Laerte lança novo livro e revela seus antigos desenhos de modelos vivos - São Paulo São

Há alguns anos sem publicar livros, a cartunista Laerte Coutinho conta que nem pensava em lançar “Modelo vivo” (Barricada), volume com histórias antigas, uma inédita e seus desenhos de modelos vivos, produzidos no decorrer de um curso livre organizado em 2013 com o filho Rafael.

— As republicações são interessantes e queridas, mas francamente eu realmente me preocupo mais é com o que estou fazendo. E também com o que vou fazer daqui para a frente, o que não é muito claro para mim, ainda estou meio tateando no escuro — admite ela, em entrevista por telefone.
— As tiras e os trabalhos que faço hoje não têm mais um norte gráfico ou compromisso com a poesia ou a literatura. É algo que eu preciso descobrir à medida que faço. Dá um certo nervoso.

Ocupada com uma série sobre “um daqueles brinquedinhos, uma dentadura que você dá corda e ela vai andando” e em plena preparação de “uma narrativa comprida, baseada na minha experiência de vida nos quesitos sexo e política dos anos 1970 até agora”, Laerte diz que a ideia de lançar o “Modelo vivo” foi de Toninho Mendes, criador da Circo Editorial — editora que a partir dos anos 1980 revelou os talentos de Laerte, Angeli, Glauco e outros, em revistas como “Circo” e “Chiclete com Banana”.

— Ele achou que era um bom momento para relançar algumas histórias minhas de muito tempo atrás. Eu achei que fazia sentido, mas sempre prefiro oferecer algumas coisas inéditas ou que foram pouco vistas — conta a cartunista. — Então eu sugeri uma história que tinha saído num zine (“A volta dos palhaços mudos”), que foi vista por, sei lá, mil pessoas, se tanto. E uma história inédita de duas páginas (“(História)”). Também resolvi propor ao Toninho que a gente usasse os desenhos que andei fazendo de modelo vivo.

Desde que começou a desenhar, nos anos 1960, Laerte vinha fazendo retratos de modelos vivos, embora “de forma muito rara”.

— Para mim, como desenhista, eles ajudam muito a entender o meu próprio traço, a minha própria expressão. E esses desenhos de modelo vivo têm um valor em si, um peso — acredita ela, que ainda criou, nos últimos anos, uma série de tirinhas (incluída, por sinal, no livro) sobre a relação dos artistas com suas modelos, inspirada no quadro “O descanso da modelo” (1882), de Almeida Júnior.

Na convivência mais intensa com as modelos, a cartunista observou algumas particularidades.

— Algumas delas são profissionais, outras apenas gostam da ideia de modelar. É interessante, a gente não pensa nisso, mas há algo que faz uma pessoa ser uma boa modelo ou não. E é difícil precisar o que é essa coisa, é um território em que a sensibilidade explica mais do que as palavras. Não é a beleza cosmética, a beleza publicitária, é algo no corpo, é algo no modo como aquela pessoa veste seu corpo — explana.

Ao longo da oficina, Laerte e Rafael tiveram algumas agradáveis surpresas:

— Uma das modelos mais legais que a gente teve, e que eu não incluí no livro, é a Vera, de 70 anos, que modela há mais de 50. Nem todos os modelos vivos são jovens ou esteticamente parecidos com modelos de capas de revistas — diz.
— Também convidei mulheres trans para modelar, embora elas também não estejam no livro. Teve uma que não estava acostumada a modelar e que, depois disso, gostou e fez outros trabalhos. O perfil dessas pessoas é muito discreto, eu não encontrei modelos com essa autopercepção de importância, ou com vaidade. Alguns são bailarinos ou atores e conjugam a modelagem com outras atividades.

Transformações têm sido uma constante na vida de Laerte, que em 2004 teve suas primeiras experiências como crossdresser e que, aos poucos, foi se assumindo como transgênero. No prefácio de “Modelo vivo”, ela confessa ter tido um sentimento estranho ao olhar sua produção de três décadas atrás. “Bateu uma crise, em cujas águas deixei de lado vários procedimentos (uso de personagens, traço ‘humorístico’) e saí em busca de respostas para minhas novas questões”, escreve.

— Trabalhar com personagens e um sistema de roteiros, um modo habitual de produzir piadas, é um sossego, um conforto até. Boa parte de cada trabalho já está resolvido, você tem uma lista de características do seu personagem que tem que convocar para cada história — desenvolve a cartunista.
— E agora não tenho mais isso, é como se eu tivesse que começar sempre, toda vez.

Serviço

Modelo Vivo - Laerte Coutinho.
Boitempo / Barracuda.
88 págs. / R$49.

***
Por Silvio Essinger em O Globo.



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