‘Perifeminas‘, as mulheres entram em campo para virar o jogo na periferia - São Paulo São

De repente, a paisagem composta pelo conjunto nada harmonioso de prédios, enormes galpões e asfalto dá lugar a fileiras de eucaliptos e uma estrada de terra. O bairro da Barragem, no extremo Sul paulistano, está a mais de 50 quilômetros do centro. Nem parece que aquele pedaço remoto, cercado por árvores e as águas de uma represa, faz parte da maior metrópole do país. Por ali, onde o campo de futebol reina como grande atração dos fins de semana, o fato de uma mulher jogar bola ainda é encarado como ato de rebeldia. “Minha mãe corria escondida no meio do mato para me buscar no campinho”, conta Ana Paula Teixeira, craque do Perifeminas F.C., o time que está mudando a configuração dos jogos e peladas em um canto esquecido de São Paulo.

O bairro, que fica em uma área de preservação ambiental entre Parelheiros e Marsilac, os dois distritos mais pobres da capital, é rodeado por cinco tribos de índios Guarani. Cada uma elas tem pelo menos um time feminino. Na cultura indígena, a prática de esportes foi naturalmente incorporada ao cotidiano da mulher, ao contrário do único campo da Barragem, sempre dominado pelos homens. “Tivemos que brigar e continuamos brigando para conquistar nosso espaço”, afirma Sidineia Chagas, de 26 anos, uma das fundadoras do Perifeminas, que, quando menciona a palavra “brigar”, não o faz no sentido figurado. “Desde criança, a gente reunia as meninas que queriam jogar e invadia o campo. Éramos obrigadas a sentar no gramado pra parar o jogo deles. Cansamos de sair na mão com os meninos até entenderem que futebol também é coisa para mulher.”

Nesse cenário, Sidineia e as irmãs decidiram fundar no começo do ano passado o Perifeminas, que tem o nome inspirado em um livro assinado por mulheres ligadas ao hip hop e pode ser interpretado mais como um movimento do que simplesmente um time de futebol. Elas queriam que o esporte fosse o gatilho para mobilizar a parcela feminina da comunidade em torno de discussões que ainda não reverberam em muitos lugares da periferia. Além da disputa de jogos, passaram a promover a partir de março deste ano rodas de conversa sobre empoderamento, sexualidade, sororidade e igualdade de direitos com integrantes da equipe e mulheres da região. Ocasiões em que muitas acabam confidenciando traumas ou episódios de violência doméstica. Os encontros carregam o espírito de equipe do campo para se converterem em um ambiente de acolhimento e apoio mútuo. Eles acontecem à beira dos gramados, em saraus de poesia e sessões de leitura na biblioteca comunitária, em que são discutidos livros de autoras como Simone de Beauvoir e Chimamanda Ngozi Adichie. “O futebol tem um grande poder de mobilização. Resolvemos utilizá-lo como uma maneira de atrair a atenção de outras mulheres e transformar a comunidade onde vivemos em um lugar menos repressor à nossa figura”, diz Sidineia.

Roda de conversa do Perifeminas após partida. Foto: Breiller Pires.Roda de conversa do Perifeminas após partida. Foto: Breiller Pires.

Mas, se a realidade do futebol feminino já é repleta de desafios até mesmo em áreas nobres e clubes profissionais, na periferia as barreiras são ainda maiores. A primeira delas é a financeira. “Muitas acabam abandonando o time por não terem dinheiro para bancar os custos de jogar, que são vários: uniforme, aluguel do campo, taxas de inscrição em campeonatos, arbitragem... Vontade não falta, mas poucas têm condições de se manter no esporte”, explica Sidineia, apontando que boa parte do elenco do time é formada por estudantes, desempregadas e donas de casa. “Como a maioria dos homens da comunidade trabalha enquanto a mulher fica em casa cuidando dos filhos, eles conseguem dinheiro para manter seus campeonatos e peladas. A gente ainda precisa se virar para ter pelo menos o direito de dividir o campo com eles.”

Lugar de fala, lugar de bola

A goleira do time é Hortência Teixeira, de 24 anos, irmã de Ana Paula. Desde criança jogam futebol, mesmo à revelia dos pais. Só foram disputar o primeiro campeonato na adolescência. Como não havia torneios femininos naquela época, integraram a única equipe formada por meninas da competição – e venceram. No entanto, sentindo-se humilhados, os times derrotados concordaram em não entregar o troféu às campeãs. Os irmãos de Ana Paula e Hortência, que também disputaram o campeonato, nada fizeram para impedir a injustiça. No campo da Barragem, elas jamais se recusaram a enfrentar os homens em igualdade de condições. “A Ana Paula sempre jogou mais que a maioria deles”, conta Hortência. “Os meninos nunca aceitavam perder pra gente. Quando jogamos, eles chegam na maldade.” Propostas de duelos não são rejeitadas pelo Perifeminas. “Só não topamos quando eles chegam querendo apostar ‘refri’”, diz Sidineia. “Com a gente é valendo engradado de cerveja”.

As irmãs Sidineia e Silvani, que, durante a gravidez, sofre por não poder participar dos jogos. Foto: Breiller Pires.As irmãs Sidineia e Silvani, que, durante a gravidez, sofre por não poder participar dos jogos. Foto: Breiller Pires.

Jogar contra os homens, a princípio, foi a única maneira de ocupar um espaço até então proibido para elas. Hoje o Perifeminas luta para ter sua própria rotina no campo da Barragem e poder enfrentar outras equipes femininas com frequência, já que os times masculinos da região se recusam a ceder horários nobres durante o fim de semana. Por causa da falta de disponibilidade e da localização afastada, elas têm dificuldade de marcar jogos contra adversárias de outras partes da cidade. Sidineia não poupa esforços para convencer a vizinhança da necessidade de quebrar o monopólio dos homens sobre o campo de futebol. “A sociedade ainda insiste em estabelecer um lugar para a mulher, que é dentro de casa cuidando dos filhos e zelando pela família. É difícil romper essa lógica.”

No bairro, a saga das mulheres se repete de geração em geração. A mãe de Sidineia teve 10 filhos. Criou todos eles praticamente sozinha após o pai abandoná-la. A zagueira do Perifeminas, por sua vez, se tornou mãe aos 17 anos. “Depois que tive filho, pensei que não poderia mais jogar”, conta Sidineia, que faz questão de se intitular “mãe solo” ao rechaçar o rótulo de “mãe solteira”. “O futebol ajuda a mostrar que o filho não é só da mulher, mas de toda a comunidade. A formação de um ser humano depende de todos. Quando vamos jogar, levamos nossos filhos e nos revezamos para cuidar deles na beira do campo, algo não muito comum nos jogos masculinos.”

Aos poucos, porém, elas começam a virar o jogo. Hortência, por exemplo, tem um filho de 3 anos e conta que o marido lhe dá suporte para poder frequentar jogos e treinos. Num domingo, ele fica em casa ou na torcida com o filho enquanto ela joga. No outro, os papéis se invertem. “Esse foi o nosso combinado antes do casamento. Ele já sabia que eu gosto de bola e não iria mudar. Mas sei que ele é uma exceção, infelizmente”, diz a goleira. A convivência em grupo também serve para orientar mães precoces que desenvolvem depressão pós-parto ou não se enxergam na figura da genitora padrão, provando que é possível conciliar outras atividades – e não somente o trabalho doméstico – com a maternidade. Não raro, o Perifeminas precisa superar desfalques por motivos de gravidez. É o caso de Silvani, irmã de Sidineia, que, aos 24 anos, espera pelo primeiro filho. “Joguei o máximo que pude”, afirma a meia. “É ruim ter de ficar fora do time por alguns meses, mas continuo acompanhando as meninas em todos os jogos.”
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Falta de espaço e incentivo, predominância masculina e baixas durante a gestação à parte, a maior barreira para o progresso do time continua sendo o preconceito. “A gente ouve muito xingamento no campo, até mesmo de outras mulheres. Nos chamam de ‘maria-homem’, fazem brincadeiras machistas, gritam todo tipo de absurdo para nos ofender. Isso é o que mais dói”, diz Hortência. Recentemente, o Perifeminas desistiu de participar de um campeonato por discordar do modo como organizadores (homens) tratavam as jogadoras, em tom agressivo e impositor. “A gente luta por igualdade de direitos, mas também não abrimos mão da ética e do jogo limpo. Não queremos reprogramar o que acontece no futebol masculino”, explica Silvani.

Além de vitórias e troféus, o time tem conquistado novas adeptas de regiões vizinhas – abriga jogadoras dos 12 aos 45 anos – e estrutura para seguir propagando sua causa pela periferia. Em março, elas passaram a contar com o apoio do Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário (Ibeac) e da Brazil Foundation, que oferece oficinas de capacitação e destinou 5.000 reais para viabilizar atividades culturais, visitas a museus, encontros, jogos e a compra de materiais esportivos. Uma das primeiras ações foi providenciar um uniforme para a equipe, que estampa frases de autoras que inspiram as rodas de conversa, como “Eu levanto a minha voz não para que eu possa gritar, mas para que aqueles sem voz possam ser ouvidos”, da Nobel da Paz paquistanesa, Malala Yousafzai.

Time levanta troféu, mas considera as vitórias fora do campo suas maiores conquistas. Foto: Breiller Pires.Time levanta troféu, mas considera as vitórias fora do campo suas maiores conquistas. Foto: Breiller Pires.

Os resultados mais comemorados são os avanços fora do campo. Ana Paula, que se espelha em Marta e ainda sonha se tornar jogadora profissional, é mãe de Laura, de 5 anos. Guarda até hoje na memória o dia em que chegou radiante em casa para contar aos pais que havia marcado três gols em um jogo épico e ouviu como resposta da mãe: “Por que você não vai procurar um serviço?”. Após cinco meses participando dos encontros do Perifeminas, percebeu que precisava mudar comportamentos para não repassar a Laura as mesmas limitações impostas pela família. “No que depender de mim, a criação da minha filha vai ser totalmente da que eu tive. Quero que ela seja feliz do jeito que bem entender. E, se também quiser jogar futebol, vou dar todo apoio.”

Pelejando para que exemplos como o de Ana Paula se espalhem pela região, Sidineia não foge das divididas. Ela cresceu em um bairro onde até pouco tempo era preciso caminhar por mais de 20 quilômetros para ter acesso ao transporte público. Onde a principal escola da comunidade pegou fogo e jamais foi reconstruída. Onde a violência contra a mulher ainda é uma triste realidade. Mas de onde ela nunca pensou em sair. “Existem muitas dificuldades por aqui, é verdade, mas também existe muita coisa boa. Respiramos ar puro, convivemos com a diversidade e a cultura das tribos indígenas, temos contato próximo com a natureza e o campo de futebol. O Perifeminas é uma forma de levantar a autoestima da mulher e do morador da periferia. De mostrar que temos valor, que podemos conquistar aquilo que a gente sonha.”

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Por Breiller Pires no El País.