibia suas planilhas de treinos para as semanas que antecedem a prova da Pampulha. Enquanto mostrava os números, relembrou nomes importantes do esporte como Solonei Silva, ouro nos jogos Pan-Americanos de 2011, e João Marcos Fonseca, o João Gari, recordista da Maratona de Foz do Iguaçu, em 2013, com a marca de duas horas, 18 minutos e 57 segundos. "Eles são grandes exemplos para nós", afirma.

Zelito dando aquele trote. Foto: Guilherme Santana / VICE.Com sua equipe particular formada pela esposa e pelo casal de filhos, mantém uma rotina disciplinada de treinos, estudos e trabalho. "A minha filha lembra o meu treino, lembra o que eu tenho que comer. A minha esposa já faz a comida certa. O meu filho, quando eu chego em casa, já aparece com o banquinho pra me ajudar a tirar o tênis, que é puxado. Todo mundo me organiza. Quando eu vou trabalhar minha mochila já tá arrumada,"conta. Seu objetivo é um só: ganhar uma maratona, "a prova mais difícil que tem".

Ele sabe muito bem das dificuldades que os 40 anos trazem. A principal, diz, é a descrença de quem o vê correr. "Quando falo que vou ganhar uma maratona, as pessoas acham que é impossível, mas sei que não é. Desde pequeno fui adaptado para superar meus limites. Tenho 40 anos e nenhuma lesão. Tanto que recebi um convite da USP pra fazer uns exames, mas não deu pra ir", afirma. 

Mas, segundo Zelito, mais importante do que as medalhas é o prazer que tem ao correr pelas ruas do Jardim Santa Emília, em Guarulhos. "Correr pra mim é liberdade", diz, com sorriso aberto no rosto.

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Peu Araújo na coluna Vice Esportes.

O documentário longa-metragem ‘Tudo é Projeto‘, sobre a vida e a obra de um dos arquitetos mais respeitados do Brasil e do mundo, Paulo Mendes da Rocha, terá estreia dia 14 de dezembro em São Paulo, Porto Alegre, Brasília e Goiânia. O filme ganhou o prêmio do público de Melhor Documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Arquiteturas Film Festival de Lisboa.

Documentário "Tudo É Projeto" sobre Paulo Mendes da Rocha estreia em quatro capitais. Imagem: Divulgação.

Tudo é Projeto é um documentário sobre a vida e obra de Paulo Mendes da Rocha contada na primeira pessoa com base em entrevistas com a sua filha, Joana Mendes da Rocha. Com quase 90 anos de idade, Paulo é hoje um dos mais importantes arquitetos no mundo, “um pensador cujas opiniões polêmicas sobre urbanidade, natureza, humanidade, arte e técnica merecem ser ouvidas. Num constante diálogo entre entrevistado/pai e entrevistadora/filha, Joana é o fio condutor do filme. Como em todas as relações pessoais, principalmente entre pais e filhos, o fio que conduz é também o que é conduzido”, refere a sinopse do filme.

Autor de obras no Brasil e no exterior, Paulo Mendes da Rocha coleciona medalhas, títulos e prêmios, dentre eles, o Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial. Para Paulo Mendes da Rocha, “uma cidade, antes de mais nada, é uma construção”.

Joana Mendes da Rocha propôs um filme sobre a vida e obra de seu pai, eternizando as sensações e sabedoria do mestre. Foto: Divulgação.

O filme (trailer oficial aqui) foi produzido pela Olé Produções com o apoio da Casa da Arquitectura cujo acervo este virá a integrar. Em 2015, Paulo Mendes da Rocha doouo projeto original do Museu dos Coches à Casa da Arquitectura, sendo um dos primeiros arquitetos a oferecer materiais originais para integrar a Coleção Arquitetura Brasileira – um vasto acervo de projetos, desenhos, maquetes e livros que conta a história da arquitetura moderna e contemporânea brasileira de 1930 até à atualidade.

"O objeto da arquitetura é a realização da cidade". Sesc 24 de Maio de Paulo Mendes da Rocha e MMBB . Foto: Flagrante.

Além da exibição no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Tudo é Projeto” foi exibido em diversos festivais europeus: Archictecture Film Festival Rotterdam, Lund International Archictecture Film Festival, Milano Design Film Festival e Istanbul International Architecture and Urban Film Festival. No dia 15/12, em que é celebrado o “dia do arquiteto”, o filme estará em Havana, Cuba, no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano. Na TV, o documentário estreou com exclusividade no Curta! em novembro. Em Brasília as sessões tem apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil do Distrito Federal, em Porto Alegre conta com o apoio do IAB-RS e em Goiânia da Revista Di Casa.

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Com informações de Romullo Baratto no Arch Daily.

Qual é a sensação de saber que este pode ser o seu último passo na areia de uma praia? Ou que este pode ser seu último passeio de bicicleta? Ou que esta talvez seja a última chance de andar de montanha russa?

Ricky Ribeiro conta cada uma dessas sensações, na auto-biografia Movido pela Mente, escrita em conjunto com Gisele Mirabai, a ser lançado na segunda, dia 4 de dezembro.

Pôr-do-sol no Guaiba. Foto: Ricky Ribeiro.Diagnosticado com ELA – esclerose lateral amiotrófica, a mesma síndrome que tirou os movimentos do Stephen Hawkings, ele hoje se comunica com as pessoas através dos movimentos dos olhos.

Mas ele não se comunica apenas. Ele empreende, cria coisas novas, articula contatos e vive intensamente.

Mesmo com a doença num estágio avançado, ele criou um portal de mobilidade que fez pesquisas inovadoras sobre as cidades brasileiras e pautou políticas públicas, foi ao Itaquerão assistir a um jogo da Copa, começou um namoro, foi padrinho de crianças, manteve o quarto cheio de amigos, responde emails de pessoas por todo o Brasil e ainda voltou a trabalhar na consultoria que o empregava antes da doença.

É um livro sobre o convívio com o diagnóstico terrível da doença até agora incurável.

Mas também é um livro sobre mobilidade, pois o Ricky pré-doença viajou o mundo todo e encantou-se com a bicicleta, o andar a pé, os bondes e os metrôs.

Parque da Juventude. Foto: Ricky Ribeiro.

Também é um livro sobre a alma das cidades – o prazer de explorar Recife a pé, a sensação inebriante das ruas de Barcelona e a satisfação de ver as ciclovias mudando  São Paulo.

Também é um livro sobre empreendedorismo, pois Ricky é um realizador nato. Mesmo amarrado à cama, criou o portal Mobilize, arregimentando centenas de voluntários no Brasil e ainda criou um sistema de linguagem visual que tem sido usado por outros pacientes pelo Brasil.

Mas o livro é, sobretudo, sobre o amor à vida e à busca pelo sentido.

Na primeira parte, vemos o jovem incansável, que trabalha, viaja, namora, toca violão e faz amigos.

A segunda parte mostra Ricky após receber o diagnóstico de ELA, que lhe daria uma expectativa de vida de no máximo cinco anos.

Quando se confrontam com uma notícia tão devastadora quanto uma doença terminal, as pessoas passam por várias fases, descritas pela psiquiatra suíça Katherin Kübler-Ross em sua obra essencial Sobre a morte o morrer: o choque, a negação, a raiva, a negociação, a depressão até a aceitação da doença.

Ricky Ribeiro passou logo por todas essas fases, mas chegou rapidamente à conclusão de que iria buscar ser feliz no tempo que lhe restasse, aceitando o conselho de um médico: “não sofra por antecipação”.

A partir daí, acompanhamos sua busca de adaptar-se à doença, ao mesmo tempo em que corre para fazer a última viagem, encontrar pessoas, fotografar as pessoas em suas cidades, encontrar os incontáveis amigos que fez em suas andanças, até instalar-se de vez na casa dos pais.

A essas alturas, o livro já nos levou para perto do paciente e vamos acompanhando-o enquanto ele encara cada um dos desafios que a doença traz.

Movido pela Mente é um relato da trajetória do jovem que decidiu construir o Mobilize Brasil durante sua luta para manter-se vivo e ativo. Foto: Mobilize Brasil. Vemos quando ele se conforta com o tratamento de João de Deus em Abadiânia, em Goiás. Torcemos pelo seu transplante de células tronco na Alemanha. Perdemos um pouco o ar quando ele é obrigado a fazer a traqueostomia para não sufocar e respiramos felizes quando ele consegue dar um passeio numa nova cadeira de rodas na avenida Paulista aberta para os pedestres num domingo, ao lado de amigos e da família.

Talvez a paixão pela mobilidade essa seja a coisa mais surpreendente no livro, a decisão de ajudar as pessoas a se moverem pelas cidades, mesmo estando aprisionado na cama, ou como ele diz: “uma mente móvel em um corpo imóvel”.

A metáfora da prisão aparece algumas vezes no livro, quando ele lembra de Nelson Mandela, saindo da sua cela após quase trinta anos. Outras grandes sagas de prisioneiros vêm à mente. Enquanto o conde de Monte Cristo planejava a sua vingança na cela, Papillon mergulhava em suas memórias e passava a tarde recriando as suas experiências mais banais, como um passeio em Pigalle com sua irmã.

Caminhando sobre os trilhos. Foto: Ricky Ribeiro.

A vida de Ricky Ribeiro parece fortemente alicerçado no passado – seus muitos amigos, sua família enorme, suas viagens e suas realizações, mas tem um foco claro no futuro.

É dessa combinação que emerge sua força, tanto para superar a expectativa de vida dada no início da doença como para realizar coisas que desafiariam qualquer um de nós.

O livro Movido pela mente, no fundo no fundo, é uma inspiração para a vida, ao acompanhar a longa saga desde a infância até seus 38 anos desse rapaz que destrói preconceitos, encara com criatividade seus percalços e que parece acima de tudo, querer amar a vida em qualquer circunstância.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.

Os sonhos, pensamentos e desenhos de 22 crianças refugiadas no Brasil agora viraram livro. Entre as autoras está a síria Shahad Al Saiddaoud, de 12 anos. "A paz começa com um sorriso no rosto. Quero meu país, a Síria, feliz, sem guerras", deseja ela. Suas irmãs Yasmin, 7, e Razan, 5, também participam da coleção, mas com desenhos que ilustram a alegria de estar no Brasil, longe da guerra civil que devasta a Síria há seis anos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), 5 milhões de sírios deixaram sua terra natal.

Refugiadas junto com seus pais no Brasil, Shahad, Yasmin e Razan e também outras 19 crianças, de 5 a 13 anos, puseram seus sonhos no papel e a partir de agora compartilham suas histórias e emoções na primeira coleção de livros infantis escritos por crianças refugiadas lançada no país.

“No livro falo sobre meu sonho, sobre a Síria, sobre meus parentes, eu queria todo mundo feliz na Síria, não queria guerra. Esse é meu sonho, queria todo mundo em paz”, emociona-se Shahad, que está há pouco mais de um ano no Brasil. Já as irmãs falam pouco o português ainda, mas afirmam que gostaram de participar da coleção. Já Shahad, quer escrever outro livro. “Quero fazer uma ficção agora”, adianta.

O projeto é resultado da parceria da AlphaGraphics, empresa de impressão digital, com o Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus) e a Estante Mágica, que atua com projetos editoriais pedagógicos voltados a crianças. “Virou mais do que um projeto, virou um sonho", conta um dos idealizadores da coleção de livros, Rodrigo Abreu, conselheiro do Adus e CEO da AlphaGraphics Brasil.

Imagem: Reprodução.Ele conta que a ideia surgiu depois que ele se tornou conselheiro do instituto e quis unir os dois projetos. "Pedimos para que as crianças nos contassem os seus sonhos e o resultado foi incrível, mostrando que o que falta para elas é uma simples oportunidade", completa Abreu.

A AlphaGraphics foi a responsável pela impressão dos livros e a seleção das crianças ficou por conta do Adus. "Desde 2010, temos como missão no Adus atuar em parceria com refugiados e pessoas em situação análoga ao refúgio para sua reintegração à sociedade. Buscamos a valorização e inserção socioeconômica, cultural para que se reconheçam e exerçam a cidadania novamente", explica Marcelo Haydu, diretor executivo da instituição.

Dois educadores da Estante Mágica prepararam o ambiente, conversaram com os pequenos autores, ouvindo as histórias e trajetórias de cada um. Imersos num mundo da imaginação e criatividade, cada uma das crianças se permitiu pensar nos seus maiores sonhos e então colocaram no papel todas as suas fantasias e expectativas.

Segundo Abreu, nesta primeira etapa os livros não serão vendidos. “A primeira edição foi para as famílias das crianças, para o Adus, e a imprensa, e agora vamos entregar para escolas e bibliotecas”. Futuramente, as vendas serão revertidas às famílias das crianças e a projetos que apoiam refugiados no Brasil. Para o idealizador, o projeto ainda não terminou. “Vamos dar oportunidade para novas crianças e as que participaram poderão fazer novas edições”.

Os sonhos das jovens autoras vão longe - de princesas a astronautas. No fértil imaginário infantil, bosques, arco-íris, helicópteros, Chapeuzinho Vermelho e a paz são alguns dos personagens e referências que dão vida às histórias e ilustrações de seus primeiros livros, agora eternizados. Acima de tudo, os pequenos sobreviventes compartilham suas histórias de resiliência e esperança.

"Meu nome é Bader Munir Bader. Tenho 5 anos. Gosto do sol. Dos pássaros. E das cores bonitas", escreve Bader, 5 anos, nascido na Arábia Saudita. Na história, ele conta que adora futebol, pular e sua cor preferida é verde-claro."As pessoas não têm coração para fazer o bem para outras pessoas", conta a síria Hebra, fã de história, geografia, artes e educação física.

Crianças refugiadas

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), mais de 9 mil refugiados de 82 nacionalidades vivem no Brasil, principalmente vindos da Síria, Angola, Colômbia, República Democrática do Congo e Palestina. Do total acumulado de refugiados entre 2010 e 2015 (4.456), 599 eram crianças entre 0 e 12 anos, compondo 13,2% da população refugiada no país.

Para a legislação brasileira, a criança refugiada é aquela que foi obrigada a deixar seu país devido a um temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social, opiniões políticas de seus familiares, conflitos armados, violência e violação generalizada de direitos humanos.

No mundo todo, 91% das crianças estão matriculadas na escola primária, enquanto que entre as crianças refugiadas esse índice é de apenas 61%, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

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Por Ludmilla Souza da Agência Brasil.

Colombiana Maria Clara trocou conforto e estabilidade financeira por quitinete no Brasil para fugir das Farc; Lara Lopes deixou apartamento e carro em Moçambique por ser discriminada por sua orientação sexual; em São Paulo, elas enfrentaram barreiras por serem refugiadas, mas não se arrependem da mudança.

Há pouco mais de três anos, Maria Clara Guzmán vivia em um apartamento amplo, com dois quartos, em Ciudad de Pasto, na Colômbia (840 km de Bogotá), junto com suas duas filhas pequenas e o marido Cristiano - que acabava passando pouco tempo com elas por trabalhar em outra cidade. Ainda assim, eles tinham uma vida bastante confortável, jantavam fora com frequência e não enfrentavam qualquer dificuldade financeira.

Hoje, ela e a família se apertam em uma quitinete no Brás (centro-leste de São Paulo) e dividem uma única cama. O conforto diminuiu, é verdade, mas, diante do que passaram desde 2014, Maria Clara e Cristiano dizem que hoje estão "tranquilos e felizes".

"O Brasil nos trouxe a paz e a estabilidade emocional que nos faltavam na Colômbia. Aqui somos mais unidos, mais felizes. É um país de oportunidades, com pessoas muito boas", afirma Maria Clara à BBC Brasil.

A família chegou a São Paulo em dezembro de 2014 após três meses de perambulação entre Colômbia, Venezuela e Brasil na busca por um lugar seguro longe das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) - eles haviam sido sequestrados pelo grupo naquele ano e conseguiram o status de refugiados em terras brasileiras depois de uma longa jornada.

A história de Lara Lopes é, em certo grau, similar à da família Guzmán. Aos 33 anos, ela é formada em Administração de Sistemas e morava em Maputo, capital de Moçambique, com a namorada. O "problema" começava aí.

Lara se diz muito mais feliz aqui: "Brasil me devolveu dignidade e me fortaleceu" Foto: BBCBrasil.No país africano, a homossexualidade ainda é um enorme tabu. A discriminação a impedia de conseguir trabalho. Depois de uma tentativa de suicídio da parceira, Lara decidiu, então, buscar um lugar onde pudesse "ser quem era".

A inspiração pelo Brasil veio das novelas, que faziam muito sucesso em Moçambique e, recentemente, vinham abordando as questões LGBT.

Foi assim que, em 2013, ela desembarcou em São Paulo. Trocou o conforto que tinha em Maputo pelas incertezas da vida de refugiada na capital paulista: passou fome, dormiu em igreja, limpou banheiros, e até hoje enfrenta algumas dificuldades. Mas não se arrepende da mudança.

"O Brasil me fortaleceu, me deixou ser Lara. Resgatou a dignidade que eu tava perdendo. Sou muito grata ao Brasil por poder falar sem medo: eu sou homossexual", diz à BBC Brasil.

Atualmente, existem 9.552 refugiados regularizados no Brasil - nos últimos cinco anos, segundo dados do Ministério da Justiça, foram mais de 89 mil solicitações de refúgio. O processo é burocrático, longo e criterioso, então poucos efetivamente conseguem, como foi o caso de Lara e da família de Maria Clara.

Não há dados oficiais sobre quantos refugiados conseguem trabalho no país, mas a dificuldade em se empregar é uma das principais queixas deles.

Um programa da ONU chamado "Empoderando Refugiadas" conseguiu obter trabalho para 21 das 81 mulheres participantes até o momento.

A maior dificuldade, segundo a entidade, é o idioma, seguida pela validação do diploma dos refugiados e, por último, a resistência das próprias empresas em empregar os estrangeiros.

Sequesto e fuga

A quitinete onde Maria Clara mora hoje com o marido e as filhas é bem simples - esquenta bastante no verão e falta espaço para tudo, até para as filhas brincarem. Mas a colombiana se sente "no paraíso" agora.

Cristiano e Maria Clara tinham uma vida confortável e estabilidade financeira na Colômbia Foto: BBCBrasil.Há três anos, ela se viu sob a mira de guerrilheiros junto com Valentina, com 2 anos e meio na época, e Rafaela, que tinha apenas alguns dias de vida. Cristiano, seu marido, trabalhava em uma exportadora de madeira e foi pego pelas Farc quando voltava de uma entrega. Ele passou semanas amarrado, em cativeiro, sem contato com a família.

Membros do grupo foram, então, até o apartamento onde estavam Maria Clara e as meninas e lá se mantiveram por quase um mês, exigindo um resgate de US$ 500 mil pelo marido.

"As meninas choravam muito. A Rafaela tinha apenas dez dias de vida, precisava de atenção", relembra Maria Clara.

Cristiano foi eventualmente solto e, durante a ação policial, um líder guerrilheiro acabou morto. Isso despertou temores de uma retaliação contra a família Guzmán.

"A polícia disse que não podia me dar segurança. Só me deram um colete à prova de balas e um celular. Então pedi para sair do país. Aí me mandaram para a Venezuela", relata Cristiano.

A estadia no país vizinho foi marcada por mais dificuldades: desde a demora para obter refúgio, o que os impedia de obter trabalho, até uma piora na qualidade de vida.

"A gente morava num quarto de hotel, quente, pequeno. Valentina pegou chikungunya, ficou no hospital. Nós quatro tivemos anemia. Foi um período difícil. Eu tenho uma doença (lúpus) e precisava de remédio, mas não encontrava", diz a colombiana.

Quando a família soube que guerrilheiros das Farc ainda estavam em seu encalço, decidiu que era hora de fazer as malas novamente. "Deixamos tudo, só pegamos uma mala e documentos".

Ficaram um mês em Caracas até conseguir ajuda da organização Cáritas para viajar ao Brasil. Passaram por Boa Vista e Manaus até conseguirem embarcar para São Paulo.

Na quitinete onde vivem hoje, Maria Clara, Cristiano, Valentina e Rafaela dormem juntos Foto: BBCBrasil.

Na capital paulista, mesmo regularizados como refugiados, nenhum dos dois conseguia emprego, o que os forçou a morar em albergues - Cristiano tinha que dormir no quarto masculino, enquanto a mulher e as meninas ficavam no feminino. Depois, mudaram-se para um casa de acolhida para estrangeiros onde moravam todos em um quarto minúsculo e, finalmente, quando Maria Clara conseguiu um trabalho, alugaram a quitinete no Brás.

Agora, sentem-se seguros. "É uma coisa muito forte sentir que chegamos a uma terra onde a gente sentia que ia poder ficar em segurança", afirma a colombiana.

"Somos pessoas normais agora. O conflito interno no nosso país nos machucou muito. Passamos por momentos difíceis, mas emocionalmente estamos muito melhores."

Preconceito e quase suicídio

Enquanto isso, a moçambicana Lara evitava contar às pessoas no Brasil o real motivo de ter deixado seu país natal. "Eu dizia que tinha vindo por causa da guerra".

Mas a verdade é que ela já não aguentava mais viver num país onde era vista como "abominação" e "obra do diabo".

No Brasil, Lara passou a falar sobre sua orientação sexual e agora quer ser ativista da causa LGBT Foto: BBCBrasil."Você não consegue um emprego (em Moçambique), mesmo que tenha faculdade. Muitos dos homossexuais que conheço trabalham por conta própria, ou trabalham com alguém que luta pela causa. Outras fingem que não são (gays)", diz Lara.

"Eu ia a lugares, e as pessoas comentavam. Mesmo que tentasse ser forte e ignorar tudo isso, chegava em casa e desabava em lágrimas."

Por muito tempo, Lara se trancou em casa sem fazer nada. Católica fervorosa, chegou a pedir a Deus que lhe tirasse a vida se ela realmente fosse "tudo aquilo que as pessoas falavam". O alento sentido ao iniciar um relacionamento com a namorada Myra foi abalado por uma ação policial.

"Nos levaram para a delegacia porque a Myra estava dirigindo sem carteira de motorista. Normalmente, eles só aplicariam uma multa, mas quiseram nos levar. Colocaram ela numa cela, e o próprio delegado a assediou. Ele disse que ela tinha que me deixar porque ele poderia lhe dar coisas melhores. Um agente da lei! Aí você começa a pensar: se um agente da lei faz isso, o que um civil pode fazer?"

Assim, Lara optou por tentar a vida no exterior.

"Se eu continuasse em Moçambique, ia chegar num ponto em que me suicidaria. Eu já pensava em suicídio, a Myra chegou a tentar (se matar). Eu ia esperar que algo acontecesse?"

"Aprendi uma coisa: não vou mais ser submetida a esse tipo de coisa. Fiz isso a vida toda. Deixei que as pessoas fizessem de mim o que elas quisessem. Aqui (no Brasil) encontrei espaço para ser eu mesma, sem tabu, sem nada. Hoje sou uma pessoa mais alegre."

Estigma de 'refugiado'

Lara chegou ao Brasil em 2013, e Maria Clara veio no fim de 2014. As duas hoje vivem situação financeira muito mais difícil do que a que tinham em seus países, mas isso não as incomoda. O problema ao longo desses anos foi carregar o estigma de "refugiadas".

Hoje, Lara trabalha para ajudar outros refugiados a conseguirem emprego (Foto: Divulgação Projeto "Estou Refugiado") Foto: BBCBrasil."A palavra 'refugiada' no Brasil tem um peso muito forte, dificulta tudo. Há algumas vagas (disponíveis) de garçom, de camareira, de empregada doméstica. Mas vagas mais qualificadas nunca aparecem para os refugiados. E, olha, te garanto que a maioria deles tem faculdade, mestrado até", argumenta Lara.

Pela dificuldade em validar seu diploma no Brasil, o primeiro emprego da moçambicana foi como camareira em um hotel em São Paulo. Lá, ela conta que, diferentemente do seu país de origem, não sofreu preconceito por ser homossexual - mas sim por ser refugiada e negra.

"Tudo que era trabalho braçal era dado para nós, refugiadas", conta.

"Se um hóspede suja o apartamento, por que tem que chamar a Lara para limpar? A pessoa tinha sujado a parede com bosta e tudo. Por que só nós refugiadas éramos chamadas para essas tarefas? Por que quando some alguma coisa, eles só chamavam nós refugiadas para perguntar?"

Maria Clara e Cristiano tiveram as mesmas dificuldades para conseguir emprego. "Já tentei todos os tipos de vaga. Não sei como romper esse tabu, porque nós só queremos emprego", afirma Cristiano, que é especializado em Comércio Exterior e fala quatro línguas (inglês, alemão, espanhol e português).

Programa "Empoderando Refugiadas" da ONU virou um minidocumentário contando histórias de algumas mulheres que participaram do projeto. Foto: Fellipe Abreu / Empoderando Refugiadas."Se para mim, que sou branco, tem problema, imagina para as pessoas negras."

Hoje, ele dá aulas particulares de inglês e espanhol e fica em casa cuidando das crianças, enquanto Maria Clara trabalha em uma agência de viagens. Ela conseguiu um emprego em março, depois de anos enviando currículos.

"Eu enviava o currículo e ninguém me ligava. Tentei emprego de camareira, mas pediam experiência. Nós estamos começando uma nova vida do zero, então não temos como ter experiencia nessas áreas", conta a colombiana.

Lara e Myra, que hoje é sua esposa - as duas se casaram no Brasil. Foto: Fellipe Abreu, Empoderando Refugiadas.Lara e Maria Clara contaram com a ajuda do programa de empoderamento de refugiadas da ONU. Maria Clara trabalha fazendo a comunicação entre clientes que falam espanhol e operadores de turismo, e Lara trabalha no projeto "Estou Refugiado", revisando currículos e auxiliando outros refugiados a conseguirem entrar no mercado. Sua namorada Myra também veio ao Brasil, e as duas hoje são casadas.

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Por Renata Mendonça da BBC Brasil em São Paulo.