Facundo Guerra, a identidade paulistana, o Mirante 9 de Julho e o novo projeto: um bar no subsolo do Teatro Municipal - São Paulo São

Facundo Guerra não é um empresário comum. Ele mesmo se define que, acima de tudo, é um paulistano e quer que a cidade seja um lugar melhor para se viver. O Grupo Vegas, do qual faz parte, já revitalizou alguns lugares de São Paulo como o Cine Joia, o Riviera Bar e o Mirante 9 de Julho, aberto em agosto de 2015. Mas Facundo não para, ele quer mais: seu próximo projeto será um bar no Salão dos Arcos, no subterrâneo do Teatro Municipal.

O Mirante 9 de Julho

O Belvedere Trianon, projeto de Ramos de Azevedo, foi inaugurado em 1916.  O local sediava um clube frequentado pela elite paulistana,  mas que foi derrubado em 1951 para a construção do pavilhão que deu origem a primeira bienal de São Paulo  e, posteriormente, o Masp em 1968. O mirante foi construído poucos metros abaixo para que a elite da época que frequentava o lugar, pudesse observar e vale e as residências do centro da cidade.

O lugar viveu um longo período de grande abandono e descaso. O mirante simplesmente foi apagado do mapa, não tinha nem endereço, conta Facundo Guerra. Porém, o empresário sabendo da importância do lugar para a cidade, foi atrás e literalmente entrou na briga para se apropriar do espaço público, que estava nas mãos de traficantes, tendo se tornado um ponto de venda de drogas e consumo de crack. Facundo enfrentou vários riscos para conseguir a desocupação do local.  Hoje o Mirante 9 de Julho funciona como centro cultural, galeria, co-working, abre espaço para novos chefs de cozinha, tem um café gourmet e eventos culturais como shows, cinema ao ar livre e Djs. Os pratos do restaurante custam no máximo R$ 25 e toda a programação cultural é gratuita.

O Mirante 9 de Julho, nos anos 30, em foto de arquivo.O Mirante 9 de Julho, nos anos 30, em foto de arquivo.

Em entrevista exclusiva para o blog Passeios Baratos em São Paulo ele conta sobre o Mirante 9 de julho e sua opinião sobre ser paulistano,  política e novos projetos.

Como foi a ocupação do Mirante?

O Mirante 9 de Julho é uma forma de marketing institucional, porque não dá lucro, muito pelo contrário. Eu não faço isso pelo dinheiro, mas parece difícil para as pessoas entenderem isso. Eu já fui alvo de críticas, falaram que o mirante é um processo de gentrificação porque estamos a uma quadra da avenida Paulista, que nós somos “higienizadores”, porque promovemos uma limpeza na região que era boca de tráfico. Já ouvi que é uma ocupação “hipster”, mas o que estou fazendo é uma melhoria no meu território, sou de Santa Cecília, não sou do Jardim Ângela, do Grajaú, não é minha área e não vou falar o que eles devem fazer. Para tirar os traficantes, eu tive que entrar no Mirante com segurança armada, mas conseguimos fazer  a desocupação sem violência. Este processo todo durou um mês e meio. Não foi fácil.

Como encara o conceito de espaço público?

Espaço público é um lugar de contemplação e de conflito. Por exemplo, eu não posso ficar na praça de alimentação de um shopping sem consumir, portanto o shopping não é um espaço público.  No Mirante, você pode ficar o dia todo usando o wi-fi e ninguém vai pedir para você sair ou consumir. O espaço é público. Aqui  não tem porta mas é um lugar de conflito, às vezes um dependente químico bate numa faxineira, às vezes tem um risca-faca entre eles, nós não temos brigas, mas temos tensões.   Nós deixamos eles usarem o banheiro e eles têm acesso à água potável. Quando nós damos um pouco de dignidade a estas pessoas que não tem acesso às necessidades básicas,  a relação muda.

O Mirante 9 de Julho é uma forma de marketing institucional, porque não dá lucro, muito pelo contrário. Foto: Divulgação.O Mirante 9 de Julho é uma forma de marketing institucional, porque não dá lucro, muito pelo contrário. Foto: Divulgação.

Política e poder público

Eu tenho minhas convicções políticas. Eu não sou favorável ao governo Temer, acho que foi um golpe. O empresariado pode ser beneficiado com uma grande reforma nas leis trabalhistas, pode ganhar mais dinheiro, mas não é isso que eu quero, porque sou solidário a outras causas. Eu sei que sou um exemplo porque estou em em evidência, mas tem novos empresários de 20, 30 anos que têm uma visão mais aberta e que vão realizar mais projetos como este, do Mirante. Eu tenho esperança. Em relação ao poder público, não devemos ter uma atitude paternalista e esperar que ele faça tudo por nós.  Eu não acho que o poder público tenha que fazer cinema de graça, não é a função dele, é da iniciativa privada. O poder público tem que cuidar da saúde, transporte, educação. Todo mundo odeia corrupção, mas todo mundo já corrompeu ou foi corrompido em algum momento. Porque eu vou projetar meu ódio em x ou y? A corrupção está em nossa cultura, desde os portugueses.

Quais os próximos passos com relação ao Mirante? E quais são seus novos projetos?

A primeira fase foi a ocupação e recuperação do Mirante, a segunda fase é a reativação das fontes, para isso vamos buscar patrocínios através de leis de incentivo, porque  já investimos cerca de R$ 1,5 milhão no local e agora precisamos de  recursos financeiros. Este projeto não recebeu nenhum benefício do poder público, temos a concessão de cuidar de um lugar público, não pagamos IPTU, mas não temos retorno financeiro, não fizemos pelo dinheiro, é outro tipo de valor. Por causa da recuperação do Mirante, ganhamos a licitação para o projeto do bar que fica no Salão dos Arcos do Teatro Municipal. Eles receberam 65 projetos e uma das condições era ter feito recuperação social de alguma área e  nós levamos.  O bar deve abrir no primeiro semestre de 2017.

Espaço público é um lugar de contemplação e de conflito. Foto: Katiliane Marques.Espaço público é um lugar de contemplação e de conflito. Foto: Katiliane Marques.

Identidade Paulistana

O que nós estamos vivenciando hoje é um redimensionamento da identidade, mas teremos que ter um distanciamento para entender isso. A nossa identidade como paulistano foi nos dada nos anos 60, como afirmações como paulistano só pensa em trabalho, paulistano não sabe se divertir, São Paulo é o túmulo do samba,  terra do carro, poluição e trânsito, não é lugar pra criar filho, quando ficar mais velho vou abrir pousada na Bahia, aqui não vou envelhecer. Não é assim mais.  Aqui foi o berço do modernismo, esta nova geração de paulistanos não está aceitando mais esta identidade, que foi fruto do militarismo.

Hoje há uma grande rejeição do uso do carro,  estamos num período das ciclovias, da economia compartilhada, o mundo mudou e nossa identidade de paulistano está se redimensionando.  Nós ainda não sabemos qual é, mas está nas lutas por espaços com o Parque Augusta, Largo da Batata, na comida de rua, no cinema ao ar livre, nas festas em lugares inusitados, na avenida Paulista aberta. Esta maneira de ser paulistano está mudando rapidamente, hoje estamos vivenciando uma crise, não é só na  economia e na política, é uma crise de identidade, social, ambiental,  todo mundo em crise com sua família, com os modelos de organização familiar, com seu trabalho, tudo está se emergindo, até o capitalismo está em crise, agora ele está virando algo mais fragmentado, uma nova forma de capitalismo, pequenos comerciantes que não se preocupam só em ganhar dinheiro, se preocupam com outros valores, esta nova geração de empresários tem outra mentalidade. O Mirante 9 de julho ocupa este lugar simbólico de economia criativa, é motor de identidade de São Paulo, voltou a ser um dos cartões-postais da cidade e é um lugar importante porque carrega as todas as marcas das mudanças que São Paulo vivenciou durante esse período.

Por causa da recuperação do Mirante, ganhamos a licitação para o novo bar do Municipal. Foto: Galeria Vermelho.Por causa da recuperação do Mirante, ganhamos a licitação para o novo bar do Municipal. Foto: Galeria Vermelho.

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Por Patrícia Ribeiro. Parceira de conteúdo do São Paulo São com o blog Passeios Baratos SP