As novas vozes do feminismo negro - São Paulo São

Não foi só o reconhecimento de anos de esforço de uma atleta cheia de talento e sem recursos. Foi também mais um basta. A judoca Rafaela Silva conquistou na segunda a primeira medalha de ouro do Brasil na Olimpíada do Rio.

Mulher negra de 24 anos, imediatamente tratou de lembrar às câmeras que a vitória foi uma resposta aos ataques racistas que recebeu após ser desclassificada na Olimpíada de Londres, quatro anos atrás. A atleta aproveitou os olhares do mundo para repudiar o racismo sem amenizar as palavras. Disse que “o macaco que tinha que estar na jaula hoje é campeão”.

A agora campeã olímpica quase desistiu do esporte como consequência de ofensas racistas. Hoje, engrossa o coro de uma geração de mulheres negras que cansou de relevar não só o racismo, mas também os menores salários, os trabalhos mais precários, a cidadania negada, a existência invisível. Organizadas principalmente por meio das redes sociais, as negras brasileiras começam a escolher seus expoentes, a dar-lhes suporte, a ocupar os cercadinhos vip e a pautar o debate.

“Estamos disputando o espaço das narrativas hegemônicas, que nos excluem” diz a estudante de arquitetura e ativista Stephanie Ribeiro, de 23 anos. Com mais de 30 mil seguidores no Facebook e textos publicados em dezenas de sites, Stephanie é conhecida por seus posts contundentes. Em maio de 2015, foi uma das articuladoras de um grupo de ativistas que protestou contra a realização de um espetáculo teatral que usava o recurso da blackface, quando atores brancos se pintam de negros. Os protestos viraram um debate organizado no mesmo espaço cultural paulistano onde seria realizada a peça, A Mulher do Trem – que, por sua vez, abandonou a blackface. “Um ano depois fui convidada para conhecer o projeto ‘Diálogos Ausentes’, que nasceu fruto desse descontentamento que começou com um post de Facebook”, conta.

Não foi só o reconhecimento de anos de esforço de uma atleta cheia de talento e sem recursos. Foi também mais um basta. A judoca Rafaela Silva conquistou na segunda a primeira medalha de ouro do Brasil na Olimpíada do Rio. Mulher negra de 24 anos, imediatamente tratou de lembrar às câmeras que a vitória foi uma resposta aos ataques racistas que recebeu após ser desclassificada na Olimpíada de Londres, quatro anos atrás. A atleta aproveitou os olhares do mundo para repudiar o racismo sem amenizar as palavras. Disse que “o macaco que tinha que estar na jaula hoje é campeão”.

Enquanto Rafaela Silva estava nos finalmentes do seu treinamento vitorioso, três semanas atrás, no fim de julho, mais de 400 pessoas assistiam em São Paulo à série de palestras de um TEDx cujo tema era “Mulheres que Inspiram”. O TED é um formato de conferência criado na década de 1980 na Califórnia que convida pessoas a darem “a melhor palestra de suas vidas” em até 18 minutos. O formato ficou popular nos últimos anos graças aos vídeos publicados na internet. A letra X adicionada ao nome sinaliza que o evento é organizado de forma independente.

A edição paulistana ocupou o espaço de convenções do Hotel Unique, ícone de luxo em São Paulo. Das 20 mulheres convidadas a falar, 17 eram negras. Na plateia, pessoas brancas eram minoria, exceção, destacavam-se na paisagem – coisa rara em ambiente luxuoso como aquele.

Foi o primeiro evento desse porte organizado no Brasil para mulheres negras, segundo a jornalista Alexandra Baldeh Loras, consulesa da França no País de outubro de 2012 a até uns dias atrás. Na semana passada, ela e o marido, o agora ex-cônsul da França Damien Loras, anunciaram que darão um tempo na vida diplomática para continuar morando em São Paulo. Nova York seria a próxima parada do casal, mas o ativismo de Alexandra falou mais alto. Principalmente no último ano, a jornalista se tornou referência no assunto por aqui. Alexandra ajudou a organizar o TEDxSão Paulo, indicando palestrantes a convite de Elena Crescia, que tem a licença de uso da marca no Brasil e já organizou nove eventos similares.

A advogada e empresária Eliane Dias, coordenadora do SOS Racismo da ALESP. Foto: Agência Mirror.
Com pai nascido na Gâmbia, Alexandra é a única negra entre os cinco filhos de sua mãe francesa de origem judia, mas conta que foi no Brasil, transitando no meio da elite local, que sentiu o racismo de fato. “Sempre sou a única negra nos lugares que frequento.” Há um ano, ela começou um grupo de “negras empoderadas” no Whatsapp. Convidou mulheres profissionalmente bem sucedidas e reconhecidas. A advogada e empresária Eliane Dias, casada com o rapper Mano Brown e coordenadora do programa SOS Racismo, da Assembleia Legislativa de São Paulo, faz parte do grupo. A juíza federal Mylene Ramos, cujos estudos incluem a diversidade étnico-racial na magistratura, também.

“Estávamos muito separadas, sozinhas”, avalia a ex-consulesa. O grupo logo ganhou uma versão no Facebook, que chegou a 2 mil integrantes, e virou uma série de encontros no casarão da residência consular, no Jardim Europa. “Foi a primeira vez que eu estive assim, entre tantas amigas negras, nos conhecendo e nos fortalecendo”, disse Alexandra.

A geração da judoca Rafaela Silva levou para o evento sua experiência em usar as redes para mobilizar e unir. Em um momento de delicadeza extrema, a cantora Nina Oliveira, de 19 anos, apresentou a canção “Disque Denúncia”, com trechos como “ontem ele me beijou, e me deixou marcas, mas não eram de batom”. Foi ovacionada. A estudante de ciências sociais Nátaly Neri, de 22 anos, que mantém no YouTube o canal “Afros e Afins”, com mais de 100 mil inscritos, falou sobre beleza e racismo a partir de um ponto de vista pessoal: o de ter passado a infância se achando “a criança feia” e esperando pelo momento em que se tornaria a mulata desejada.

Em performance cativante e provocativa, a estudante de bacharelado em Humanidades Monique Evelle, de 21 anos, falou sobre “o mito de ser feliz fazendo o que se gosta”, nome que ela mesma escolheu para sua palestra. “O que se chama hoje de empreendedorismo, nós, mulheres negras da favela, sempre chamamos de sobrevivência.” Monique é curadora do maior site de financiamento coletivo do País. Em comum, todas elas são aquilo o que o marketing classifica hoje como influenciadoras digitais: nos meios de comunicação virtuais, arrastam multidões. Uma olhada nas páginas e canais que elas mantêm mostra que essas multidões são formadas principalmente por mulheres negras de idades variadas.

“Isso é tão importante, é fruto dessa popularização do feminismo que aconteceu muito devido às redes sociais”, avalia Stephanie Ribeiro. Para ela, toda vez que uma menina lê algo em um blog e não aceita a forma como é tratada pelos meninos, vê um vídeo e acha que não precisa alisar o cabelo ou “toda vez que minha mãe, aos 50 anos, fala de feminismo com suas irmãs”, é um sinal de que o feminismo negro ganhou volume e adeptas. “E que estamos expandindo nossas narrativas e espaços.”

***
Por Mônica Nobrega no Aliás do Estadão.