A nova face da imigração nos 464 anos de São Paulo - São Paulo São

Ninguém é apenas paulistano - somos um pouco portugueses, italianos, japoneses, espanhóis e, principalmente, a mistura de tudo isso. Na semana em que São Paulo celebra 464 anos, o 'Estado' apresenta as faces dos novos imigrantes, os que vieram se somar aos paulistanos neste século 21, imbuídos do mesmo espírito dos antecessores que fizeram da cidade provinciana fundada por jesuítas em 1554 a metrópole potência que inspira, encanta - e algumas vezes espanta - o restante do mundo.

No total, 292.288 estrangeiros se mudaram para São Paulo entre 2001 e 2017, praticamente o equivalente à população de uma cidade como Taubaté. Os bolivianos, facilmente notados sobretudo nos bairros centrais da cidade, como o Bom Retiro, lideram o ranking. Depois aparecem chineses, haitianos, peruanos, americanos, argentinos, colombianos, paraguaios, japoneses e franceses. Na outra ponta do levantamento, há nacionalidades que só "exportaram" um cidadão para a capital paulista: casos de Lesoto, Samoa Americana e Lichtenstein.

O ranking da nova imigração foi elaborado pelo 'Estadão Dados' com base em um levantamento obtido com exclusividade pelo Estado com a Polícia Federal, em 2017. Nos últimos quatro meses, a reportagem vasculhou São Paulo em busca de dez casos representativos, um de cada nacionalidade do topo da lista. Em comum, todos dizem se sentir acolhidos em São Paulo. Alguns vieram para cá em busca de trabalho - outros justamente por causa dos empregos. Há relatos de quem se mudou para romper definitivamente relações com ex-cônjuges - e também de quem veio para acompanhar o marido. Há a história de um refugiado e de um religioso. Gente que, juntamente com a mudança de endereço, mudou radicalmente de carreira também. Outros que querem se desenvolver mais na profissão por aqui. Todos trouxeram objetos afetivos na bagagem e, a maioria, também um grande sonho: construir em São Paulo uma vida melhor.

Isso remete à nossa História, cheia de histórias de imigrações. São Paulo foi construída graças ao suor daqueles que vieram de fora, muitas vezes sem nada, prontos para fazer a vida. Em diferentes levas, a cidade recebeu portugueses, alemães, italianos, japoneses, espanhóis, judeus de diversas nacionalidades, russos, coreanos, chineses - em um movimento que começou com a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, por padres portugueses e espanhóis, e intensificou-se a partir do fim do século 19. Não por coincidência, foi ao longo do século passado que a cidade deixou de ser provinciana para se tornar uma efervescente capital cultural e econômica.

O boliviano

Marcelo Laura Apaza, cabeleireiro, de 47 anos.
Desavenças familiares o trouxeram a São Paulo em 2006. Trouxe na mala a Bíblia da sua mãe.

‘Gosto de São Paulo pelo trabalho. Me sinto seguro – é minha segunda cidade’, diz Marcelo. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.‘Gosto de São Paulo pelo trabalho. Me sinto seguro – é minha segunda cidade’, diz Marcelo. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Em setembro de 2006, dez cabeleireiros jogavam futsal em uma quadra pública na periferia de La Paz, capital da Bolívia. Um deles estava com problemas familiares. E sairia dali decidido a nunca mais voltar: nem ao futebol nem aos fregueses do dia a dia nem a nada que o conectasse à vida até então. Naquela noite, depois do jogo, Marcelo Laura Apaza bebeu mais cerveja do que de costume e tornou a brigar com a ex-mulher, mãe dos três filhos. Bateu na casa da mãe, Noemi, e anunciou a partida. “Ela fez que não acreditou muito. Dizia que eu só estava ameaçando”, recorda-se. Botou fé mesmo quando viu que uma das irmãs o ajudava a fazer a mala. “Então ela, que é cristã protestante, me deu sua Bíblia e um pouco de dinheiro.”

Apaza não mais voltou a ver mãe, irmãs, La Paz. Agora, a Bíblia da mãe é sua companhia noturna constante, guardada dentro da fronha, mais companhia do que o próprio travesseiro. Ele tomou um ônibus até Santa Cruz de La Sierra. Hesitou entre Argentina e o Brasil, mas amigos que já haviam tentado a vida em solo portenho o desmotivaram da primeira ideia. Rumou para Puerto Quijarro. Em seguida, Corumbá, já em solo brasileiro. Mais um ônibus e 11 horas e meia depois, Apaza desembarcava no Terminal Rodoviário da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. “Vim sem nem avisar meus filhos”, conta ele. Na época, Raul tinha 15 anos e Henry, 13. Blanca, a caçula, era uma menina de 10 anos.Em sua última parada antes da capital paulista, Apaza tratou de telefonar para um primo seu que já vivia em São Paulo. Combinou que ele iria esperá-lo desembarcar. “Mas era tanta gente naquela rodoviária que foram horas até conseguir encontrá-lo”, diz.

Sua ideia era engrossar o imenso exército de bolivianos que trabalham como costureiros na cidade, sobretudo em confecções situadas no bairro do Bom Retiro, na região central. Foram seis meses em que a tesoura do cabeleireiro deu lugar à do costureiro. “Eu trabalhava das 7 às 22 horas e recebia R$ 250 por mês”, recorda-se o imigrante. “Aquilo não era vida. Mas como também ganhava comida e cama para dormir nem sequer pensava em outra possibilidade.” Nesta época, Marcelo tinha muita vontade de voltar para a terra natal. Pensava nos filhos. Pensava na profissão. Pensava que estava fora de lugar. “Pelo menos eu era separado. Essa parte foi mais fácil”, diz, para depois corrigir. “Não, essa parte foi a mais difícil. Longe a gente sofre do mesmo jeito, mas pelo menos consegue esquecer.”

Apaza pensou que se estava em São Paulo era também para conseguir refazer a própria trajetória. Saiu da confecção. Conseguiu emprego como cabeleireiro, virou funcionário de um salão. Há quatro anos, conquistou sua liberdade: atende em uma cadeira de um dos muitos salões de cabeleireiro com clientela totalmente boliviana no Bom Retiro. “Faço meu próprio horário”, explica. “O que significa ficar até mais tarde em dias de bom movimento. E, aos sábados, quando a clientela é maior, geralmente não almoço.”

Convidado a atuar como cabeleireiro em eventos da Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana Padre Bento, a famosa Feira Kantuta, Apaza viu nisso a oportunidade de se inserir de vez na comunidade boliviana de São Paulo. Tornou-se importante no meio. Atualmente, sem nenhum trocadilho com o instrumento de trabalho, é o tesoureiro da instituição. “Estou integrado. Não me vejo voltando para a Bolívia ou indo embora daqui”, comenta. A saudade dos filhos é remediada por visitas deles, todos empregados, casados e estabelecidos em La Paz. Blanca chegou a passar seis meses vivendo com ele aqui no Brasil. Apaza não constituiu nova família. Mora sozinho no Bom Retiro, a poucas quadras de seu salão. Desde que operou a vesícula, há cerca de um ano, deixou de jogar futebol com os amigos. “Pendurei as chuteiras”, enfatiza ele, usando a consagrada expressão de todo boleiro de respeito.

A chinesa

Karen Luo Shujun, médica e professora, de 45 anos.
Veio para São Paulo em 2003, acompanhar o marido. Trouxe na mala o jaleco que usava no hospital em Xiamen.

‘Minhas filhas nasceram em São Paulo, então o Brasil se tornou minha pátria’, diz Karen. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.‘Minhas filhas nasceram em São Paulo, então o Brasil se tornou minha pátria’, diz Karen. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Ela era médica na China e virou professora de crianças no Brasil. "Como médica, eu cuidava do corpo das pessoas. Como professora, eu cuido da cabeça das crianças. Então, acho que ser professor é mais importante", comenta Karen Luo Shujun, sobre a mudança de vida. Mas a nova carreira começou quase sem querer. Em 2001, Shih Nzeng Tung, com quem Karen já era casada havia dois anos, decidiu vir para São Paulo. "Ele tinha amigos que já estavam aqui. E falavam que era bom", conta ela.

Se tudo desse certo, ele voltaria para buscá-la após um tempo. Shih estabeleceu-se na capital paulista como empresário de importações. Passou a comprar zíperes produzidos na China e revendê-los para indústrias de confecções brasileiras. De tempos em tempos, voltava para seu país para visitar a mulher. Em 2003, disse a ela para arrumar a mala. Era chegado o tempo de cumprir o combinado. "Nem tive o que pensar. Afinal, como chinesa, eu sabia que os casais devem ficar juntos, como família."

Se em Xiamen ela trabalhava como médica no Hospital de Medicina Chinesa, aqui ela sabia que não poderia exercer a profissão. Embrulhou o jaleco e o colocou ao lado das roupas na mala - muito mais como uma lembrança do que como esperança de voltar a utilizá-lo. Nos primeiros anos, Karen trabalhou ajudando o marido nos negócios. Instalaram-se em um apartamento no bairro da Aclimação, região central da cidade, e pouco via graça em São Paulo. "Minha vida era só trabalhar e ir para casa. De fim de semana, ia a um templo budista. No máximo, dava uma volta no Parque da Aclimação."

Nasceram suas filhas, Ellen, em 2005, e Nicole, em 2007. E parece que, ao mesmo tempo, ela começou também a se sentir um pouco paulistana. "Se minhas filhas são daqui, então eu também pertenço a este lugar. Tenho de considerar esta cidade como minha casa", afirma. Há dez anos ela aceitou um convite para um trabalho voluntário que mudaria sua carreira. Foi o padre chinês Xiao Sijia - aqui no Brasil conhecido como padre Lucas - quem lhe fez o convite. Há 21 anos em São Paulo, o sacerdote atua na Igreja da Sagrada Família, no bairro da Vila Olímpia, zona sul da cidade. Ele integra a Missão Católica Chinesa no Brasil. "Aos domingos, temos uma escola de chinês na igreja, para filhos de imigrantes e demais interessados", explica o padre.

Foi assim que Karen se tornou professora.   Dedicada, ela tomou gosto pela coisa. E, aos poucos, começou a dar aulas em escolas também - aí, de forma remunerada. Atualmente ela dirige a escola chinesa que funciona dentro do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, o Insa, instituição de ensino que funciona no Belenzinho, zona leste da cidade. Karen incorporou ao dia a dia até algumas coisas tipicamente brasileiras. Gosta de feijoada e de churrasco, toma caipirinha. "Mas, no dia a dia, a comida é chinesa - sopa de arroz e bao, o pão chinês -, a roupa é chinesa, a língua é chinesa e até o pensamento é chinês", orgulha-se. Por outro lado, ela acredita que as filhas, por terem nascido e estarem sendo criadas no Brasil, têm uma vida mais agradável do que uma criança na China. "Lá é tudo muito pesado. Estudo, estudo, estudo. Aqui eu valorizo que elas estudem, é claro, mas também estimulo que brinquem, que passeiem, que pratiquem esportes", diz.

O haitiano

Ocarl Joseph, engenheiro agrônomo e professor de francês, de 29 anos.
Veio em 2017, em busca de trabalho. Trouxe na mala um relógio, presente da namorada.

‘Sou otimista que as coisas vão melhorar. Sempre que eu estudo, dá certo’, diz Ocarl. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.‘Sou otimista que as coisas vão melhorar. Sempre que eu estudo, dá certo’, diz Ocarl. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Parece um capricho do mundo dos trocadilhos: o haitiano Ocarl Joseph vê o relógio que ganhou da namorada e lembra dela; ao mesmo tempo, não vê a hora de reencontrá-la, o que deve ocorrer ainda neste início de 2018. "É quando vamos conversar e decidir o nosso futuro: se iremos nos casar já ou mais tarde, se ela virá morar aqui em São Paulo ou se eu voltarei para o Haiti", resume, sem disfarçar certa ansiedade. Voltar agora seria interromper seu sonho profissional.

Nascido na cidade de Hinche, Joseph seguiu o caminho de muitos haitianos: foi para a República Dominicana para cursar a graduação e formou-se em Engenharia Agronômica na Universidade Autônoma de Santo Domingo (UASD). Durante o curso, conheceu a noiva, Samenta Dolcin, nascida no Cabo Haitiano, dois anos mais velha, estudante de Medicina. "O mais difícil de vir para São Paulo foi me separar dela. Mas conversamos diariamente pelo WhatsApp. Não tomo nenhuma decisão sem ela." Quando concluiu o curso, Joseph trabalhou três meses no Ministério da Agricultura dominicano. Depois, voltou para a terra natal e trabalhou em uma empresa exportadora de mangas. "Mas a situação econômica estava muito difícil. Como dois dos meus irmãos (Robert e Jean Ebert) já estavam no Brasil, um trabalhando como pedreiro em São Paulo, outro em uma indústria automotiva em Santa Catarina, decidi tentar a vida aqui também."

Chegou em 17 de fevereiro e, desde aquela época, divide um quarto com o irmão na Mooca, zona leste de São Paulo. Joseph conta que no mês que antecedeu a viagem pesquisou tudo o que pôde do País e tentou aprender um pouco de português - ele já era fluente em francês, sua língua nativa, espanhol, inglês e crioulo. Mas o começo não foi tão bom como planejado. Nada de emprego, muito menos em sua área profissional. Joseph decidiu então que poderia virar um professor. Professor de francês. Aulas particulares aqui e acolá, foi conhecendo gente e, pelo menos, ganhou algum dinheiro.

Em julho, soube que o Instituto Moreira Salles estava contratando gente para trabalhar no prédio que seria aberto em 20 de setembro na Avenida Paulista. Não pensou muito: candidatou-se. Conseguiu trabalho como orientador de visitantes - com a vantagem de dominar cinco idiomas. Ele não quer se acomodar. Vê o trabalho como um tampão, algo a ser valorizado enquanto não consegue uma colocação em sua área profissional. Joseph sonha mesmo é conseguir fazer um doutorado. Preferencialmente na Universidade de São Paulo (USP). "Seria uma oportunidade ótima", ressalta ele, confiante de que, com estudo, é capaz de virar o jogo. Enquanto isso, entre ziguezagues, sobretudo pela Paulista, o haitiano diz que ainda não se acostumou com a maneira como o brasileiro expressa sua afetividade, seu amor.

"No Haiti, casais são muito mais discretos em público. Aqui eles se beijam intensamente", diz. Mas ele gosta da diversidade paulistana, das oportunidades que a cidade pode oferecer e, sobretudo, do acolhimento sempre muito gentil de todos com quem convive. "Quando notam que sou estrangeiro, sempre fazem as mesmas perguntas. Querem saber se estou sendo bem tratado, bem acolhido, se estou me sentindo bem aqui no Brasil. E emendam com um 'boa sorte'."

O americano

Douglas McAllister, advogado, de 68 anos.
Veio para São Paulo em 2015, por causa da religião - é mórmon. Trouxe na mala muitos potes de creme de amendoim.

‘Como arroz e feijão todos os dias, aprendi aqui no Brasil’, diz Douglas. Foto: Amanda Perobeli / Estadão.‘Como arroz e feijão todos os dias, aprendi aqui no Brasil’, diz Douglas. Foto: Amanda Perobeli / Estadão.

O Brasil permeia a vida do advogado norte-americano Douglas McAllister desde que ele tinha 10 anos e era um aluno curioso de uma escola de Ogdem, em Utah. Cismou com o País e, na falta de um Google ou algo que o valha, decidiu escrever uma carta para o governo brasileiro perguntando o que é que havia por aqui, afinal. "Eles me responderam com um folheto feito pelo departamento de Turismo, em inglês, com fotos e textos sobre Foz do Iguaçu, a Praia de Copacabana, a Amazônia, o Recife", recorda-se. Nove anos mais tarde, ele viria para São Paulo pela primeira vez. Integrante da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - mais conhecida como igreja dos mórmons -, se apresentou como voluntário para uma missão internacional de dois anos. Qual não foi sua surpresa com o anúncio do país escolhido: justamente o Brasil.

"Fiquei três meses aprendendo português, praticamente estudando 24 horas por dia", lembra. McAllister gostou tanto da experiência que nem com muito esforço consegue elencar algo de negativo que tenha lhe ocorrido no período. Na época, a comunicação com a família era rara. "Escrevia cartas todas as semanas. Mas só falei com eles uma vez nos dois anos, graças a um aparelho de rádio de ondas curtas", diz. Aqui se encantou com as calçadas de pedras portuguesas, passou calor, andou muito de ônibus e de bicicleta, fez amigos e aumentou seu repertório gastronômico. "Feijoada e arroz e feijão eram coisas que eu nunca havia provado antes. Eu gostei muito", afirma. "Também fiquei fã de guaraná, me assustei com tantas variedades diferentes de banana e comi manga pela primeira vez."

Quando a missão religiosa foi concluída, o jovem mórmon retornou aos Estados Unidos. Seguiu a vida: formou-se em Direito, morou no Arizona, em Washington D.C. e em Nova York. Casou-se com Janice, uma professora de inglês nascida no Canadá. Tiveram sete filhos. "Nunca mais tinha voltado ao Brasil, mas as lembranças daqui sempre estiveram em minha memória, nas conversas em minha casa, nas músicas de Tom Jobim que eu tocava no violão e mostrava para Janice", comenta.

McAllister aposentou-se em 2010 e colocou seus préstimos à disposição da instituição. Mais uma vez estava ele pronto para assumir missões. Agora, experiente. Desta vez, não mais um jovenzinho batendo de porta em porta e sim um advogado, um assessor jurídico para resolver questões complexas do dia a dia da igreja. "Primeiramente, fui mandado para as Filipinas. E lá ficamos, minha mulher e eu, por quatro anos", pontua. Em 2015 veio o novo convite: São Paulo. "Vim para coordenar a equipe jurídica da igreja aqui, na sede principal (no Butantã, zona oeste da cidade)", explica. "Eles queriam alguém que falasse português."

McAllister e seu time, com advogados brasileiros, lidam com questões que vão de ações trabalhistas a vistos para missionários estrangeiros. No tempo livre, mata as saudades de São Paulo, comove-se com a transformação da cidade nesses quase 50 anos em que esteve fora e mostra seus cantos favoritos para a mulher. Ele é um cicerone inveterado, aliás: quase todas as semanas, escolhe um cantinho paulistano para mostrar para os amigos americanos que estão de passagem pela igreja. "O Masp (Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista), por exemplo, é algo que me impressiona", cita. McAllister vai para os Estados Unidos mais ou menos a cada três meses, para visitar filhos e netos. Aproveita para ir ao supermercado.

Apesar de ter se tornado um apaixonado confesso da culinária brasileira, ele não fica sem alguns itens tipicamente americanos. É o caso da manteiga de amendoim. "Até encontramos aqui em São Paulo. Mas parece que não é a mesma coisa. Então sempre trazemos de lá", revela. Do folderzinho que, menino de 10 anos, recebeu do governo brasileiro, ainda não conseguiu visitar tudo. "Já vi Foz do Iguaçu, Rio, Recife. Agora falta conhecer a Amazônia", comenta. A lacuna, promete ele, será resolvida ainda neste ano. Um de seus filhos vem passar as férias de julho. O plano é aproveitar para relaxar no meio da floresta.

A peruana

Marianella Ecny Tapia Becerra, gerente administrativa, de 48 anos.
Veio para São Paulo em 2002, por questões familiares, e trouxe na mala uma bandeirinha do Peru.

'São Paulo é como Lima, mas com melhores condições. Aqui é uma beleza' , diz Marianella. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.'São Paulo é como Lima, mas com melhores condições. Aqui é uma beleza' , diz Marianella. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Quantas vidas diferentes ao longo da existência uma mesma pessoa pode viver? Imigrar é um pouco sobre isto: reinventar-se, refazer-se, ser outro em si mesmo. Marianella Ecny Tapia Becerra sabe muito bem disso. Trocou uma promissora carreira pública no Peru por errâncias paulistanas, até se firmar no comando administrativo do Riconcito Peruano, uma cadeia de sete restaurantes típicos espalhada por São Paulo. Mas, vamos lá, um pouco de cada vez: técnica de informática concursada no Ministério da Saúde do Peru, Marianella ascendeu na carreira.

Da área administrativa foi para a logística do órgão. Por fim, atuava como auditora. No fim de 2001, entretanto, quando seu casamento ruiu, ela se viu pronta para arrumar as malas e partir dali. “Eu tinha então dois filhos, a Ana, uma menina de 8 anos, e o Raul, um garoto de 5 anos”, conta. “Dei a eles uma sacola e falei: cada um pode levar de brinquedos apenas o que couber aqui. Até agora o Raul, hoje com 22 anos, guarda um ursinho que trouxe do Peru.”

Por terra, o périplo durou cinco dias. “Foram quatro ônibus. Passamos pelo Chile, pela Argentina, pelo Paraguai. Fiz assim porque era mais barato”, diz. A peruana recorda que se entusiasmou já com as primeiras impressões do Brasil. “As estradas era magníficas, os restaurantes e banheiros, limpos, maravilhosos, perfumados”, exemplifica. Se foi por uma desavença familiar que ela decidira imigrar, foi também por uma questão familiar que acabou escolhendo São Paulo. Doze anos antes, no início da década de 1990, seus pais - ele, cardiologista; ela, dona de casa - haviam se fixado na capital paulista. Pouco tempo depois, seu irmão também veio - e abriu uma escola de idiomas. “Apesar de eles estarem aqui, eu nunca tinha visto. Não conhecia nada”, comenta. Marianella chegou e, no início, se arranjou na casa dos pais, no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. “Então comecei a dar aulas de espanhol na escola de meu irmão. E descobri um prédio na Rua 25 de Março onde todos os trabalhadores eram artesãos peruanos. Decidi fazer marmitas com comida típica - lomo saltado, cau cau, arroz verde, etc - e entregar diariamente ali”, narra.

Foram tempos bastante complicados. Mas, como gosta de frisar Marianella, ela estava em São Paulo. “E o que mais gosto nesta cidade é a oportunidade que ela brinda para que todos cresçam, estudem, sejam alguém. Basta se esforçar”, diz. Foi só quando viu a fácil adaptação dos pequenos na escola que a peruana teve a certeza de que a escolha era boa, era acertada. “Melhor do que coisas materiais, que eu tinha deixado no Peru, aqui no Brasil meus filhos tinham melhor qualidade de vida", compara. Marianella, que era técnica de informática, voltou a estudar. Matriculou-se no curso de Administração das Faculdades Associadas de São Paulo (Fasp).

A esta altura já tinha deixado a casa dos pais e vivia com uma amiga no bairro do Belém, zona leste da capital. “Era um tempo de pouco dinheiro. Ganhava R$ 800 fazendo estágio, muitas vezes era chá e bolacha a única refeição de casa. Mas eu incentivava meus filhos a aproveitarem tudo o que São Paulo oferecia de cultura gratuita. Íamos ao Centro Cultural São Paulo, ao Parque do Ibirapuera...”, conta. Pouco tempo depois, começou a namorar José, um artesão peruano que se tornaria seu segundo marido - e pai de Gabriela, sua terceira filha. Com ele, Marianella morou na Lapa e no Jaraguá, ambos zona este, e recentemente vive no centro.

Mesmo com a formação acadêmica, Marianella foi se desenvolvendo no País como professora de espanhol. Não mais na escola do irmão, mas dentro de empresas, principalmente as que mantêm negócios fortes com países latino-americanos. “Fui conquistando a confiança e me realizando como professora”, diz ela. A esta altura o primeiro Riconcito Peruano, de 2005, já havia aberto as portas em um nada nobre endereço, no coração da Cracolândia. Tão logo conheceu a casa, Marianella se encantou: ali era possível matar as saudades de casa, a comida fazia jus até à bandeirinha do Peru que ela fez questão de trazer na mala. Logo, ficou amiga do proprietário, o conterrâneo Edgar Villar. “Sempre brincava com ele: precisava era me contratar para ajudar no estabelecimento”, relata. “Eu costumava passar a ele retornos de cliente, mas de uma cliente exigente. Falava o que tinha sido bom e o que não tinha sido. E dava ideia de como ele podia melhorar.”

O que era brincadeira virou verdade. Há um ano, chegaram a um acordo. Marianella deixou as aulas. Tornou-se a chefe financeira de toda a cadeia. E faz questão de lembrar de seu passado marmiteiro. “Às vezes, quando entro na cozinha, conto ao pessoal: olha, eu sei fazer isso também... Caprichem ou eu farei melhor!”, diz. Realizada e visivelmente grata a São Paulo pelas oportunidades que teve, Marianella revela-se peruaníssima no cuidado com os filhos - quer mantê-los sempre por perto e exige que Raul, hoje com 22 anos, peça permissão para sair à noite - e em sua casa, há uma verdadeira sucursal do país natal. “Aqui mantemos todas as tradições, só falamos o idioma e temos muitos itens que remetem ao Peru: de CDs de música a enfeites por toda a casa." Além da hoje bastante surrada bandeirinha.

A argentina

Mercedes Romero, publicitária e escritora, de 28 anos.
Chegou a São Paulo em 2016 em busca de oportunidade profissional. Trouxe na mala desenhos de sua sobrinha.

'>A primeira coisa que observei ao chegar é que é muito difícil olhar o céu’, diz Mercedes. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.'>A primeira coisa que observei ao chegar é que é muito difícil olhar o céu’, diz Mercedes. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Foi um pouco por indiscrição que a argentina Mercedes Romero veio parar em São Paulo. Era dezembro de 2015 e ela estava no elevador do trabalho, uma agência de publicidade de Buenos Aires. Seu chefe conversava com um colega brasileiro ao telefone. "Ouvi que ele havia ficado de dar uma indicação de um redator argentino para trabalhar em São Paulo", conta. Nem bem ele desligou o celular, Mercedes falou que conhecia alguém interessada. No caso, ela mesma.  

A mudança não foi tão rápida como ela imaginava. Em maio de 2016, em uma manhã de domingo, chegava ao Aeroporto Internacional de Guarulhos com a mudança dentro de uma mala. "Trouxe o Historias de Cronopios y de Famas [do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984)], meu livro favorito, e alguns desenhos de minha sobrinha Frida", recorda-se, para, em seguida, derramar-se em saudade da menina, hoje com 7 anos. Apesar da proximidade, Mercedes não conhecia São Paulo. "Do Brasil, só conhecia Búzios e Rio. Zero São Paulo", diz.

E, apesar das semelhanças entre espanhol e português, lembra que a principal dificuldade inicial foi com o idioma. "Eu não falava nada de nada. E a língua não é só para se comunicar. É por meio dela que você consegue articular quem você é genuinamente", filosofa. "De modo que conseguir falar apenas o básico faz com que o estrangeiro sinta uma frustração muito grande. Eu me sentia uma versão chata de mim mesmo. Uma versão que só sabia falar sobre o trabalho e o clima. Lembro-me da primeira vez que consegui arrancar risos em uma conversa em português - eu estava com muita saudade de ser uma pessoa interessante."

Em São Paulo, Mercedes vive em um apartamento alugado no Brooklin, zona sul da cidade, perto da agência de publicidade Grey Brasil, onde trabalha. Desde que se mudou, recebeu a visita de seus pais uma vez e foi para Buenos Aires ver a família quatro - a última, nas festas de fim de ano. Naquela que foi a mais importante delas, em setembro, lançou seu primeiro livro, 'Los Mil y Vos', por uma editora independente argentina - ela costuma publicar algumas páginas da obra em seu perfil no Instagram (@merconfiltro). Tem mais dois livros prontos, que devem ser publicados em breve.  

Sente-se integrada a São Paulo. Conhece as diferenças entre os principais bairros, gosta da Vila Madalena, na zona oeste, acha o centro interessante. "Não acho inseguro andar pela cidade, vejo que há muita pobreza nas ruas", comenta. Como ela tem trabalho e convive com brasileiros, acredita que tem sido mais fácil a adaptação. Afinal, justamente por causa dessas amizades, Mercedes logo se viu com vida social - de barzinhos a festas. "Isto é bem interessante. Noto que o brasileiro nunca sai sozinho. Não tem essa de solidão. Está sempre em galera. Quando vou a um bar sozinha, sempre vem um garçom perguntando se estou esperando alguém", comenta. Talvez seja a diferença entre o tango e o samba, o argentino e o brasileiro. "Talvez", ela concorda. "O argentino é mesmo melancólico. A tristeza é uma dor, mas a melancolia é muito diferente. A melancolia é a felicidade de estar triste. E vocês, brasileiros, são o oposto."

O colombiano

Jair Alfonso Abril Roja, chef de cozinha e engenheiro mecatrônico, de 38 anos.
Veio em 2012 como refugiado. Trouxe um enfeite em forma de ônibus colombiano.

‘Andava na rua e me sentia um zumbi. Não entendia o que falavam’, diz Jair Foto: Amanda Perobelli / Estadão.‘Andava na rua e me sentia um zumbi. Não entendia o que falavam’, diz Jair Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Ele era um engenheiro que gostava de inventar gulodices na cozinha. "Fazia arroz com ovo e colocava catchup, colocava o que tinha", recorda-se. "Sempre gostei de comer. E de criar com o que tinha." Jair Alfonso Abril Rojas tinha 25 anos quando resolveu que passar o dia dentro de um escritório não era para ele - trabalhava na unidade colombiana da Pepsi em Bogotá, sua cidade natal. Porque a vida é o que fazemos dela, resolveu se matricular em um curso de Gastronomia.

Tirou a sorte grande, para usar aqui a expressão desgastada, mas que todos compreendem muito bem. Foi no curso que conheceu o chef peruano Gastón Acurio, uma celebridade latino-americana do mundo das panelas. Recebeu um precioso convite. Aceitou. Nove meses estagiando com o mestre em Lima, capital do Peru. Voltou para Bogotá com currículo, pompa e argumento. Estava pronto para fazer arepas desconstruídas, patacones autorais, criar delícias de milho, abacate e banana, enfim, mergulhar na gastronomia colombiana e, dali, espremer pratos contemporâneos. Ele era subchefe de um restaurante local, entretanto, quando percebeu que não poderia mais viver ali, pelo menos não por enquanto.

O motivo de seu exílio tem nome. Nome composto. Nome que impõe respeito. Sigla. Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Sim, a organização guerrilheira que desde 1964 assombra boa fatia da população local e controla a maior parte do refino e da distribuição da cocaína produzida no país. "Meu pai tinha uma empresa de transporte de cargas pesadas. E todos os anos precisava pagar uma espécie de pedágio para as Farc para que seus caminhões pudessem circular pela Colômbia", conta. "Isso chegou a tal ponto que a família começou a se sentir ameaçada. Meu pai vendeu o negócio e hoje tem um pequeno sítio. Eu resolvi tentar a vida fora."

O caminho não foi direto. Jair participou de um evento gastronômico na Venezuela e, lá, conheceu a proprietária de um restaurante - hoje extinto - na Pompeia, zona oeste de São Paulo, chamado Com Sabor Caribenho. "Fiz com que ela soubesse de minhas intenções de sair da Colômbia, recebi uma proposta e então vim para o Brasil. Como refugiado", resume. Quando arrumou a mala, tratou de colocar uma lembrança afetiva de seu país. Trouxe uma miniatura de cerâmica da chiba, o antigo ônibus típico de lá. Mas a chegada não teve nada de afetividade. "A dona do restaurante havia combinado de ir me encontrar em Guarulhos, no Aeroporto. Nada. Procurei, procurei em vão", conta Rojas.

Horas depois, conseguiu tomar um ônibus até o Terminal Rodoviário da Barra Funda, no bairro homônimo. Dali, um táxi o levou até o restaurante. "Achei caro, mas não tinha o que fazer", diz. Por seis meses, trabalhou e morou no restaurante. Foi o período de maior dificuldade. "Apesar do espanhol e do português serem línguas parecidas, era impossível compreender o que as pessoas falavam nas ruas. Em seu próprio país, você sabe se a conversa é sobre futebol, religião, política ou novela. Eu ouvia e não entendia nada. Ficava me sentindo um zumbi caminhando pela cidade", lembra.

Mas aprendeu a amar São Paulo. "Pela diversidade e pelas oportunidades", define. E também pelo coração. Desde 2016, é casado com a brasileira Flávia, uma advogada. "O plano era vir para o Brasil e ficar cinco anos. Mas agora acho que fico mais cinco", vislumbra. "Porque eu não fazia ideia de que iria me casar. Nem que meus negócios iriam dar certo." Certo mesmo, porque do restaurante da Pompeia Rojas acabou sendo contratado como chef do Guanahaní, em Pinheiros, que, em 2014, por causa da "febre amarela" da seleção colombiana na Copa do Mundo, acabou se tornando uma espécie de QG de torcedores e simpatizantes. Pouco tempo depois, resolveu que já era hora de cozinhar arepas por conta própria. Abriu o próprio empreendimento: um food truck batizado de Macondo Raízes Colombianas. O endereço fixo é o Calçadão Urbanoide, na Rua Augusta. A cozinha fica em sua casa, no Jardim Sarah, zona oeste de São Paulo.

A paraguaia

Maria Celeste Beuza de Castro, bancária e analista de sistemas, de 45 anos.
Veio  em 2006 acompanhar o marido, brasileiro. Trouxe na mala duas guampas.

'Adoro a 25 de Março. É um mundo heterogêneo que se complementa’, diz Maria Celeste Foto: Amanda Perobelli / Estadão.'Adoro a 25 de Março. É um mundo heterogêneo que se complementa’, diz Maria Celeste Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Quando se casou, em julho de 2005, Maria Celeste Beuza de Castro, hoje com 45 anos, já sabia: iria se mudar para o Brasil. Isso porque o matrimônio foi internacional - o brasileiro Carlos, hoje com 57 anos, era CEO do Unibanco, hoje Itaú, no Paraguai, quando eles começaram a namorar, no ano 2000. Formada em análise de sistemas, Celeste sempre foi bancária. Desde quando o Unibanco ainda se chamava Banco Nacional. "Comecei a trabalhar em banco com 17 anos", conta ela.

A decisão do enlace matrimonial com o brasileiro tinha duas consequências. Além da mudança para São Paulo, também o fim de sua carreira. "Nosso acordo era que eu me prepararia para ser mãe, para cuidar de casa. Virei uma dondoca", diz.

Ela já conhecia o Brasil, mas nunca tinha vindo para São Paulo antes de começar o namoro com Carlos. Desde as primeiras viagens, gostava da efervescência cultural e dos bons restaurantes paulistanos. Após a mudança, entretanto, admite que acabou ficando meio isolada. "Como não trabalhava nem estudava, acabei não conhecendo pessoas daqui. Aí me matriculei em um curso de português para estrangeiros e, claro, acabei fazendo amigos, mas todos estrangeiros", recorda.

No começo, Celeste não costumava se importar com piadinhas de paraguaios. "Taxistas perguntavam se eu era falsificada, por exemplo. Eu deixava para lá", afirma. Uma amiga criou um grupo de imigrantes paraguaios que se dedicava a escrever para pessoas ou instituições que desrespeitassem o país. Celeste viu aquilo e começou a se importar também. "Uma vez um vizinho usou uma expressão assim na reunião de condomínio. Dei a ele três livros de história paraguaia para ver se aprendia", afirma. Ela acredita que, em geral, as pessoas não fazem esses comentários por maldade - mas sim porque é um discurso já arraigado culturalmente. Sua preocupação é que isso não atrapalhe seus filhos - Bruno e Amanda, respectivamente com 9 e 4 anos. Ambos nasceram no Brasil, mas são educados com muito da cultura paraguaia. Tomam mate e tererê - as duas guampas foram trazidas por Celeste na mudança - e, em casa, só conversam em espanhol. No futebol, Bruno divide-se entre o Olimpia e o Palmeiras, apesar de o pai ser são-paulino. Pesou a favor do alviverde o fato de eles morarem em Perdizes, região dominada por palmeirenses. E, mais recentemente, por terem ganhado a amizade de um vizinho ilustre. O colombiano Miguel Borja, atacante do Palmeiras, costuma levar o garoto às partidas no Allianz Parque.

De dona de casa a artesã, foi um passo quase natural. Celeste tem se dedicado a fazer arranjos de flores e scrapbooks. Aí pesou sua paixão pela região da Rua 25 de Março, epicentro do comércio popular paulistano. "Gosto de observar as pessoas comprando e vendendo. Vou quase toda semana. Muitas vezes só para ver e, no fim, passar no Mercadão e comer um pastel de bacalhau", conta ela, que também costuma comprar materiais para artesanato lá.    

Mas suas predileções paulistanas não se resumem a isto, obviamente. Cultiva com o marido um hábito presente desde quando, ainda moradores de Assunção e antes de se casarem, vinham para São Paulo com frequência: pelo menos uma vez por semana, o programa de lazer é uma peça teatral e um bom restaurante.

O japonês

Shoji Kaneda, músico, de 35 anos.
Em São Paulo desde 2010. Veio para aprender MPB. Trouxe na mala um violão Ryoji Matsuoka e uma guitarra Ibanez.

A arquitetura é diferente da japonesa. Porque aqui não tem terremoto, né?', diz Shoji. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.A arquitetura é diferente da japonesa. Porque aqui não tem terremoto, né?', diz Shoji. Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Gostam os músicos de dizer, repetir, insistir que a linguagem deles é universal, não tem as barreiras dos idiomas, não tropeçam em obstáculos de Babel. Shoji Kaneda é desses. Ele não fazia ideia de nada do que significa a letra de 'Chega de Saudade', nada lhe importava o que Vinicius de Moraes havia escrito em 1956 (1913-1980); gostava mesmo era do que Tom Jobim (1927-1994) havia composto, e a partitura ele sabia ler. Quando conheceu a bossa nova e apaixonou-se pelo gênero, Kaneda estudava Direito na Universidade de Tezukayama, no câmpus localizado em sua cidade natal, Nara, a quase 400 quilômetros de Tóquio.

Aos 19, Kaneda já era músico, do tipo que dedilhava um violão em qualquer hora que se lhe apresentasse vaga, e não sabia muito se o futuro lhe reservaria uma vida de fóruns, litígios e acórdãos ou se ficaria com acordes dissonantes, aplausos efusivos e incerto dinheiro no bolso. Nem bem terminou a faculdade, estava ele cavando espaço na programação de bares e restaurantes de Nara. E foi um professor de música que, lá no Japão, falou para ele maravilhas do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, o famoso Conservatório de Tatuí, no interior paulista. "Eu tinha uns 25 anos e fiquei com muita vontade de sair do país", recorda-se. "Pensei: no Japão, para um músico conseguir engrenar na carreira, precisa ir para Tóquio. Como eu sou de uma cidade do interior, ir para Tóquio ou para outro país é a mesma coisa né? Longe igual!"

Diante de seu comentário, não só repórter como curiosos que ouviam a conversa também ficaram em silêncio na Praça da Liberdade, região central de São Paulo. "Faz muita diferença, sim. Mas não faz diferença, não", emendou ele, sem perder a pose do raciocínio geográfico-afetivo. Kaneda bem que tentou se informar antes pela internet, saber como funcionava o processo seletivo do conservatório, papear com algum professor. Não conseguiu. Decidido, fez as malas e veio parar no interior paulista. "Fiquei um mês em Tatuí, expliquei o que queria, fiz testes. No ano seguinte, voltei, aprovado, para me matricular", diz. Em 2009, ele morou num alojamento na própria cidade.

No ano seguinte, decidiu mudar-se para São Paulo - subloca um quarto do apartamento de um amigo, na Liberdade. Concluiu seu curso cinco anos depois - especializou-se em MPB e jazz. O fã de Jobim aumentou seu repertório tupiniquim. Conheceu o som de Hermeto Pascoal. Entusiasmou-se a cantarolar Djavan, "mais fácil que aprender japonês em braile". Reverencia João Gilberto. "Também aprendi maracatu, baião, xote", enumera. Filho de um aposentado casal dono de restaurante no Japão, o músico não pensa em voltar para a terra natal. A dificuldade maior, lembra ele, já passou: quando chegou ao País com dois instrumentos debaixo do braço - um violão Ryoji Matsuoka e uma guitarra Ibanez -, encarou o obstáculo com o idioma e a adaptação aos sabores. "Não entendia nem o alfabeto. Agora eu gosto de feijoada e de comida mineira", afirma. "E mesmo o que vocês chamam de sushi por aqui, que vai cream-cheese e de tudo um pouco... Não é sushi, mas admito que é bom."

Em São Paulo, toca em bares e restaurantes ao longo da semana. No tempo livre, gosta de "flanar". Entre um cafezinho no Pátio do Colégio e um passeio pela Avenida Paulista, descobre-se paulistano. Então olha para o edifício do Masp, este símbolo da cidade, e destila sua admiração pelos traços de Lina Bo Bardi (1914-1992). "O Masp não poderia ser assim no Japão. Porque se acontecer um terremoto, cai. Não tem o apoio no meio. Na minha cidade, nada pode ficar de pé sem o apoio no meio. Tem terremoto toda hora", compara.

A francesa

Camille Laurent, arquiteta e light designer, de 30 anos.
Em São Paulo desde 2010. Veio por causa de um intercâmbio universitário - e acabou ficando. Trouxe na mala uma crepeira.

‘Logo que cheguei, fui à Praça do Patriarca e me emocionei com a cidade’, diz Camille Foto: Amanda Perobelli / Estadão.‘Logo que cheguei, fui à Praça do Patriarca e me emocionei com a cidade’, diz Camille Foto: Amanda Perobelli / Estadão.

Pão francês. “Esse nome não faz o menor sentido. E é um pão ruim, ainda. Que coisa absurda. Eu pensei: esses brasileiros são muito loucos!”, lembra a arquiteta francesa Camille Laurent, hoje com 30 anos, sobre uma das primeiras conclusões que teve logo que chegou a São Paulo, em 2010. Vir para cá era a última de suas opções. Então estudante da École Nationale Supérieure Architecture Paris Val de Seine, ela entrou em um processo de intercâmbio acadêmico. Tinha de apresentar uma lista com três opções. Como queria América Latina, “para ficar o mais longe possível e ter a experiência mais diferente possível”, procurou por cidades do continente na lista. Havia apenas três: Buenos Aires, Caracas e São Paulo.

“Não me imaginava morando em São Paulo. E queria aprender espanhol. Então minha lista foi nesta ordem”, conta. Fevereiro de 2010, o resultado veio e, para seu desespero, sim, a capital paulista foi a definição da universidade. “Fiquei arrasada. Foi o maior drama da minha vida”, diz. Mas aí veio o fim de semana e um amigo começou a botar todas as músicas brasileiras possíveis para ela ouvir e, de repente, se encantar com o País.

O plano era ficar um ano. Em julho, Camille chegou à cidade. Na primeira manhã, foi ao centro e encantou-se com a Praça do Patriarca, os prédios velhos, a bagunça na rua, as árvores da Praça da República. Mas na vida normal, no dia a dia, era dificuldade atrás de dificuldade. Primeiramente porque Camille não sabia nenhuma palavra em português. “Eu ia ao supermercado, achava que estava comprando farinha de trigo, mas depois descobria que tinha comprado tapioca. E hoje eu adoro tapioca”, recorda.

Se por um lado havia um choque cultural, por outro, a então estudante estava disposta a mergulhar no universo paulistano. Tanto que ela veio apenas com uma mala de 14 quilos - incluindo aí a câmera fotográfica, o computador, muitos desodorantes e uma crepeira. “Eu vim com a decisão de comer Brasil, no sentido de mergulhar mesmo na cultural daqui”, diz. Mas no primeiro mês era sempre choro, ao ligar para os pais, ao pensar na França. Ela avalia que o erro foi justamente ter morado em uma república estudantil - que ficava no bairro de Santa Cecília, região central da cidade - onde todos os moradores eram estrangeiros. “O idioma ali era o inglês, que eu também não dominava muito bem, aliás. Mas conviver com eles me fazia não aprender o Brasil”, resume.

Quando ela teve essa epifania, sua decisão foi cortar relações com todos os amigos que não fossem brasileiros. E foi morar com outros estudantes, desta vez na Vila Mariana. “Eles são meus melhores amigos até hoje. Na primeira noite, um deles pegou o violão e cantou 'Desde Que o Samba É Samba' [de Caetano Veloso]. O Brasil me conquistou nessa hora!”, pontua. Aí cada vez mais ela se sentiu em casa. Tanto que o que era para ser um ano viraram dois. Ela acabou concluindo o curso superior na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Depois teve de voltar para a França para formalizar a conclusão acadêmica lá - um processo que levou algum tempo, entre 2012 e 2013. “Mas no mesmo dia em que tudo se resolveu eu já estava comprando passagem para voltar a São Paulo”, diz. Trabalhou no escritório de arquitetura Metro, no centro. E acabou se especializando mesmo em iluminação. Ultimamente, atua como light designer principalmente para companhias teatrais. “Não me vejo indo embora de São Paulo, apesar de lamentar o atual momento político do País. Aqui tenho meus amigos, minha rede de contatos, os trabalhos que gosto de fazer”, comenta ela. Camille não vive sem o crepe mas se apaixonou pela feijoada, pela tapioca, pela mandioca. “Só fico meio enjoada com o pê-efe (prato feito) brasileiro. Essa coisa de arroz e feijão todo dia não é o que mais gosto”, afirma.

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Por Edison Veiga (Texto) e Amanda Perobelli (Fotos) em O Estado de S.Paulo. Colaborou Daniel Bramatti. 



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