Se foi o sushiman com ginga atrás do balcão - São Paulo São


Mitsuo Tanji era meio calado em casa. Tinha o costume de dar tapas na cabeça de seu filho mais velho para lhe ensinar os bons costumes.

Eis que atrás do balcão de seu pequeno boteco, onde preparava sushi e sashimi de peixe que ele mesmo escolhia no Mercadão, nas madrugadas, ganhava certo gingado.

O Sushi Tanji, pois, fez história: foi um dos primeiros izakayas a acolher brasileiros calorosamente, lá no comecinho dos anos 70. Funcionou até a virada do século sempre no mesmo horário boêmio, numa garagem micro na Liberdade, no centro de São Paulo.

Japonês de Fukushima, filho de um maquinista de trem, agregou-se à família Tanji (hoje à frente do Kaburá) para aproveitar a viagem ao Brasil.

Depois de 45 dias em um navio, pisou no porto de Santos em 1957. Chegou num país no qual não se achava bonito seco, presente em várias receitas do Japão. Usava-se sardinha seca no lugar.

Trabalhou na lavoura de café. Vendeu doces japoneses Brasil afora, rodando estradas em uma Kombi. E escondeu, até há pouco, qual diabos era o vinagre que usava no preparo do arroz de seus sushis, tradicionalíssimos.

E, bem, apesar de sua predileção pelo curry, especialmente pelo porco cozido com maçã e batata de sua mãe, Tanji fez fama com uma salada de ostras que servia na companhia de broto de nabo, pepino, suco de limão e shoyu.

Com idas e vindas frequentes ao hospital, Mitsuo Tanji morreu de pneumonia e falência múltipla dos órgãos aos 84, nesta quarta (12). Deixa mulher, três filhos e três netos –e uma marca na cozinha japonesa de São Paulo.

***
Luiza Fecarotta, crítica da Folha S. Paulo na sessão Obituário do jornal.