O furacão Ruth Escobar passou por aqui - São Paulo São

Ruth Escobar não era uma unanimidade. Chegava como um trator com seu sotaque português pronta para ousar, para brigar, para resistir, para contestar, para criar, para amar. 

O Teatro Ruth Escobar, onde ela foi velada, envolveu várias polêmicas. Foi construído em 1964 no espaço de um mirante no Bixiga - assim como o Masp. Inicialmente subterrâneo, ganhou andares e críticas numa reforma. E deixou de ser de Ruth numa venda mal explicada envolvendo dinheiro da Telefônica no governo FHC.

Ruth Escobar no espetáculo ‘O Balcão‘. Foto: Djalma Batista.Ruth Escobar no espetáculo ‘O Balcão‘. Foto: Djalma Batista.

Nem mesmo suas disputadas festas fugiam à polêmica. Nas casas de Ruth, a última no Pacaembu, políticos da moda, empresários ricos, intelectuais, jornalistas, gente de teatro e dança do mundo todo, outsiders e um lendário ponche com fama de batizado animavam as noites marcantes. Numa delas Ruth Escobar deu literalmente umas palmadas na jornalista Cristina Ramalho, da Folha de S.Paulo, responsável por uma notícia equivocada sobre ela. Em outras se cruzava com um futuro presidente da República, com Bob Wilson, com Kazuo Ohno, com Sábato Magaldi, com uma bailarina sem pontas, com todo o melhor elenco do teatro e do cinema brasileiros, ou com um diretor de teatro argentino envolto em peles do guarda-roupa de Ruth Escobar.

Jerzy Grotowski, Fernando Henrique Cardoso e Beatriz Segall na casa de Escobar em 1974. Foto: Vamir Santos.Jerzy Grotowski, Fernando Henrique Cardoso e Beatriz Segall na casa de Escobar em 1974. Foto: Vamir Santos.O século 21 não foi gentil com essa mulher que promoveu uma revolução no meio cultural paulistano no século anterior. 2001 foi ano da última produção de Ruth, o musical Os Lusíadas inspirado em Luis de Camões. Um ano antes os primeiros sinais de Alzheimer já tinham se manifestado. Foram 17 anos de uma agonia lenta e solitária dentro do casarão do Pacaembu. Em 2011 um desacerto entre seus filhos, de cinco casamentos, a expôs publicamente assim como a notícia de que todo seu acervo, seus arquivos e seu patrimônio se deterioravam por mal cuidados.

Ruth Escobar no camarim em 1972. Foto: Silvio Correa / Agência O Globo.Ruth Escobar no camarim em 1972. Foto: Silvio Correa / Agência O Globo.Ruth Escobar ficará registrada na história pelos oito Festivais Internacionais de Teatro e outros de Dança que promoveu e que fizeram São Paulo plateia para Bob Wilson, Andrei Serban, Jerzy Grotowski, o grupo el Galpón, Mabu Mines, os japoneses do Hamada Zenya Gejiko. Feitos na garra, conseguindo patrocínios no grito e absorvendo prejuízos gigantescos. Ruth tinha a capacidade de transitar com intimidade pelo poder e carregou a decepção de nunca ter recebido o convite para assumir a pasta da Cultura.

Será lembrada também por sua militância feminista, pela atuação política que a levou à prisão durante a ditadura e duas vezes à Assembléia paulista. Por sua intensa e fervilhante produção cultural que envolveu atuação, direção e produção, pela histórica invasão do CCC durante a encenação de Roda Viva em junho de 1968 e, pouco depois, pelas encenações fabulosas de Cemitério de Automóveis de Fernando Arrabal e de O Balcão, que Jean Genet considerou a melhor montagem entre todas de sua obra, ambas dirigidas pelo argentino Victor Garcia que Ruth trouxe para fazer os espetáculos e que junto com ela destruiu um teatro para criar um cenário formado por passarelas construídas num vão livre de 20 metros. Quem mais seria capaz disso tudo?

Ruth Escobar em ato público pela libertação dos presos politicos no final da década de 1970. Ao fundo entre outros: Bete Mendes, Dom Paulo Evaristo Arns e Geraldo Siqueira. Foto: Saldana Muijica.Ruth Escobar em ato público pela libertação dos presos politicos no final da década de 1970. Ao fundo entre outros: Bete Mendes, Dom Paulo Evaristo Arns e Geraldo Siqueira. Foto: Saldana Muijica.

Dina Sfat, o ator Raul Cortez e a atriz e deputada estadual Ruth Escobar em comício das Diretas Já em 1984. Foto: Renato dos Anjos / Folha Imagem.  Dina Sfat, o ator Raul Cortez e a atriz e deputada estadual Ruth Escobar em comício das Diretas Já em 1984. Foto: Renato dos Anjos / Folha Imagem. Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, Portugal, em 31 de março de 1935. Ruth Escobar morreu ontem (5) às 13h30, aos 82 anos, em São Paulo, Brasil.

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Heloisa Araujo Moreira é jornalista com passagens pelos principais veículos da imprensa. Entre eles, Jornal da Tarde, Folha de São Paulo e Editora Abril. Texto escrito com exclusividade para o São Paulo São.